Capítulo 2

Alison Pines

A última vez que me senti tão nervosa e trêmula foi na primeira vez que estive em um programa de tv para uma entrevista sobre o meu primeiro livro. Desde então, me acostumei com as câmeras e perguntas mais aleatórias que me faziam.

Mas hoje, meu coração disparou e minhas pernas amoleceram de um jeito que eu já não me lembrava mais como era pedir socorro ao universo para conseguir respirar novamente.

Mark!

Faz 8 anos desde a última vez que o vi, e ele parece que não mudou nada. Ainda tem aquele sorriso sensual que seria capaz de derreter uma geleira. Olhos marcantes e olhar intenso, uma postura leve e decidida, cheio de charme e de si mesmo. Sabe que é lindo e que chama a atenção de qualquer pessoa. Uma presença máscula e imponente. 

No entanto, apesar de seu olhar impenetrável, ele parecia distante, perdido. Aquele brilho que ele costumava ter, demorou um pouco para aparecer. Ele também não tinha toda a segurança e atitude de antes, aparentava estar receoso. Talvez a minha presença não tenha lhe agradado de alguma forma.

Se um dia eu disser que foi fácil deixá-lo no passado, estaria mentindo. Sua presença esteve marcada em mim por todos esses anos. Eu apenas aprendi a conviver com ela e distinguir que ele não fazia mais parte do meu presente. Pensar desse jeito parece ter dado certo. Mas vê-lo outra vez, me deixou...estranha.

— Como foi a conversa com a CEO da editora OuroPell? — encaro Harold ao volante, mas demoro um pouco para me situar do assunto.

— Boa.

— Boa? Só isso? — pisco alguma vezes, voltando ao presente.

— Foi ótima, na verdade. Ela se mostrou bastante interessada em uma reunião particular.

— Isso é ótimo, querida! — ele entra com o carro na garagem. — Você escreve o gênero de livros que a editora dela tem interesse em publicar.

— Ela me deu o cartão de visita dela e pediu que eu entrasse me contato.

— Vai ser uma excelente oportunidade para você. Essa editora é a mais requisitada do mercado. — ele desliga o carro e apaga os faróis. Vira-se pra mim sorridente. — Eu sei que você vai conseguir se sair bem em uma reunião com ela, tenho certeza. — ele pega a minha mão e beija carinhosamente.

— Obrigada pelo apoio. — sorri fraco e ele respirou fundo, mais animado do que eu.

— Você está muito quieta hoje. — ele observa ao entrarmos em casa. — Deve estar cansada. — deixa o sobretudo no sofá e se dirige a mim, colocando as mãos no meu rosto e beijando minha testa. — Deveria descansar, amanhã será um dia agitado. — fito seus olhos em dúvida. — Não se lembra que dia é amanhã?

— Sexta-feira? — murmuro e ele ri.

— Querida, amanhã é dia 9. Tenho uma convenção importante para participar.

— Ah.

— Sei que tem andando muito ocupada com seu novo livro, então não estou desapontado por ter esquecido.

— Sinto muito.

— Não se preocupe. Está tudo bem. — ele se vira para a mesinha da entrada e esvazia os bolsos.

Agora estou me sentindo péssima por ter esquecido de algo tão importante para ele. Vínhamos falando dessa data por semanas, e na véspera da tão esperada convenção dele, eu esqueci completamente.

— Harold?

— Sim?

— Se amanhã é dia 9, isso significa que...— meu coração acelera.

— Hoje é dia 8? — ele brinca.

Eu me aproximo mais dele e envolvo meus braços em seu pescoço, beijando sua boca com precisão. Colo meu corpo ao dele e enfio as mãos em seus cabelos.

— Gostei de como você ficou animada. — ele sorri em meus lábios, passando as mãos pela minha cintura.

— Harold, querido, vamos subir e aproveitar nossa noite. — vou deixando um rastro de beijos por sua bochecha e pescoço.

