Gisela me encarou, seu rosto uma máscara de indignação chocada. Heitor se recuperou primeiro, seu choque se transformando em uma fúria fria.
"Que porra você pensa que está fazendo?", ele rosnou, dando um passo protetor na frente de Gisela. "A operação é minha. Recue, Adriana."
"Sua operação acabou de demonstrar uma falha de segurança catastrófica para nosso parceiro em potencial", respondi, minha voz perigosamente baixa. Eu não olhei para ele. Meus olhos permaneceram fixos em Gisela. "Minha equipe está simplesmente seguindo o protocolo para incompetência grosseira em campo. Levem-na", ordenei aos meus homens.
Dois membros da Equipe Alfa se moveram em direção a Gisela. Eles não sacaram seus cassetetes; não precisavam. A presença deles era suficiente — uma promessa silenciosa e avassaladora de força. Gisela recuou, seus olhos arregalados com pânico genuíno agora.
"Heitor!", ela gritou, sua voz falhando. "Heitor, diga a eles! Mande-a parar!"
Foi então que Heitor finalmente se moveu. Ele avançou, empurrando meus homens para o lado com um rugido. Ele se colocou diretamente entre eles e Gisela, seu corpo um escudo humano. Seu rosto era uma tempestade de fúria dirigida inteiramente a mim.
"Eu disse, recue!", ele gritou, sua voz ecoando pelas paredes de metal. "Isso foi um teste para o Almeida! Acabou! Você está fazendo uma cena!"
Eu quase ri. Apenas minutos atrás, ele estava apostando na minha chegada, descartando cruelmente o risco para nosso filho. Agora ele estava protegendo sua amante, sua principal preocupação era a interrupção de seu joguinho doentio. A hipocrisia era de tirar o fôlego.
"Uma cena?", repeti, as palavras com gosto de cinzas. "Você forja o próprio sequestro, usa nosso filho como isca numa disputa de ego corporativa, e está preocupado comigo fazendo uma cena?"
Seus olhos piscaram em direção a Almeida, depois de volta para mim, o pânico de um animal encurralado em suas profundezas. "Você está grávida, pelo amor de Deus! Você nem deveria estar aqui!"
Aí estava. Ele não estava usando minha gravidez como motivo de preocupação, mas como uma arma para me pintar como instável. Como irracional.
"Você está certo", eu disse, minha voz pingando uma ironia tão amarga que queimou minha garganta. "Que falta de consideração da minha parte." Dei um passo à frente, meu olhar inabalável. "Saia da frente, Heitor."
"Não", ele disse, o maxilar cerrado. Ele nem olhou para mim. Ele estava olhando para Gisela, sua expressão se suavizando em uma de segurança. Ele a estava protegendo. Não de dano físico, mas de humilhação. De mim.
E naquele momento, observando-o protegê-la, o último pilar de sustentação do meu mundo cedeu. Ele havia feito sua escolha.
Uma pontada aguda e nauseante no fundo do meu útero me fez ofegar. Não era uma cãibra; era uma sensação de rasgo. Minha mão instintivamente foi para a minha barriga, o colete tático de repente parecendo uma jaula. O mundo inclinou-se ligeiramente.
Não. Oh, Deus, não.
Marcos viu. Seu rosto, geralmente uma máscara estoica, se desfez em alarme. "Senhora?"
Heitor seguiu seu olhar. Ele viu a mancha escura se espalhando na minha calça tática. Ele viu meu rosto, drenado de toda a cor. Por uma fração de segundo, algo além da raiva piscou em seus olhos — uma compreensão horrível e crescente. "Adriana...?"
Mas era tarde demais. Ele havia hesitado. Ele havia escolhido.
A dor era uma maré branca e quente, me puxando para baixo. Caí de joelhos, um soluço sufocado escapando dos meus lábios. Meus homens correram para frente, formando um círculo protetor ao meu redor, de costas para Heitor e seu mundo em ruínas.
