- Não pode me controlar assim, Levi. Eu trabalho com o que amo e você já sabia disso quando decidiu se casar comigo! - afirmei, continuando a arrumar meus croquis, sem me importar se meu marido continuava a gritar para que eu não fosse trabalhar.
A cada dia que passava, nossas brigas estavam ficando mais frequentes, e eu não podia deixar de ouvir a voz da minha mãe e do meu irmão me avisando disso quando quis me casar um ano atrás.
Eu era jovem e estava começando meu próprio ateliê de design, tinha o sonho de construir uma marca que se consolidasse no mundo da moda. Até que me apaixonei pelo policial mais lindo da corporação e coloquei o casamento à frente de todos os meus sonhos.
- Quando vai entender que não tem que trabalhar? Eu sustento essa casa, pago por tudo o que você precisa - ele gritou, chegando mais perto de mim. Mas, assim que me viu continuar a organizar meus papéis para sair, sua mão agarrou meu braço. - Por que quer pegar um maldito trânsito e atravessar a cidade só para trabalhar e se cansar?
- Eu amo o que faço, sempre amei desenhar e costurar roupas. Construí aquele ateliê sozinha antes de você aparecer na minha vida! - gritei de volta, agarrando seu punho para me livrar do aperto. - Não pode me pedir para abrir mão do que amo fazer.
- Posso, porque sou a porra do seu marido! - Levi grunhiu, apertando ainda mais os dedos em torno do meu braço, de uma forma como nunca havia feito antes.
O olhar dele já não era o mesmo de quando acordamos naquela manhã. Estava escuro, quase como se ele estivesse possuído por algo ruim.
Sacudi a cabeça em negação. Aquele era o pensamento mais bobo que eu poderia ter. Ele só estava nervoso, como costumava ficar sempre que a chance de ser promovido se aproximava.
Eu já havia lidado com aquele humor azedo várias vezes. Aguentava bem suas palavras duras e suas grosserias, revidando todas elas porque meu sangue fervia e não havia sido ensinada a engolir calada.
- Pare com essa loucura de querer me impedir de trabalhar. Isso nunca vai acontecer. E agora, largue o meu braço. Está começando a me machucar, Levi! - exclamei, sentindo meu coração começar a bombear pura raiva para dentro das minhas veias.
Ser criada com três irmãos e uma mãe latina durona havia me deixado ainda mais forte, me feito mais determinada em momentos como aquele. E homem nenhum me faria desistir da minha carreira.
Uma risada seca ecoou entre nós. Ele riu debochando de mim, ao invés de me soltar. Então, sem que eu esperasse, ele agarrou meu outro braço mais acima, apertando com ainda mais força seus dedos em volta da minha carne, como se realmente quisesse me machucar, me causar dor.
- Eu estou te machucando? Eu? - me questionou, arregalando os olhos e trincando o maxilar, parecendo completamente fora de si, enquanto eu lutava contra seu aperto, puxando meus braços e sacudindo meu corpo.
- Levi, pare com isso! Está me machucando!
- Não é assim que você gosta? Não é assim que o filho da puta que te fode no trabalho faz? - suas palavras me trouxeram ainda mais espanto que sua ação.
Do que diabos ele estava falando? Como podia pensar algo assim de mim, depois de tudo o que abri mão por ele, depois de todos os sonhos que atrasei?
- Que merda é essa agora? Perdeu o juízo?
- Acha que sou idiota? Pensou que conseguiria me fazer de bobo, que eu ficaria rendido por ter uma mulher mais nova e tão bela ao meu lado que não pensaria direito? - ele jogou as palavras sacudindo meu corpo. - Você sai apressada, não responde minhas mensagens, passa horas e mais horas trancada naquele ateliê. E quando chega... ah, quando minha bela esposa chega, está cansada demais para olhar pra mim, com sono para transar, sequer se importa comigo!
Senti um peso se abater em meu peito, dificultando a respiração enquanto eu era obrigada a encarar a realidade do que havia se tornado o nosso relacionamento desde o casamento.
Eu não queria enfrentar isso, porque sabia que só havia uma forma de acabar, e não estava preparada para encarar o fim. Não até agora.
- Quer saber o culpado disso? É você mesmo! - gritei, tentando colocar minhas mãos contra seu peito para me livrar dele. - Você chega em casa bêbado sempre que quer, não faz nada para me ajudar, sequer lembrou do meu aniversário! Uma flor, Levi! Nem mesmo uma maldita flor você me deu desde que nos casamos. Acha mesmo que tem como manter uma mulher interessada quando não faz o mínimo para cuidar dela? Quando não demonstra interesse pelas coisas que ela gosta de fazer ou tentar surpreendê-la?
