Capítulo 2

Tento me comunicar adequadamente para não a deixar ainda

mais em pânico. Contorcendo o corpo por baixo do meu, sinto o

tecido do jeans roçando nas minhas bolas causando um atrito

delicioso. Porra, ela vai pensar que sou um tarado pervertido.

Respiro fundo.

— Escuta aqui, se eu te soltar, promete não gritar e conversar

civilizadamente? Caso contrário, serei obrigado a cortar sua língua.

Se você entendeu, balance a cabeça. — Garota esperta, tiro a mão

de cima da boca.

— Por acaso isso esfregando na minha perna é seu membro

ereto? Sabe? Aquilo? Oh, meu Deus você ia se masturbar, que

pervertido — questiona com as bochechas ficando coradas.

E não é que a maluca é realmente muito bonita, ou foi seu

jeito tímido que a deixou mais encantadora.

— Oh, perdão, eu vou pegar uma toalha. Você espera aqui,

entendeu?

— Sim.

Puxo a porta do armário, opto por um roupão de seda preto.

Como se fosse um cãozinho obedecendo ao dono, permanece

deitada na cama. Definitivamente essa mulher ganhou minha

atenção.

Ando pelo quarto, coço o queixo, digamos ser um hábito que

tenho quando estou com dúvidas. Poderia simplesmente interrogá-la,

mas caso realmente não tenha visto nada no beco, irei somente

alarmá-la despertando sua curiosidade. Seus olhos castanhos

acompanham cada movimento do meu corpo. Confesso que a ver

deitada na cama tão frágil e indefesa, desperta a fera adormecida

dentro de mim. Recordo-me muito bem das curvas dos seios, a

bunda. Talvez devesse seduzi-la, ter uma noite quente com muito

sexo e depois despachá-la. Analisando a situação se realmente

soubesse de algo já teria falado, e estaria tremendo de medo de

levar um tiro no meio dos olhos.

— Qual seu nome? — questiono por pura e simples

curiosidade.

— Meu... Meu... É... Maria Luiza — gagueja amedrontada.

— Bonito nome. Você é brasileira? Estou certo?

Balança a cabeça positivamente. O gato comeu a língua

dessa mulher? Tem alguém doido para comer algo, e pode apostar

que não é um gato. É um animal feroz, sedento de desejo.

— Sim, como sabe?

Je vais là-bas, ou como dizem os brasileiros, vou á lá.

Até que enfim começou a fazer perguntas, o que pode

significar duas coisas. Ou Maria Luiza está fingindo somente para

arrancar informações sobre mim, ou estou ganhando sua simpatia e

confiança. Vamos torcer para ser a segunda opção, caso contrário,

irei desovar seu corpo em pedaços pela cidade de Paris.

        Capítulo 2

Engulo em seco, os olhos desse homem me encaram sem ao

menos piscar. Tenho a sensação de que se levantar dessa cama, irei

ser apunhalada. Sabia que não devia ter usado as passagens que

ganhamos de presente como lua de mel. Contudo, precisava fugir,

pensar sobre como Mateus cancelou nosso casamento faltando

somente três dias. Imagina como fiquei? A encalhada de vinte e

cinco anos que perdeu o segundo noivo. Talvez o problema seja

comigo. O primeiro noivo me trocou pela madrinha, que por acaso

era minha melhor amiga, safada. Não posso nem a culpar, ele era

lindo, rico e sensual demais para resistir. Agora o Mateus, esse sem-

vergonha de pinto pequeno, ah, pequeno e torto. Parecia que estava

fazendo sexo com o the flash, se durasse três minutos a minha

sherolayne soltava fogos de artificio, comemorando.

Okay, foco, Malu. Isso é passado, esse homem na sua frente

é o presente. Sinto as bochechas arderem ao lembrar o que vi no

banheiro através do box de vidro. Foi tudo tão rápido, mas não é

como se não tivesse como notar o tamanho e a grossura.

