Chiara
Deixei o escritório de Vittorio Castellani com um misto de confusão e frustração. A revelação de que eu não era uma herdeira me atingiu como um soco no estômago. Subi as escadas apressadamente, mal cumprimentando Henriqueta, que parecia esperar por mim.
Estava zangada com ela, acreditando que foi ela quem correu para contar ao arrogante Vittorio sobre meus planos de casamento com Rafael. A traição dela era algo que eu não estava pronta para perdoar tão facilmente.
Desabei em minha cama como uma tempestade, uma demonstração da garota mimada que, admito, sempre fui. Minha vida tinha sido repleta de privilégios, frequentando as melhores escolas de São Paulo e morando em uma luxuosa mansão no Jardim Pinheiros. Era difícil negar que minha vida tinha sido envolta em conforto. Mas agora, a lembrança de minha mãe apertava meu coração.
Minha mãe, uma figura estranha em minha vida, nunca mencionou nada sobre meu pai, afirmando que foi um encontro casual, algo sem compromisso. Essa história me fez acreditar que ela era a responsável por todas as despesas. Nunca questionei o fato de ela não trabalhar. Por que nunca parei para pensar sobre a fonte de renda de nossa família? Éramos só nós duas, já que minha mãe era filha única e meus avós faleceram quando eu era criança.
Quando Vittorio veio até nossa casa após o funeral de minha mãe, eu estava emocionalmente devastada para realmente entender suas palavras. Tudo o que eu conseguia captar era que ele se tornaria meu responsável legal a partir desse dia. Uma decisão tomada com o consentimento da minha mãe. Eu presumi que minha ela confiava naquele homem.
Hoje, percebo o quanto fui ingênua e negligente durante todos esses anos, desfrutando das benesses sem sequer considerar de onde vinham ou por quê. Agora, as respostas que eu nunca busquei estão sendo jogadas na minha cara, e eu me sinto completamente perdida.
Meu celular tocou, exibindo o número de Rafael. Se fosse em qualquer outra circunstância, eu teria atendido a ligação ansiosamente. Porém, agora, eu apenas assisti a chamada se transformar em caixa postal. Eu não sabia o que dizer a ele.
Seguir em frente com meu desejo de me casar com Rafael significaria abrir mão de minha estabilidade financeira. Poderia fazer isso, mas tínhamos planos de construir um negócio juntos. Apenas pensar nisso apertava meu peito, uma dor profunda.
Rafael, meu amor. Ele era lindo, gentil e carinhoso, tudo o que eu sempre sonhei. Após anos de solidão, apenas com Henriqueta ao meu lado, ele preencheu os vazios em minha vida.
A raiva tomou conta de mim novamente. Vittorio Castellani, o homem que eu desprezava, estava mais uma vez desfazendo meus sonhos e planos. Recordar que, quando o conheci aos quinze anos, achei-o fascinante e imponente, deixou-me com um gosto amargo.
Eu aguardei ansiosamente por seu retorno, mas ele não apareceu nos três anos que se seguiram. Ele foi designado para cuidar de mim, mas não se importou em verificar pessoalmente como eu estava. Acompanhei-o pela mídia, sempre cercado por mulheres bonitas. Vittorio era um mulherengo, e eu não passo de um estorvo para ele.
A frustração e a raiva dentro de mim atingiram um ponto de ebulição. Sem pensar duas vezes, levantei-me da cama e entrei em meu closet com uma determinação furiosa. As roupas penduradas e arrumadas cuidadosamente em cabides pareciam zombar de mim. Com um movimento de desafio, arranquei as peças uma a uma, lançando-as desordenadamente no chão.
Fui implacável, agarrando cada peça de roupa, cada lembrança de minha vida privilegiada, e jogando tudo no chão com uma mistura de desespero e rebeldia. Camisetas, vestidos, calças caras e sapatos elegantes formaram uma confusão caótica em torno de mim.
