Capítulo 2

Jessica estava ali na frente do meu apartamento, a maleta ao lado, e um sorriso doce demais para ser real. "Bom dia, irmã", disse ela, a voz fina e melosa. "Não esperava te ver aqui tão cedo."

Meu estômago gelou. "O que você está fazendo aqui?", perguntei, a voz um sussurro rouco.

"Papai disse que este apartamento agora é meu", respondeu, os olhos piscando inocentemente. "Ele achou que seria um bom lugar para eu ficar, já que você… bem, não mora mais aqui."

Minha mandíbula travou. O apartamento que eu havia comprado com meu próprio dinheiro, o único lugar onde me sentia realmente segura, agora era dela. Meu pai tinha feito isso. Ele estava raspando o sal na ferida aberta.

"Não vou ficar com o que é seu, Taisa. Eu sou tão frágil, você sabe. Preciso de um lugar seguro para me recuperar. E Fabrício disse que este apartamento é perfeito." Ela deixou o nome dele cair como uma gota de veneno. Meus olhos se arregalaram.

Naquele momento, meu pai apareceu na porta do elevador, a expressão de repreensão em seu rosto. "Taisa, o que você pensa que está fazendo? Saia daqui. Jessica precisa descansar." Ele a abraçou, um gesto de carinho e proteção que nunca direcionou a mim. "Não se preocupe, minha querida. Taisa está indo embora."

"Este apartamento é meu", eu disse, a voz subindo de tom. "Eu o comprei!"

"Não mais", meu pai retrucou, a voz fria. "Tudo o que você tinha foi devolvido à empresa. Você está deserdada, lembra? E este apartamento, como qualquer outra posse sua, agora pertence a mim. E eu o estou dando para Jessica."

A raiva me queimou por dentro. Eu não podia acreditar na crueldade dele. Minha casa, meu refúgio, roubado por ele para a sua nova filha. Era demais.

"Não", eu disse, a voz baixa, mas firme. "Eu não vou ficar aqui e ver você me humilhar. E eu não vou aceitar nada de você. Nem este apartamento, nem nada. Este apartamento pode ser seu, mas eu não sou sua marionete."

"Taisa, não seja ridícula", meu pai ameaçou. "Para onde você vai? Você não tem mais nada."

"Eu tenho a mim mesma", eu respondi, a voz cheia de uma nova determinação. "E isso é mais do que você jamais terá." Eu dei as costas para eles, sem olhar para trás, e caminhei pelo corredor, longe daquele lugar, daquela família.

Eu não tinha para onde ir, mas não importava. Eu estava livre. Em vez de me render ao desespero, eu me dirigi ao hotel mais luxuoso da cidade. Entrei na suíte presidencial, o interior suntuoso zombando da minha miséria. Eu tinha um cartão de crédito corporativo, ainda não bloqueado. Uma última jogada.

"Preparem o vinho mais caro, a comida mais exótica", ordenei ao serviço de quarto. "E comecem a me trazer os catálogos das joalherias mais exclusivas. Vou precisar de um guarda-roupa novo para a minha nova vida."

O telefone tocou. Era meu pai. "Taisa, o que você pensa que está fazendo?! Estou vendo seus gastos! Você está torrando a liquidez da empresa!" Ele estava furioso.

"Ah, pai", eu suspirei, com uma voz falsamente doce. "Esta é a minha nova vida, não é? A vida da noiva de Leandro Gagliardi. Não posso aparecer em trapos no meu próprio casamento. Preciso de roupas, joias, tudo do bom e do melhor. Você não quer que seu 'investimento' pareça uma mendiga, quer?"

Ele engasgou. "Você é inacreditável!"

"Eu sou sua filha", eu disse, com um sorriso cruel. "Aprendi com o melhor. E prepare-se, papai. Isso é só o começo. Eu vou drenar cada gota do seu sangue até você não ter mais nada."

Minha vingança havia começado. Eu comprei joias, roupas de alta costura, bolsas de grife. Cada compra era um pequeno golpe, uma punhalada no império do meu pai. Eu sentia uma satisfação doentia a cada notificação de compra. O sistema bancário do meu pai devia estar em colapso.

Então, a campainha tocou. Era o gerente do hotel. "Senhorita Leitão, lamentamos, mas seu cartão foi bloqueado. Não podemos mais hospedar a senhorita."

Meu sorriso murchou. Meu pai havia agido rápido. Eu estava sem dinheiro, sem casa, sem nada. Olhei para as pilhas de sacolas de grife, as joias espalhadas pela cama. Eu tinha um plano, mas ele havia sido curto-circuito.