Toma juízo mulher, isso não é coisa de se pensar em um momento

de crise. Provavelmente nem estará viva até amanhã. Droga, droga,

droga. Vou gritar por socorro, não, espera. Ele me ameaçou cortar

algo se gritasse, não lembro muito bem, já que só consegui focar no

seu... Seu... Órgão genital esfregando na minha perna. Correr? Ah,

claro, sou quase uma atleta de corrida 100km, acorda, Maria Luiza,

ele te pegaria antes mesmo de chegar à porta. Só preciso descobrir

o que quer comigo, e sair daqui o mais rápido possível. Lentamente,

levanto o tronco, sentando-me na beira da cama. Limpo a garganta,

passo as mãos nos cabelos ajeitando-os, para não ficar com a cara

da maluca da faquinha de pão.

— Então, é eu disse meu nome. E você não disse o seu.

— Pierry. — Só pode ser brincadeira, eu imaginei um nome

grande, que fizesse jus algumas partes do seu corpo, mas Pierry?

— Pierry?

— Parece que ficou decepcionada — questiona, sentando-se

ao meu lado.

Lentamente deslizo a bunda na colcha de cetim, afastando-me

um pouco. Criando uma distância segura, como se isso fosse

possível.

— Imagina, eu? Jamais. — Abro um sorriso falso e amarelo.

— Vamos direto ao ponto. Você me trouxe bêbada ao seu

apartamento, ficou... Sabe... — Aponto para a parte baixa do roupão.

— Ficou pelado na minha frente. Maluco? Estuprador?

Sequestrador? Já aviso que minha família é pobre. Só estou aqui

porque fui abandonada pelo meu ex-noivo. Sabe como é? Ele disse

que eu era certinha demais, que homens gostam de mulheres

picantes. — Droga, droga, repreendo-me mentalmente, sempre falo

demais quando estou nervosa. — Desculpa, eu, só estou com medo.

— Primeiramente, foi você que parou na minha frente

alegando que tinha visto alguma coisa e me acusando. Sinceramente

não entendi metade do que falava. Quando tentei desviar me

segurou pelo braço e simplesmente desmaiou. Por isso está aqui.

Não sou maluco, estuprador e muito menos sequestrador.

É, faz sentido, mas estou em um país estrangeiro, com um

desconhecido, e para piorar a situação ainda sinto que o álcool está

percorrendo minhas veias. Já que resolvemos o mal-entendido,

posso simplesmente ir embora para o meu hotel, e me esconder

embaixo da cama de vergonha.

Apoio as mãos em cima do colo, batendo os dedos,

impaciente. Seu olhar me incomoda, parece que consegue ver a

alma. Encarando-me desse jeito, estou começando achar que mentiu

sobre ser maluco.

Ouço o som da campainha tocando. É como melodia de

Beethoven aos meus ouvidos. É a oportunidade que estava

esperando para fugir desse homem. Levanto rapidamente, e

acompanhando cada gesto como se estivesse me imitando, Pierry

também se levanta.

— A comida chegou, pedi para você também. Espero que não

se incomode.

— Na verdade, não estou com fome, muito gentil da sua parte,

mas está na hora de ir embora. É minha bolsa, você...?

— Não, não estava com você — respondi.

— Oh, deve estar no hotel. Então, foi um prazer Pierry. Até

mais.

Disfarçando, sigo rapidamente em direção à porta de saída do

quarto. Acelero os passos praticamente correndo, quando estou a

centímetros de abrir a fechadura da minha liberdade. Sinto mãos

fortes puxando-me para trás, pressionando-me contra a parede

usando o corpo. Com uma de suas mãos cobre minha boca. Arregalo

os olhos assustada. Aproximando a boca do meu ouvido, sussurra:

— Esqueceu-se do nosso acordo? Se gritar, ou tentar sair por

essa porta. Talvez, só talvez, me torne violento. Se entendeu, pisque

os olhos duas vezes.

Mafioso? Só pode. Serei protagonista de algum filme de

mafioso? Não me importaria nem um pouco se o homem chamasse

“Massimo”. Mas, não. Pierry. Nem tudo é perfeito. Faço o que pede,

pisco os olhos repetidamente.

— Boa garota. — Solta-me e sinto seus dentes mordiscando

de leve o lóbulo da minha orelha.

Estuprador, com certeza. Mas por que alguém como ele

precisa fazer isso? Qual a lógica? Qualquer mulher gostaria de

sentar em cima daquele monumento. Observo enquanto se afasta

para atender o entregador. Continuo no mesmo lugar, paralisada na

parede. A porta se abre mais para entrar um carrinho com comida e

bebida no quarto. Esfrego as mãos trêmulas no rosto tentando aliviar

a tensão que percorre meu corpo.

