Minutos depois sua mãe ligou avisando que já havia acabado de chegar na cidade. Informando por que não chegou mais cedo, o carro do seu pai havia dado um problema mecânico no caminho. Notando a preocupação da sua mãe na linha, Bianca tentou acalmá-la, ao agradecer seu deslocamento, encerrando a chamada em seguida.
A enfermeira entrou para examiná-la novamente, desta vez veio com ela o aparelho para ouvir os batimentos do bebê... Bianca imaginou que devido às suas fortes dores, não estava conseguindo ouvir os batimentos do seu filho direito. Foi o que ela pensou.
— Está tudo bem? — Bianca perguntou ao ver a enfermeira recolhendo o aparelho com uma expressão estranha.
— Os batimentos do bebê estão diminuindo, talvez o doutor opte por uma cesariana. — A mulher sorriu para ela gentilmente. — Mas não se preocupe, vai ficar tudo bem.
Bianca não acreditou nela, a enfermeira parecia tranquila, mas seus passos eram rápidos... Minutos depois outra entrou empurrando uma cadeira de rodas, sabendo que havia chegado a hora e que ela passaria por esse momento sozinha, Bianca se levantou com a ajuda da mulher. Quando deu um passo em direção à cadeira, um líquido escorreu por sua perna, formando uma possa de água no chão, sua bolsa havia se rompido. Estava escrito que seu filho iria nascer naquele dia.
— Cadê o doutor? — Bianca olhou para si e depois para a enfermeira que a ajudou a se sentar.
— No momento ele está tomando café. Ele vai nos encontrar na sala. — Respondeu à enfermeira, enquanto empurrava a cadeira com Bianca sentada em direção ao centro cirúrgico.
As dores de Bianca se intensificaram, ela estava gemendo baixo e apoiando seu baixo ventre, lagrimas silenciosas, escorriam por suas bochechas, ela ansiava pelo seu marido, ela estava de olhos fechados, desejando que ele chegasse logo, ela precisava do seu apoio, mas até o momento Kaike não apareceu, com a ajuda da enfermeira, Bianca se deitou sobre a cama e apoiou suas pernas abertas, suas dores estavam ficando cada vez mais intensas, seus gemidos estavam saindo mais alto a medida em que ela sentia, algo a dilacerando por dentro.
Era uma dor inimaginável, na verdade, ninguém havia preparado ela antes. A dor que ela estava sentindo ia além das que tentavam representar. Sem nem mesmo o apoio dos médicos, Bianca observava apenas duas enfermeiras que estava com ela. Uma delas estava ao seu lado, falando para ela empurrar o bebê com força e a outra estava lá aguardando o bebê, Bianca implorava pelo médico, para acabar logo, mas ele não aparecia.
— Você tem que fazer força, Bianca! — A enfermeira que estava ao seu lado falou. E em um movimento rápido ela empurrou a barriga da garota para baixo, quase subindo sobre o seu peito. Com esse movimento, Bianca gemeu mais alto de dor. Fazendo a enfermeira olhá-la. — Não precisa gritar! — a mulher completou.
Bianca se calou imediatamente, o momento que deveria ser magico para ela, estava sendo o mais vergonhoso e assustador da sua vida. Até que ela ouviu a outra enfermeira falando.
— O bebê já está passando próximo do canal retal. A resíduos de fezes. Cadê o doutor? — Os olhos de Bianca se arregalaram, ela sentiu vontade de fazer coco, mas não sabia que estava fazendo ao sentir a enfermeira a limpando. — Estou vendo o cabelinho dele, cadê o doutor?
Bianca estava tremendo e cogitando parar de fazer forças, pois ela não sabia de onde tirar, ela olhou para cima e algumas lágrimas caíram dos seus olhos, lágrimas de vergonha, medo e insegurança. Naquele momento tanto o bebê, quanto a mãe, estavam sem forças. Seu pequeno anjo não estava mais ajudando sua mãe, seu bebê não estava mais forçando para sair. Foi nesse momento que o doutor chegou correndo, ainda se preparando, mas ao se posicionar para receber o bebê, ele não nascia. Bianca empurrou, fez força, mas seu filho não saía.
