Como resposta àquela afirmação maluca, eu dei uma risada baixa, observando o homem estranho e sedutor ao meu lado no banco de trás do carro.
Então, quando nem ele e nem o homem ao volante deram risada, fiquei tensa, e acabei engolindo o chiclete sem querer.
Havia poucas coisas que provocavam medo numa garota de programa. Homens que se demonstravam ser possessivos logo num primeiro momento era uma delas.
Porque tudo o que podíamos dar era algumas horas de prazer; não uma vida. Não um nome. E o que ele estava me propondo, era mais indecente do que pedir por um Ménage em público.
As piores tragédias já tinham acontecido com minhas colegas de profissão ao se envolver com homens daquele tipo, que pensavam poder comprar mais do que apenas o que havia entre nossas pernas. Um homem possessivo e rico era ainda pior. Nem mesmo cavar um buraco até o inferno nos protegia deles.
— Eu não estou entendendo — falei num tom submisso, embora já estivesse procurando por uma rota de fuga. Será que Suzie seria esperta o bastante para entender que o carro só não havia seguido caminho até o motel mais próximo por que eu estava enrascada? — Por que precisa se casar com tanta pressa?
— Isso não é da sua conta, infelizmente — disse o homem, abrindo um sorriso gelado, logo antes de apoiar um braço contra a própria porta e me deixar ver o relógio dourado que usava. Tudo o que ele tinha de bonito e rico, tinha de arrogante e assustador. — Apenas preciso que você se prepare para ir embora comigo. Você não vai continuar trabalhando essa noite, nem nunca mais. Não como prostituta.
Eu pisquei, aturdida.
— Ir embora? Para onde?
O homem deu de ombros, como se questionar suas ordens fosse o tipo de coisa que ele não estivesse muito acostumado.
— Não pode se casar comigo e continuar se prostituindo.
— Sim, mas, quem disse que vou me casar com você? — indaguei com um leve franzir de cenho.
— Eu disse — ele falou simplesmente.
Lentamente, uma das minhas mãos se colocou à procura da porta, buscando um meio de fugir dali antes que ele pudesse mesmo acelerar o maldito carro. Talvez se eu abrisse a porta e gritasse, Suzie pelo menos teria tempo para correr atrás de Ruan.
Era impossível que meu cafetão permitisse aquele tipo de coisa. Ele jamais abriria mão de alguma de suas garotas. Aquele homem rico se meteria em sérios problemas.
Quando alcancei a maçaneta com as pontas dos dedos, um estalo soou, e eu soube que com um único aperto de botão, o motorista tinha me selado dentro do carro.
O homem ao meu lado apenas inclinou a cabeça, parecendo se divertir com o pânico que certamente estaria visível em meus olhos.
Eu era uma mulher expressiva demais. E, naquele momento, era esperado que meu medo estivesse exposto demais.
— Por favor — pedi baixinho, já que não teria nem coragem e nem força o suficiente para encarar os dois homens. — Eu sou apenas uma garota comum. Estou apenas trabalhando dignamente como qualquer outra. Por favor, me deixe ir embora se não quiser o que tenho a oferecer.
— Meu amor, eu acabei de dizer o que quero de você — disse o homem, sorrindo com diversão maldosa. — E você não vai sair desse carro até que possamos acertar como é que tudo isso irá funcionar.
— Pelo amor de Deus — implorei, agora me virando para o motorista. Era culpa dele, afinal, já que tinha parado ao meu lado na calçada. Ele tinha me escolhido para qualquer que fosse o plano perverso daquele homem bonito. — Eu não quero me envolver em algo perigoso.
— Não há nada mais perigoso do que a sua profissão, Dayane — disse o homem ao meu lado, num tom de voz menos irritado do que antes. — Além do mais, você não tem motivos para se preocupar. Só preciso da sua assinatura, então sua vida terá mudado completamente do dia para a noite.
Eu o observei com olhos arregalados.
— Como você sabe meu nome?
O homem deu uma risada genuína. Aquele som me arrepiou mais do que receber um beijo naquele lugar. O motorista sequer me observou novamente, ainda ocupado demais observando a rua escura ou o painel do carro. Ele não iria me ajudar em nada.
Era apenas eu e o homem misterioso. Apenas nós e sua proposta sem cabimento.
— Eu sei tudo sobre você, meu amor — disse ele, entoando uma certa malícia naquele apelido besta. — Não costumo comprar nada antes de saber todos os detalhes que podem me ser favoráveis.
Novamente, aquela onda de medo passou por cima de mim, deixando minha boca seca.
— Comprar? Você me comprou? Como assim?
— Seu cafetão ofereceu um preço — ele disse, gesticulando com os ombros. — Então eu paguei. Agora você é minha.
Não pensei que meus olhos pudessem se arregalar ainda mais, no entanto, eles fizeram.
E me peguei realmente afundando naquele pânico. Ruan jamais venderia uma garota. Ele jamais perderia todos os lucros que ganhava conosco em cada noite.