O lado engraçado da minha vida, é que sempre sonhei em

casar e construir uma família. Ter uma casa com um grande quintal

para que as crianças pudessem brincar. Dois filhos, ser filha única

não é bom, senti na pele o quanto é ruim. Em noites frias queria ter o

homem que amo ao meu lado para aquecer meus pés, e

conversarmos sobre assuntos aleatórios de trabalho, fofocas do

círculo de amigos. Mas, acho que é somente um sonho que pode

acabar essa noite através desse homem. Alguns me acham patética,

outros dizem que tenho um grande coração, sei que no fundo sentem

pena da pessoa deplorável que me tornei. Fecho os olhos, enquanto

as lágrimas insistem em descer dos olhos umedecendo minha pele.

Sou pega de surpresa quando suaves dedos tocam meu

rosto, enxugando-o. Abro-os imediatamente, e então, ele está ali em

pé na minha frente, usando seu roupão preto, observando-me. Não

com piedade, pena, ou qualquer sentimento que faça me sentir pior

do que estou. Pode ser somente o álcool tomando conta das minhas

ações, ou sou eu Maria Luiza Cavalcante, quero nesse instante

beijar a boca desse desconhecido.

É como se Pierry lesse meus pensamentos. Em dois passos

largos, seu corpo está novamente me pressionando contra a parede.

Sua boca vai de encontro à minha, devorando os lábios. A sua língua

dança dentro da minha boca, provocando arrepios sobre a pele. Seu

quadril roça no meu, esfregando o seu grande pau duro por cima do

tecido. Sinto-me à vontade, devassa, tarada. Desço as mãos até o

nó do roupão e o puxo, abrindo-o, caindo aos seus pés. As unhas

marcam a pele das suas costas. Rapidamente abre o botão da calça,

puxando-a para baixo junto com a calcinha. Pierry desce a mão até

minha boceta úmida, acariciando o clitóris com sua palma. Gemo

alto, mas enlouqueço quando de repente, enfia seus dedos no meu

centro.

— Oh, meu Deus — suplico desejosa

Os movimentos de vai e vem, entrando e saindo. Esse homem

com os dedos consegue me dar mais prazer que qualquer outro

usando o pinto. Mordo os lábios, e pressiono ainda mais as unhas.

Girando-me rapidamente, coloca meu rosto apoiado contra a parede.

Ergue uma perna, segurando-a suspensa no seu braço apoiado na

parede.

— Você toma remédio? — questiona, fungando no meu

pescoço.

— Sim — respondo ofegante.

Sem aviso, sinto seu pau entrando na minha boceta.

Expandido, alargando-a. Um misto de dor com prazer. Segurando

meu quadril com força, bate contra o seu diversas vezes. Entrando,

saindo, entrando, saindo. Estou a ponto de gozar.

— Não, ainda não. — Pierry enrola meu cabelo em sua mão,

puxando a cabeça para trás. E com a outra mão agarra a nádega,

dando-lhe um tapa.

Ofego gemendo, enlouquecida de prazer, sentindo um grande

vazio quando recua alguns passos para trás. Mas somente o tempo

suficiente para ele me suspender no ar. Enrolo as pernas na sua

cintura, sentando no seu pau. Puxando os botões da minha blusa

com os dentes, ele consegue me deixar somente de sutiã. Enfiando

o rosto entre meus seios, continua os movimentos entrando e saindo

de mim. Sua língua entra no sutiã, lambendo o bico entumecido.

Minhas costas batem forte contra a parede, meus gritos

misturados com gemidos podem ser ouvidos por todo o corredor,

mas não resisto a cada vez que o sinto entrando forte e duro. Mais,

mais, mais, não resisto, minha boceta se contrai apertando o

membro rígido, e atinjo o orgasmo. Os urros roucos e ofegantes de

Pierry indicam que gozou logo em seguida.

Apoio a testa na sua respirando fundo. Nossos olhos se

encontram, a eletricidade percorre meu corpo, e tenho certeza de

que por sua expressão aconteceu o mesmo com ele. Vejo que

engole a saliva, e como sempre o sonho acabou.

Rudemente, coloca-me no chão, pegando seu roupão. Faço o

mesmo erguendo a calça sem ao menos limpar a bagunça.