"Médico!", Marcos rugiu em seu rádio. "Temos uma emergência! Preciso de evacuação, agora!"
Através de uma névoa de dor, vi Heitor parado, congelado, seu rosto uma tela de descrença e horror crescente. Gisela estava olhando, a mão sobre a boca. Almeida já estava ao telefone, afastando-se silenciosamente do desastre.
Heitor havia dito que uma vida era suficiente.
"Você está errado", sussurrei para o chão de concreto sujo enquanto a escuridão me tomava. "Eram duas."
Passei os sete dias seguintes em um quarto de hospital estéril. O aborto foi brutal, uma manifestação física e dilacerante da minha agonia emocional. Heitor e Gisela desapareceram. Sumiram. Sem ligações, sem mensagens. Apenas um silêncio ensurdecedor que era, em si, uma resposta.
No oitavo dia, quando o sangramento parou e o vazio em meu útero só era igualado pelo vazio em minha alma, peguei meu telefone. Disquei o número que não ligava há dez anos, o do homem que eu nunca mais queria ver.
Ricardo Salles. Meu pai.
Sua voz era rude, impaciente, exatamente como eu me lembrava. "O quê?"
"Sou eu", eu disse, minha própria voz rouca e desconhecida. Houve uma inspiração aguda do outro lado da linha.
"Estou pronta", eu disse, as palavras com gosto de ferro e cinzas. "Eu quero todos eles. Cada ativo que você plantou dentro da minha empresa. Cada lealista. Eu quero toda a rede dele. Eu quero queimar o mundo dele até as cinzas."
Na primeira noite de volta à casa que um dia chamamos de lar, sentei-me no chão do quarto do bebê. As paredes eram pintadas de um amarelo suave e neutro. Um móbile de nuvens brancas e fofas pairava sobre um berço vazio. Eu estava metodicamente organizando uma caixa de roupas de bebê, dobrando macacõezinhos que nunca seriam usados, quando a porta do quarto se abriu com um rangido.
Heitor estava lá, o rosto marcado por um cansaço que parecia totalmente fraudulento. Ele olhou da minha barriga lisa para o pequeno livro sobre um coelhinho em minha mão, e sua respiração falhou.
No mês passado, ele se sentou neste mesmo lugar, lendo aquele livro em voz alta para a minha barriga, sua voz um murmúrio baixo e calmante. Ele beijou minha testa e prometeu compensar a faculdade que abandonei para ajudá-lo a construir nosso império. "Nosso filho terá tudo, Adriana", ele jurou. "E você também."
Seus passos eram suaves no tapete felpudo enquanto se aproximava, uma graça furtiva de predador que eu antes achava emocionante. Agora, apenas me dava arrepios. Ele suspirou, um som pesado com uma tristeza que parecia totalmente ensaiada, e arrancou o livro das minhas mãos.
"Pare com isso", disse ele, a voz áspera. "Pare de se torturar."
Ele jogou um maço de papéis na pilha de roupas de bebê no meu colo. Eu os desdobrei. Não era um laudo hospitalar. Era um acordo de divórcio. Generoso, rápido e totalmente insultuoso.
"Você está satisfeito agora?", perguntei, minha voz perigosamente calma. Olhei para ele, minha própria dor um peso frio e morto no peito. "Você conseguiu o que queria. O teste foi um sucesso. A 'carga' foi descartada. Então, o que é isso? Pagamento de rescisão?"
Seu rosto se contraiu. "Não seja assim, Adriana. O que aconteceu... foi uma tragédia. Um acidente."
"Foi um acidente, Heitor?", rosnei, levantando-me de um salto. "Ou foi o resultado desejado? Você esqueceu que eu estava grávida quando armou sua pequena armadilha? Você esqueceu do nosso filho, aquele que você jurou proteger, enquanto estava jogando joguinhos para impressionar sua nova vadia?"
