Nápoles tinha um jeito de me segurar, mesmo quando eu tentava escapar.
As ruelas do bairro - tortas, estreitas, com seus prédios antigos e varandas penduradas de roupas coloridas - eram o único lugar onde eu conseguia me encontrar em silêncio. O cheiro do café fresco misturado ao mar distante, os passos dos vizinhos conversando em dialeto - tudo aquilo me lembrava quem eu era antes do "nós".
Eu adorava caminhar por ali, mesmo que a liberdade fosse só uma ilusão. Acordava cedo, tomava um café rápido na cozinha minúscula do apartamento e fazia o que ele chamava de "meu trabalho": responder mensagens, planejar stories, editar fotos, cuidar do que as pessoas esperavam que eu fosse. Era estranho como o tempo se diluía nesses pequenos afazeres, como se cada curtida fosse uma moeda de sobrevivência. Mas, por dentro, eu sentia que estava afundando.
O curso de artes visuais, que eu tinha abandonado no ano passado, era um segredo entre mim e o vento. Ou melhor, um segredo que ele transformou em silêncio quando "sugeriu" que eu parasse.
- Você não vai dar conta, Allegra - ele disse com aquele sorriso meio falso, enquanto eu arrastava a mochila pesada pelas escadas da universidade. - Isso vai tirar o foco do que realmente importa. A gente tem uma imagem pra manter.
E eu acreditei. Porque acreditar doía menos do que lutar. Porque acreditar fazia o silêncio na minha cabeça parecer menor.
Meus pais tinham morrido há quase dois anos. Eles eram minha âncora - e quando se foram, eu me senti à deriva. Enzo prometeu ser meu porto seguro, mas, no fim, ele virou a tempestade. Com ele, a vida se transformou em um looping de exigências disfarçadas de carinho, de controle vestido de cuidado.
Por isso, aquelas caminhadas nas ruelas eram meu refúgio. Ninguém sabia, mas eu costumava me sentar em um banco escondido atrás de uma igreja antiga, perto da praça, e simplesmente observar. Era meu esconderijo, onde o tempo parecia desacelerar.
Observava as crianças correndo, as velhinhas sentadas em cadeiras de madeira, os casais discutindo baixo. Havia uma vida ali que não pedia nada de mim. Era como se, ali, eu pudesse respirar sem peso. Às vezes, eu levava um caderno escondido, só para rabiscar qualquer coisa, como um gesto de resistência secreta.
Mas o peso me seguia. Sempre.
Chegar em casa era sempre uma aposta. Enzo podia estar quieto, ou poderia estar irritado. Às vezes ele chegava do nada, querendo controlar até o jeito que eu falava.
- Por que não responde logo? - ele resmungava quando eu demorava a atender o telefone. - Você não entende que o público quer ver química? Não posso parecer distante.
Eu me tornava personagem da vida dele, um papel sem roteiro onde meu texto era apagado e reescrito a cada cena. Era como se eu existisse apenas no reflexo do que ele queria mostrar.
Uma noite, enquanto arrumava a bagunça dos nossos equipamentos para gravação, encontrei um dos meus antigos desenhos. Era um esboço de uma mulher com olhos fechados, rodeada de folhas ao vento. Parecia uma parte de mim que estava esquecida. Uma lembrança de quem eu fui antes de tudo.
Peguei o papel, senti o toque áspero da tinta seca e, por um instante, imaginei como seria poder voltar a ser aquela mulher. A sensação foi quase física. Meu peito apertou, e os olhos arderam.
Mas logo a porta se abriu. Enzo estava ali, olhando.
- Ainda tem essas coisas? - perguntou com aquela voz que sempre tinha um jeito de machucar sem parecer.
- Só guardo o que é meu - respondi, tentando segurar a voz trêmula.
Ele deu de ombros e saiu, deixando o silêncio invadir o apartamento.
Naquela noite, enquanto tentava dormir, pensei nas ruas de Nápoles, naquele banco escondido, nas vozes que eu podia ouvir se me calasse. Senti saudade dos meus pais, de como minha mãe me chamava de "ragazza d'arte", mesmo quando eu só rabiscava no canto das agendas.
Eu sabia que algo precisava mudar. Mas mudar doía. Mudar era se perder. Mudar era coragem que eu ainda não tinha.
Por enquanto, eu caminhava. Caminhava para tentar lembrar quem eu era, antes do "nós". Porque no fundo, uma parte minha já começava a sussurrar: talvez ainda existisse uma Allegra lá dentro, esperando ser encontrada.
O apartamento estava mergulhado naquela luz azulada que Enzo gostava de usar nos vídeos. Para ele, dava "clima". Para mim, parecia o tipo de frio que nem cobertor resolve. Um frio que atravessava a pele e se instalava por dentro.
