Capítulo 2

Eu deveria ter ido embora mais cedo.

Desde que entrei naquela casa, senti que algo estava diferente. O ambiente era o mesmo - familiar, aconchegante, cheio de memórias -, mas havia uma energia no ar que eu não conseguia ignorar. Algo que me deixava desconfortável. Algo que me fazia querer ficar... e fugir ao mesmo tempo.

E esse algo tinha nome.

Nathifa.

Ela desceu as escadas com um vestido vermelho e silenciosamente destruiu o equilíbrio que eu me forçava a manter.

Meu peito apertou. Por um segundo, fiquei sem respirar. O vestido marcava cada curva do corpo que não era mais de uma menina. Ela cresceu. Virou mulher. E eu... eu estava completamente despreparado para isso.

A garota que eu costumava chamar de "menininha dos Kaya" agora tinha olhos de tempestade e um sorriso que me desarmava.

E o pior... ela sabia disso.

Sabia o efeito que causava. Sabia exatamente como olhar, como se mover, como rir.

Era como se cada gesto dela dissesse: olhe pra mim, Armed, me veja de verdade.

E eu vi.

Maldito seja eu, mas vi.

Durante o jantar, evitei ao máximo encará-la. Falei com o pai dela sobre negócios, tentei me manter concentrado. Mas toda vez que ela cruzava as pernas, mexia nos cabelos ou deixava os lábios tocarem a borda da taça, eu sentia meu autocontrole ruir um pouco mais.

Ela estava brincando com fogo.

E eu era o incêndio que não podia acontecer.

Quando me afastei e fui até a varanda, pensei que o ar fresco me ajudaria a esfriar a cabeça. Mas ela veio atrás. Claro que veio.

E como sempre, veio armada com palavras doces e olhos desafiadores.

"Você está diferente, Nathifa."

Foi o que saiu da minha boca, mesmo que eu tenha pensado em dizer: você está me enlouquecendo.

"Diferente como?", ela perguntou, fingindo inocência.

Eu desviei os olhos. Porque se encarasse por mais tempo, cometeria um erro. Um que eu não poderia apagar depois.

"Mais... mulher", confessei.

Foi como abrir uma porta que devia permanecer trancada.

Ela se aproximou. Senti o perfume dela me invadir, e a proximidade fez minha respiração acelerar. A pele dela brilhava sob a luz da lua, e o jeito como me olhava... como se já soubesse que eu estava prestes a cair.

"E isso é um problema?"

Sim, era. Um enorme problema.

Mas não por culpa dela.

Era por minha culpa.

Porque eu sentia coisas que não deveria.

Porque eu a queria como nunca quis outra mulher.

E porque isso era errado.

Errado aos olhos do mundo. Errado para o pai dela. Errado até para mim.

Mas o desejo não se importa com o que é certo ou errado. Ele simplesmente existe. E ele existia em mim, por ela, de forma avassaladora.

"Você merece alguém da sua idade. Alguém com planos parecidos com os seus."

Disse isso tentando parecer racional. Frio. Mas cada palavra foi como uma faca em mim mesmo.

Ela não recuou.

Ela me enfrentou.

"Você não pode ou não quer?"

Esse era o problema.

Eu queria.

Queria tanto que doía.

Mas por isso mesmo, precisava ser duro.

- Nathifa, pare com isso. - minha voz saiu mais ríspida do que eu pretendia. - Você está confundindo as coisas. Isso é... perigoso.

Ela não disse nada. Apenas me olhou com aqueles olhos grandes, cheios de desafio e desejo.

E eu soube que não adiantava mais fugir. Eu podia gritar, fingir, negar. Mas ela já sabia.

Sabia que eu a desejava.

Sabia que eu estava à beira do abismo.

Então fiz o que qualquer covarde faz quando não consegue enfrentar a verdade: recuei.

Dei as costas.

Desci os degraus da varanda com o peito em chamas.

Entrei no carro e dirigi sem olhar pra trás.

Mas o gosto da voz dela, o perfume que ela deixou no ar, e o jeito como ela me olhou... tudo aquilo ficou preso em mim.

E naquele silêncio do carro, entendi que o que sinto por Nathifa não vai desaparecer.

Eu posso tentar ser duro.

Posso fingir que não vejo.

Mas ela já está dentro de mim.

E eu não sei até quando vou conseguir resistir.

Dirigir à noite por Istambul costumava ser um alívio. O vento entrando pelas janelas, as luzes refletindo nas ruas molhadas, e o silêncio da cidade me ajudavam a organizar os pensamentos. Mas naquela noite, nada disso funcionou.

