Capítulo 2

Ponto de Vista: Gabriela

O frio da cela penetrava nos meus ossos, mas não era nada comparado ao aperto gelado da devastação em torno do meu coração. Sentei curvada na cama fina, o ar viciado pesado com o cheiro metálico do desespero. Meu corpo doía pelo tratamento bruto, mas minha mente era um redemoinho de imagens fraturadas: Caio na sacada, os rostos zombeteiros da multidão, as palavras debochadas da policial sobre Celina.

Eles me soltaram com um aviso e uma multa pesada, minha carteira parecendo impossivelmente leve. A primeira coisa que fiz foi chamar um táxi, dando o endereço da cobertura dos Bittencourt por hábito. Meus membros pareciam pesados, cada movimento um esforço hercúleo. Eu precisava de respostas. Precisava olhar nos olhos dele, ouvi-lo distorcer essa última traição em mais um de seus planos de "proteção" complicados.

A cobertura estava assustadoramente silenciosa quando entrei com minha chave secreta. Aquela que ele me dera anos atrás, um símbolo da nossa vida oculta. Agora, parecia uma relíquia zombeteira. Encontrei Caio em seu escritório, um copo de líquido âmbar na mão, os olhos fixos nas luzes da cidade lá embaixo. Ele não estava fumando, mas o cheiro fraco de seus cigarros caros ainda pairava no ar.

Ele mal se virou quando entrei, o olhar demorando no horizonte por mais um instante antes de finalmente olhar para mim. Sua expressão era cuidadosamente neutra, um distanciamento praticado que enviou uma nova onda de náusea através de mim.

— Gabriela — disse ele, a voz plana, desprovida de surpresa ou preocupação. — Ouvi dizer que você causou uma cena esta noite.

Meu maxilar travou. — Uma cena? Caio, eu fui presa! Sua segurança me espancou! O mundo inteiro acha que sou uma stalker lunática. E você apenas assistiu! — Minha voz falhou, crua com uma mistura de fúria e dor. — Eles chamaram Celina de sua noiva. Que diabos está acontecendo?

Ele suspirou, um som longo e cansado que fez meu sangue ferver. Ele pousou o copo com um clique suave. — São negócios, Gabriela. Você sabe disso. Meu pai está pressionando mais do que nunca pela fusão com os Menezes. Celina desempenha o papel dela. É uma fachada.

— Uma fachada? — zombei, uma risada amarga escapando dos meus lábios. — Uma fachada onde vocês são 'noivos'? Uma fachada onde sou arrastada na frente da imprensa, humilhada, espancada, e você não faz nada? Isso faz parte do 'plano' também?

Ele passou a mão pelo cabelo perfeitamente penteado, sua impaciência evidente. — Você não deveria ter aparecido, Gabriela. Você conhece as regras. Isso me coloca em uma posição difícil. Estou ocupado. Essa aquisição é delicada. Celina é... necessária por enquanto. — Ele falava dela como se fosse uma mercadoria, um requisito infeliz, mas inevitável para seu grande esquema. Mas suas palavras pareciam vazias, como promessas ocas que ele fizera mil vezes antes.

Sua indiferença era um golpe físico. Ele nem estava olhando para o meu braço machucado, as marcas vermelhas fracas na minha bochecha onde o guarda me empurrou. Ele não se importava com a minha dor, apenas com a inconveniência que eu representava.

Meus olhos varreram a sala, pousando em um pequeno e discreto cofre de parede escondido atrás de um quadro. Era uma adição nova. Meu coração martelou contra as costelas. Ele nunca teve um cofre de parede antes. Um pressentimento terrível se abateu sobre mim.

— O que tem aí dentro? — perguntei, minha voz mal acima de um sussurro, apontando um dedo trêmulo para o cofre.

Ele ficou tenso, um lampejo de algo ilegível — aborrecimento? surpresa? — cruzando seu rosto. — Não é da sua conta. São apenas... documentos.

— Documentos? — ecoei, minha voz subindo. — Ou seu futuro com a Celina?

Ele me encarou, os olhos agora frios e duros. — Não seja ridícula, Gabriela. Você está sendo emocional. Vá para a cama.