Ele ajustava o tripé da câmera, nervoso, enquanto eu tentava descobrir o que fazer com as mãos. Sentada no sofá, eu observava tudo em silêncio - os cabos no chão, o microfone mal encaixado, o reflexo dele no vidro. Parecia mais preocupado com o ângulo da própria imagem do que com a pessoa ao lado.
- Allegra, dá pra sorrir um pouco mais hoje? Você tá com uma cara meio caída - ele disse, sem nem me encarar.
Eu mordi a parte de dentro da bochecha. Respirei fundo, como sempre.
- Tá bom.
Levantei devagar e fui até a penteadeira improvisada no canto da sala. Passei um blush nas bochechas, tentei arrumar o cabelo com os dedos. Fiquei ali, me olhando por alguns segundos. O rosto no espelho ainda era meu, mas os olhos... pareciam de outra pessoa.
A luz azul realçava minhas olheiras, e mesmo assim, eu forcei um sorriso. Era o que ele queria. Era o que o público esperava. Eu era o complemento do mundo que ele criava, uma moldura para o protagonista.
- Vamos gravar esse vídeo logo, tenho reunião com o pessoal da marca às oito - ele falou alto, batendo com os dedos na mesa, impaciente.
Gravamos. Ou melhor, ele gravou. Eu apareci ao lado, como figurante de um filme onde meu único papel era sorrir nos momentos certos. Ele fazia piadas, comentava sobre os novos produtos recebidos, e dizia frases ensaiadas como "a gente ama testar coisas novas juntos, né amor?". Eu assentia, sorria, segurava o riso de nervoso quando ele errava uma fala e culpava a iluminação.
A câmera desligou. Ele não me agradeceu. Nunca agradecia.
Fiquei na cozinha depois, mexendo distraidamente no jantar. Espaguete com molho vermelho. Sempre era o mesmo. Comida rápida, prática, sem bagunça. Ele detestava bagunça. Eu cortava a cebola devagar, quase com carinho, como se aquilo fosse a única coisa que ainda estivesse no meu controle.
- Você viu o e-mail da produtora? - ele perguntou, apoiado no balcão.
Balancei a cabeça.
- Não.
- Eles querem que a gente vá ao evento da Gioia no sábado. É importante. Vai ter gente de peso lá.
Assenti, sem fazer mais perguntas. Ele já tinha decidido. Ele sempre decidia. Talvez nem importasse se eu estivesse bem, disposta, cansada ou doente. O importante era comparecer. Mostrar presença. Garantir os flashes certos.
Jantamos em silêncio. Os talheres batendo no prato eram o único som da sala. Eu engolia cada garfada como se fosse areia. Na minha mente, repetia palavras que nunca saíam da boca. Frases que me salvariam, mas que eu já nem acreditava que conseguia dizer em voz alta.
Ele falava do evento, das marcas, dos números. Eu pensava na igreja escondida do bairro, onde às vezes sentava sozinha para respirar. Na senhora do mercadinho que sempre me oferecia uvas frescas. No banco de pedra atrás da praça. No cheiro de sabão nas varandas. No mundo que existia antes dele.
No que eu era antes de tudo isso.
Quando terminei de lavar a louça, fui para o quarto. Ele ainda falava ao telefone com alguém, provavelmente um patrocinador. O tom era doce. Diferente do que usava comigo. A voz dele tinha uma suavidade quase encantadora quando estava longe das câmeras - ou longe de mim.
Me joguei na cama sem trocar de roupa. O teto parecia mais próximo do que deveria. Eu fechei os olhos e desejei sumir por uns minutos. Só pra ver como era viver sem aquilo tudo.
Foi quando pensei nela.
Sophia Romano. Minha amiga de infância, agora em Paris. A gente não se falava tanto, mas às vezes ela mandava fotos de janelas abertas e cafés cheios de vida. Um vestido novo pendurado na porta. Um quadro pintado à mão por algum artista de rua. Mensagens breves, mas quentes. Do tipo que aqueciam o que o mundo esfriava em mim.
Ela dizia que lá as pessoas sorriam para estranhos e os estranhos não pareciam tão distantes.
Fiquei ali, abraçada ao travesseiro, pensando no som da voz dela. Pensando que talvez, em algum lugar fora daqui, ainda existisse algo leve. Um canto do mundo onde eu pudesse me ouvir de novo.
Mas essa era só uma lembrança. Uma ideia vaga. Um desejo que nascia pequeno no fundo da minha barriga e crescia a cada respiração mal dada.
Por enquanto... eu ficava. Por enquanto, fingia. Por enquanto, sorria nas gravações, sorria para os seguidores, sorria para não desmontar.
Mas o sábado viria. E com ele, talvez, o estopim.