— Acho melhor você ir embora, agora. — Aponta para a saída

como se eu fosse um cachorro.

— Desgraçado — resmungo baixo.

Sem olhar para trás, saio do apartamento. Seguro a frente da

minha blusa, já que aquele cretino fez questão de estragá-la. Oh,

droga, meu casaco ficou na sala. Mas prefiro morrer congelada em

Paris, a encontrar aquele... Aquele... Não tenho nem palavras. Nunca

me senti tão humilhada. Nunca mais quero encontrar esse nojento na

minha vida.

     Capítulo 3

Três anos depois...

Sorvo um gole do meu drink servido pela aeromoça da

primeira classe dentro do avião. Seus seios volumosos se destacam

no tecido do uniforme. E essa saia, essas companhias áreas são

inteligentes, sabem como manipular os clientes, fidelizando

passageiros. Qual o homem que não quer viajar apreciando uma

bela paisagem erótica?

Disfarçando como se não tivesse notado que estou

encarando-a, a morena sorri timidamente com os lábios fartos,

provavelmente deliciosos. Há comentários que as mulheres

brasileiras são as mais lindas do mundo, confesso que não nego que

concordo. Curvas perfeitas, seios, pernas grossas, e aquela bunda

saudosa com gingado latino. Cruzo as pernas, coçando os lábios

com a ponta do dedo. Estou hipnotizado. Okay. Okay. Primeiro

negócios, depois prazer.

Minha viagem ao Brasil é devido ao contrato de trabalho

milionário. Há muito tempo não surgia uma oportunidade tão lucrativa

e perigosa. A melhor sensação do mundo é a adrenalina percorrendo

o corpo, enquanto escapa, depois do dever cumprido.

Decido ler novamente o e-mail do contratante conferindo os

detalhes, será mais produtivo. Meu pai sempre me ensinou algo

muito valioso. Primeiro pense com a cabeça de cima, e depois com a

debaixo. Velho sábio, ensinou-me tudo que sei sobre minha

profissão. É engraçado pensar que ele era um patriota que protegia

seu país com a própria vida. Infiltrando-se em gangues de mafiosos,

viajando para lugares perigosos, arriscando tudo que tinha para

cumprir o seu dever. E então, o que ele recebeu em troca? Medalhas

inúteis e uma esposa debaixo da terra.

Esther, minha mãe. Assassinada diante dos olhos do seu filho

com apenas seis anos de idade. Quando você é uma criança de

olhos brilhantes e sorriso radiante, apaixonado pela mulher mais

importante de sua vida, vê-la ser esfaqueada, e morrer sangrando no

chão da cozinha, digamos, não é uma lembrança agradável.

Fecho os olhos por um momento, engolindo o sabor amargo

da saliva. Nunca conheci alguém com tamanha coragem como ela.

Ainda me recordo de suas últimas palavras:

— Seja forte, meu capitão tesouro — sussurrou.

Capitão era como me chamava quando saíamos para velejar

durante o verão. Suas mãos banhadas em sangue, acariciando meu

rosto. Os olhos marejados em lágrimas, e nos lábios um fraco

sorriso. Até mesmo em seu último suspiro tentou acalentar-me. É o

esperado de uma verdadeira mãe.

Capítulo 3

Confesso que nunca havia presenciado o velho Charlie tão

debilitado quanto com a morte de Esther. Eu acredito que nada é por

acaso, cada pessoa nessa terra tem a oportunidade de traçar o

próprio destino. O que você irá colher, depende do que plantar.

Infelizmente, perdi o que mais amava por uma vingança idiota de um

bando de traficante de merda. Desgraçado, estava nervosinho

porque o FBI havia prendido a cabeça da quadrilha. Ou

melhor, Charlie o prendeu. E como consequência, pagamos um alto

preço. Ele abandonou seu trabalho oficial, aposentou-se

indiretamente. A revolta, a mágoa, misturadas com a dor da perda o

transformou. Simplesmente se tornou um dos melhores assassinos

de aluguel, ou usando um termo mais apropriado, mercenário. A

diferença entre nós, é que Charlie somente aceitava contratos onde

deveria matar bandidos cruéis, corruptos. Agora eu? Indiferente.

Acredito que se alguém contrata os meus serviços é porque tem um

bom motivo, então, cada um com seus problemas.