— Isso parece ótimo. — ele reage com um gemido abafado.

— Temos que aproveitar cada oportunidade nos próximos dias. — suas mãos ficaram firmes em minha cintura e ele me afasta.

— Está me dizendo que...

— Sim, querido, hoje começa o meu período fértil. — Eu o abracei novamente, mas ele não parece tão interessado agora. — O que houve?

— Eu preciso terminar de organizar algumas coisas para a convenção de amanhã.

— Mas você tem deixado isso pronto há semanas.

— Eu só não quero acabar esquecendo alguma anotação importante.

— Tudo bem, então vou te esperar na cama. — pego minha bolsa e vou para a escada.

— Não fique muito ansiosa, pode ser que eu demore um pouco.

Parei no segundo degrau e me virei para ele.

Há poucos instantes ele estava empolgado em irmos para o quarto e nos deleitar no corpo um do outro, não faz sentido ele simplesmente ter perdido o interesse tão de repente.

— Harold — desci os degraus — você está me evitando? Justo agora?

— Eu não estou te evitando Ali, só tenho coisas para fazer.

— Você está me evitando sim, eu tenho notado isso.

Harold já não era tão viril como quando nos conhecemos, sei que isso é bem comum para um homem que está chegando aos 50 anos, mas as coisas andam bem estranhas ultimamente.

Já houve duas oportunidades que o flagrei assistindo filmes adultos, ele me evita em determinadas ocasiões e passou até a sair do banho já vestido.

— Harold, você perdeu o interesse em mim? — minha voz falha ao perguntar.

— O quê? — ele parece surpreso com a minha pergunta.

— Você não se sente mais atraído por mim?

— Alison, que bobagem. Claro que eu ainda me sinto atraído por você. — ele fica agitado e evita me olhar.

— Então o que está havendo? Por que tem andado tão distante ultimamente?

— Eu estou um pouco cansado. Tenho trabalhado bastante nessa nova pesquisa e a convenção de amanhã é muito importante. — ele vira de costas e passa a mão pelo rosto. O típico comportamento de quando está mentindo para mim.

— Harold?

— Hm?

— Por que está mentindo? — ele fica calado e ainda não me olha. — O que é tão desgostoso para você precisar mentir pra mim? — ainda silêncio. — Você está tendo dificuldade para ficar...duro? — a última palavra sai como um sussurro.

— Claro que não! — ele se vira rápido para mim, com os olhos arregalados. — Posso não ter mais 30 anos, mas, com certeza, esse não é o problema.

— Então se não é isso, o que...— parei ao chegar a uma conclusão dolorosa. — Você está me traindo? — ele suspira cansado.

— Santo Deus, Alison, de onde você tira essas ideias?

— Se você não está com problemas de disfunção, só pode ser porque tem outra!

— Alison, não diga bobagens. Eu não estou traindo você. — ele senta no sofá, entrelaça os dedos e repousa sobre o rosto.

— Eu não consigo entender. Se eu não estou menos desejavel, você não está com problemas e não há uma terceira pessoa envolvida, o que há de errado, então? — caminho devagar em sua direção, sem desviar os olhos dele, sua postura de culpa só me deixa ainda mais curiosa.

— A sua fertilidade é o problema! — responde convicto. Eu tento entender seu raciocínio, mas não consigo encaixar as coisas na nossa situação. — Já parou para prestar atenção que você só tem me procurado na cama no seu período fértil? — engulo seco porque ainda não faz sentido pra mim. — Eu tenho sido apenas uma opção de concepção para você, Alison.

— Isso não é verdade.

— Claro que é! — ele levanta e olha direto nos meus olhos. — Quando não está em seu período fértil, você apenas trabalha ou escreve. Não me dá nenhum tipo de atenção ou carinho espontâneo. Então, quando sua preciosa semana chega, eu sou tudo o que você quer. É uma situação bastante desagradável.

— As coisas não são desse jeito.

