Capítulo
2
A manhã havia chegado, clara e com os cantos dos passarinhos além das janelas. Eu tive uma noite tranquila, com os mesmos sonhos de todas as noites dos últimos meses. Eu, dentro de um romance literário de Carina Rissi, vivendo uma mágica história de amor com Ian Clarke! Mas a realidade estava alta nos meus ouvidos, o barulho dos carros na rua, o alto falante da TV na sala e o despertador do meu celular... Século XXl, aqui estamos!
Então, me preparando para mais um ano com todas suas obrigações e tarefas, eu me levantei da cama e desci até a cozinha. O cheiro forte do café conseguiu me despertar mais um pouco. Minha mãe e minha irmã estavam na cozinha e estavam tendo uma conversa animada sobre o primeiro de trabalho de Fernanda. O meu pai estava na sala, assistindo os noticiários da manhã. E eu estava me sentando na mesa, esperando o meu cérebro acordar.
As minhas férias foram ótimas. Coloquei minha leitura e séries em dias. Consegui descansar e aproveitar ao máximo a minha própria companhia. Mas o trabalho me chamava, e no fundo, eu estava infinitamente animada para poder dar aulas novamente. Conhecer rostinhos novos e fazer o máximo para inspirar aquelas crianças a serem melhores, a sonhar. Eu amava o que eu fazia! Eu não trocaria a minha profissão por nada e nem por todo o dinheiro do mundo que eu poderia ganhar fazendo qualquer outra coisa. Eu sempre preferia a educação.
- Animada com a volta às aulas? – Fernanda me perguntou enquanto mordia uma maçã.
Assenti com a cabeça lentamente, incapaz de conseguir formar uma frase coerente ainda.
- Eu estou bastante nervosa. Primeiro dia é sempre assim? – ela voltou a falar. – Tudo bem que eu já trabalhei antes, mas agora, exercendo o que eu realmente estudei e o que eu amo. Isso é tão... Uau! – a sua empolgação me fez sorrir.
- Eu estou feliz por você. Vai se dar muito bem. – Finalmente abri a boca.
Minha irmã também lecionava. Mas a sua área de conhecimento era bastante específica. História. Era uma matéria deveras importante, até gostava muito no meu tempo de escola, mas... Ela era corajosa, de toda forma.
- Nunca estive tão orgulhosa de vocês! – minha mãe sorriu e se sentou ao nosso lado da mesa. – Eu sempre me culpei por ter adiado, de alguma forma, a conquista de vocês. Mas olha agora, vocês conseguiram. E falta tão pouco, Fabíola. – ela sorriu e pegou minha mão.
Minha irmã e eu nos entreolhamos. Felizes por termos chegado longe. E superanimadas por aquele ano! Seria o nosso ano!
Eu havia me formado no ensino médio com dezoito anos e já comecei a trabalhar em uma creche em tempo integral. Eu queria fazer faculdade logo em seguida, mas meu pai perdeu o emprego na época, e minha mãe é diabética e precisava do plano de saúde. Como a faculdade pública de Pedagogia é integral e eu não teria tempo trabalhar, mas eu precisava, eu tive que adiar a entrada na faculdade e focar no meu emprego. Foram dois anos, eu e minha irmã "sustentando" todas as contas de casa. Minha mãe é costureira e teve problemas na visão e não estava podendo costurar, com isso levei três anos para entrar na faculdade particular porque ainda não podia parar de trabalhar. Então, eu trabalhava das 7:30h às 17:30h e ia pra faculdade de 18h:50 às 22:20h, e foi assim durante quatro anos.
Eu sempre levei minha carreira e meu trabalho a sério, então não tinha muito tempo para relacionamentos. E isso nunca me incomodou. Eu estava solteira, sempre fui solteira. E não estava desesperada nesse ponto da minha vida. Mas houve momentos nesse último ano que me fizeram questionar essa parte minha. O tempo estava passando e talvez, eu... Ok, não precisamos conversar sobre essa parte agora. Talvez nunca!
E quando se trata de mim, sempre tem a questão do medo. Ele me segue de uma maneira platônica.