Ouço a voz do comandante comunicando sobre nossa

chegada ao aeroporto de Guarulhos, São Paulo. Não é a primeira

vez que venho a trabalho para o Brasil. Domino com destreza o

idioma português. E por sorte, tenho um grande amigo em quem

posso confiar para me acomodar com segurança. Em alguns

minutos, sinto a vibração das rodas na pista de pouso. Aguardo a

saída dos passageiros apressados, não me importo em ficar por

último apreciando a linda mulher que estava me servindo durante o

voo, uma pena que não pode me servir de outro jeito. Sexo em

banheiro de avião é adrenalina pura.

Levanto-me da poltrona, caminhando lentamente em direção à

aeromoça. Paro ao seu lado aproximando a boca da sua orelha, e

sussurro:

— Obrigado — digo com a voz rouca.

Vejo que sua pele se arrepia, deixando-a com as bochechas

coradas. Talvez devesse ter aproveitado melhor o serviço exclusivo

da primeira classe. Sorrindo, enfio as mãos dentro dos bolsos na

calça social. Engulo em seco limpando a garganta, e sigo em direção

à saída. Faço os procedimentos necessários, e aguardo a retirada da

mala com roupas e pertences pessoais.

Puxo os óculos de sol que estavam dentro do bolso da camisa

e o coloco no rosto. Arrasto a mala, andando no saguão principal,

mais à frente vejo Marcelo acenando euforicamente. Balanço a

cabeça negativamente. Aproximo-me rapidamente para acabar com

o show de vergonha alheia. Cumprimentamo-nos, e seguimos direto

para o estacionamento do aeroporto. Pedi que fosse cuidadoso ao

alugar o carro, já que não quero chamar atenção. Mas quanto mais

me aproximo do automóvel, tenho a certeza de que ele tem

problemas com discrição. Andar pelas ruas de São Paulo dirigindo

um Camaro Branco não é algo que se possa dizer que é discreto.

Encaro-o, fuzilando com o olhar matador. Sorte que não estou

armado, senão, seria uma morte a mais na minha conta.

Sem graça e desajeitado, abre o minúsculo porta-malas,

guardando a bagagem. Encosto na porta do motorista e estendo a

mão pedindo a chave. Com certeza o iludido achou que ia ficar

desfilando com esse carro, atraindo olhares curiosos.

— Qual é, capitão, só mais uma vez — suplica juntando as

mãos.

Meu Deus, estou lidando com um homem ou uma criança?

Enfim, opto por deixá-lo dirigir, mas só porque preciso me familiarizar

com as ruas paulistanas novamente.

Aproximadamente uma hora depois de sairmos do

estacionamento, entramos em uma área rural, repleta de galpões

abandonados. Sem casas, ou qualquer outro tipo de vizinhança.

Marcelo para o carro em frente a uma grande porta de metal, e

aperta o controle remoto, abrindo-a. Entramos, e o som do motor

ressoa ecoando dentro do grande galpão.

Desço do Camaro, analisando o local. Caixas pretas blindadas

empilhadas ao lado da pilastra, e no centro, computadores com

sistemas de localização. Não existe um programa que meu

escandaloso amigo não consiga hackear. Ele me faz lembrar aquele

amigo nerd do delegadinho da Camilly. Tenho certeza de que seriam

grandes amigos, irmãos separados na maternidade.

Enquanto Marcelo fala sem parar sobre o funcionamento

geral, ando de um lado a outro observando todas as entradas e

saídas, e possíveis rotas de fuga caso seja necessário. Do lado de

fora várias câmeras de segurança.

— Ali tem banheiro, e como pode ver, improvisei uma cozinha,

e camas. Já que alguém não quis ir para o hotel. Por que dessa vez

não? — questiona-me.

— Prevenção. É um contrato milionário, e não tenho muitas

informações sobre o cliente. Todo cuidado é pouco. Hoje à noite irei

ao seu encontro, ou melhor, falso encontro.

— E se ele cancelar o contrato?

— Acredito que não, depois posso alegar que tive problemas

por isso o atraso.

— Cara, você pensa em tudo.

— Hum... Agora quero comer alguma coisa e descansar um

pouco — digo, abrindo a geladeira improvisada.