Minhas palavras pareceram surtir algum efeito sobre ele, já que senti seus dedos perdendo a força em volta de mim. E com um único puxão, consegui me livrar de uma vez por todas.
- Onde você vai? Vamos terminar essa conversa!
- Trabalhar. É isso o que eu vou fazer. E nós já tivemos essa conversa, três meses atrás, quando você me jurou que iria mudar. - o lembrei, cansada demais para continuar com aquela conversa, tentar manter aquele casamento em ruínas de pé, quando era a única a fazer esforço. - Eu fui gentil, Levi, usei as melhores palavras para que você entendesse, e não houve efeito nem por um dia!
- Não vai jogar isso em mim, Carla! A verdade é que você só queria um otário para pagar suas contas, alguém que você pudesse usar enquanto fodia com algum garotão por aí!
Ouvir aquilo foi como receber um balde de água fria. Eu paralisei no meio da sala, olhando para o homem que acreditei amar, mas que agora via que não passou de uma fantasia que criei em minha mente.
Levi nunca foi protetor, amoroso, dedicado. Tudo isso era o que eu esperava que ele fosse. Eram as qualidades que eu admirava em Alejandro, meu irmão - o único homem que esteve ao meu lado enquanto eu crescia. E eu acreditei que estivesse me casando com uma versão desse tipo de homem.
Mas era libertador finalmente ter a verdade escancarada para mim. Ouvi-lo falar aquelas insanidades me fez encarar a realidade e arrancar um peso das minhas costas, porque, naquele momento, eu soube que sairia daquela casa e jamais voltaria.
- Tudo o que você quer é que eu abra as pernas quando pedir, e que sempre esteja em casa à sua disposição, com uma cerveja na mão e um prato de comida quente - respondi com a voz bem mais calma, porque não havia mais motivos para brigar. Não havia nada ali que valesse a pena lutar. - Mas não se importa em fazer o mínimo para apreciar tudo o que faço em casa ou fora. Não admira meu trabalho, nem o esforço que tenho para cuidar da casa e de você. Para mim já chega, Levi.
Então tudo aconteceu rápido. Rápido demais para que eu pudesse me dar conta.
Só percebi o que ele havia feito quando senti o impacto contra meu rosto, me jogando para o lado com força e me deixando completamente desnorteada.
O som da pancada zuniu em meus ouvidos, deixando tudo ao meu redor abafado, enquanto o gosto metálico invadia minha boca.
Ergui a cabeça lentamente, ainda sem conseguir acreditar no que havia acontecido, e meus olhos se encontraram com os dele. O mundo já não parecia o mesmo, ou talvez eu já não fosse a mesma.
Então vi os punhos ainda fechados, como se alguém quisesse me avisar que ainda não havia acabado. E, antes que eu pudesse dizer algo ou correr, Levi acertou outro golpe em meu rosto, me levando ao chão, minha mente tentava processar o que estava acontecendo e meu corpo assimilava a dor que se alastrava em minha mandíbula e bochecha.
Ofeguei, me arrastando no chão, sentindo o desespero no peito ao ouvir o som dos passos dele chegando mais perto, sem que eu conseguisse sequer ficar em pé.
- Você não vai me fazer de bobo, Carla! Não vou deixar que me faça de vilão nessa sua história fantasiosa, quando a única culpada é você! - ele gritou, e eu tateei o chão em busca de algo que pudesse jogar contra ele. - Não vou perder tudo por sua causa.
A dor se alastrava, como um lembrete de que aquilo era real. Estava mesmo acontecendo. Eu precisava reagir, mesmo com o medo se apossando de cada pedacinho meu.
Então senti seu pé perto demais, até que ele estivesse sobre mim, com as mãos agarrando meu pescoço. Meus olhos se abriram com esforço, mas o desespero venceu a dor e o inchaço que já começava.
- Le...
Me debati, encarando Levi de joelhos ao meu lado, com uma expressão perturbada. Os olhos pareciam prestes a saltar das órbitas, vermelhos e esbugalhados, e suas mãos continuavam o trabalho, apertando meu pescoço com força, querendo me arrancar todo o ar.
Eu queria poder gritar, socá-lo ou qualquer coisa, mas a necessidade de ar me fez raciocinar mais devagar do que queria. Meus pulmões queimavam, buscando por ar, e todo o meu corpo sacudia no chão. Minhas pernas se mexiam freneticamente, como se, daquela forma desesperadora, eu fosse conseguir me livrar dele.
