Capítulo 2

Ponto de Vista de Elisa Ferraz:

O fantasma do abandono do meu pai me assombrou por vinte anos. Ele não apenas deixou minha mãe e eu; ele desapareceu, apagando-se de nossas vidas como se fôssemos um erro que ele estava corrigindo. Minha mãe, uma mulher de força incrível, definhou sob o peso de sua partida. Ela faleceu quando eu tinha dezenove anos, deixando-me com uma herança, o apartamento em Curitiba e um medo profundo e constante de ser deixada para trás.

A única peça tangível dela que me restou foi seu vestido de noiva. Um lindo vestido de renda feito à mão que ela mesma desenhou. "Um dia, minha querida", ela sussurrou, sua voz fraca, mas cheia de amor, "você vai usar isto, e vai se casar com um homem que mereça cada grama do seu lindo coração."

Henrique Montenegro me encontrou quando meu coração ainda era uma fortaleza de luto e desconfiança. Ele foi implacável. Por seis anos, ele me perseguiu com uma devoção obstinada que lentamente corroeu minhas defesas. Ele aprendeu meu pedido de café, lembrou os nomes dos meus artistas favoritos e sentou-se comigo durante longas noites silenciosas quando o luto era pesado demais para suportar.

Lembro-me do dia em que finalmente lhe contei sobre meu pai. Estávamos sentados em um banco de parque, as folhas de outono caindo ao nosso redor como lágrimas douradas. Expus meu medo mais profundo, a parte feia e aterrorizada de mim que acreditava que todos que eu amava eventualmente iriam embora.

Ele pegou minhas mãos, as suas quentes e firmes, e olhou diretamente nos meus olhos. Sua voz estava embargada de emoção. "Elisa, eu juro a você, pela minha vida, eu nunca serei esse homem. Eu nunca vou te deixar. Vou passar o resto da minha vida provando que você é a única que eu sempre vou querer."

Esse foi o momento em que o deixei entrar. Esse foi o momento em que comecei a acreditar em um futuro.

Agora, suas palavras ecoavam na caverna oca do meu peito, uma zombaria cruel das promessas às quais eu me agarrei. Ele não apenas usou meu trauma como desculpa; ele o usou como arma. A própria vulnerabilidade que ele jurou proteger era agora a justificativa para sua traição.

Sua alegação de que eu era "previsível" e "triste" cortou mais fundo do que qualquer ferida física poderia. Cada palavra que eu ouvi foi um dardo envenenado, alojando-se em minha alma.

Ainda esta manhã, ele me beijou de despedida, seus lábios quentes contra os meus, e sussurrou: "Contando os segundos até você ser minha esposa." Ele era um ator fenomenal. A percepção foi arrepiante. O homem com quem eu estava prestes a me casar era um estranho, um mestre do engano escondido atrás de uma máscara de devoção.

Tudo bem. Dois podiam jogar esse jogo.

Depois de comprar meu voo, meu celular vibrou incessantemente. Uma dúzia de mensagens de Henrique, cada uma mais frenética que a anterior.

Onde você está? Eu saí e você tinha sumido.

Amor, está tudo bem? Me liga.

Elisa, você está me assustando. Por favor.

Desliguei o celular e o joguei na bolsa. Eu não podia voltar para aquela casa, ainda não. Andei sem rumo pelas ruas da cidade, o sol poente pintando o céu em tons de roxo e laranja machucados. Estava tão perdida em minha própria tempestade de dor que não vi o ciclista até que ele estivesse quase em cima de mim.

Ele desviou, gritando algo que não registrei. Cambaleei para trás, meu tornozelo torceu e caí com força no asfalto. Uma dor aguda subiu pela minha perna. Antes que eu pudesse processar o que aconteceu, um carro cantou pneu e parou ao meu lado.

A porta se abriu e Henrique estava lá, seu rosto uma máscara de terror.

"Elisa! Meu Deus, você está bem?" Ele se ajoelhou ao meu lado, suas mãos pairando sobre mim como se tivesse medo de me tocar. Ele me ajudou a sentar, seu toque surpreendentemente gentil. "O que você estava pensando, andando no meio da rua assim?"

Eu o encarei, minha mente um turbilhão de confusão e nojo. Ele parecia tão genuinamente preocupado. A preocupação em seus olhos era o mesmo olhar que ele me dera por seis anos. Por um momento vertiginoso, quase acreditei que era real. Quase acreditei que tinha imaginado a conversa, o cabelo loiro, a traição.