— Então me diga, desde seu último período fértil, quando você me procurou? Quando veio, de livre e espontânea vontade, se deitar ao meu lado? Quando me procurou para uma rapidinha dentro do carro no estacionamento do supermercado? Quando sequer se insinuou pra mim ou me provocou?

— Você sabe o quanto isso é importante para mim. — o bolo em minha garganta não me permite dizer mais do que isso.

— Eu sei. E é só disso que temos vivido no último ano. — ele começa a andar de um lado para o outro, irritado e impaciente. — As nossas conversas são sempre sobre o seu tratamento de fertilidade, ou sobre suas consultas com a Dra. Kall. Quando você menstrua, o mundo desaba sobre nossas cabeças e voltamos ao início. Outra vez começam as conversas sobre sua fertilidade. É só isso que temos feito. — ele para e me encara triste. — E eu estou cansado disso. Sou seu marido, acho que mereço mais do que ser tratado como um garanhão, que tudo o que importa para os demais é a minha essência genética.

— Eu nunca tive a intenção de fazer você se sentir assim. — me sinto envergonhada por tê-lo tratado dessa forma. Harold é especial pra mim, e eu queria que ele estivesse feliz e esperançoso tanto quanto eu.

— Mas é tudo o que você tem me feito ser. — ele caminha até o aparador e enche um copo de whisky, que toma em um único gole. — Achei que eu fosse importante pra você, como pessoa, como seu marido.

— E você é, não duvide disso, por favor. — meus olhos ardem enquanto eu tento conter as lágrimas. Ele se vira pra mim com uma súplica no olhar.

— E eu ainda seria se não pudesse lhe dar um filho?

Nos olhamos por um tempo incalculável. Aquela pergunta deveria ser a coisa mais simples que eu poderia responder, mas meu coração está apertado demais com a possibilidade de passar a vida inteira sem nunca carregar um bebê no ventre ou segurá-lo em meus braços nos seus primeiros momentos de vida. 

— Harold...

— Você sequer consegue me responder isso sem ter que pensar a respeito. — agora ele está magoado, o jeito como bate o copo sobre o aparador demonstra seu desgosto.

— Harold, todo casal tem seus altos e baixos, e estamos em um momento delicado, principalmente porque estou há anos fazendo esse tratamento, por isso ele significa tanto. Não é uma situação definitiva. Claro que eu fico triste toda vez que vejo que nossos esforços não levam a nada, mas em breve, teremos nosso felizes para sempre todos os dias. Aqui, nos meus braços, — passo as mãos por suas costas, subindo devagar e apertando levemente seus ombros. — nos dando muitas noites em claro. — pouso a cabeça em suas costas, sorrindo ao imaginar nossa família.

Ele inalou o ar com dificuldade, apoiou-se no aparador com os punhos cerrados e baixou a cabeça.

— Nunca teremos a família que deseja, Alison.

— Não seja pessimista, Harold. A Dra Kall está confiante nesse novo tratamento...

— Alison... — ele se vira e pega minhas mãos. — Eu sei que você tem lutado muito por isso, mas esse sonho não se tornará realidade.

— Querido, precisamos acreditar que pode dar certo desta vez. Tudo é questão de nos mantermos... — ele aperta minhas mãos e as coloca junto ao peito.

— Alison, eu não posso ter filhos.

Estupefata e descrente no que acabei de ouvir, a única coisa que consigo dizer é: — O quê?

Capítulo 3

Mark Fletcher

Como eu imaginava, não consegui pregar os olhos durante a noite, se dormi por 15 minutos, foi muito. O que me restou com os primeiros raios de sol invadindo a janela da sala, foi sair e fazer minha corrida matinal. Achei que ela me ajudaria a espairecer um pouco, mas foi apenas mais um engano.

O ar fresco da manhã e o balançar das folhas nas árvores do parque só me trouxeram ainda mais melancolia. Todas aquelas árvores, milimetricamente enfileiradas, me fizeram voltar mais de 8 anos no passado, quando meus pulmões ardiam, clamavam por oxigênio ao percorrer aquela floresta para impedir a Alison de ir embora da minha vida depois da pior merda que fiz na minha vida.