Desço do táxi em frente ao restaurante combinado com o

contratante. A atmosfera em volta do local é suspeita. Através da

grande vidraça de luxo, consigo visualizar muitos clientes usando

ternos, na cor preta. Qual a probabilidade de 70% desses homens

usarem a mesma roupa em pleno sábado à noite? Eu digo, é zero.

Óbvio que isso está cheirando a emboscada.

Não sei se me sinto ofendido, ou se me considero importante

levando em consideração o tanto de capangas que aguarda a minha

chegada. Entrar ou não entrar, eis a questão? Talvez ele só queira

garantir a sua segurança ao estar do meu lado. Qual é Jhon, quer

enganar quem? Esse filho da puta acha que pode me pegar assim?

Ah, qual é? Não está lidando com nenhum amador.

Sei que dentro desses carros estacionados do outro lado da

rua, está repleto de homens armados só esperando o sinal para

atirar. E que em cima dos prédios provavelmente também têm

atiradores de elite com seus rifles de mira noturna. Patético.

Esgueirando-me através das sombras da noite. Ajeito o capuz

sobre a minha cabeça, passo direto pelo restaurante, avançando

alguns quarteirões. Logo à frente, encontro uma cabine telefônica.

Entro, fecho a porta, insiro algumas moedas, e digito o número do

celular do contratante.

— Sou eu. Achou mesmo que eu fosse idiota o suficiente de

encontrar você com essa cambada armada? Ah, qual é? Não,

vingança? Porra, já falei que não tenho nada a ver com isso? Matar-

me? Tente a sorte, seu porco. Cuidado para não acabar com uma

bala no meio da testa.

Coloco o telefone no gancho encerrando a chamada.

Desgraçado, chamou-me até o Brasil só para me matar. Caralho, já

expliquei que não estou envolvido na morte do seu filho, mas o infeliz

quer achar um culpado de qualquer jeito para superar o luto. E o

bode expiatório da vez, sou eu.

        Capítulo 4

Com a cabeça escondida debaixo do travesseiro, procuro

com uma mão o despertador que está em cima da mesinha de

cabeceira. Bato os dedos em todos os lugares, menos no botão para

acabar com aquele som torturante. Bufando, tateio mais algumas

vezes até encontrá-lo, bato com força quase quebrando o meu

pequeno objeto de tortura matinal. Rolo o corpo na cama ficando de

barriga para cima. Encaro o teto branco e sem graça do quarto. O

final de semana passou muito rápido. Ainda não acredito que meus

pais insistem em fazer inspeção quinzenal. Bem, na verdade, eles

trazem alimentos abastecendo o armário e geladeira, mamãe com

sua mania de limpeza, é como se eu fosse uma criança

irresponsável que não pode cuidar de si própria. Divido o

apartamento com Diego há mais de dois anos, ele não reclama dos

mimos dos meus “Dadys” como ele faz questão de chamá-los.

Depois daquela maldita viagem, criei coragem para enfrentar a vida,

e entendi que posso andar com minhas próprias pernas, não preciso

de marido, ou homem, para seguir em frente rumo ao futuro. Para

alguma coisa serviu ser sequestrada, e usada como um objeto

sexual descartável por um desconhecido. Sherolayne aproveitou

cada segundo, mas quando relembro que fui expulsa praticamente

com a calça nos pés, ainda tenho vontade de gritar. Sorte daquele

Don Juan do Paraguai, não nos encontrarmos mais, senão, iria falar

tudo que ficou entalado na garganta. Paris, quem precisa disso?

Bocejando, levanto lentamente, arrasto o corpo cansado para

fora da cama em direção ao banheiro. Lavo o rosto, escovo os

dentes e prendo o cabelo em um coque alto. Lidar com vinte e cinco

crianças na idade de cinco anos é um grande risco para cabelos

compridos e soltos. Glitter, cola, por vezes piolhos, com tudo que

uma professora do jardim de infância tem direito. Mas não troco

meus “pimpolhos” por nenhum outro tipo de trabalho, amo o que

faço.

Ouço o som da porta da frente sendo aberta. Diego passou

novamente à noite fora trabalhando como barman em uma boate. É

um clube de público misto, constantemente insiste para que eu vá à

caça como costuma dizer, e colocar a Sherolayne para malhar, mas

ela está sedentária, contentando-se com exercícios leves em casa.

— Diego? — chamo seu nome.