"Eu... eu não estava prestando atenção", gaguejei, a mentira com gosto de cinzas na minha língua.

Ele me ajudou a ficar de pé, seu braço seguro em volta da minha cintura. "Você tem agido estranha o dia todo. O que há de errado, amor? Você pode me contar qualquer coisa."

Ele olhou nos meus olhos e, por uma fração de segundo, vi o homem por quem me apaixonei. O homem que me conquistou com sua persistência, que me fez acreditar na lealdade novamente. O homem que uma vez dirigiu três horas em uma tempestade de neve só para me trazer uma marca específica de sopa quando eu estava doente. Como aquele homem e o monstro do escritório poderiam ser a mesma pessoa?

Sua preocupação parecia outra camada de sua performance elaborada, uma ilusão finamente trabalhada. Eu era apenas mais um projeto, outra aquisição.

"Estou apenas estressada", eu disse, minha voz monótona. "O casamento."

O alívio inundou suas feições, tão palpável que era doentio. "Claro. Eu entendo. Não se preocupe com nada. Eu cuidarei de tudo." Ele me apertou mais forte, sua voz um murmúrio baixo e calmante. "Eu te amo tanto, Elisa. Nunca se esqueça disso."

Ele me guiou de volta ao nosso apartamento, seu toque terno, suas palavras um bálsamo em uma ferida que ele mesmo infligiu. Ele preparou um banho quente para mim, pedindo minha comida favorita sem que eu precisasse pedir.

Enquanto eu mergulhava na banheira, tentando acalmar a dor latejante no meu tornozelo e o inferno que ardia em meu coração, senti uma lágrima finalmente escapar e traçar um caminho quente pelo meu rosto. Ele era tão bom nisso. Tão perfeito. Teria sido tão fácil acreditar nele, descartar meus medos e voltar para a mentira confortável de nossa vida juntos.

Mas eu não podia. Eu não faria isso.

Mais tarde, enquanto ele me mimava no sofá, seu celular acendeu na mesa de centro. Uma mensagem de texto. Vi a prévia por uma fração de segundo antes que ele o pegasse. Era uma foto de uma mulher de lingerie — Carla Penteado — com a legenda: Com saudades.

Seus olhos, quando se ergueram para encontrar os meus, continham um brilho de algo que eu não tinha visto antes. Um flash de desejo cru e sem disfarces. Desapareceu tão rápido quanto apareceu, substituído por seu olhar amoroso característico.

"Coisa urgente do trabalho", disse ele, sua voz suave como seda enquanto se levantava. "Um servidor caiu. Tenho que ir resolver. Volto assim que puder, prometo."

Ele se inclinou para me beijar, mas virei a cabeça para que seus lábios encontrassem minha bochecha. Ele parou por um momento, depois se endireitou e saiu sem outra palavra.

No momento em que a porta se fechou, uma onda violenta de náusea me dominou. Mal consegui chegar ao banheiro antes de vomitar, meu corpo convulsionando enquanto eu esvaziava o conteúdo do meu estômago, e do meu coração, na porcelana fria e branca.

Capítulo 3

Ponto de Vista de Elisa Ferraz:

Henrique pensou que eu estava dormindo no sofá quando voltou horas depois, cheirando levemente a um perfume de mulher que definitivamente não era o meu. Ele me pegou gentilmente nos braços e me levou para a nossa cama, seus movimentos praticados e ternos. A pura hipocrisia daquilo fez minha pele arrepiar. Ele me cobriu, beijou minha testa e sussurrou: "Bons sonhos, meu amor."

Os sonhos que vieram foram tudo menos doces. Eram uma montagem caótica do rosto sorridente do meu pai se tornando cruel, das promessas de Henrique se quebrando como vidro e da risada de Carla Penteado ecoando na escuridão.

Acordei tremendo, encharcada de suor frio. Henrique estava dormindo ao meu lado, um braço jogado protetoramente sobre minha cintura. Sua respiração era profunda e regular. Ele parecia pacífico, inocente. Um monstro em repouso.

Gentilmente, deslizei para fora de seu braço e fui à cozinha pegar um copo d'água. O celular dele estava no balcão onde ele o deixara. Foi um ato tolo e impulsivo, nascido de uma necessidade desesperada de confirmação do que eu já sabia. Minhas mãos tremiam enquanto eu o pegava. Não tinha senha. Claro que não. Ele era arrogante a esse ponto.