Mas, no meio desse caos, uma ideia começou a se formar em minha mente. A raiva e a determinação se transformaram em um plano ousado. Peguei uma mala do canto do closet e comecei a selecionar algumas peças de roupa. Cada peça escolhida representava minha independência e minha vontade de tomar minhas próprias decisões.
Eu não iria me submeter às ordens de Vittorio Castellani, um homem que não tinha nenhuma relação real comigo, exceto pelo fato de ser o responsável legal que apareceu do nada. Ele não tinha o direito de governar minha vida e minhas escolhas.
Eu estava decidida a agir. Peguei meu celular e disquei o número do Rafael. Ele atendeu após alguns toques, sua voz me acalmando instantaneamente.
—Meu amor, estava com saudades de ouvir a sua voz — Rafael disse em tom carinhoso
— Precisamos conversar. Agora — declarei, minha voz soando firme e decidida.
—Claro, onde você está? Eu vou até aí — ele respondeu prontamente.
— Não, Rafael. Eu vou até você. Estarei aí em breve.
Desliguei o telefone e fechei a mala com um estrondo. Peguei a mala e saí do quarto, descendo as escadas com uma determinação que eu nunca havia sentido antes.
Henriqueta me olhou com surpresa quando passei por ela em direção à porta da frente.
— Onde você está indo, Chiara? — ela perguntou, preocupada.
— Vou sair por um tempo, Henriqueta. Não se preocupe, eu estarei bem — respondi, tentando acalmar sua preocupação.
Eu não tinha certeza de como tudo isso iria se desenrolar, mas uma coisa era certa: eu não iria mais ficar à mercê das decisões de Vittorio. Eu estava determinada a reivindicar minha independência e a lutar pelo meu próprio destino.
— Essa não é uma boa ideia — Henriqueta parecia realmente acreditar que não — Não pode desafiar o senhor Castellani dessa forma, menina.
— Se você tem medo dele, eu não tenho nenhum pouco. Até mais.
Fui até a garagem e escolhi um dos carros que estavam disponíveis. A minha mãe colecionava carros e tínhamos seis deles em nossa garagem, algo que sempre me chamou atenção. Sem falar no fato de ela sempre estar trocando de modelo. As cores também, sempre eram bastante variadas. Eu até mesmo cheguei a comentar que ela parecia estar tentando enganar algum investigador, mas ela apenas riu e eu não pensei mais sobre esse assunto. Agora aquele detalhe novamente estava em minha mente.
Pensava sobre isso quando cheguei ao enorme portão da propriedade e aguardei que um dos guardas liberasse a minha saída, algo que não aconteceu. Esperei cinco minutos contados. Abri a janela, mas nenhum deles parecia notar a minha presença.
— Qual o problema? — Perguntei em voz alta, me fazendo ouvir mesmo a distância — Por que ainda não abriram o portão?
— Ordens do senhor Castellani.
Não é possível! Vittorio não tem palavra? Ele disse que eu poderia tomar as minhas próprias decisões e agora pretende me prender dentro da propriedade?
— Ele não pode me prender aqui! — Gritei com descontrole — Isso é cárcere privado!
Além do guarda que expôs as ordens do seu patrão, também estavam mais dois homens; Um deles se aproximou mais do veiculo e me encarando com uma expressão de seriedade extrema, ele explicou:
— Na verdade, o senhor Castellani não proibiu a sua saída, senhorita. Pode sair quando desejar. Mas…
— Então abram o portão! — Gritei, o interrompendo.
O homem mostrou o seu desagrado com a interrupção, me encarndo com um olhar visivelmente contrariado. Somente neste momento me dei conta do quanto os seguranças da casa parecem… ameaçadores.
— A senhorita pode sair. Os carros, não.
Encarei o guarda com incredulidade. Então, eu não posso usar nem mesmo um dos carros? Haha! Se Vittorio pensa que isso me fará mudar de ideia, ele está muito enganado.
— Não tem problema — falei para os homens, já descendo do carro e pegando a mala no banco de trás — Eu vou chamar um táxi.