Eu não tenho ideia de quanto tempo alguém pode remoer tanto o passado e sofrer por ele até que finalmente possa se perdoar. Só sei que os meus erros parecem me machucar mais a cada vez que lembro deles, a cada vez que me recordo do quanto a fiz sofrer.

Tenho ciência de que mereço passar por tudo isso. Se não é fácil pra mim lembrar, imagino como deve ter sido doloroso para Alison enfrentar todas as verdades sobre mim quando suas lembranças voltaram.

O que me deixou intrigado ao ler o livro dela foi que, apesar de algumas partes serem sobre nossa história, nele não há um final tão ressentido quanto o nosso. Os personagens dela, apesar de não ficarem juntos, superaram e resolveram suas diferenças em uma longa e conflitante conversa. Talvez esse tenha sido o diferencial para ele ter tido tamanho reconhecimento. Nem toda história de amor tem um final feliz, mas os protagonistas podem se resolver, encontrar a paz e seguir em frente.

Será que era isso que ela esperava de nós?

Cheguei em casa e a Melanie já estava na mesa, tomando café da manhã.

— Bom dia! — fui até a mesa, puxei uma cadeira e sentei, de frente para ela.

— Bom dia. — seu tom não foi nem um pouco animado, o que demonstra que ela não está contente com alguma coisa.

— Você dormiu bem? — puxei do centro da mesa uma tigela de salada de frutas e comi um pedaço de melão. Ela respondeu apenas com um sorriso forçado. — Desculpe por não ter me juntado a você durante a noite. Acabei não conseguindo dormir, de qualquer forma.

— Entendo. — seu tom seco ainda persiste.

— Está aborrecida com alguma coisa? — ela finalmente me encara, baixa lentamente a xícara e pousa delicadamente sobre o pires. O olhar que vem a seguir, faz meu estômago embrulhar.

Eu nunca vi a Melanie agir desse jeito. Com ela as coisas sempre foram muito fáceis de conduzir ou resolver. Nada que uma conversa pacífica não deixasse tudo em ordem. Mas hoje, tudo parece diferente.

— Você perdeu o sono por causa da Alison?

Me engasguei com um pedaço de fruta e fui obrigado a tossir para não perder de vez o controle. Ouvir aquele nome sair da boca dela foi praticamente um choque. Eu senti meu sangue gelar. Não que tenha medo de falar sobre ela com a Melanie, mas eu não esperava que fosse de forma tão súbita.

Durante esse tempo em que Melanie e eu estamos...nos relacionando, de certa forma, eu tive muitas oportunidades de dissolver esse muro que nos separa. Na verdade, Alison não é um muro que me separa apenas da Melanie, ela me separa de um mundo de novas experiências. O fato de eu ter total ciência disso só comprova o quanto não estou pronto para derrubá-lo e explorar novas alternativas. Até mesmo com a Melanie, que nunca desistiu do que nós temos.

— Onde ouviu esse nome?

— Agora o seu fantasma tem um nome. — ela passa levemente o guardanapo pelos lábios e volta a me encarar. — Eu não sei quão profundo era o seu estado de torpor na noite passada ou o quanto havia bebido, mas esse nome não saiu dos seus lábios por algum tempo.

— Mel, você não tem que se preocupar com...

— Mark, por favor, não insulte a minha inteligência. — sou obrigado a me calar, pois provavelmente era isso que eu acabaria fazendo. No entanto, seu tom de voz parece mais tranquilo agora. — Eu sei que algo no seu passado te fechou para o mundo, para novos sentimentos, amores e...para mim. — há uma tristeza em seu olhar que eu nunca havia visto antes. — Eu estava disposta a enfrentar isso e esperar que você superasse, seja lá o que tenha acontecido, mas pelo que pude entender na última noite, pode passar o tempo que for, a Alison estará sempre na sua vida. De um jeito ou de outro.