Tudo em mim estava inquieto.

Como se minha pele tivesse sido marcada pelo olhar dela.

Como se a lembrança de Nathifa ainda estivesse sentada no banco do passageiro.

O vermelho do vestido.

O cheiro doce do perfume.

A ousadia no olhar.

A pergunta que ela fez: "Você não pode ou não quer?"

Essa pergunta ainda martelava na minha cabeça.

Porque a resposta era clara.

E vergonhosa.

Eu queria.

Queria tocá-la, beijá-la, segurá-la nos braços até ela esquecer qualquer outro homem.

Queria me perder naquele corpo, naquela boca atrevida, naquela coragem que ela mostrava toda vez que se aproximava de mim.

Mas o desejo é uma coisa.

A realidade, outra bem mais cruel.

Ela era filha do meu melhor amigo.

A garotinha que eu vi crescer, que corria pelo quintal com as tranças soltas e um vestido manchado de tinta.

Como eu podia olhar para ela agora como mulher... e pior: como a mulher que eu mais queria?

Aquilo era errado.

Pelo menos, era o que eu continuava repetindo a mim mesmo.

Cheguei em casa e joguei as chaves no balcão. Tirei a camisa e fui direto para a varanda, acendendo um cigarro que nem queria. A brisa estava fria, mas não me acalmava. Meus músculos estavam tensos. Meu peito doía.

Eu estava começando a perder o controle.

E isso me assustava.

Revirei a cabeça para trás, encarando o céu.

A imagem dela me invadiu de novo - o jeito como ela caminhava, a voz sussurrando meu nome, o brilho nos olhos quando me provocava. Ela sabia o que estava fazendo. Sabia onde estava mexendo.

- Por que você está fazendo isso comigo, Nathifa? - sussurrei para o vento, como se ele pudesse responder.

Ela estava brincando com fogo.

Mas eu era o homem que se queimava.

Tentei dormir, em vão. Me virei na cama por horas, relembrando cada detalhe daquela noite. A forma como ela se aproximou. A confiança no tom da voz. O toque dos dedos finos roçando meu braço sem querer.

Ou talvez tenha sido de propósito.

A verdade é que eu estava começando a enlouquecer.

Levantei antes do sol nascer. Me joguei no banho frio como se a água pudesse apagar o calor que Nathifa havia deixado no meu corpo. Mas era inútil.

Ela estava em tudo.

No espelho embaçado, vi meu reflexo e reconheci a sombra nos meus olhos. Era o mesmo olhar que vi no pai dela, anos atrás, quando ele conheceu a mãe de Nathifa. Era o olhar de um homem rendido. Perdido.

Mas ao contrário dele, eu não tinha o direito de me entregar.

Peguei o celular e, num impulso, abri a conversa com ela. O nome dela brilhava na tela, tão familiar... tão perigoso. Pensei em digitar alguma coisa. Qualquer coisa.

"Pare com isso."

"Você está me enlouquecendo."

"Não brinque com o que não pode controlar."

Mas apaguei tudo antes de enviar.

Ela não merecia minhas migalhas.

Nem minha covardia.

Mais tarde, precisei ir ao escritório do pai dela entregar uns documentos. Pedi para a secretária chamá-lo, esperando encontrá-lo sozinho. Mas o destino parece gostar de brincar comigo. Porque quem apareceu primeiro foi ela.

Nathifa.

Usava calça jeans e uma camisa branca simples, os cabelos soltos e os lábios rosados, como se nem tentasse me provocar. Mas só de vê-la, meu coração errou o compasso.

Ela parou na porta e me encarou. Por um instante, o mundo inteiro ficou em silêncio. A respiração dela oscilou levemente, e seus olhos brilharam ao me ver.

Eu soube que ela ainda lembrava da noite passada.

Assim como eu.

- Armed - ela disse, com um sorriso que me desmontava. - Não esperava te ver aqui tão cedo.

- Só vim deixar uns documentos - respondi, seco. Frio. Tão frio que doeu em mim mesmo.

Ela mordeu o lábio. Um gesto simples, mas que me deixou tenso da cabeça aos pés.

- Quer um café? - perguntou, dando um passo à frente.

- Não. - cortei. - Estou com pressa.

Vi a decepção passar nos olhos dela. Mas ela disfarçou bem.

- Claro. Como preferir - disse, antes de se afastar.

Fiquei ali, olhando para as costas dela enquanto ela andava pelo corredor. E cada passo que ela dava era como uma batida no meu coração dizendo: ela vai desistir de você, idiota.