Eu fui criada em uma família patriarcal. Meu avô dava a última palavra, meninas não podiam brincar com meninos, nem usar esmaltes vermelhos. Eu era vestida como princesinha. Aliás, eu e minha irmã fomos o sonho da minha mãe e de toda a família. Mamãe fez tratamento de cinco anos para engravidar, e ela conseguiu esse presente em dose dupla. Gêmeas. Fabíola e Fernanda. Logo após nosso nascimento, minha avó materna faleceu, o que fez com que ela superprotegesse eu e minha irmã. Minha adolescência foi um tanto... Intrigante! Mas nada importante demais para ser focado.
- Agora eu preciso ir cuidar. – Me despedi da minha irmã e da minha mãe na mesa depois de alguns minutos de conversa e café da manhã. – Vejo vocês mais tarde. Tenha um bom dia, mãe. E um ótimo dia de trabalho, Nanda.
E em passos rápidos, segui para o meu quarto. Me arrumei, peguei tudo que eu precisava para sobreviver ao primeiro dia de trabalho do ano e fui para mais um dia de glória/luta.
***
O primeiro dia foi do jeito que eu imaginava. Choro, gritaria, primeiras impressões, brincadeiras, pirulitos e muita, muita dor de cabeça. Estar de volta era isso!
Eu estava no intervalo e tomava mais uma xícara de café no refeitório dos professores - eu sobrevivia assim nesses dias - quando minha amiga chegou, com sua euforia sempre alta.
- Bíola, você não faz ideia do que eu irei fazer hoje á noite. – Sarah se sentou ao meu lado e me mostrou uma mensagem de texto que trocava com seu ficante do momento.
Li atentamente a mensagem só para sentir meu rosto queimar de vergonha.
- Pensei que iria para faculdade. As aulas começam hoje. – Eu ignorei o assunto um tanto... Quente em suas conversas.
Sarah deu de ombros e mexeu nos cachos de seus cabelos.
- Eu posso ir fazer os dois. – Ela sorriu de leve. – Vou para aula, e ele me pega na faculdade e nós iremos para algum lugar onde eu possa gritar à vontade.
Soltei uma risada. Era engraçado a maneira como ela conseguia fazer e falar tudo com naturalidade. Só de pensar e ouvir o que ela estava falando, eu ficava nervosa.
Eu sempre tinha a mania de fugir quando algo que pudesse me fazer sair da rotina aparecia. Eu gostava demais da calmaria, da ideia de não me machucar lá na frente. Mas minha amiga era diferente de mim. Na verdade, todo mundo ao meu redor era diferente mim. Todo mundo parecia tão mais... Destemido.
- E você, hein? – Sarah continuou a falar. – Seu último ano, acho que chegou a hora de finalmente...
- Sarah, cala a boca. – Eu a interrompi sabendo exatamente o que ela iria falar. – Eu estou muito bem. Eu estou adorável do jeito que eu estou. – Dei de ombros e terminei de tomar meu café. – Viva a sua vida e esqueça a minha.
- É exatamente por isso que você tem que transar! Que mau humor forte. Sua grossa. – Ela me deu uma tapa no braço.
Voltei a sorrir. Eu ouvia que estava grossa com frequência. Mas eu não era assim. Eu era amável, mas aquela menina... Se não fosse minha amiga, eu juro que mandava atropelar.
- Eu só não vou querer alguém que não supre as minhas expectativas. – Dei de ombros. – Olha ao redor, você acha que alguém aqui, irá me fazer ceder com todos os meus ideais românticos?
- Claro que não! – Sarah gritou. – Só tem criança ao seu redor, Bíola. E por favor, você nunca irá encontrar um Ian, Dante, Edward, Max, ou qualquer crush literário seu se não se permitir. Você só fica esperando um cavalheiro, numa armadura reluzente vir te salvar e não faz absolutamente nada! – ela parecia irritada comigo e eu me divertia. – E para ser sincera, isso não vai rolar. Você só ama esses caras porque eles estão nas páginas de uns livros. Na vida real, eles são... Bem, reais. – Ela deu de ombros.