Mas eu não conseguia. Marchei até o quadro, minhas mãos tremendo enquanto o puxava para o lado. O cofre me encarou de volta, um portal escuro e metálico para uma verdade que eu não tinha certeza se queria enfrentar. — Abra — exigi, minha voz ganhando força. — Abra, Caio.

Ele hesitou, depois, com outro suspiro exasperado, digitou um código. A porta pesada se abriu, revelando uma pilha de papéis organizados. Meu olhar caiu imediatamente sobre um documento legal, seu título em relevo gritando traição: "ACORDO PRÉ-NUPCIAL - CAIO BITTENCOURT & CELINA MENEZES". Minha respiração falhou.

Abaixo dele, outro documento. "FUNDO FIDUCIÁRIO - FUTUROS FILHOS DE CAIO BITTENCOURT & CELINA MENEZES".

A sala girou. O ar saiu dos meus pulmões. Meus joelhos cederam. Isso não era uma fachada. Isso não era uma medida temporária. Isso era uma vida. Uma vida que ele estava construindo com ela. Uma vida sobre a qual ele mentiu para mim por cinco anos. Seu "plano" para tomar o poder não estava apenas demorando demais; era uma cortina de fumaça para ele me substituir, para reescrever nossa história sem mim nela.

Tropecei para trás, agarrando minha cabeça, um soluço cru rasgando minha garganta. — Seu... seu desgraçado — engasguei, as palavras carregadas de uma dor indizível. — Você mentiu para mim. Todo esse tempo. Você nunca ia me escolher.

Ele permaneceu em silêncio, o rosto ainda uma máscara, mas um músculo se contraiu em seu maxilar. Por um breve segundo, pensei ter visto um lampejo de algo, culpa talvez, antes de ser substituído por uma determinação endurecida. — Foi sempre para sua proteção, Gabriela. Você nunca sobreviveria no meu mundo. Meu pai...

— Seu pai? — gritei, o som ecoando no teto alto. — Seu pai não é quem assinou um acordo pré-nupcial com outra mulher! Seu pai não é quem criou um fundo fiduciário para os filhos dela! Você fez isso, Caio! Você!

Lágrimas escorriam pelo meu rosto, quentes e furiosas. Minhas mãos se fecharam em punhos, unhas cravando nas palmas. A dor era um contraponto surdo à realização aguda e agonizante florescendo no meu peito. Eu tinha sido uma tola. Uma tola ingênua e de coração partido.

— Acabou — sussurrei, as palavras quase inaudíveis, mas firmes. — Cansei. Eu quero o divórcio.

A cabeça dele se ergueu bruscamente, os olhos finalmente mostrando um lampejo de emoção genuína — surpresa, depois um aço frio. — Não seja ridícula, Gabriela — ele zombou, a voz pingando condescendência. — Você está transtornada. Está machucada. Não está pensando direito. Você não quer dizer isso. — Ele caminhou em minha direção, a mão estendida. — Você precisa descansar. Você está péssima.

— Não me toque! — recuei, meu corpo gritando em protesto ao toque dele, ao desprezo dele pela minha dor. — É exatamente isso que eu quero dizer! Eu quero sair. Não posso mais fazer isso. Isso não é proteção, Caio. Isso é tortura. Você está me torturando.

— Eu estou protegendo você! — ele rugiu, a voz finalmente perdendo a calma cultivada. — Você acha que isso é fácil para mim? Meu pai destruiria você se soubesse. Ele eliminaria você. Esta é a única maneira!

— Não — rebati, balançando a cabeça, minhas lágrimas borrando o rosto furioso dele. — Esta é a sua maneira. Sua maneira de me manter em segredo, de me manter conveniente, enquanto constrói seu futuro com outra pessoa! Não sou um brinquedo que você pode guardar quando terminar de brincar. Eu sou sua esposa!

Ele zombou novamente, um som cruel e desdenhoso que drenou os últimos vestígios de esperança do meu coração. — Esposa? Você acha que alguém acreditaria nisso? Olhe para você, Gabriela. Uma órfã. Uma ninguém. Você não tem nada. Tudo o que você tem, as roupas no seu corpo, o teto sobre sua cabeça, é tudo por minha causa. Minha caridade.