"Ela cometeu um erro", ele disse entredentes. "Mas o que você fez com ela no galpão—"
"Quem comete o erro, paga o preço", eu o cortei, minha voz subindo. "Meu único arrependimento é não tê-la aleijado quando tive a chance!"
Um grito cru e primal rasgou minha garganta. Rasguei a barra da minha camisola de seda, querendo arranhar minha própria pele, arrancar o vazio dentro de mim. Eu tinha que sair, tinha que encontrar uma arma, tinha que fazê-lo sentir uma fração da agonia que me consumia.
Quando me lancei para a porta, ele me agarrou, seus braços me envolvendo por trás. E então ele congelou. Suas mãos, que haviam pousado na minha cintura, pararam. Seu corpo inteiro ficou rígido contra minhas costas. Ele finalmente, verdadeiramente, percebeu. A maciez se fora. A curva da minha barriga, que ele costumava traçar com tanta reverência, se fora.
"Adriana", ele engasgou, a voz embargada por uma compreensão súbita e horrível. "Seu... o bebê..."
"É minha culpa", ele sussurrou, seu hálito quente contra minha orelha, seu corpo tremendo com soluços. "É tudo minha culpa. Eu sinto muito."
Suas lágrimas encharcaram o ombro da minha camisola, quentes e úmidas. Era um eco doloroso de dez anos atrás, presos naquele prédio em chamas, quando nos abraçamos com força, acreditando que estávamos prestes a morrer. Suas lágrimas eram reais então. Eu acho.
Uma corrente de ar frio da porta aberta soprou em minhas pernas nuas, me tirando da memória. O passado era um fantasma, e eu estava farta de ser assombrada.
"Heitor", eu disse, minha voz clara e fria.
"Shh, está tudo bem, meu bem, estou aqui agora", ele murmurou, tentando me puxar para mais perto.
"Saia", eu disse, empurrando seu peito com toda a minha força. Cambaleei para trás, me segurando no batente da porta. Eu o empurrei para o corredor e bati a porta, trancando-a no momento em que seu punho começou a bater na madeira.
"Adriana, por favor, me deixe entrar! Precisamos conversar! Isso não é mais só sobre nós!"
Mas outra voz cortou seus apelos desesperados — esta, estridente e aguda, vindo do telefone que ele havia deixado cair no corredor. Gisela.
"Heitor, ela vai assinar?", ela gritou pelo alto-falante. "Você tem cinco segundos antes que eu envie aquele vídeo da sua preciosa 'falha de segurança' para o Almeida e todos os outros clientes que temos! Você está com pena dela agora? Esqueceu o que ela fez comigo? Ela me humilhou!"
Sua voz subiu a um tom histérico. "Ela merecia perder aquele bebê! Que ele apodreça no inferno junto com ela!"
Ouvi Heitor pegar o telefone, tentando acalmá-la, sua voz um murmúrio baixo. Então eu o ouvi dizer as palavras que, finalmente e irrevogavelmente, cortaram o último fio da nossa conexão.
"Shh, Gi, não chore. Estou aqui. Eu vou resolver. Eu te dou o que você quiser, eu prometo."
Cinco anos atrás, após meu primeiro aborto — aquele que sempre culpamos por uma operação de segurança malfeita onde eu sofri uma queda feia — ele me segurou em seus braços em um quarto de hospital exatamente como o que eu acabara de deixar. Ele chorou e fez exatamente a mesma promessa. "Eu te dou o que você quiser, Adriana. Eu prometo." Naquela época, eu acreditei em sua dor. Agora, ouvindo-o oferecer o mesmo consolo barato à sua amante, uma certeza fria se instalou em minhas entranhas. Ele não estava de luto por nossa perda; ele estava comemorando seu sucesso.
Suas promessas, percebi com uma finalidade devastadora, eram baratas. Eram inúteis. E totalmente, ridiculamente, descartáveis. A única coisa que restava a fazer era fazê-lo pagar por elas.