E talvez fosse melhor assim.

Talvez fosse isso que eu estava tentando forçar: que ela me odiasse, se afastasse, me esquecesse.

Mas no fundo, bem no fundo...

Eu rezava para que ela não desistisse.

Porque eu não conseguiria continuar fugindo por muito tempo.

Capítulo 3

O som das tesouras e das vozes dos funcionários se misturava com o perfume leve de tecidos novos, recém-chegados da Itália. Eu estava no salão principal da loja de tecidos que pertence à minha família — e a ele.

Armed é sócio do meu pai há anos. Eles construíram aquele lugar juntos, peça por peça, rolo por rolo. E mesmo assim, a cada vez que ele entrava por aquela porta, o ambiente parecia se transformar.

Eu já estava ali quando ouvi a voz grave do meu pai chamando-o do fundo da loja para a reunião. Mas antes que Armed pudesse subir para o escritório, passou por mim.

Devagar.

Como se o tempo tivesse diminuído a velocidade só para nos provocar.

— Bom dia, Nathifa — disse ele, sem parar de andar.

Mas os olhos... ah, os olhos dele ficaram tempo demais nos meus.

Demais para ser apenas educação.

— Bom dia, Armed — respondi com um sorriso contido. — Que surpresa ver você por aqui tão cedo.

Ele parou por um segundo, como se não soubesse se devia dizer algo ou não.

— Temos reunião marcada — murmurou, evitando meu olhar. — Seu pai e eu precisamos revisar os contratos dos fornecedores novos.

— Ah, claro — murmurei, inclinando levemente a cabeça, fingindo naturalidade. — Está tudo bem lá em cima, já organizei os papéis que vocês vão precisar.

Ele assentiu, tenso, os olhos percorrendo meu rosto, e depois descendo rapidamente — como se o corpo dele o traísse antes que pudesse controlar o olhar.

Meu vestido era simples, discreto até. Mas o tecido moldava meu corpo de um jeito sutil. Eu sabia disso. E sabia que ele também sabia.

Armed respirou fundo, claramente se forçando a manter o controle.

— Está trabalhando com os tecidos novos? — perguntou, tentando soar casual.

— Sim. Chegaram hoje cedo. Os italianos são meus favoritos — respondi, pegando um rolo de seda azul-marinho e desenrolando alguns centímetros sobre a bancada. — Quer ver?

Ele hesitou, depois se aproximou.

Muito mais do que deveria.

Estendeu a mão para tocar a seda ao mesmo tempo que eu, e nossos dedos se encontraram.

Foi como tocar eletricidade.

Ficamos imóveis por um segundo, olhos nos olhos, pele na pele.

E naquele instante, ninguém mais existia na loja.

Ele foi o primeiro a recuar, cerrando a mandíbula e enfiando as mãos nos bolsos da calça.

— Cuidado, Nathifa — disse ele, baixo, rouco. — Você não tem ideia do que está fazendo.

Dei um passo em direção a ele. Só um. O suficiente para deixá-lo ainda mais tenso.

— Ah, Armed... eu tenho ideia sim. Tenho total consciência.

Ele fechou os olhos como se estivesse se segurando com todas as forças para não cruzar aquela linha. Quando abriu, havia algo escuro, intenso, escondido no fundo do olhar.

— Você devia subir. Meu pai está te esperando — falei, com um sorrisinho doce nos lábios.

Armed me olhou por mais um instante, como se estivesse prestes a explodir.

Mas virou-se sem dizer mais nada e subiu as escadas com passos firmes.

Fiquei ali, sentindo o toque da mão dele ainda queimando na minha.

Ele podia fingir.

Podia usar a desculpa dos negócios, da idade, do meu pai.

Mas eu já sabia.

Armed me desejava.

E não ia demorar para ele admitir isso também.

Fiquei parada por longos segundos depois que Armed subiu as escadas. Ainda sentia o calor do toque dele nas minhas mãos, como se tivesse sido marcado em brasa. Um toque breve, acidental — ou ao menos deveria ter sido —, mas que incendiou cada parte de mim.

Soltei um suspiro e tentei voltar para o que estava fazendo, mas a concentração havia me abandonado. Passei a mão no tecido com distração, observando o reflexo da luz sobre a seda azul-marinho que havíamos tocado juntos. Era como se aquele momento estivesse preso ali, entre as fibras delicadas, me lembrando do olhar dele, da tensão que havia em cada palavra não dita.