Eu não queria dar razão a ela, muito pelo contrário, queria poder dizer que tudo isso é um engano. Por mais longe que Alison esteja, dentro de mim, ela nunca esteve tão perto.

— Eu realmente não a esqueci, mas meus sentimentos por ela não são mais os mesmos.

— Então, você não a ama? — seu olhar vasculha meu interior de forma invasiva. Ela nunca me olhou assim antes. — Você pode me assegurar que todo desejo, paixão e sentimento de esperança em tê-la de volta não existem mais? É isso?

Eu não tenho como negar nada disso, se não estamos juntos hoje, certamente não é por falta de vontade minha, e sim por escolha dela. Mas eu não posso dizer isso para a Melanie. Sei que a magoaria, então optei pelo silêncio.

— Se eu dissesse que não quero saber o que aconteceu entre vocês, o que te fez ficar tão reticente e recluso dentro de si mesmo depois dessa relação, eu estaria mentindo. Jamais precisei ouvir essa história para querer e permanecer ao seu lado, mas há limite para tudo. Não acha que era na hora de enterrar esse passado e seguir em frente? Você, assim como qualquer outra pessoa, merece um recomeço. É um homem bom, sincero e prático, e sempre foi muito honesto comigo, mesmo não me contando tudo, sei que tem seus motivos.

— Eu não sou tão bom assim quanto pareço.

— O que isso significa?

— Meu relacionamento com ela não deu certo por minha culpa. — ela inspirou e segurou o ar por alguns instantes, ficou surpresa com a minha revelação. — Eu a magoei, eu a manipulei e fiz as coisas do jeito que eu achei que devia fazer. E as consequências disso tudo foram mais graves do que um coração partido. Eu mudei o futuro dela, e não foi de jeito bom.

Falar essas coisas para alguém que não é o meu terapeuta, alguém com quem eu me importe e tenho apoio, tira um peso enorme dos meus ombros.

— Tudo bem. — ela afasta a cadeira e levanta devagar. — Acho que é melhor eu te dar um tempo para resolver suas questões pessoais.

— Melanie...— eu me levanto e me aproximo, pegando suas mãos. — Eu não quero que você vá. Gosto de ter você aqui, gosto da sua companhia, de conversar, sair com você. De passar algum tempo ao seu lado. — ela dá um sorriso triste e passa a mão pelo meu rosto.

— Acho que apenas gostar não tem sido o suficiente para que finalmente aconteça um nós. Eu sinto muito, Taehyung, mas eu preciso dedicar um tempo para as minhas escolhas também.

Alison

— Eu pedi o divórcio!

— O quê? — Julie parece realmente surpresa, mas Amber se mostra indiferente. — Você pediu o divórcio porque ele não pode te dar filhos? Não acha que está exagerando?

— Julie, sabemos que você é mais esperta do que isso. — apesar de estar prestando atenção em tudo o que conversamos, Amber não tira os olhos do celular.

— Julie, não é porque ele não pode ter filhos que eu pedi o divórcio, foi por toda a mentira em que nosso casamento foi construído.

— Filhos são apenas um detalhe, Ali, todo o resto é o que importa.

— Você acha mesmo que a sua opinião pode ser levada em consideração aqui, Julie?

— Amber, não seja grossa! — advirto-a com um olhar sério.

Julie está no sexto mês de gravidez. Está sensível e eu não quero que ela se chateie com as palavras duras da Amber.

Eu fiquei muito feliz quando soube que a Julie estava grávida. Mesmo que não tenha sido uma concepção planejada, já que ela estava saindo com um cara no qual dizia não ser alguém que saiba lidar com responsabilidades ou tenha grande ambições e planos para o futuro, eu senti como se fosse um tapa na cara que o destino estava me dando por ela conseguir essa felicidade através de um acidente com o contraceptivo.