As palavras dele, brutais e cortantes, me atravessaram. Minha "caridade". Era isso que eu era para ele. Ao longo dos anos, guardei algumas peças de grife que ele me comprou, lembretes tangíveis de um amor que pensei ser real. Um vestido esmeralda cintilante, um colar de safira, uma pulseira de prata delicada. Estavam no meu closet privado, símbolos de uma vida com a qual sonhei.

Senti uma onda de raiva desafiadora, quente e purificadora, substituindo o desespero esmagador. — Caridade? — repeti, minha voz subindo com um tremor perigoso. — Você acha que eu quero sua caridade? Você acha que eu quero alguma coisa de você?

Virei-me e marchei em direção ao quarto principal, Caio gritando atrás de mim: — Gabriela, pare! Você não está fazendo sentido! — Mas eu não ouvi. Minhas mãos tatearam a porta do closet, minha mente ainda girando com as palavras dele. Minha caridade.

Arranquei o vestido esmeralda que estava usando, agora rasgado e manchado pela luta com a segurança. Ele caiu em um monte no chão, um símbolo cintilante de um sonho quebrado. Arranquei os brincos delicados de safira, o colar combinando, a pulseira de diamantes — tudo o que ele já tinha me dado. Cada peça tilintou no chão de madeira polida, uma sinfonia de ilusões estilhaçadas.

— O que você está fazendo? — Caio exigiu, agora parado na porta, os olhos arregalados com uma mistura de confusão e raiva.

Eu o encarei, vestida apenas com uma camisola de seda, meu corpo tremendo pelo frio que entrava pela janela aberta, mas principalmente por uma fúria que eu não sabia que possuía. Meus olhos, vermelhos e inchados, encontraram os dele. — Estou devolvendo sua caridade, Caio! — gritei, minha voz crua e quebrada. — Não quero nada de você. Nada!

Agarrei o casaco de grife grosso e luxuoso que ele jogara sobre uma cadeira quando chegou do baile, um casaco que custara mais do que eu poderia imaginar. Arranquei-o do cabide, joguei-o aos pés dele, depois arranquei um medalhão de prata delicado do meu pescoço, um medalhão que ele me dera no nosso primeiro aniversário, supostamente contendo nossos votos, embora eu nunca os tivesse visto. Arremessei-o nele também. — Fique com sua caridade! Fique com suas mentiras! Fique com sua noiva! Estou indo embora. E nunca mais vou voltar.

Peguei minha bolsa de couro gasta — a única coisa que era verdadeiramente minha — e corri, descalça e apenas de camisola, para fora da cobertura, passando pelo segurança perplexo e entrando na noite gelada de São Paulo. O frio foi um choque, mordendo minha pele exposta, mas era uma sensação bem-vinda, uma dor física que entorpecia a agonia no meu coração.

Andei, tropecei e corri, sem me importar para onde estava indo, apenas precisando estar o mais longe possível dele, de suas mentiras, de sua caridade. Meus pulmões queimavam, meus pés estavam dormentes, mas senti uma estranha sensação de libertação. O frio era um lembrete de que eu estava viva, e estava finalmente, verdadeiramente, livre. O casaco de grife, as joias, a vida que ele fabricara para mim — tudo se foi. E eu não queria nada mais do que apagá-lo da minha memória.

Capítulo 3

Ponto de Vista: Gabriela

O vento cortante açoitava ao meu redor, gelando minha pele até os ossos. Meus dentes batiam, um ritmo implacável contra a sinfonia caótica de São Paulo. Descalça, apenas de camisola, eu era um fantasma na metrópole vibrante e implacável, minha fuga desesperada da cobertura de Caio gravando-se na minha memória a cada passo agonizante. O casaco de grife que ele jogara aos meus pés, as joias que descartei, jaziam esquecidos, assim como qualquer último fragmento de esperança pelo nosso amor distorcido.

Tropecei por vitrines iluminadas e bares movimentados, mas o calor e as risadas lá dentro pareciam pertencer a outra dimensão. Minha respiração formava nuvens diante de mim, frágeis e fugazes, assim como tudo o que eu acreditara sobre minha vida com Caio. Vi-o no espelho retrovisor de um táxi que passava, o braço em volta de Celina Menezes, os rostos iluminados pelo flash dos paparazzi. Eles riam, os dedos entrelaçados um contraste gritante com minha forma trêmula e solitária. A visão foi uma nova facada no meu coração que ainda sangrava. Eu era invisível para ele, já apagada.