A pressão em meu pescoço aumentava e o ar se tornava cada vez mais escasso. Minha garganta ardia como se estivesse em chamas, enquanto eu lutava para respirar. O desespero tomou conta quando um zumbido surdo invadiu meus ouvidos, abafando os gritos dele e os sons ao meu redor.
Minhas mãos, trêmulas e fracas, tentavam encontrar algo. O calor sufocante em meu peito se transformava em um frio gélido que percorria meus membros, enquanto meu coração martelava descompassado. Pânico crescia em ondas, um medo primitivo de que aquele seria meu último suspiro. Eu precisava reagir. Precisava me salvar antes que fosse tarde demais.
Foi quando, enfim, senti algo gelado e duro contra meus dedos. Agarrei sem pensar duas vezes e mirei no braço à minha frente, cuja mão estava prestes a me matar. Cravei em sua pele, rasgando-a e arrancando um grito de dor.
Levi soltou meu pescoço, tentando arrancar a pequena tesoura de ponta de seu braço. E isso me deu a chance que precisava para fugir.
- Volte aqui, sua vadia! - o ouvi gritar dentro da casa, enquanto eu corria aos tropeços, me apoiando nas paredes para conseguir sair dali.
- O senhor tem certeza sobre isso? - questionei Patrick, que parecia mais focado nos filhos brincando no chão do que no que estava me pedindo. - Não me sinto confortável em deixá-los. Eu sou o chefe da segurança, deveríamos enviar qualquer outro homem.
Aquela ideia de me mandar para a casa de Alejandro não me parecia certa. Eu era o chefe ali, quem dava as ordens aos seguranças e mantinha tudo funcionando.
Claro que todos os homens ali sabiam bem seu trabalho. Eu os tinha treinado da mesma forma que Cris me treinou, mas era diferente ser o cabeça que mantinha tudo em ordem.
- Poderíamos, mas Alejandro te conhece e confia em você - ele murmurou depois de um longo tempo, e então se levantou, indo se sentar junto dos filhos.
- Ele está desesperado, então vai acreditar na nossa palavra quando dissermos que qualquer outro dos meus homens é tão confiável e capaz quanto eu. Posso ir até lá e fazer as apresentações, garantir isso a ele.
Depois de tudo o que aconteceu naquela família, eu não me sentia nem um pouco animado em sair de perto deles. Foram meses de terror para Patrick e Sophie. Se algo acontecesse enquanto eu estivesse longe, não me perdoaria.
- É algo temporário, John - Sophie apareceu, com a voz doce e calma, segurando as mamadeiras dos gêmeos. - Pelo que eu entendi, é até que o marido da irmã seja preso.
- Preso? - questionei, confuso, olhando para o meu amigo bancando o pai babão, de volta para sua esposa em busca de uma resposta.
- Patrick não te contou? - Eu neguei com a cabeça e ela bufou. - Meu Deus, a irmã de Alejandro foi espancada pelo marido, e Ale está com a perna quebrada. Não pode protegê-la nesse momento.
Engoli em seco com a imagem do que Sophie acabara de descrever se formando em minha mente.
Se havia uma coisa que eu odiava nessa vida eram homens que, ao invés de proteger, se aproveitavam dos mais fracos e indefesos. Meu coração bateu mais forte enquanto eu contorcia os lábios, tentando manter meus próprios demônios presos no fundo da minha mente.
Desde o dia em que Cris me recrutou para a Cerberus, eu aprendi que poderia usar todo o meu ódio e revolta para ajudar as pessoas. Enquanto meu irmão crescia na política, tentando causar uma mudança nesse mundo podre, eu fazia o mesmo com meus punhos.
Saber daquilo me fez decidir ir de uma vez por todas. Eu poderia continuar dando ordens aos meus homens de longe e monitorar o que acontecia na casa. Meus amigos estavam em boas mãos, mas aquela garota precisava de proteção.
- Onde ela está?
Meia hora depois, eu estava esperando em frente ao hospital onde Alejandro havia me avisado que estariam, enquanto lia tudo o que havia conseguido levantar sobre Carla Fontes.
Ela era mais nova do que eu esperava - vinte e três anos - e já tinha se casado com um policial filho da puta. Torci para que uma garota esperta como ela estivesse pronta para largar o desgraçado e não perdoá-lo como muitas faziam.