Ainda mais uma garota como eu, que era relativamente nova naquela área, e sempre motivo de curiosidade dos novos clientes.
A menos que o valor fosse realmente bom o bastante para que ele nem mesmo pudesse reconsiderar. O carro daquele homem, o relógio de ouro em seu pulso, e o arrogante motorista que o servia, me dizia o bastante sobre ele ter tido notas o suficiente para pagar sem problemas por qualquer coisa que encontrasse de interessante em seu caminho.
— Não, eu não sou de ninguém — respondi com pânico total. Eu me virei para a porta, puxando a maçaneta e batendo na janela. Suzie estava encostada distraidamente contra a parede, ela nem se preocupava de que o carro ainda estivesse parado. Voltei a encarar o homem. — Eu quero sair daqui!
— Vamos sair — disse ele, então escutei o som de algo farfalhando, e voltei minha atenção para o motorista. Ele esticou um papel entre os bancos frontais, e o homem bonito pegou. — Depois que assinar nosso contrato de casamento, meu amor.
— Eu não vou assinar porra nenhuma — resmunguei, já erguendo as pernas no banco para chutar aquele homem na cara. Ele que se fodesse. Uma prostituta não tinha nada além da sua própria liberdade. Eu não podia abrir mão daquilo. Não depois de perder tudo. Não depois de nunca ter tido nada. — Enfia essa merda no seu...
— Hm... Precisaremos de algumas aulas de boas maneiras, Alonso — disse o homem bonito, interrompendo-me. — Imagine se ela se comporta assim durante um evento? Apesar de achar graça, vou estar arruinado.
Fiquei boquiaberta ao examinar o documento em sua mão apoiada na perna, onde havia espaço para duas assinaturas. Uma das assinaturas já estava preenchida, e meu nome completo surgia naquela ainda em branco. Era sério aquela merda?
— Madame Bittencourt ficará feliz em prestar serviços para o senhor — disse Alonso, abrindo um sorriso largo para o maldito homem engravatado. — Posso pedir para que ela nos encontre no hotel hoje mesmo.
Ofegando pelo pânico, voltei a olhar pela janela. Suzie estava agora se encaminhando para a traseira do carro, e eu tive de me virar para ver quando ela se encostou na janela de um cliente que acabava de chegar. Ela sequer reparou que havia alguma coisa errada comigo. Ou não se importava de verdade.
Éramos amigas, pelo menos eu considerava, só que jamais soubemos muito sobre a outra. Era um tipo de parceria que funcionava, que nos protegia, mas não havia lealdade de verdade. E Suzie entrou no carro do seu cliente e partiu para o seu programa da noite. Enquanto eu fiquei presa com dois malucos num carro luxuoso.
Tudo bem, eu não podia ser hipócrita. Houve uma época em que tudo o que eu sonhava era de ter um príncipe encantado para me tirar daquela vida miserável. Não era atoa que meu conto de fadas favorito fosse a Cinderella. Porém, nunca tive aquela sorte.
Desde pequena aprendi que o mundo era cruel, na adolescência isso se confirmou, e depois de adulta, foi só ladeira abaixo. Eu ainda tinha alguns sonhos idiotas de algum dia não me preocupar com as contas, de ter algo de boa qualidade para vestir, um prato de comida sempre quente, e preocupações bobas sobre a previsão do tempo ou qual seria o melhor destino para uma próxima viagem. Só que nada daquilo estava acompanhado com um homem me tendo em suas mãos para todo o sempre.
Aquela profissão era humilhante por si só, me deixou traumatizada o suficiente para não aguentar mais do que uma hora com cada homem, e parecia inconcebível ter de ganhar aquela vida dos sonhos através de um contrato. Qualquer outra garota aceitaria. Qualquer uma. Nem mesmo precisava ser uma prostituta.
Mas eu queria alcançar aquilo tudo sozinha, com meu esforço, com aquelas merrecas que eu ganhava em cada noite. Eu sempre invejei as mulheres poderosas e independentes, porque nunca fui uma delas. E a chance de crescer por minhas próprias habilidades só estaria deslizando para fora dos meus dedos abertos, se eu concordasse com aquilo.
— Faça isso — disse o bonitão. Ele me lançou um olhar da cabeça aos pés, notando desde os meus ruivos cabelos repicados num corte estranho e com franjinha, até as minhas botas de cano longo. Ele notou até mesmo a qualidade das minhas roupas! — E lembre-se de pedir para que peguem as medidas dela. Não consigo nem olhar para esse tipo de roupa barata.
— Eu já disse que não vou a lugar nenhum! — esbravejei, totalmente irritada. Se Ruan passasse com seu carro naquela esquina, eu me jogaria da janela só para espancá-lo. Ele não podia ter feito aquilo comigo. Não depois de tudo. — Não quero me casar. Não aceito a proposta. Eu quero sair daqui agora mesmo.