Eventualmente, a adrenalina que alimentara minha fuga começou a diminuir, substituída por uma exaustão avassaladora. Minhas pernas cederam e desabei em um banco frio e implacável em uma praça mal iluminada. A garoa fina, típica da cidade, encharcava minha camisola fina. Encolhi-me em posição fetal, tremendo incontrolavelmente, lágrimas se misturando à chuva no meu rosto. Eu não tinha nada. Sem casa, sem dinheiro, apenas os restos esfarrapados de um coração partido.

Minha mão instintivamente foi ao pescoço, onde o medalhão costumava estar. Aquele que ele me dera, aquele que arremessei nele na minha fúria. Tinha sumido. Tudo tinha sumido. Meu passado, meu presente, meu futuro. Parecia que eu estava despindo não apenas roupas, mas uma identidade inteira, deixando-a nas ruas frias e implacáveis de uma cidade que um dia me prometera tudo.

Meus olhos caíram sobre um diário de couro gasto enfiado no fundo da minha bolsa. Fora um presente do meu amigo de infância, Cristiano Rocha, anos atrás, quando ainda estávamos no orfanato. Ele me dissera para escrever meus sonhos, para nunca esquecê-los. Agora, parecia um lembrete zombeteiro de uma garota que ousou sonhar. Arranquei uma página, destampei uma caneta e escrevi meticulosamente as últimas palavras de Caio para mim: "Tudo o que você tem, as roupas no seu corpo, o teto sobre sua cabeça, é tudo por minha causa. Minha caridade." Então tracei uma linha sobre o nome dele e através de toda a página, um corte simbólico de laços. A página não era suficiente. Eu não podia simplesmente apagá-lo. Eu precisava queimar tudo.

Um brilho fraco chamou minha atenção. Minha última nota de vinte reais, escondida em um bolso secreto. Era tudo o que me restava. Com um suspiro pesado, forcei-me a levantar, meus músculos gritando em protesto. Uma pequena lanchonete chamou minha atenção, seu letreiro neon piscando como um farol na noite fria. Calor. Comida. Eu precisava sobreviver.

Pedi a sopa mais barata, saboreando cada colherada do caldo quente. Era um conforto escasso, mas era algo. Terminei, sentindo uma pequena centelha de calor retornar ao meu núcleo. Lá fora, a cidade rugia, indiferente à minha situação. Senti uma profunda sensação de isolamento, mas também um lampejo nascente de determinação. Eu não deixaria que ele me quebrasse. Não completamente.

Quando voltei para o frio, o vento parecia morder ainda mais forte. Abracei-me, tentando conservar o pouco calor corporal que tinha. O pensamento de encontrar abrigo, qualquer abrigo, tornou-se primordial. Vaguei sem rumo pelo que pareceram horas, minha mente uma lousa em branco de desespero, até avistar uma padaria 24 horas, suas luzes um brilho acolhedor.

Entrei sorrateiramente, tentando ser o mais discreta possível, e encontrei uma mesa no canto dos fundos. O calor era uma bênção, um alívio temporário do frio corrosivo. Pedi um café barato, segurando-o com as mãos trêmulas, esperando que a cafeína me mantivesse acordada e alerta. Eu não podia arriscar adormecer em público, não assim.

Os dias se fundiram uns nos outros. Sobrevivi com salgados velhos de uma lixeira atrás de uma padaria, a bondade de um vendedor ambulante que me deu um cachorro-quente de graça, e a realidade brutal de noites sem dormir em bancos de praça, coberta por jornais descartados. A vergonha era uma companheira constante, um manto pesado sobre meus ombros.

Caio não estava em lugar nenhum. Sem ligações, sem mensagens, sem equipes de busca frenéticas. Era como se eu tivesse desaparecido, e ele não tivesse notado, ou não se importasse. Enquanto isso, os tabloides estavam em chamas com fotos de Caio e Celina, suas demonstrações públicas de afeto tornando-se mais extravagantes a cada dia que passava. Um evento de tapete vermelho, um baile beneficente, um jantar romântico a dois. Eles estavam em toda parte, seus rostos sorridentes uma zombaria cruel da minha dor oculta.