Meu coração ainda batia forte, acelerado, e minhas pernas estavam inquietas. Eu sabia que ele lutava contra o que sentia. Sabia que a razão dele gritava mais alto que o desejo. Mas por quanto tempo?

Peguei meu celular no bolso da calça e, sem pensar muito, abri a conversa com Rebeca. Eu precisava dividir aquilo com alguém. E só ela me entendia.

[Nathifa]:

Você não vai acreditar quem acabou de aparecer aqui na loja.

[Rebeca – Online]:

Armed?

Sorri com o jeito direto dela. Rebeca sempre me conhecia melhor do que qualquer outra pessoa.

[Nathifa]:

Ele veio para uma reunião com meu pai. Mas antes passou por mim. E amiga… ele me tocou.

[Rebeca]:

TOCOU COMO?

[Nathifa]:

Nossos dedos se encostaram quando estávamos mexendo nos tecidos. Foi rápido. Mas eu senti. Ele sentiu.

E o jeito que me olhou… Rebeca, ele tá no limite. Eu vi nos olhos dele.

[Rebeca]:

E ele falou alguma coisa?

[Nathifa]:

Disse que eu não tenho ideia do que estou fazendo.

[Rebeca]:

Ai, amiga… que homem.

[Nathifa]:

Mas eu respondi que sei exatamente o que estou fazendo. Ele ficou paralisado.

[Rebeca]:

TÁ CERTÍSSIMA!

Ele pode até fugir, mas uma hora vai ter que aceitar que quer você.

[Nathifa]:

Eu não vou desistir, Rebeca. Eu juro.

Ele tenta ser duro, tenta se afastar, mas eu vejo no olhar dele. Eu sinto.

[Rebeca]:

E eu te apoio 1000%.

Mas cuidado, tá? Vai com calma. Não deixa essa tensão explodir onde não deve kkkk

Ri sozinha da última mensagem e respirei fundo. Eu sabia que estava jogando um jogo perigoso, mas o que sentia por Armed ia além do desejo. Era amor. Antigo, enraizado, e agora envolto em fogo.

Guardei o celular de volta no bolso e voltei ao balcão. As funcionárias estavam ocupadas organizando os rolos, e tudo parecia em ordem. Fui até o fundo da loja e me olhei rapidamente no espelho decorativo que ficava próximo à sala de costura.

Meus olhos ainda estavam brilhando. Minhas bochechas, coradas.

Era como se o simples encontro com ele tivesse me deixado marcada.

Não sabia o que ele estava pensando agora, sentado ao lado do meu pai naquela sala cheia de papéis. Mas queria tanto ver seu rosto, seu olhar tenso, o jeito como ele apertava os punhos quando tentava resistir a mim. E mais do que isso… queria saber até onde ele aguentaria.

Será que ele ainda se achava forte o suficiente para me ignorar?

Mais tarde, quando ele saiu da sala do meu pai, ouvi sua voz no corredor. Meu corpo reagiu antes mesmo da minha mente processar. Me escondi discretamente entre os corredores de tecido, onde podia observá-lo sem ser vista de imediato.

Ele passou conversando com meu pai, sério como sempre, as mãos no bolso, a postura impecável. Mas quando olhou de relance para o salão e percebeu minha presença… seu olhar parou.

Pelo canto dos olhos, eu o vi me procurar. Vi o momento exato em que me encontrou ali, meio escondida.

E por um segundo — um único segundo — nossos olhares se cruzaram de novo.

E então… ele desviou.

Mas não foi como das outras vezes.

Dessa vez, ele não desviou por frieza.

Ele desviou porque tinha medo do que podia fazer se olhasse por mais um segundo.

Eu sorri.

Não era uma vitória. Ainda.

Mas era mais um passo.

Assim que ele saiu, peguei o celular de novo.

[Nathifa]:

Ele me viu de novo, Rebeca. Do jeito que olha… se eu chegasse perto, ele me agarrava. Tenho certeza.

[Rebeca]:

Você vai deixar ele chegar no limite, né?

[Nathifa]:

Eu vou fazer ele implorar.

[Rebeca]:

Ai, amiga… esse romance turco vai virar erupção vulcânica a qualquer momento.

Só me promete que quando ele ceder, você vai contar cada detalhe.

[Nathifa]:

Prometo. Até os mais quentes.

Guardei o celular, sentindo uma mistura de ansiedade, desejo e poder.

Eu podia sentir a energia entre nós crescendo, dia após dia. E sabia que o dia que ele parasse de fugir, o mundo ao nosso redor iria explodir.

E eu…

Eu estava pronta pra queimar com ele.

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