O homem suspirou, erguendo os olhos para o teto. Quando ele voltou a me observar, já não havia aquela gentileza forçada que eu tinha visto em seu rosto. Ele estava livre de qualquer disfarce de homem sedutor e gentil. Havia apenas um maldito machista diante dos meus olhos.
— Dayane, você vai entender em algum momento do nosso contrato, que não sou um homem que costuma se explicar mais do que o necessário — disse ele, afrouxando a gravata com uma mão e mantendo o documento cheio de linhas na outra. — Você é minha agora. Mesmo que não aceite o contrato, não vai deixar de ser minha. Então, se você for sensata, ou pelo menos tiver algum amor à sua própria vida, que tal considerar? Darei tudo o que quiser em troca desse acordo. Só preciso da sua assinatura.
Pelo menos ele não estava me ofendendo ainda. Homens acostumados com pessoas nas palmas das mãos costumavam agir com agressividade quando contrariados. Ele poderia ter me chamado de puta e descartável em pelo menos cinco vezes naquele diálogo, mas não fez. Eu sabia que era uma possibilidade porque homens com menos dinheiro tinham feito algo parecido.
— Mas... eu... merda, eu não posso me casar — murmurei com choque. Meu corpo estava inteiramente gelado. — Não posso perder tudo.
— Tudo o quê? — ele perguntou, franzindo o cenho.
— Tudo — falei de modo automático, dando de ombros.
Nada.
Eu não tinha nada a perder.
Isso era o pior.
Como explicar que a minha liberdade ainda era tudo o que eu não podia negociar? Fiquei em silêncio por um momento, encolhendo-me dentro das minhas próprias divagações. Eu já tinha me rendido por muitas vezes naquela vida. Perdido muitos anos de juventude ao me tornar adulta antes da hora. E agora estava perdendo a única coisa que me restava.
— Você é magra desse jeito ou apenas está passando fome? — ele perguntou do nada. Eu tornei a encará-lo, confusa.
— Sou magra — respondi com orgulho, mas também passava fome, inclusive meu estômago estava completamente vazio naquele momento.
O homem me observou novamente, então soltou um suspiro profundo. Ele acenou com uma mão para o motorista, nem precisou dar a ordem com a própria voz, e o carro foi ligado. As luzes no interior do carro se apagaram, deixando-me com uma sensação terrível de enclausuramento. Eu me empertiguei no banco, alarmada.
O veículo se moveu com suavidade, embora estivesse rápido. As ruas estavam vazias naquele horário, principalmente na localização em que estávamos. O homem ao meu lado não ofereceu qualquer informação sobre onde estaríamos indo. E o motorista facilmente alcançou o fluxo de carros na avenida principal, levando-nos ao centro da cidade.
As luzes, os sons, e o grande movimento de pessoas nas calçadas logo surgiram. O meu pânico foi se aliviando um pouco, como se as rédeas em torno do meu coração fossem afrouxadas. Quando as luzes familiares de um letreiro em neon amarelo e vermelho surgiram, fiquei um pouco aliviada, achando estar diante de algum motel.
Era melhor que toda aquela noite terminasse em sexo do que com a minha vida tomada permanentemente por um homem. Divórcios existiam, mas não no mundo dos ricos que pensavam ter direito sobre a vida de outras pessoas.
Só que o alívio durou segundos, até que eu visse que o motorista não estava parando para estacionar, mas para se aproximar de uma guarita tão bem iluminada em vermelho e amarelo quanto toda a fachada do local. As luzes dentro do carro se acenderem, e eu pisquei com o atordoamento, até me acostumar novamente.
— O que você quer comer? — perguntou o motorista, virando-se para me olhar.
Estávamos num drive-thru? Mas que porra era aquela?
— Qualquer coisa — respondi baixinho.
Eu não era doida de negar comida.
— Peça algum combo — disse o homem bonito, observando-me mais uma vez da cabeça aos pés. — Ela parece que não se alimenta há dias.
Como ele sabia daquilo também, só Deus poderia me responder.
O motorista obedeceu, e a mulher gentil atrás do vidro blindado prontamente anotou o pedido. Considerei se clamar pela ajuda dela me renderia mais do que uma risada de desdém ou um olhar impotente.
Não arrisquei.
Comer primeiro, fugir depois. Prioridades devem ser respeitadas.
Por um momento todos ficamos em silêncio, então eu me voltei para o homem bonito, que continuava me observando com um misto de pena e desgosto.
— Está me alimentando para saber se posso mudar de ideia? — perguntei com leve desconfiança.
— Apenas para que entenda que pode ser mais vantajoso estar comigo do que se manter naquela vida — disse ele com frieza, embora as palavras fossem gentis. — Você não pode decidir o que fará a partir de agora. Você é minha e continuará sendo, mesmo se não assinar o documento. Então, sugiro que assine, antes que eu perca a paciência.
Aquela merda não era justa.
Nem um pouco justa.