— Vou fazer um leve corte!
Quando Bianca ouviu a voz do doutor, ela sentiu uma ardência em sua parte íntima, antes que ela pudesse dizer qualquer coisa a enfermeira empurrou sua barriga para baixo novamente, foi então que Bianca forçou com a dor e sentiu seu filho passando por seu canal. Algo que saiu do tamanho maior ao menor de uma vês. A dor imediatamente parou enquanto sua cabeça caiu para trás em alívio, ela suspirou. Aguardando ouvir o choro do seu filho, mas ele não alcançou seus ouvidos.
Seu corpo estava tremendo tanto, Bianca pensou que iria morrer naquele momento, ela não tinha nenhum controle sobre isso. A enfermeira falou que era normal, até ela perceber uma movimentação estranha, passos rápidos, mas seus olhos não conseguiam alcançar. Bianca tentou perguntar, mas havia apenas ela e o doutor na sala, ela sabia disso devido ao silêncio assustador que se formou depois, enquanto ela sentia a linha que ele costurava sua pele intima, Bianca estava sem forças até mesmo para informar que estava sentindo tudo.
Após o final do procedimento, Bianca foi levada até seu quarto, sua mãe já estava a aguardando, ao abraçá-la assim que a viu, mesmo deitada. Sua mãe passou em seu abraço todo o conforto que Bianca estava ansiando. Bianca, após o tremor, estava enrolada em vários lençóis e sentindo seu fluxo saindo com uma certa intensidade a deixando melada, mas ainda não era hora do seu primeiro banho, ela tinha que permanecer assim. Ela sorriu fraco e perguntou:
— Mãe, cadê o Gabriel? — Sua voz saiu falha, ela sabia que estava acontecendo alguma coisa, mas não queria acreditar.
— Ele está no berçário filha! — sua mãe respondeu escondendo completamente a emoção de sua voz. Ela sorriu, se virou rapidamente e mexeu em sua bolsa, enquanto disfarçava suas lágrimas as enxugando rapidamente.
As horas foram se passando, o que estava deixando Bianca em pânico, ela não tinha nenhuma notícia do seu bebê. E ninguém vinha lhe falar nada. Quando um enfermeiro entrou para colocar remédio em seu soro, Bianca perguntou:
— Minha mãe disse que levaram meu bebê para o berçário! Quando vão trazer ele para mim? — ela sorriu docemente.
— Berçário? — O enfermeiro olhou para a mãe de Bianca e depois seu olhar retornou lentamente para ela. — Ele está na UTI. De lá, só saem vivos ou mortos...
O que tentaram impedir Bianca de ver, foi seu filho completamente roxo e quase sem vida. Esse foi o motivo dela não ouvir o seu choro, nem o ver depois do seu nascimento. Levaram imediatamente o recém-nascido quase sem respiração, sem movimentos até a pediatra que o aguardava na sala ao lado. Quando a enfermeira entrou correndo na sala, com o pequeno Gabriel em seus braços, enrolado somente em sua manta, sem movimentos e completamente roxo. A pediatra olhou somente por cima, voltando sua atenção a enfermeira, que a olhava um pouco assustada.
— Esta criança já está morta. — A mulher falou áspera — Não vou me responsabilizar por ela!
A única pediatra disponível naquele município, virou as costas para o pequeno Gabriel, ignorando o fato dele ainda estar respirando, muito fraco, mas estava. Ela não apenas saiu da sala, a pediatra foi embora do hospital, deixando todos surpreendidos.
Buscando salvar a vida daquele anjo, os enfermeiros tomaram a frente. A mulher deitou Gabriel na maca, rapidamente ela recebeu uma máscara de oxigênio do seu colega de trabalho que presenciou a sena, mesmo não tendo para o seu tamanho. Eles conseguiram adaptar para ele receber o oxigênio necessário. Enquanto eles faziam de tudo para manter Gabriel vivo, o doutor entrou na sala, após terminar de cuidar da mãe.