Julie agora era psicóloga infantil e trabalhava em um hospital especializado em câncer infanto-juvenil. Sempre que nossas agendas se conciliavam, nós almoçamos juntas.

Amber trabalhava como editora em um jornal local. Com seu talento e faro para as notícias, ela se destacou rápido e aguarda ansiosa pela promoção de âncora na edição principal do jornal televisivo. Com sua natureza sagaz, sei que não vai demorar muito para ela conseguir o que quer.

— Não estou sendo grossa, apenas direta. Como ela pode falar desse jeito enquanto cresce a cada mês como se fosse um planeta? Me soa um tanto quanto hipócrita.

— Vamos apenas ignorá-la, Ali. — Julie se vira para mim e pega minha outra mão sobre a mesa. — Você tem certeza que quer fazer isso?

— Ah, Julie, não é algo simples pra mim também, mas ele sempre soube desde o começo como ter filhos era importante para mim, e mentiu sem pensar duas vezes.

— O que ele deu como desculpa para uma mentira tão deslavada? — Amber olhou para mim apenas tempo suficiente para ter a minha atenção, depois voltou para o celular.

— Ele disse que eu havia me tornado importante demais para ele em muito pouco tempo, e que me contar isso e correr o risco de me perder era inadmissível.

— Ali, a relação de vocês não foi construída em cima de mentiras. — Julie me olha com compaixão. — Ele sempre foi tão carinhoso contigo, atencioso, priorizou mais a relação de vocês do que a própria carreira. Não tem como desconsiderar tudo isso.

— Mas ele foi egoísta. — Amber dispensa o celular na mesa e nos dirige a atenção. — Sabia a importância que isso tinha para ela. Deveria ter lhe contado tudo desde o início e deixar que ela decidisse o rumo que queria tomar na vida. Não foi justo ele manipulá-la dessa forma e achar que estava tudo bem. — meus olhos ardem e eu sinto as lágrimas ameaçarem rolar pelo meu rosto. — Sem falar em como ele a enganou, deixando que ela fizesse todos esses anos de tratamento para fertilidade e causando mais tristeza para ela toda vez que a menstruação dela vinha. Ele foi hipócrita, cretino, mentiroso e insensível. Eu não vou perdoá-lo por isso. Não importa o que digam. Ele jogou muito baixo.

Eu sinto os braços da Julie me apertarem em um abraço carinhoso e reconfortante depois de fungar alto sem conseguir controlar minhas emoções. Ela estava certa, foi nisso que eu pensei a noite toda, em como ele teve a coragem de fazer isso comigo, de jogar com meus sentimentos desse jeito e depois ainda se sentir usado por eu desejar tanto construir nossa família.

— Desculpa, Ali, sei que essas não são as melhores palavras para se ouvir agora, mas eu fiquei revoltada em saber que ele fez isso contigo.

— Está tudo bem. — seco o nariz com um lenço que a Julie gentilmente tirou da bolsa e me entregou. — É só que, transformar meus sentimentos em palavras parece doloroso demais agora.

Enquanto me recomponho, as duas ficam em silêncio. Amber me olhando com tristeza e Julie passando a mão pelas minhas costas, até que eu me sinta melhor.

— Ele saber que não pode ter filhos e esconder isso de você, não foi nada honesto.

— Finalmente você entendeu, Julie. — ela encara Amber por alguns segundos e revira os olhos.

— Na verdade, ele optou por isso.

— Como assim? — Julie fica curiosa.

— Ele me disse que quando era jovem, não era um rapaz muito comportado. — sorri com tristeza. — Como vinha de uma boa família e que tinha recursos, duas vezes tentaram lhe enganar com o golpe da barriga. Ele se "envolvia" com as empregadas da família...

— O cretino ainda era canalha. — acrescenta Amber.