Se eu ganhasse um real toda vez que eu ouvisse aqueles argumentos, eu provavelmente estaria mais rica que J.K. Rowling. Porque no fundo, eu sabia disso tudo. Mas eu não queria aceitar. Meu momento iria chegar e a magia ainda estaria ali. Mas eu já havia deixado de tentar argumentar sobre isso há muito tempo. Ninguém entenderia. Às vezes, nem eu mesmo entendo.
Mas esta sou eu. Uma mulher adulta com uma alma adolescente.
- Bom, Sarah, eu preciso ir trabalhar. – Me levantei daquela cadeira e olhei para minha amiga. – Enquanto eu não vivo, eu tenho certeza de que você está fazendo isso por mim ao quadrado.
Ela sorriu orgulhosa e abriu os braços como se tivesse acabado de fazer uma apresentação de teatro. Revirei os olhos e segui para fazer o meu resto do dia.
Minha vida estava bem, não estava? Tudo estava em seus trilhos, sem nenhum mal ocorrido. Mas por que, de repente, eu senti que precisava de uma adrenalina? Por que eu estava querendo ocupar os espaços vazios?
Você está pronta para isso?
Capítulo
3
Eu estava encarando a minha imagem no espelho do banheiro da faculdade. Observando a mulher de um metro e sessenta e cinco, de cabelos negros longos, os olhos castanhos escuros e desejando um bom último período para mim mesma. Eu tinha a mania de desejar toda energia positiva para mim, de me encher de incentivo e motivação. Principalmente naquela altura da minha vida.
Com vinte e cinco anos e pronta para me formar, o que era para ter acontecido o ano passado. Mas perdi o emprego e descobri que poderia estar doente, então ficou difícil puxar todas as disciplinas. Mas essa era a parte que eu evitava lembrar no momento. Porque sobrara um medo muito grande em minha mente, que eu não fazia ideia de como me livrar dele no momento.
De todo modo, eu precisava seguir adiante. Segui para a sala de aula e revi os colegas de classe que não via há tempos desde às férias. Era óbvio que existiam pessoas que eu não queria rever, tipo nunca. Mas eu estava numa fase tranquila da vida. Tentava me dar bem com todo mundo. Era quase um desafio, mas eu conseguia.
- Vocês ficaram sabendo? – Well se aproximou com tamanha velocidade e euforia.
Depois das duas primeiras aulas, eu e Sarah seguimos para o refeitório e ficamos esperando o homem da noite que iria buscá-la. Eu não estava me dando trabalho de decorar os nomes, porque provavelmente no outro dia, seria outra pessoa, com outro nome, então...
- Que você atrapalhou nossa conversa? – Sarah sorriu com sarcasmo para o nosso amigo.
- Não enche, sua louca. – Ele revirou os olhos. – A conferência de Metodologias Ativas No Ensino em São Paulo vai ser esse final de semana! – ele anunciou com felicidade.
- Esse? Mas já? – eu perguntei. – Não estava previsto para a metade do ano?
Essas conferências em outros estados sempre me animavam, porque além de aprender coisas indispensáveis para licenciatura, eu e meus amigos sempre nos divertíamos o máximo que podíamos. Bem, eu menos que todos, como eles sempre faziam questão de lembrar.
- Sim. Mas houve uma confusão com as datas e blábláblá... E vai ser esse final de semana mesmo. Mas isso não é o importante. – Ele se sentou ao lado de Sarah e eu segurei o riso.
- Lá vem! – Sarah virou o rosto para lhe encarar.
- Eu conheci um boy novo esses dias que é de São Paulo. E adivinha onde eu irei passar minhas noites? – Well sorriu maliciosamente.
- Você é uma cachorra! – Sarah bateu em seu braço e nós sorrimos. – Ele tem algum amigo hétero?
- Esta é a outra parte. – Well olhou para mim e eu fiquei na defensiva. – Ele tem um amigo super gatinho que eu vou apresentar a Bíola.
- Não. – Eu disse simplesmente.
E o show de argumentos dele e de Sarah encheram meus ouvidos. Seria divertido se não fosse tão irritante.
- Caramba, garota. Está na hora de colocar o que você guarda debaixo dessa saia na ativa. – Well revirou os olhos.