Enquanto eles lutavam pela vida de Gabriel, o doutor já providenciava sua transferência para um hospital infantil rapidamente, mediante ligações com urgência. O doutor fez a sucção dos líquidos que o bebê poderia ter ingerido. Quando recebeu a liberação da vaga de UTI que Gabriel necessitava, um suspiro de alívio foi ouvido pela equipe. Mas a transferência teria um percurso de trinta e dois minutos, já que Novo Itacolomy ficava a essa distância de Apucarana, a cidade que tinha recursos para socorrer Gabriel.
Novo Itacolomy não tinha suporte para esse tipo de emergência, nem recursos para esses quadros por ser uma cidade pequena, mas pelas mãos de Deus. Eles conseguiram manter Gabriel respirando. O Samu já havia sido acionado e estava a caminho, enquanto isso eles só poderiam manter o oxigênio próximo do rosto de Gabriel para que ele pudesse respirar o pouco que conseguia.
Com o tempo passando o Samu não estava conseguindo chegar, foi um daqueles momentos em que o médico plantonista decidia aguardar e perder seu paciente, ou tomar uma decisão drástica. E ele tomou, deitou o pequeno Gabriel em uma maca enorme. Ele parecia uma boneca diante daquela cama gigantesca, o doutor informou que a ambulância da cidade iria levá-lo, mesmo sem os suportes necessários. Eles precisavam agir. Gabriel precisava da unidade de terapia intensiva e quanto mais o tempo passava, mais a vida dele se evadia.
Enrolaram Gabriel em sua manta, o médico não poderia deixar o hospital, ele era o único responsável, além dos enfermeiros. Então designou dois colegas da enfermagem para acompanhar Gabriel na ambulância da cidade até Apucarana…
Quando eles saíram empurrando a maca e a enfermeira segurava a máscara de oxigênio próxima do rosto de Gabriel, o pai apareceu e os observou assustado, com a correria no local. Ele estava acompanhado dos seus familiares, todos acabaram surpreendidos. Kaike perguntou o que estava acontecendo? Após o doutor explicar rapidamente, ele afirmou que Gabriel iria precisar de alguém maior de idade lá no hospital por ele. Imediatamente kaike se prontificou a acompanhá-lo.
Kaike era um jovem rapaz de vinte e dois anos, alto, seu corpo não era atlético, e nem muito magro, sua pele era parda e seus cabelos escuros. Ele entrou rapidamente na ambulância observando seu filho com olhos marejados de remorso. Ele pensou que deveria ter estado presente em seu nascimento. O filho que ele tanto ansiava.
Era visível a dificuldade de Gabriel em respirar, sua pele ainda estava roxeada. Algumas fotos, mesmo estando em um estado crítico, o pai queria recordações do seu filho, mesmo que fossem as únicas. Kaike também estava ciente de que Bianca não estava sabendo de nada e de que não teve a oportunidade de ver Gabriel. Ele quase perdeu também se tivesse demorado mais um pouco.
Em alta velocidade e com as sirenes ligadas, a ambulância ultrapassava automóveis que abriam espaço. Fazia manobras arriscadas se fosse para outros condutores que não estivessem carregando uma vida que estava dependendo dessa agilidade. O pai de kaike seguiu com o seu automóvel atrás para acompanhar o filho e o neto, enquanto o restante da família de kaike que estava no hospital retornaram para suas casas.
Ao chegar em Apucarana, a ambulância seguiu direto para a emergência do hospital, na entrada médicos pediatras e enfermeiros já aguardavam eles. Rapidamente Gabriel foi transportado para a UTI, o pai não teve tempo nem de vê-lo. Então ele seguiu até a recepção, dar entrada no internamento do recém-nascido.
Na UTI Gabriel foi entubado imediatamente, o necessário já havia sido passado em seu prontuário, mas eles precisavam deixar Gabriel instável, para aprofundar os exames e descobrir o que causou o seu quadro clínico.