Chiara
Pressionei a campainha do apartamento de Rafael, sentindo um nervosismo inquietante. Embora estivéssemos noivos, nunca compartilhamos a mesma cama. O fato de eu estar ali com uma mala indicava que esse cenário estava prestes a mudar, e a simples ideia me deixava com um frio na barriga.
— Meu amor! — Rafael exclamou com entusiasmo enquanto abria a porta e me envolvia num abraço forte — Entra!
Me afastei dos seus braços e apontei para a mala ao meu lado.
— Você pode pegar isso para mim? — pedi, seguindo em direção ao interior do pequeno apartamento — Estou exausta. Tive que carregar essa mala até aqui.
Escolhi uma mala grande, pois, honestamente, não tenho ideia do que o futuro me reserva. A única certeza que eu tenho é de que não podia mais ficar em um lugar onde estavam tentando controlar meus desejos. Sou adulta e tenho o direito de fazer minhas próprias escolhas. Vittorio está muito enganado se pensa que pode ditar minha vida.
— O que está acontecendo? — Rafael indagou, deixando a mala no meio da apertada sala — Porque trouxe uma mala?
Me joguei nos braços de Rafael, sentindo um alívio ao estar no calor reconfortante dele. Contei tudo sobre a discussão acalorada que tive com Vittorio a respeito das minhas escolhas e da nossa decisão de nos casar.
Rafael me envolveu com ternura, acariciando meus cabelos enquanto ouvia atentamente minha história. Sua expressão se fechou quando mencionei que Vittorio havia ameaçado cortar todos os meus benefícios financeiros, deixando-me em uma situação difícil.
— Não posso acreditar que ele faria algo assim — disse, com uma mistura de preocupação e indignação. — Isso é injusto, Chiara. Você tem o direito de tomar suas próprias decisões e viver a sua vida da maneira que escolher.
Era reconfortante ouvir suas palavras de apoio. Rafael era meu porto seguro, alguém em quem eu podia confiar plenamente.
— Rafael, eu não sei de onde vem o dinheiro que mantém todas as contas e despesas em dia — eu admiti, franzindo a testa. — Nunca questionei, pois sempre foi assim desde que me lembro.
Ele franziu o cenho, pensativo.
— Isso é estranho. Você precisa saber de onde vem esse dinheiro, Chiara.
Rafael segurou meu rosto com carinho, seus olhos fixos nos meus.
— Vamos investigar isso melhor. Talvez seja hora de contratar um advogado e descobrir o que está acontecendo. Você merece ter controle sobre a sua vida e o seu futuro.
Balancei a cabeça, ainda tentando assimilar todas as informações e opções. Era um passo ousado, mas senti que era a hora de tomar as rédeas da minha própria história.
— Você tem razão, Rafael. Não vou permitir que Vittorio ou qualquer outra pessoa me impeça.
Rafael sorriu, orgulhoso, e segurou minha mão com firmeza.
— Conte comigo, meu amor. Vamos descobrir a verdade e fazer o que for necessário para garantir que você tenha o controle que merece.
Naquele momento, senti uma determinação renovada crescer dentro de mim. Nós permanecemos abraçados, sentindo o calor reconfortante um do outro enquanto o sol começava a se pôr, pintando o céu com tons alaranjados e dourados.
Rafael olhou nos meus olhos e sorriu.
— Que tal irmos ao cinema esta noite? — ele sugeriu, com um brilho travesso nos olhos.
Eu retribuí o sorriso e assenti.
— Claro, adoraria.
A noite no cinema foi maravilhosa. Rimos, nos envolvemos na trama do filme e compartilhamos um balde gigante de pipoca. O tempo voou e logo estávamos voltando para casa, mãos dadas e corações leves.
Ao chegarmos ao apartamento, Rafael me abraçou pela cintura, puxando-me para perto. Nossos lábios se encontraram em um beijo doce e apaixonado, enchendo o ambiente com eletricidade.
No entanto, enquanto o beijo se aprofundava, Rafael começou a ousar nas carícias, suas mãos explorando áreas mais íntimas do meu corpo. Senti um leve desconforto e me afastei delicadamente.
