Minha voz estava calma, quase perturbadoramente calma. Era um contraste gritante com a Cecília a que ele estava acostumado - aquela que estaria chorando, implorando ou gritando a essa altura. Aquela que se agarraria a ele, desesperada por qualquer migalha de segurança. Mas aquela Cecília se foi. Ela estava embalada em uma daquelas caixas, uma relíquia de um passado que eu estava determinada a deixar para trás.
"Você mesmo disse, Daniel," continuei, dando um passo mais perto, forçando o contato visual. Meu olhar era firme, inabalável. "Se você saísse por aquela porta, tudo estaria acabado. Lembra daquela conversa? Na semana passada."
Um lampejo de algo - culpa, talvez, ou mera irritação - cruzou o rosto de Daniel. Seus olhos se desviaram por uma fração de segundo antes de voltarem para os meus, um brilho defensivo tomando conta.
"Você disse que era uma 'viagem idiota'. Você disse que eu estava sendo 'dramática'," lembrei-o, minha voz ainda uniforme, embora cada palavra fosse um golpe de martelo. "Você disse que eu era 'controladora' e que você precisava de 'espaço' da minha 'carência'." Citei suas palavras exatas, as frases gravadas em minha memória. "Você se lembra de ter dito essas coisas, Daniel?"
"Chega, Cecília!" Daniel rugiu, batendo a bolsa de grife que Bruno segurava no balcão. A bolsa de couro cara deslizou pela superfície polida com um arranhão áspero, parando perigosamente perto da borda.
Bruno se encolheu, assustado com a explosão repentina. Ele tinha dado um passo para trás quando eu falei pela primeira vez, criando sutilmente distância, mas agora ele recuou ainda mais, um leve tremor em sua mão.
"Viu o que eu quero dizer, Daniel?" Bruno interveio, sua voz aguda e indignada, dirigida a mim. "Ela está tentando te manipular! Sempre se fazendo de vítima. Ela sabe que você estava apenas desabafando com seu melhor amigo, mas ela tem que fazer tudo sobre ela." Ele se virou para Daniel, baixando a voz conspiratoriamente. "Ela só está brava porque sabe que você me disse o quanto ela te enlouquece às vezes."
Eu os observei, a dança familiar de vítima e cúmplice. O rosto de Daniel era uma mistura de confusão e raiva, mas ele não corrigiu Bruno. Ele nunca corrigia. Ele apenas absorvia a narrativa conveniente.
Meu estômago se revirou. Parecia uma repetição doentia e distorcida de todas as discussões que já tivemos. O jeito como Bruno sempre se intrometia, sempre distorcia minhas palavras, sempre validava os piores instintos de Daniel. Era um ciclo tóxico, e eu estava tão, tão cansada de estar presa nele.
Daniel, aparentemente encorajado pelas palavras de Bruno, deu um passo à frente. Ele estendeu a mão para a minha, seus dedos tentando se entrelaçar com os meus. "Amor, vamos lá. Você sabe que eu não quis dizer daquele jeito. O Bruno só me deixa pilhado às vezes. Ele não entende nosso relacionamento." Seus olhos, geralmente tão confiantes, agora estavam suplicantes, quase desesperados. "Eu comprei a bolsa porque eu realmente senti sua falta. Eu quero consertar as coisas. Vamos só conversar, ok? Podemos esquecer tudo isso. Você pode desfazer as caixas."
Ele tentou levantar minha mão, como se para colocar o anel de noivado imaginário que ele havia mencionado antes. Bruno, enquanto isso, me dava um sorriso triunfante e conhecedor. "Ele está até falando em casamento, Cecília. Ele sempre fala em casamento quando está tentando amenizar as coisas. É o que você quer, certo?"
Casamento. A palavra pairava no ar, pesada e frágil, como um vidro velho prestes a se estilhaçar.
Lembrei-me da última vez que Daniel ofereceu o casamento como um tratado de paz. Foi depois que o encontrei, não com outra mulher, mas com Bruno, em um bar mal iluminado, rindo enquanto Bruno imitava minhas crises de ansiedade.
"Ela é uma dor de cabeça, cara," Daniel tinha arrastado as palavras, sua voz grossa de álcool e desdém. "Sempre preocupada com alguma coisa. Sempre precisando que eu a tranquilize. Ela não pode simplesmente ser feliz?"
Eu tinha exigido uma explicação, uma linha traçada na areia. "Daniel, seu melhor amigo zomba de mim. Ele constantemente nos sabota. Como você pode permitir isso?"
Ele tinha revirado os olhos. "Não seja tão sensível, Cecília. É só conversa de vestiário. O Bruno é meu irmão. Você precisa relaxar."
Ele me chamou de "controladora" por pedir que ele não compartilhasse detalhes íntimos da nossa vida com Bruno. Ele me chamou de "egoísta" por querer que ele priorizasse nosso relacionamento. Ele me chamou de "louca" por me sentir magoada quando ele ignorou minhas ligações por dias, apenas para postar fotos dele festejando com Bruno.
Lembrei-me do tom frio e desdenhoso em sua voz quando finalmente o alcancei, histérica e preocupada. "Cecília, por que você é sempre tão dramática? Eu estou bem. Só me divertindo um pouco. Você precisa parar de ser tão grudenta."
Eu tinha implorado a ele então. "Daniel, por favor. Eu preciso de você. Estou com medo."