Vi uma foto deles em um baile de caridade, Celina em um vestido cintilante, a mão possessivamente entrelaçada com a de Caio. Os olhos dele, antes cheios de uma ternura secreta por mim, agora irradiavam um charme polido dirigido apenas a ela. Era como se nossos cinco anos, nossos votos secretos, nossos sonhos compartilhados, tivessem sido meticulosamente apagados de sua memória. Ele seguiu em frente, perfeitamente, publicamente, deixando-me apodrecer nas sombras que ele criara.

A realização me atingiu com a força de um golpe físico. Ele não tinha apenas me esquecido; ele tinha me apagado ativamente. Ele não se importava mais com a minha existência, meu sofrimento. Eu era uma baixa em seu jogo, uma estatística em sua escalada ao poder. A dormência que eu sentia começou a rachar, substituída por uma raiva fria e lancinante.

Então, uma manchete gritou para mim de uma banca de jornal: "ANÚNCIO DE NOIVADO DO HERDEIRO BITTENCOURT IMINENTE!" Meu sangue gelou. Iminente. Isso não era mais uma "fachada". Isso era real. Ele ia se casar com ela. Ele ia torná-la a Sra. Bittencourt, enquanto eu, sua esposa secreta, não passava de um fantasma.

Outro artigo, uma coluna de fofocas, chamou minha atenção. "A Stalker dos Bittencourt: Onde Ela Está Agora?" Era acompanhado por uma foto granulada e pouco lisonjeira minha da noite da minha prisão. A seção de comentários, que eu tolamente percorri, era um esgoto de ódio. "Já vai tarde." "Ela teve o que merecia." "Provavelmente chorando em alguma sarjeta." "Bem feito por tentar dar o golpe no bilionário."

Meus dedos tremiam enquanto eu lia as palavras venenosas. O público, alimentado pela equipe de relações públicas de Caio e pela participação voluntária de Celina, realmente acreditava que eu era uma stalker delirante e oportunista. Minha identidade, minha dignidade, tinham sido sistematicamente arrancadas, deixando-me exposta e vulnerável. A humilhação era insuportável, um fogo ardente no meu estômago.

Fechei os olhos, lágrimas finalmente caindo livremente, quentes contra minhas bochechas frias. Acreditei nas mentiras dele por tanto tempo. Sacrifiquei tudo por um amor que não passava de uma gaiola, meticulosamente trabalhada pelo homem que dizia me proteger. Mas eu não seria mais uma vítima. Eu não me afogaria nesse desespero. Eu lutaria. Eu recuperaria meu nome, minha história, minha vida.

Tirei a nota de vinte reais amassada do bolso. Era uma quantia irrisória, mas era minha. Eu a usaria como ponto de partida. Encontraria uma maneira de provar minha existência, de provar meu casamento com Caio Bittencourt. Eu era a esposa dele, e garantiria que o mundo soubesse disso. Ele poderia ter me jogado fora, mas eu não ficaria descartada. Eu renasceria das cinzas de sua traição.

Meu telefone, um aparelho descartável barato que comprei com o pouco dinheiro que tinha, vibrou inesperadamente. Uma mensagem de um número desconhecido. Meu coração saltou, depois afundou. Não podia ser Caio. Não agora. Não depois de tudo isso. Abri, minha mão tremendo.

Era uma foto. Uma foto minha, tremendo e desgrenhada no banco da praça, tirada dias atrás. Abaixo dela, uma única palavra: "Gabi?" E então, momentos depois, outra mensagem: "Você está bem? Estive procurando por você."

Minha respiração falhou. O número. Era familiar, mas novo. Eu conhecia aquela voz, aquela preocupação. Era Cristiano. Cristiano Rocha. Meu amigo de infância. O doce de pessoa, o protetor que eu não via há anos. Ele era o único que realmente me via, que realmente se importava. Uma centelha de calor, hesitante, mas real, acendeu no meu coração congelado. Talvez, apenas talvez, eu não estivesse inteiramente sozinha.

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