"Não vou vender nada", eu disse, para mim mesma. "Isso é meu. O que restou de mim."

Saí do hotel, as roupas caras no corpo, mas sem dinheiro no bolso. Andei sem rumo pelas ruas de São Paulo, uma princesa deserdada em um reino que me expulsou. Eu não tinha amigos de verdade, apenas bajuladores que desapareceram com minha fortuna. O sol se pôs, e a cidade se transformou em um monstro de luzes e sombras.

Encontrei um banco de praça, um lugar frio e duro para passar a noite. Duas semanas. Duas semanas até o casamento. Eu precisava me manter viva até lá. Meu estômago roncou, e o frio da noite me fez tremer.

Então, um grupo de homens se aproximou. Eles me olharam com desdém, seus olhares famintos caindo sobre minhas roupas e joias. "Olha quem temos aqui", um deles disse, a voz rouca. "Uma bonequinha perdida."

Meu coração disparou. Eu estava em perigo. Tentei me levantar e fugir, mas eles me cercaram.

De repente, um carro preto parou bruscamente na rua. Fabrício Rolim saiu do veículo, seus olhos escuros varrendo a cena. Ele não parecia surpreso ao me ver ali, sentada no banco da praça, cercada por aqueles homens. Sua presença era imponente, e os homens recuaram, seus rostos pálidos. Ele era o terror encarnado.

"Algum problema, Taisa?", perguntou ele, a voz tão fria quanto a noite. Seu olhar pousou em minhas roupas amassadas, no meu rosto sujo, nas lágrimas secas em minhas bochechas.

Eu o odiava. Eu o odiava por ter me traído, por ter me expulso, por ter destruído meu coração. E agora ele estava ali, meu salvador. A ironia era cruel.

"Não te interessa", eu respondi, com a voz embargada. Eu não queria sua ajuda.

Ele ignorou minha resposta, o olhar fixo em mim. "Onde está seu pai? Onde está sua nova família?" Ele sabia. Ele sabia de tudo. "Parece que sua grande fuga não deu muito certo, não é, Minha Joia?"

Capítulo 3

Fabrício não esperou por uma resposta. Ele me pegou pelo braço, a força fria e inegável, e me arrastou para o carro. Eu não resisti. Não tinha forças. Não tinha para onde ir. Ele me levou para a sua mansão, o mesmo lugar onde eu passara tantas noites, o mesmo lugar que se tornou a prisão dos meus segredos.

Enquanto o carro percorria as ruas iluminadas, eu olhava pela janela, a mente em turbilhão. Ele me salvou? Por quê? Por que ele, que me traiu de forma tão cruel, estava agora me estendendo a mão? Meu coração estava em pedaços, sangrando por cada mentira, por cada gesto falso de carinho. Eu o odiava, mas a parte mais sombria de mim ainda ansiava por sua presença, por seu toque. A contradição me rasgava por dentro.

Chegamos à mansão. Ele me guiou para dentro, seus homens, os mesmos que eu via em nossas noites secretas, observavam em silêncio. Ele me levou ao quarto de hóspedes, não o nosso quarto, o quarto que eu acreditava ser 'nosso'. "Você pode ficar aqui. Por tempo indeterminado", disse ele, a voz desprovida de emoção.

"Não", eu respondi, a voz rouca. "Duas semanas. É o tempo que preciso." Eu não ficaria ali um dia a mais do que o necessário. Meu casamento com Leandro estava se aproximando, e eu precisava me preparar, não me afundar ainda mais na teia de Fabrício.

Eu passei o resto da noite e o dia seguinte trancada no quarto. A comida era trazida à porta, mas eu quase não tocava nela. Eu só conseguia pensar nas duas semanas que restavam.

Na manhã seguinte, desci para o café, a contragosto. Fabrício já estava lá, sentado à mesa, lendo um jornal. Jessica estava ao seu lado, enfiando torradas na boca, os olhos brilhando para ele.

"Bom dia, Taisa", Fabrício disse, sem desviar os olhos do jornal.

"Bom dia", eu respondi, a voz gélida. Olhei para Jessica. "Então, você finalmente se instalou aqui, não é, irmã?" O sarcasmo pingava em cada palavra.

Jessica engasgou com a torrada, seus olhos marejando. Fabrício a encarou. "Não comece, Taisa."

"Oh, não estou começando nada. Apenas curiosa. Afinal, vocês dois parecem tão... próximos. É ela a 'obrigação' agora, Fabrício? Ou ela sempre foi o 'meu amor'?" Eu sorri sem humor.