Não precisei que ninguém me dissesse que ela era determinada e esperta. Bastou ler todas as informações que reuni, e soube que Carla era muito sagaz. Seus esforços para criar a própria empresa e se dedicar dia e noite ao mercado da moda provavam isso.
Ergui minha cabeça no instante em que vi as duas mulheres saindo do hospital. A loira era Magie - eu a conhecia por ser próxima a Sophie - e então havia a baixinha de cabelos pretos que chegavam até o meio das costas, a pele levemente bronzeada, o corpo envolto em um vestido azul-claro, com sapatilhas que combinavam.
As duas estavam tão distraídas, conversando e rindo, que nem ao menos perceberam a minha presença.
- Magie! - chamei alto, finalmente atraindo a atenção das duas mulheres.
Ao menos era bom ver que Carla estava tendo alguma distração. Magie também havia passado por algo parecido com o ex, poderia ajudar Carla nesse momento difícil.
- John? O que está fazendo aqui? - a loira me questionou, parecendo confusa, e isso me fez perceber que Alejandro não havia avisado sobre a minha presença ali.
As duas me observaram enquanto me aproximava, os olhos descaradamente me analisando, mas aproveitei para fazer o mesmo com a garota que estava sob a minha proteção.
Seus machucados estavam visíveis e arroxeados. O olho esquerdo estava inchado e quase se fechando, enquanto o lado direito tinha uma marca roxa que, com toda certeza, havia sido feita por um punho. Mas nada se comparava ao pescoço dela, com as marcas dos dedos desenhadas em sua pele, quase como se fossem tatuagens de tão nítidas que estavam.
O desejo de ver o sangue do verme escorrendo me encheu, mas apenas levei os braços às costas, apertando os punhos para controlar os pensamentos assassinos, antes de sorrir.
- Patrick me mandou. Vou cuidar da escolta de vocês duas hoje - respondi, soando amigável e polido, agindo como aprendi desde criança: mascarar meus sentimentos.
- Você o quê?
- Quem é você? - foram as primeiras palavras de Carla direcionadas a mim, enquanto seus olhos iam de cima a baixo, me analisando cautelosamente.
- Sou John Reynolds. Vou acompanhar vocês duas até em casa e me certificar da segurança da senhorita Carla de hoje em diante.
- O quê? Como assim? Eu nem te conheço! - ela bradou, colocando as mãos na cintura e crispando os olhos em minha direção, sem se importar com os próprios machucados.
Eu já havia lidado com esse tipo de problema: pessoas que não queriam seguranças como suas sombras até que realmente estivessem em perigo. Isso não mesmo me afetava mais. Anos na Cerberus me fizeram tolerante.
- Você vai ter toda a explicação assim que chegar em casa - Magie disse, tentando acalmar a fera de um metro e meio. - O irmão protetor ataca novamente.
- Ele não pode fazer isso! - Carla exclamou, batendo o pequeno pé no chão, como se fosse uma criança mimada.
Eu quis rir. Tanta teimosia em um corpo tão pequeno, mas a situação era séria demais para isso.
- Seu irmão está machucado e se sentindo mais do que impotente nesse momento - Magie falou mais uma vez, tentando trazer juízo à cabeça da outra, e eu me perguntei se ela teria gostado de ter um Alejandro para mantê-la segura no meio do inferno pelo qual passou. - Ele sente a necessidade de proteger vocês todas, e com a perna assim não vai conseguir. Então dê um desconto a ele, que só está querendo o seu bem.
- Você o defende agora porque não é com você! - Carla retrucou, irredutível, me dando vontade de curvá-la sobre o capô do carro e lhe dar umas palmadas para que deixasse de teimosia.
- Não estou defendendo-o. Estou lembrando o quão importante é o que ele está fazendo por você - eu quis gritar em comemoração por uma delas ao menos ter bom senso. - Algumas pessoas não têm essa mesma sorte!
Magie deu a volta e entrou no carro, parecendo um tanto melancólica - e eu até poderia imaginar o motivo. Mas Carla permaneceu do lado de fora por mais alguns segundos, me encarando como se eu fosse uma pedra em seu sapato que ela precisava remover.
Entrei no meu carro e saí logo atrás delas. Isso iria mudar em breve. Andaríamos juntos no mesmo carro, mas, por ora, deixaria que ela aproveitasse os últimos momentos de liberdade até que falasse com o irmão e eu assumisse sua proteção oficialmente.
Por sorte, o caminho até a casa de Alejandro não demorou. Mesmo assim, Carla mal esperou que Magie estacionasse o carro para pular fora dele, se apressando a entrar em casa - sem deixar de me lançar um olhar mortal.