— Sim, honey. Oh, meu Deus, estou mortinha — responde.

Escolho um jeans e uma regata, calço o par de sapatos, e

abro a porta do quarto, indo direto até a cozinha/sala. Encosto no

batente e fico admirando a beleza do grande homem jogado no sofá.

Não consigo definir sua beleza. Droga. Homens de sorte. Aproximo-

me nas pontas dos pés, e puxo os tênis, jogando-os no chão. Por

trás do seu 1,80m de altura, e lindos olhos castanhos tem uma

história de vida muito triste. Preconceito, decepção, tortura física e

psicológica. Quando vejo meus pais o tratando como filho, sinto um

aperto no peito. Ainda não acredito que as pessoas que lhe deram a

vida o torturaram durante anos, só por sua opção sexual. Faltou

amor? E sobrou preconceito, incompreensão. Seu peito sobe e

desce acompanhando o ressonar da sua respiração regular,

indicando que já está dormindo. Continuo andando nas pontas dos

pés até a geladeira. Pego uma fruta, e a bolsa de cima da cadeira, e

saio sorrateiramente para não o acordar.

Aperto o botão do elevador e aguardo. Logo os vizinhos do

nosso andar também aguardam a chegada da caixa de metal. É

como se combinássemos, mas aparentemente todos cumprimos a

mesma carga horária. Ansiosa, confiro o relógio no pulso mais uma

vez. Quando a porta dupla se abre, revelando uma grande

quantidade de pessoas, considero a hipótese de esperar o próximo

ou até mesmo descer de escada, mas quando vejo o sorriso do

nosso querido condômino, Caio, não resisto e entro na lata de

sardinha suportando o aperto. Droga, droga, não aprende mesmo. É

só um homem bonito sorrir que a Sherolayne bate palmas

empolgada. Oh, meu Deus, sinto como se faltasse o ar, além das

fragrâncias misturadas dos perfumes das pessoas. Recuo alguns

passos no pequeno confinamento para me afastar de uma senhora

que provavelmente exagerou no perfume, e esbarro em algo duro,

sólido, mas ao mesmo tempo macio, aconchegante. Estou dentro

dos braços de Caio. Abaixo a cabeça envergonhada sem coragem

para encará-lo. Algumas partes do meu corpo comemoram com

gritos, palmas e confesso que até mesmo rojões barulhentos, porém

a parte racional, aquela que me faz querer sair correndo e nunca

mais encontrá-lo, no momento é quem controla a situação. Respiro

fundo, controlando a respiração para não parecer a louca tarada do

sétimo andar.

— Está tudo bem — sussurra próximo à minha orelha.

Fecho os olhos, lutando internamente contra a Sherolayne

que insiste que devo aproveitar o momento e tirar uma casquinha do

vizinho bonitão. Mas, não posso fazer isso, ou posso?

— Não, você não pode — penso alto deixando as palavras

escaparem da boca.

— O quê? — questiona confuso, encarando-me.

Droga... Droga... Nossa senhora das calcinhas molhadas,

como resistir à tentação? Porque me colocais à prova logo pela

manhã, ainda mais quando sonhei com aquele... Aquele... Sabe...

Tenho raiva só de lembrar seu nome, ou melhor, eu não lembro.

Como era mesmo? Pietro? Pablo? Quem quer saber o nome de uma

criatura desprezível.

— Desculpe, estou pensando alto. — Sorrio envergonhada.

Só mais duas paradas, aguenta firme, Malu. Flashes de três

anos atrás, naquele quarto contra a parede invadem meus

pensamentos. Mesmo tão próxima do Caio, não sinto aquela

eletricidade que percorreu meu corpo naquela noite. Foi inexplicável,

incomparável. Esquece, Malu, esquece, foca no Caio.

Não sei de onde, e como, mas um odor fedorento exala dentro

do elevador, dificultando respirar. Fala sério, meu dia começou

maravilhosamente bem. Prendo a respiração. Credo, alguém anda

comendo muitos ovos nesse prédio. Graças a Deus, em fração de

segundos chegamos ao térreo, como se tivesse uma bomba prestes

a explodir, todos saem correndo, desesperados por ar puro.

Agradeço gentilmente o vizinho por ter me acolhido mesmo sem ser

sua intenção. Despeço-me indo na direção contrária a dele.

