Capítulo 2

O rosto de Caio endureceu. "A Dália é diferente. Ela entende o nosso mundo. Ela é mais família do que sua mãe jamais foi."

O sentimento nas minhas entranhas não era mais apenas raiva. Era algo mais básico, mais animalesco. O impulso de atacar.

Mantive minha voz perigosamente calma. "Então, deixe-me ver se entendi. Você está me mandando, sua esposa, a mulher que financia esta família inteira, em um perigoso voo comercial sozinha."

"O comboio está cheio", disse ele, acenando com a mão de forma displicente. "Tive que cancelar seu lugar para dar espaço para as malas da Dália."

Ele teve a audácia de tentar sorrir para mim, um gesto patético e apaziguador.

"Além disso, você é forte, Juliana. Você é uma sobrevivente. Você aguenta o tranco. Pense nisso como uma aventura."

Eu o encarei, as palavras ecoando na sala silenciosa. Uma aventura. Ele estava chamando uma jornada potencialmente letal de aventura.

"A rota que você reservou para mim", eu disse, minha voz baixando para um sussurro, "passa pelo território mais perigoso do continente."

"E daí? A Dália fica ansiosa em comboios seguros, e você não. Por que ela deveria ficar desconfortável enquanto você viaja com segurança e estilo?", ele perguntou, como se fosse a coisa mais lógica do mundo.

Meus olhos se voltaram para o pai dele, o General Hugo. O homem que supostamente vivia por um código de honra. Olhei para ele, implorando com os olhos para que ele dissesse alguma coisa. Qualquer coisa.

Ele desviou o olhar, ocupando-se com um fio solto em sua jaqueta. Um covarde.

Beatriz deu um passo à frente, colocando a mão no meu braço. Seu toque parecia uma aranha.

"Juliana, querida", ela arrulhou, sua voz pingando falsa simpatia. "Caio é o homem da casa. Ele sabe o que é melhor. Dália é nossa convidada. É justo que a façamos se sentir confortável."

Karina interveio, sua voz cheia da crueldade casual da juventude. "É, Ju. Você é sempre tão durona. A Dália é delicada. Não dá pra esperar que ela passe perrengue."

Uma risada amarga escapou dos meus lábios. Olhei ao redor para seus rostos — meu marido, seus pais, sua irmã.

"Quem é a família aqui?", perguntei, minha voz tremendo com uma raiva tão profunda que parecia que poderia rachar as fundações da casa. "Vocês estão tratando uma estranha, uma convidada, como se ela fosse sua verdadeira família, e a mim, sua esposa, como se eu fosse uma desconhecida."

Apontei um dedo trêmulo para Caio. "Você está tratando ela como se ela fosse sua esposa."

Os olhos de Caio brilharam de raiva. "Para de drama, Juliana."

"É só um arranjo de viagem", ele retrucou. "Pare de fazer tempestade em copo d'água."

"Dália é da nossa família", ele repetiu, sua voz se elevando. "Não posso deixá-la viajar sozinha ou se sentir insegura. É meu dever como homem, como um Vasconcellos, protegê-la."

"Então você vai sacrificar sua esposa para provar que é um bom homem para sua ex-namorada?"

Nesse exato momento, as grandes portas duplas do hall de entrada se abriram.

Dália Ribeiro estava lá, recortada contra a luz da manhã.

Karina gritou de alegria. "Dália! Você chegou!"

Ela correu para frente, jogando os braços ao redor da outra mulher. "Senti tanto a sua falta! Vem, deixa eu pegar suas malas."

Capítulo 3

"Queria tanto que você fosse minha cunhada de verdade", Karina sussurrou para Dália, alto o suficiente para todos ouvirem.

Beatriz se apressou, seu rosto iluminado com um calor genuíno que eu nunca a vi dirigir a mim. "Dália, minha querida. Há quanto tempo. Você está maravilhosa."

Eles ficaram ali, o clã Vasconcellos, paparicando Dália, me ignorando completamente. Eles não tinham vergonha.

Meu coração, que doeu, se partiu e tentou se curar por seis longos anos, finalmente virou gelo. Cada gota de calor que eu sentia por essas pessoas evaporou.

Lembrei-me do cheiro de desespero que pairava sobre o nome Vasconcellos seis anos atrás. Um enorme escândalo financeiro envolvendo o General havia estourado. Suas terras foram confiscadas, suas contas congeladas. Eles estavam prestes a perder tudo.

A família de Dália, que eram aliados próximos, fez as malas e fugiu com a riqueza que lhes restava, deixando os Vasconcellos para enfrentar os abutres sozinhos. Dália terminou com Caio por uma mensagem de texto curta, abandonando-o em sua hora mais sombria.

Ele ficou de coração partido.

E então havia eu. Eu era uma estrela em ascensão no mundo da medicina, já incrivelmente rica. Eu estava namorando Caio. Eu vi a dor de sua família. Então eu intervi.

Eu assinei um cheque de vinte e cinco milhões de reais.

Eu, sozinha, paguei suas dívidas e salvei seu "prestigioso" nome de família.

Por um sentimento de gratidão, ou talvez obrigação, Caio me pediu em casamento. Eu aceitei, esperando que o amor crescesse.

Nunca cresceu.

Ele me ressentia. Ele ressentia sua dependência. Outros soldados em sua unidade zombavam dele por viver às custas da fortuna de sua esposa.

Mas eu tinha esperança. Eu investi tudo o que tinha nesta família, acreditando que poderia construir o lar que nunca tive.

Olhei para eles agora, circulando Dália como se ela fosse uma rainha retornando.

Eles me deviam tudo. Sua casa. Sua reputação. Sua própria existência.

Eu pagava as contas de Karina há seis anos. Não apenas sua anuidade de quatrocentos mil reais. Eu pagava por suas roupas, suas viagens de férias, seu carro. Eu comprei sua primeira bolsa de grife, uma Chanel que valia mais do que o salário mensal de Caio.

Eu tinha sido mais mãe para ela do que Beatriz jamais foi.

Eu dava a Hugo e Beatriz uma mesada de cem mil reais. Eu comprava carros novos para eles a cada dois anos. Eu pagava pelos melhores médicos e tratamentos quando sua saúde falhava.

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