Mal sabia ela que eu estava sorrindo por dentro, querendo dizer o quão boba era por estar com raiva de ter um segurança. Existiam coisas muito piores na vida do que ter alguém do seu lado vinte e quatro horas por dia para garantir seu bem-estar.
A segui, observando desde a entrada da casa até o quarto do irmão, analisando todos os pontos vulneráveis da propriedade e o que precisaria ser feito para melhorar a segurança.
- E então, como foi? - ouvi Alejandro gritar assim que alcancei o último degrau da escada, enquanto Carla já corria pelo corredor.
- Quem é esse homem que está me seguindo o tempo todo? - ela perguntou, colocando as mãos na cintura, parecendo um pequeno touro ranzinza.
Parei logo atrás dela, passando os olhos rapidamente pelo quarto, gravando tudo o que havia ali, mas meu olhar insistia em seu voltar para ela.
- Oi, John. Muito obrigado por ter vindo - voltei meus olhos para Alejandro, observando a perna engessada antes de dar um passo à frente, estendendo a mão para ele.
Normalmente, não faria algo tão formal assim, mas ele ainda não estava na minha lista de amigos próximos, mesmo que fôssemos todos gratos por ele ter ajudado Sophie.
- É um prazer poder ajudar.
- Eu não preciso de ajuda! - ela gritou ao meu lado, semicerrando o olho bom em minha direção. - Não quero ninguém atrás de mim, me seguindo como uma sombra.
- Tarde demais, querida. Assim que seu marido souber da queixa, vai querer ir atrás de você por vingança ou querendo tê-la de volta - Alejandro disse, repetindo exatamente o que pensei ao saber da história completa. - Então, para sua segurança, John vai garantir que o filho da puta não tenha chance de te causar mais mal do que já causou.
Ela bufou, soltando os braços, antes de sair batendo os pés contra a madeira, rebolando a bunda arrebitada. Mas, dessa vez, eu não fui atrás dela. Tinha outros assuntos para discutir com seu irmão.
- É normal reagir assim, logo ela vai se acalmar. Trabalhei por dois anos na empresa de Cris antes de pedir demissão e ir trabalhar exclusivamente para Patrick. Sei bem como são essas coisas.
- É bom saber disso. É bom saber que minha irmã está em boas mãos.
- Agora me conte mais sobre Carla e esse relacionamento deles - pedi, sabendo que precisava de toda informação pessoal, que não encontraria em nenhum lugar além de com alguém próximo.
Saber como o relacionamento dos dois começou e qual era o comportamento do ex-marido, quanto ele era bem visto por todos, era essencial para eu ter certeza de qual terreno estava pisando.
- Preciso pegar minhas coisas. Não consegui trazer nada quando fugi - Carla apareceu no quarto, avisando, sem nem ao menos se dignar a me olhar. - E tem que ser agora. Quero aproveitar enquanto Levi está no trabalho, porque assim que for suspenso, ele com certeza vai colocar fogo em tudo que for meu.
- Vamos no meu carro. Eu dirijo - respondi, apontando o caminho do corredor para ela, que travou um instante, me encarando como se quisesse arrancar minha cabeça.
- Ótimo! Se quer bancar o empregado, vai carregar todas as minhas coisas! - ela afirmou, passando por mim com a mesma fúria de antes.
Respirei fundo para me controlar - e só me dei conta do meu erro quando senti o perfume adocicado dela invadir minhas narinas, bagunçando meus sentidos.
- Será um prazer, senhorita.
Mas, assim que alcançou o portão, ela estancou no lugar ouvindo o celular tocar. Os ombros ganharam uma tensão que não estava ali nem mesmo com toda a raiva que estava sentindo por ter sua liberdade roubada. O corpo todo pareceu oscilar para frente e para trás. Então eu a segurei, colocando minhas mãos cuidadosamente no centro de suas costas, torcendo para que ela não estivesse machucada ali também.
- Ele... - ouvi um sussurro escapar de sua boca, e olhei por cima de seu ombro, vendo a foto do desgraçado preencher a tela enquanto o nome piscava em uma chamada.
Ela estava sem a armadura naquele momento. Não era mais a mulher durona cheia de raiva, mas sim uma mulher assustada a ponto de tremer apenas por ver uma foto através do telefone.
- Está tudo bem. Ele não pode te tocar através do celular - tentei garantir a ela, já pegando o aparelho de sua mão e colocando no meu bolso. - Ele nunca mais vai te tocar. Teria que passar por mim primeiro.