Ele tinha decidido viver perto da praia e fazer caminhadas rápidas ou correr toda manhã... Mas no terceiro dia após a mudança ele havia apertado o botão "soneca" de seu desperta¬dor algumas vezes!
Ben aumentou a velocidade e começou a correr, sua estru¬tura musculosa escondendo sua destreza, e bem rapidamente ele alcançou seu destino: a casa na qual ele estava de olho havia algumas semanas.
Enquanto cumpria seu período de aviso prévio em Sidney, Ben fizera a viagem até lá para encontrar um lar perto do hos¬pital. Procurando pela internet e conversando por telefone com corretores de imóveis, ele havia se deparado com várias possibilidades a serem visitadas durante o final de semana, pois estava determinado em conseguir uma casa antes de co¬meçar seu novo trabalho, percebendo que, se fosse o dono de uma propriedade, talvez se mostrasse mais inclinado a acomo¬dar-se por mais tempo.
O corretor tinha mostrado a ele um apartamento típico de solteiro, um novo empreendimento junto à praia, com vista maravilhosa para a baía e a cidade. Era claro e arejado e tinha todos os confortos modernos com a vantagem de uma grande varanda, o que seria bom quando ele recebesse a visita de ami¬gos ou da família. Ele realmente tinha tudo, e Ben quase o comprara naquele mesmo dia, mas, enquanto esperava, na va¬randa, que o corretor separasse os documentos, Ben viu casa ao lado. Ela era mais antiga e se projetava um tanto a mais para dentro da praia que o bloco de apartamentos. O jardim, que tinha acesso direto à praia, era um oásis verde coberto de ervas comparado com a varanda de assoalho enfeitado e pare¬des claras onde ele estava. Em vez de olhar para a magnífica praia, Ben ficou encantado com o jardim do quase vizinho. Um enorme salgueiro projetava sua sombra em grande parte dele, havia um escorregador, um balanço e uma cama elástica ali, mas o que realmente chamou a atenção de Ben foi o barco estacionado junto à lateral da casa. Um homem por volta de seus 40 anos que jogava água no barco com uma mangueira olhou para cima e acenou quando eles saíram para a varanda, e Ben balançou a cabeça rapidamente num cumprimento, não percebendo que o homem na verdade estava acenando para o corretor e não para ele.
— Logo estarei com você, Doug — o corretor gritou, então, se sentou junto a uma mesa de vidro bem posicionada, colo¬cando em ordem documentos e demais papéis e finalmente localizando o contrato.
— Ela está no mercado? — Ben perguntou.
— Desculpe?
— A casa ao lado. Ela está à venda?
— Ainda não — disse o corretor com um sorriso reservado. — Sente-se, Dr. Richardson, e verificaremos os detalhes do contrato.
— Mas ela vai estar à venda? — Ben insistiu.
— Talvez. Embora, realmente, ela não tenha nenhuma das características que o senhor especificou. Aquela casa precisa de várias reformas, ainda tem a cozinha original e o jardim está uma selva.
Só que Ben não estava ouvindo, e o corretor de repente teve aquela sensação deprimente e terrível de que ele estava per¬dendo o controle de venda que julgava certa.
— O conjunto de apartamentos recebe manutenção regular, possui academia de ginástica e piscina com raia para os inqui¬linos — ele ressaltou, reforçando o que presumiu serem os benefícios de viver ali para esse sujeito solteiro de aparência vigorosa, com título de doutor. Ele tivera tanta certeza que pouca necessidade de manutenção era a chave para esta venda. Ele estava errado.
Ben estava se dando conta rapidamente que grande neces¬sidade de manutenção seria ótimo par ele!
Estes eram um jardim e uma casa onde ele poderia se es¬quecer de si mesmo, perdido em preocupações sobre conser¬tos da casa e em passar óleo nas tábuas do deck. E que tal um barco? Seria muito melhor preencher o tempo livre que tinha reformando a casa ou ao ar livre, passeando de barco na baía, do que confinado às linhas modernas e polidas daquele aparta¬mento ou queimando sua energia interminável numa piscina com raia! Pela primeira vez em muito tempo, Ben se viu inte¬ressado em algo que não era trabalho, e encarando a casa, ele quase podia vislumbrar um futuro, um verdadeiro futuro... Por isso, em vez de fechar negócio e se mudar para o luxuoso pré¬dio de apartamentos, para o aborrecimento óbvio do corretor, Ben assumiu o risco: colocou seus móveis num depósito e alugou uma das unidades de decoração barata no outro extremo da rua, preparado para esperar pacientemente até que a casa estivesse à venda.
Foi realmente vantajoso, Ben pensou naquela manhã, en¬quanto caminhava ao longo do caminho de acesso à praia até a frente da casa. Em um curto espaço de tempo, o mercado imobiliário despencara e as incorporadoras estavam tendo problemas para vender os apartamentos de luxo. O preço já havia caído alguns milhares, assim, se nada acontecesse com a casa...
À Venda por Leilão
Ele viu a placa e deu um sorriso ao ler que o leilão seria em breve, na verdade, em apenas algumas semanas. E havia uma "visita para inspeção" prevista para o fim de semana. Cami¬nhando de volta para a praia, desta vez ele prestou atenção no magnífico céu e na quietude da manhã, nas gaivotas sentadas como patos na água tranqüila, no cão que correu para a água e as afugentou. E então ele a viu, em pé no oceano vítreo, a água na altura de seus joelhos, pernas afastadas e alongando-se, suas mãos estendidas em direção ao céu. Ela ficou parada e manteve a posição para depois, vagarosamente, abaixar seus braços. E começou a fazer tudo de novo. Deus! Ben revirou os olhos. Ele estava em grande forma e tentava de maneira vaga se manter assim, confiando principalmente em caminhar mi¬lhares de quilômetros dentro da Emergência do hospital e en¬tão esgotar-se com natação, mas isso que a mulher estava fa¬zendo era "Nova Era" demais, aquele tipo de atividade feita para saudar o dia, ou coisa parecida... Por favor!
Ainda assim, Ben admitiu que havia alguma coisa de espe¬tacular sobre sua falta de inibição, e algo sobre ela fez Ben sorrir enquanto caminhava.
E então, ela se virou e o sorriso dele desapareceu quando ela se inclinou... dobrou-se em duas na verdade. Ben viu o abdômen inchado dela e percebeu que ela estava grávida e visivelmente com dor. Ganhando velocidade, caminhou rapi¬damente pela areia, tentando não parecer muito afobado, já que aquilo também poderia apenas ser parte da rotina de exer¬cícios dela. Mas não era, ela estava caminhando com visível desconforto para fora da água rasa, ainda curvada num ângulo estranho, e Ben começou a correr, até alcançá-la na beira do mar. Ele viu os cachos escuros no alto da cabeça dela enquan¬to ela, ainda dobrada, agarrava seus próprios joelhos.
— Você está bem? — Ben perguntou, preocupado.
— Ótima — ela gemeu, e então olhou para ele. Os olhos dela eram cor de âmbar, usava grandes brincos prata e estava rangendo seus dentes muito brancos. — Ioga idiota!
— Você está tendo uma contração? — Ele a estava exami¬nando, mas não quis se aproximar e colocar a mão na barriga dela. Ele achou que precisava se apresentar primeiro. — Meu nome é Ben, e eu sou médico.