"Você está bem," ele tinha zombado. "Toma um calmante. Eu volto quando eu voltar. Não me espere acordada."
Naquela noite, eu lhe dei o ultimato. "Daniel, se você sair por essa porta agora, se você priorizar o Bruno e essa viagem em vez de nós, então realmente acabou. É isso. Sem volta."
Seu rosto tinha sido indecifrável então, uma estranha mistura de irritação e algo mais, algo que eu não conseguia decifrar. Mas ele hesitou. Apenas por um momento.
Ele ficou ali, paralisado, a mão ainda na maçaneta. Meu coração martelava contra minhas costelas, uma batida desesperada e frenética. Vi o brilho de lágrimas em seus olhos então, lágrimas de verdade, embaçando sua visão. Ele olhou para mim, realmente olhou para mim, pela primeira vez em meses.
"Daniel," eu sussurrei, minha própria voz embargada por lágrimas não derramadas. "Por favor. Não vá. Eu preciso de você. Eu preciso de nós."
Minhas súplicas eram cruas, despidas de orgulho. Eu lhe contei tudo. O quanto eu odiava a influência de Bruno, o quão sozinha eu me sentia, como seu constante descaso minava minha autoestima. Despejei todos os meus medos, todas as minhas ansiedades, toda a dor de me sentir um distante segundo lugar para seu melhor amigo.
"Eu só quero ser sua prioridade," eu engasguei, lágrimas escorrendo pelo meu rosto. "Só uma vez. Apenas me escolha. Escolha a gente."
Ele engoliu em seco, seu olhar fixo no meu rosto manchado de lágrimas. Por um segundo fugaz, vi um vislumbre do Daniel por quem eu me apaixonei - aquele que era terno, compreensivo, que me abraçaria e prometeria que tudo ficaria bem. Prendi a respiração, a esperança florescendo frágil e feroz em meu peito. Ele ia me escolher. Eu sabia. Ele tinha que escolher.
Então, seu celular vibrou.
Ele o tirou, um rápido olhar para a tela. O nome de Bruno brilhou, acompanhado por uma mensagem frenética. Cara, eles estão prestes a chegar na Beira-Mar! Se você não estiver aqui em cinco minutos, vamos sem você! Não seja um covarde!
A expressão de Daniel endureceu. A ternura desapareceu, substituída por um velho e familiar ressentimento. Ele olhou para mim, depois para o celular, depois de volta para mim. Ele inspirou bruscamente.
"O Bruno tem razão," ele murmurou, sua voz fria, distante. "Você está sendo irracional, Cecília. Não tente me controlar. Eu te disse que eu ia."
Ele abriu a porta.
"Espera, Daniel, por favor!" eu gritei, correndo para frente, tentando bloquear seu caminho. "Não faça isso! Se você sair, acabou!"
Ele me olhou com uma expressão quase piedosa. "Você realmente é dramática, não é? Você sempre diz isso. E você sempre me aceita de volta. Você vai se acalmar." Ele passou pela soleira. "Eu te trago algo legal de Floripa."
Então, ele se foi. A porta bateu com um baque doentio, vibrando por todo o apartamento. O som ecoou no silêncio súbito e cavernoso.
Fiquei na porta vazia, o cheiro do jantar que eu tinha preparado com tanto carinho para o seu retorno agora frio e zombeteiro. Dois pratos, ainda fumegando na mesa. Minhas velas favoritas, acesas e bruxuleantes. Tudo para nada.
Mais tarde naquela noite, as primeiras fotos apareceram no Instagram de Bruno. Daniel, de braços dados com Bruno, fotos deles virando cervejas, jogando, rindo com um grupo de mulheres com pouca roupa. As legendas de Bruno eram zombeteiras, quase exultantes. Floripa, bebê! Sem drama aqui! Então, uma provocação direta: Algumas pessoas simplesmente sabem como viver. Outras só sabem como ser grudentas.
Olhei para as fotos, a comida que eu me forcei a comer subindo pela minha garganta. Corri para o banheiro, vomitando até meu estômago ficar vazio e ardendo. As lágrimas vieram então, violentas e incontroláveis, sacudindo meu corpo com soluços até eu não conseguir respirar.
Essa foi a noite em que acabei na emergência, lutando para respirar, meu coração disparado. Crise de ansiedade aguda, disseram os médicos. Causada por estresse extremo. Eles me deram sedativos, monitoraram meu coração e me mandaram para casa com uma receita e um aviso para evitar gatilhos.
Durante minha estadia, eu rolei compulsivamente pelas redes sociais de Bruno. Mais fotos. Mais vídeos. Daniel, parecendo vibrante e despreocupado, vivendo sua melhor vida, completamente alheio ao fato de que eu estava ligada a um soro, lutando para simplesmente existir. As atualizações constantes de Bruno eram um cruel rolo de destaques dos meus piores pesadelos.
Bruno (legendando uma foto de Daniel rindo com uma mulher em uma festa na piscina): Daniel está se divertindo como nunca, finalmente livre!
A seção de comentários estava cheia de pessoas os aplaudindo, elogiando seu 'código de irmãos', criticando a 'namorada controladora' de Daniel. E então, a facada final: uma das postagens de Bruno, uma foto de grupo em uma mesa de pôquer de altas apostas, foi curtida pelo próprio Daniel.