Fabrício largou o jornal, seus olhos negros encontrando os meus. "Jessica é minha responsabilidade. Ela estava em perigo e eu a trouxe para cá. É uma dívida de vida, Taisa. Você não entenderia."

"Uma dívida de vida", eu repeti, o ceticismo evidente em minha voz. "É sempre uma dívida, não é? Nunca amor, nunca escolha. Apenas a conveniência."

"Não se atreva a falar com ela assim", Fabrício rosnou, sua voz baixa e perigosa. "Jessica é frágil. Ela passou por muita coisa."

Eu ri, uma risada quebrada e amarga. "Frágil? Ela é uma víbora, Fabrício. Uma víbora que se deleita na minha dor, assim como você."

"Basta, Taisa!", Fabrício bateu na mesa. "Não quero mais uma palavra sua contra Jessica. Ela não tem culpa de nada. Se você não consegue se comportar, volte para o seu quarto."

Eu apertei os lábios. Não adiantava discutir. Ele nunca me daria razão. Eu me levantei, a dor da traição corroendo cada célula do meu corpo. "Como quiser." Voltei para o quarto, trancando a porta atrás de mim, o peito apertado pela humilhação.

Passei o dia sozinha, a comida trazida à porta, intocada. À noite, a insônia me assombrava. Eu me lembrava das suas mãos em meu cabelo, dos seus lábios em meu pescoço, de como ele me abraçava apertado depois do sexo. Agora, ele não estava lá. Ele estava no quarto ao lado, talvez com Jessica, cumprindo suas "obrigações" ou, pior, vivendo seu "amor". A ironia me matou um pouco mais por dentro.

No dia seguinte, Fabrício entrou no meu quarto sem bater. "Vista-se. Vamos a uma festa." Não era um convite, era uma ordem.

Eu o encarei. "Não estou com vontade."

"Você vai", ele disse, a voz inflexível. "Ou eu te arrasto para lá. Não quero você trancada aqui, definhando."

Eu suspirei. Pelo menos eu sairia daquela prisão. "Tudo bem", eu disse, me levantando. "Mas não espere que eu seja uma convidada agradável."

Ele me levou a um clube privado, um lugar opulento e exclusivo, cheio de figuras sombrias da alta sociedade. A decoração era exagerada, os lustres de cristal brilhavam sobre um mar de rostos desconhecidos. Havia algo no ar, uma tensão estranha, que não parecia de uma festa comum.

Assim que entramos, Jessica veio correndo ao encontro de Fabrício, os olhos brilhando. Ela o abraçou apertado, como se não o visse há anos. "Fabrício, meu amor! Que bom que você veio!" Ela então me notou, e sua surpresa pareceu genuína. "Taisa! Você também está aqui? Que coincidência!"

Coincidência? Uma faixa enorme foi estendida no salão principal, revelando a verdade: "Bem-vinda de volta, Jessica!" Era a festa dela. Meu sangue gelou. Ele havia me trazido para a festa de boas-vindas da minha "irmã", a mulher que me roubara tudo.

Eu queria correr, gritar, destruir tudo. Minha garganta estava seca. Jessica me lançou um olhar de pena. "Oh, Taisa, você deve estar tão chateada. Primeiro seu pai te deserdou, agora Fabrício me traz para a festa. Você sempre foi tão... dramática." Ela suspirou, como se eu fosse um fardo. "Talvez se você não fosse tão impulsiva, as coisas não teriam chegado a este ponto."

Minhas mãos se fecharam em punhos. "Impulsiva? Eu sempre fui a única a ter coragem de enfrentar a hipocrisia desta família, Jessica. Você é a falsa, a manipuladora. A frágil que sempre conseguiu o que quis com suas lágrimas de crocodilo."

Jessica começou a chorar, um choro alto e estridente. Ela se jogou nos braços de Fabrício. "Fabrício, ela está me atacando! Eu não fiz nada!"

Fabrício me encarou, seus olhos escuros cheios de raiva. "Taisa, eu te avisei. Deixe Jessica em paz." Ele a abraçou, beijou seu cabelo, seus olhos transmitindo uma preocupação que eu nunca vi dirigida a mim. Aquela ternura, aquele cuidado, era dela. Não meu. Nunca meu. Meu coração se estilhaçou novamente.

Eu me virei, cega de dor, e peguei uma garrafa de champanhe de uma bandeja que passava. O vidro se espatifou contra a parede, o barulho ensurdecedor quebrando a música e os risos. Os seguranças se aproximaram, mas eu estava em outro mundo. Meu corpo tremia, minhas mãos se estenderam, sentindo a dor do vidro cortando a palma da minha mão. A dor física era um alívio perto da tortura emocional.

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