Não foi fácil instabilizar Gabriel, foi uma luta intensa, havia muitos pediatras plantonistas e enfermeiros. Ele estava sedado, mas os aparelhos apitavam alto e constantemente avisando que ainda havia algo errado, mas depois de um certo tempo, tudo começou a se normalizar e a tranquilidade reinou figurativamente dentro da UTI pediátrica, além de Gabriel. Havia vários bebês em incubadoras.
Se via uma enfermeira escrevendo em uma plaquinha, próxima à incubadora de Gabriel. O nome dele e da sua mãe foi pendurado em sua incubadora, enquanto ela observou com um sorriso doce, Gabriel um recém-nascido pequeno, magrinho, e usando apenas uma frauda que era quase do tamanho dele. Deitado ali dentro, conectado a vários aparelhos. Um deles era o que estava mantendo seus pulmões funcionando.
Seu olhar varreu as incubadoras, ao lado. Os olhos daquela enfermeira se encheram de lágrimas, muitas crianças estavam ali, algumas delas precisavam apenas de ganho de peso, mas também havia casos graves assim como Gabriel, ela engoliu em seco e voltou a trabalhar. Enfermeiras de UTI ainda mais pediátrica, tem muita força, até porque algumas delas são mães. Ou serão. A medicina deveria ser muito mais valorizada, principalmente por aqueles profissionais de saúde que realmente estão ali por amor a vida do próximo, que estão ali por prazer em salvar vidas. Sabemos que tem aqueles profissionais que não deveriam atuar por sua brutalidade, ignorância e até mesmo indiferença. Mas ali não. Gabriel estaria em maravilhosas mãos.
Todos os tipos de exames disponíveis já foram solicitados pelos pediatras, quando Gabriel realmente estava instável eles foram iniciados, começou com coisas simples como; exame de sangue, urina, fezes, até chegar ao momento dos raios-x, tomografias..., mas antes disso o pai precisava ver seu filho. O pai foi direcionado até a UTI, após resolver tudo na recepção. Após tomar os cuidados necessários, o pediatra plantonista se aproximou dele.
— Pai, meu nome é Jose Carlos. Sou o plantonista que atendeu o seu filho no momento... — Kaike apenas acenou com a cabeça. Olhando em volta, ele estava procurando seu filho.
— Como ele está doutor? — havia angústia nas palavras daquele pai.
— De início ele está instável. Foi difícil instabilizá-lo, mas agora podemos dar início nos primeiros exames. Em breve teremos mais respostas, assim que os resultados saírem. — O doutor olhou para o leito de Gabriel. — Se o senhor desejar vê-lo, a enfermeira poderá acompanhá-lo.
Depois do breve assunto, kaike já havia feito os procedimentos necessários para estar ali dentro, então a enfermeira responsável por Gabriel o acompanhou até sua incubadora. Enquanto o pediatra seguiu observar seus outros pacientes. Kaike sentiu a emoção de ver seu filho ali, parado, com inúmeros fios o ligando a aparelhos, nas mãos, dedos, colados em seu pequeno peito e o assustador aparelho de intubação.
— Oi, garoto! — a voz de kaike saiu embargada. — Que susto você deu no pai, hein! — Um sorriso triste apareceu em seus lábios. — Pai vai trazer a sua mãe tá bom. Ela deve estar doida para te ver…
Kaike levantou seu olhar ao perceber que algumas lágrimas haviam escapado, percebendo estar sozinho ele os enxugou rapidamente. É torturante para qualquer pai, ou mãe. Presenciar seu filho imóvel, necessitando de aparelhos para estar vivo, essa dor é dilacerante, qualquer dos pais desejariam trocar de lugar com o seu filho em um simples resfriado. Imagina ao saber que seu filho corre risco de vida. É algo inimaginável.
Kaike permaneceu pouco tempo na UTI, porque estava fora do horário de visitas, ele se despediu do seu filho e se retirou após receber apenas um pedido das enfermeiras, para trazer fraudas. Pois Gabriel iria precisar. Nada de roupas, a incubadora é aquecida, Gabriel e nenhuma outra criança passará frio lá dentro. Agora o que esperamos, é que kaike retorne até sua esposa e a ampare nessa dor…