- Não precisa ser diretamente isso logo assim. – Sarah fez uma careta, mas eu sabia que era exatamente isso que ela queria eu fizesse. - Só uns beijinhos de início, amiga.
- Daqui a pouco você completa trinta anos e não vai romper teu hímen. – Well falou com tanta serenidade que parecia ser um assunto de vida ou morte.
Eu esperei os dois terminarem suas palestras, para eu finalmente abrir a minha boca.
- O problema é que ninguém quer ficar em beijos na minha idade, de início. O ficar deles é na cama e a minha Deusa interior é romântica. – disse, esperando mais uns daqueles comentários.
- Vai morrer virgem então. – Sarah deu de ombros.
- Não se eu esbarrar em alguém sem querer, aí ficarmos conversando e daí vamos nos apaixonar e depois de fazer passeios fofos, vamos pra cama. – Respondi de imediato.
Sarah e Well me encararam como se eu fosse algum tipo de alucinação. As testas franzidas e os lábios entreabertos.
- Ou então o clichê... – Eu continuei. - Quando a gente se conhecer se odiar, e ficar implicando um com o outro. Aí fazemos um passeio e descobrimos que temos que ficar na mesma cama. – Terminei minha linha de raciocínio.
Sei que não fazia sentido para ninguém, mas para mim, sim. Então estava tudo bem.
- Ai, amiga, sonhou toda. – Well mexeu nos cabelos claros.
Dei uma risada e Sarah se levantou da mesa no mesmo instante, o celular em mãos.
- O meu clichê acabou de chegar. E se tudo dê certo, amanhã não irei conseguir andar. Esse é o meu conto de fadas preferido e real. – ela soltou beijinhos no ar e saiu pelos portões da faculdade.
- Mal posso esperar para quando ela se apaixonar. – Well comentou e eu lhe encarei.
- Se apaixonar? – perguntei. – Achei que não acreditava nisso.
- Mas é claro que eu acredito. – Ele se sentou ereto para me olhar atentamente. – Mas eu só acredito no que está mais próximo da realidade, no mundo real. – ele mordeu o lábio.
- Eu entendo. E nada mais racional que isso. – Eu ignorei sua real observação.
- Fabíola, você entendeu o que eu lhe falei. – Os olhos verdes estavam sérios. – Não estou querendo lhe apressar a nada, mas, amiga, nunca houve um cara! O cara, ao menos. Além daquele que virou prostituto.
Soltei uma risada.
Houve outro cara, sim. Mas era mais uma amizade que qualquer outra coisa. Eu o conheci no Ensino Médio, mas sempre o vi como amigo. Então, depois de uns seis anos, ele resolveu dar em cima de mim, e me chamou para sair durante um ou dois anos, mas eu achava que não gostava dele assim. Depois de umas semanas, eu descobri que tinha sentimentos por ele sim, mas o medo não me deixava aceitar. Só que já era um pouco tarde demais. Ele começou a namorar e agora estava noivo, mas às vezes ainda me mandava umas mensagens estranhas e me deixava confusa.
Talvez seja porque as únicas "histórias de amor" que eu realmente vivi, tivessem sido traumatizantes ou não correspondidas o suficiente para que eu não quisesse aceitar qualquer coisa. Eu só queria alguém que me falasse que havia passado o dia inteiro sonhando comigo e que realmente sonhasse.
- O que eu estou tentando dizer, amiga. – Well me chamou de volta ao presente. – É que você é linda demais, gostosa demais e eu viraria até hétero por você. E é mais que isso, é uma pessoa inteligente, madura. Sério, eu só quero que você viva e não guarde isso só para você. Se joga, amiga! Se arrisca. E eu tenho várias táticas para conquista que são infalíveis. – Ele mostrou a língua e fechou os olhos.
Sorri mais uma vez e apertei sua mão. Agradecendo pelos elogios e agradecendo por me aturar. Mesmo sendo tão diferentes um do outro.
- Agora, eu realmente preciso assistir aula. – Eu me levantei daquela cadeira e puxei Well. – Um dia de cada vez, está bem?
- Eu sinto que nessa viagem vai acontecer! – ele deu de ombros e seguimos para a aula.
Well nunca errava suas superstições. Então, eu acho que ele sabe.