— Rafael, eu... — comecei, buscando as palavras certas.
Ele me olhou, um tanto surpreso com minha reação.
— O que houve, Chiara?
Respirei fundo, tentando expressar meus sentimentos da melhor maneira possível.
— Rafael, eu te amo. E sei que estamos noivos, pensando em nos casar. Mas, essa é uma etapa importante, e eu ainda não me sinto pronta para dar esse passo. Precisamos respeitar o meu tempo.
Rafael pareceu frustrado e soltou um suspiro.
— Chiara, nós já estamos noivos, e isso significa que estamos comprometidos em todos os sentidos. Eu pensei que você estivesse pronta para isso.
Balancei a cabeça, com a compreensão de que ele estava desapontado.
— Eu entendo, Rafael, mas é uma decisão que eu preciso tomar quando me sentir confortável. Não podemos apressar as coisas.
Ele se afastou um pouco, cruzando os braços.
— Parece que você ainda tem medo de confiar em mim completamente.
Minha expressão suavizou enquanto eu segurava suas mãos.
— Não é uma questão de confiança, é uma questão de respeito pelo meu próprio ritmo. Eu te amo, Rafael, mas preciso que você entenda isso.
Ele olhou para mim por um momento, seu olhar oscilando entre frustração e compreensão.
— Tudo bem, Chiara. Vamos fazer do jeito que você achar melhor.
Eu sorri, aliviada por sua compreensão.
— Obrigada, Rafael. Isso significa muito para mim.
Embora um clima de tensão pairava no ar por um momento, eu sorri e o beijei levemente, tentando manter as coisas mais leves.
— Vamos dormir? — O convidei, pois agora estava realmente cansada.
Foram tantos os acontecimentos daquele dia, que era como se o meu confronto com Vittorio já fizesse bastante tempo e não apenas algumas horas.
— Melhor eu dormir no sofá — Rafael me surpreendeu ao dizer — Não acho uma boa ideia dormir na mesma cama que você. Ao menos, não por enquanto.
O restante da frase ficou subentendido e confesso que isso me deixou um tanto quanto desapontada com Rafael. Sorri, fingindo compreensão.
— Está bem. Até amanhã, Rafael.
Eu fiquei ali por um momento, observando Rafael se afastar e se acomodar no sofá. Uma sensação de desânimo tomou conta de mim, mas eu sabia que precisava respeitar o espaço dele também. Ainda assim, não pude deixar de me sentir um pouco magoada com a decisão que ele tinha acabado de tomar.
Caminhei até o quarto e me deitei sobre a cama larga, encarando o teto por um tempo. Meus pensamentos estavam confusos e tumultuados. Eu realmente amava Rafael, mas esta noite tinha mostrado que temos diferentes perspectivas sobre a intimidade e a velocidade em que nossa relação estava evoluindo.
A situação toda voltou a minha mente e a imagem de Vittorio se sobrepõe a todo o restante. Eu o odeio, mas a atração que sinto por ele ainda está aqui. Toquei os meus lábios com as pontas dos dedos, recordando a forma como ele falava e o quanto a sua boca despertava em mim emoções e desejos proibidos.
“Eu só estou tentando protegê-la, mesmo que você não compreenda isso agora” Essas palavras despertaram a minha atenção. Ele quer me proteger? Ele está tentando me privar da felicidade que posso encontrar ao lado do homem que amo e isso não é proteção.
“você é jovem, impulsiva e inexperiente…”
Se as minhas fantasias fossem levadas em consideração, eu não seria tão inexperiente assim, pensei com malícia e logo me repreendi. Vittorio é meu inimigo e não posso pensar nele dessa forma.
Lentamente, fechei os olhos e tentei acalmar minha mente. Uma garota como eu jamais iria despertar o interesse de um homem como Vittorio e a maior prova disso é que mesmo sendo o meu tutor, ele me abandonou sozinha em São Paulo durante anos e isso eu jamais vou perdoar.
Eventualmente, a exaustão da noite emocionalmente intensa começou a me dominar, e eu me vi caindo no sono.