Suas mensagens de texto com Carla estavam no topo. Rolei a tela, meu coração batendo um ritmo doentio contra minhas costelas. Era pior do que eu poderia ter imaginado. Fotos explícitas, fantasias grosseiras, planos para o próximo encontro. Ele estivera com ela esta noite, em um hotel a apenas alguns quarteirões de distância. Ele me deixou, ferida e supostamente estressada, para ficar com ela.

Houve uma troca que fez o ar faltar em minha garganta.

Carla: Ela é realmente tão chata na cama?

Henrique: Digamos que ela é uma pintura clássica. Bonita de se ver, mas você não quer realmente tocar. Você é um incêndio, meu bem. E eu adoro me queimar.

O celular escorregou dos meus dedos e bateu no chão de cerâmica. Uma pintura clássica. Intocável. A primeira vez que estivemos juntos, ele fora tão paciente, tão reverente. Ele traçara as linhas do meu corpo com as pontas dos dedos e me dissera que eu era uma obra-prima. "Vou passar minha vida te valorizando, Elisa", ele prometera.

Outra mentira. Tudo.

Cambaleei para trás contra o balcão, minhas pernas cedendo. A dor no meu peito era imensa, um peso físico pressionando, tornando impossível respirar. Ele não apenas me traiu; ele profanou cada memória sagrada que compartilhamos. Ele pegou nossa intimidade e a transformou em uma piada para sua amante.

Quem era esse homem? O noivo amoroso que me abraçava quando eu tinha pesadelos? O gênio da tecnologia elogiado por revistas? Ou o estranho insensível que zombava das minhas inseguranças mais profundas para outra mulher?

Eu não conseguia conciliar os dois. O homem que eu amei por seis anos era um fantasma, uma ilusão na qual eu desesperadamente queria acreditar.

O som do celular batendo no chão deve tê-lo acordado. Passos se aproximaram pelo corredor. "Elisa? Tudo bem?"

Eu não respondi. Não conseguia. Estava me afogando em um mar de seu engano.

Ele apareceu na porta, o cabelo despenteado do sono, os olhos cheios de preocupação. Ele viu o celular no chão, depois olhou para o meu rosto. A cor sumiu do dele. Pela primeira vez, vi um lampejo de pânico genuíno em seus olhos.

"Elisa...", ele começou, dando um passo em minha direção.

"Não", sussurrei, minha voz rouca. Levantei a mão, um escudo frágil contra a torrente de mentiras que eu sabia que estava por vir. "Não se atreva a me tocar."

Ele congelou, sua expressão mudando de pânico para uma máscara cuidadosamente construída de contrição. Ele se ajoelhou, não diante de mim, mas para pegar o celular. Ele estava protegendo seus segredos, não implorando pelo meu perdão.

"Amor, não é o que você pensa", disse ele, sua voz baixa e suplicante. "Ela não significa nada para mim. Foi um erro estúpido. Eu estava estressado, o casamento, a pressão..."

Ele já estava girando a narrativa, pintando-se como a vítima. Eu apenas o encarei, meu coração uma coisa morta e pesada no meu peito. Eu não sentia nada além de uma vasta e vazia frieza.

"Sinto muito", ele continuou, dando outro passo mais perto. "Vou terminar com isso. Agora mesmo. Nunca mais falarei com ela. Por favor, Elisa. Não deixe que isso nos destrua. Temos tanto pela frente."

Ele estendeu a mão para mim, e eu recuei como se seu toque fosse fogo.

O olhar de mágoa que cruzou seu rosto foi tão convincente que era quase cômico. Ele achava que algumas palavras bonitas e uma expressão triste poderiam apagar isso. Ele não tinha ideia do que tinha feito. Ele não apenas quebrou uma promessa. Ele estilhaçou a própria fundação do meu mundo.

"Vou ficar no quarto de hóspedes", eu disse, minha voz desprovida de emoção. "Preciso de um pouco de espaço."

Virei-me e fui embora, sem esperar por sua resposta. Podia sentir seus olhos nas minhas costas, mas não olhei para trás. Fechei a porta do quarto de hóspedes atrás de mim e deslizei para o chão, os soluços silenciosos finalmente se libertando, sacudindo todo o meu corpo com sua força. Não era apenas o fim de um relacionamento; era a morte de um sonho. E eu estava completa e totalmente sozinha nos escombros.

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