Acelero os passos por alguns quarteirões até o ponto de

ônibus. Sento no banco da pequena casa azul aguardando a

condução. Pego o celular do bolso, e percorro o Facebook

procurando algo útil, então, quando ergo a cabeça sou atingida com

uma bomba pior do que a que soltaram no elevador.

Em plena avenida, dirigindo um Camaro branco, com o braço

apoiado na janela, e uma mão no volante, está Pierry. Não pode ser

meus olhos são traiçoeiros e estão tentando me enganar, deve ser

alguém muito parecido, impossível que depois de todos esses anos,

iremos nos encontrar no Brasil, na minha cidade. Meu coração bate

acelerado como se fosse saltar do peito, a sensação é de borboletas

no estômago causando náuseas. Levanto rapidamente, deixando o

celular cair no chão. Perplexa, em choque, permaneço encarando o

homem sentado atrás do volante. E se for ele? Por que estou agindo

assim? Não é da sua conta, ele não é importante, não é ninguém

para você.

Como se notasse minha presença, Pierry vira a cabeça,

levando seus olhos diretamente até onde estou. Pela expressão no

rosto com o olhar surpreso, confirmo o que suspeitava. É ele, esse

homem, o Don Juan falsificado. Faço menção de abrir a boca, mas a

fecho imediatamente. Lanço um último olhar em sua direção, e viro

de costas para não o ver. Infantilidade? Talvez. Qual mulher madura

nunca teve uma noite de sexo quente e casual? Só não quero ter

contato nunca mais, nunca mais, repito mentalmente.

Desço do ônibus em frente à escola. As crianças correm na

calçada, despedindo-se dos pais, outros encontrando os amigos para

entrar na sala de aula. Sorrio ao ver o quanto é lindo o gesto de uma

criança, sempre sincero e puro, ao contrário de uns e outros que

acha que pode... Ahhgrrrr... Resmungo comigo mesma. Esqueça

isso, passou, foi só sexo, só sexo.

Só sexo, nada. Espero que esse cretino nunca mais cruze

meu caminho. Respiro fundo, e lembro dos braços de Caio.

Caio, nada, Pierry contra a parede, quente, selvagem...

Cala a boca, Sherolayne, você não opta por nada sua

assanhada. É o vizinho sim, nada de parede ou quente. Não tem

amor-próprio, eu, hein, se controla mulher.

        Capítulo 5

Como diabos pude encontrar essa mulher depois de todo

esse tempo? Ela tinha que morar logo na cidade de São Paulo. Ah,

qual é, e sua reação como se não me reconhecesse. Duvido que não

me reconheça, por isso virou de costas, fazendo-se de difícil. Ela não

estava nada difícil naquela noite no hotel, enquanto a fodia contra a

parede.

Piso fundo no acelerador na marginal, ultrapassando os carros

mais lentos. O som do motor ronca alto atraindo olhares curiosos.

Sinto como se estivesse com algo entalado na garganta. Em três

anos, Maria Luiza não mudou em nada. Continua linda, e sensual

com seus seios fartos de prender atenção de qualquer homem com

sangue quente.

Ingrata. Salvei sua vida em Paris, tirando-a das ruas, já que

estava bêbada igual um gambá, colocando-se em perigo. E se eu

fosse um psicopata, estuprador ou qualquer coisa assim? Hoje, ela

estaria enterrada em qualquer lugar, morta. Tudo bem, que também

a teria matado se fosse necessário, mas não quer dizer que não

sentiria remorso. Okay... Okay... Não sentiria remorso. O que posso

fazer? É minha profissão, ganho a vida basicamente arrancando a de

outras pessoas. Agradeçam ao meu querido pai, responsável por

envolver o filho nesse mundo sombrio e solitário.

Desde pequenos aprendemos que devemos seguir os passos

dos pais. É considerado que são responsáveis pela criação e futuro.

Mas, acho que Charlie ficou cego de raiva e dor depois do que

aconteceu com a esposa. Quem pode culpá-lo, não é? Talvez fosse

melhor se tivessem acabado o serviço, mas, os desgraçados

queriam deixar uma testemunha para contar em detalhes. E

adivinhem quem foi o sortudo. Eu. Enfim, isso ficou no passado, e

hoje, sou forte graças às feridas que com o tempo cicatrizaram.

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