— Como não tinha tempo para socializar com os colegas da faculdade e elas estavam sempre querendo uma "chance" com o filho do patrão, ele se deixava levar. — eu dobrava e desdobrava o lenço nas mãos, era um forma de evitar os olhos ansiosos das duas. — Então, para não precisar ficar se desgastando com exames de gravidez ou paternidade, ele fez uma vasectomia.

— Jura que essa foi a solução que ele encontrou? Tenho certeza que ele não é tão velho assim para não saber onde encontrar uma camisinha naquela época. — zombou Amber.

— Será que eu sou tão tola assim para que os homens me enganem com tanta facilidade?

— Ali, não pense assim, você não é tola. Mentirosos a gente encontra em todo lugar. — Julie enche uma taça com água e me entrega.

— Mas todos os meus relacionamentos terminaram envoltos em mentiras com homens que mentiram pra mim de forma tão dissimulada. Primeiro o Nate, que dizia não ter tido nada com aquela garota do colégio, agora têm dois filhos e estão divorciados. Depois o Mark, que se aproveitou da minha perda de memória para criar toda uma farsa e agora... — suspirei melancólica. — Bem, não tenho ideia de como ele está agora.

— Soube que ele e os sócios estiveram em um evento na noite passada. Que por acaso, era o evento em que você estava com o Harold. — argumenta Amber, em tom especulativo. — Você o viu por lá?

— Sim, mas isso não...

— Ele está ainda mais gato, não é?

— Ai, Amber, ele não é o assunto da vez. — Julie fica impaciente.

— Eu sei, homens mentirosos e blá, blá, blá! — ela gesticula com a mão, como se a pauta da nossa conversa fosse insignificante. — No entanto, ele é o mais...— ela dá um sorriso insinuante. — Gato que Ali já conheceu.

— Suspeito que ele seja um mentiroso patológico, isso sim.

— Julie, todo homem mente sobre alguma coisa. Alguns sobre a altura, a conta bancária... Outros sobre não serem casados ou o tamanho do pau, que são sempre maiores em suas conversinhas fiadas. Certo que, a maioria é sobre coisas pouco relevantes, e talvez, a Alison só não tenha tido sorte de seus ex serem tão... superficiais.

— Pois bem, se fossem mais superficiais, talvez não tivessem causado um estrago tão grande na vida dela. — Julie suspira cansada. — Sinceramente, acho que o menos pior foi o Nate.

— Para mim todos são iguais! — afirmo.

— Eu certamente não aprovo o Nate, muito menos o Harold. Já o Mark...

— Credo, Amber!

— Já viram a moça que está sempre com ele?

— Ele está casado? — a pergunta saiu mais rápido do que eu pude perceber. As duas me encararam surpresa. — Quer dizer, não é nada de mais perguntar isso. — dou de ombros.

— Jura que não soube mais nada sobre ele nos últimos anos?

— Não.

— Meu Deus, Ali, você não deve ser normal. Um homem daquele, que já foi seu e você não dá uma olhadinha sequer na vida dele? — Amber pega o celular, digita alguma coisa e me entrega. — Ele está saindo há muito tempo com essa mulher. — vejo uma foto do Mark ao lado de uma moça de cabelos longos castanhos, olhos grandes, cor de amêndoa e um sorriso surpreendente. Muito linda, por sinal. — E é há muito tempo mesmo, mas nunca foi anunciado namoro, noivado ou casamento. Tenho certeza que se fosse alguém importante e já houvesse algo mais entre eles, já teria sido vazada a informação.

Apesar dela ser linda, ter uma presença marcante e um excelente gosto para roupas, ele não exibe o mesmo sorriso autêntico e extasiante como ela. Cada foto que vejo, em lugares diferentes e nos mais variados eventos, a expressão dele é sempre a mesma. Uma postura séria, olhar penetrante e uma formalidade convencional. Mas nunca um sorriso.

— O sócio dele, o Conrad, se casou com uma das amigas dela. Melanie Cork é uma socialite conceituada em iniciativas beneficentes. Vinda de uma família renomada da Inglaterra, ela tem a sabedoria e doçura de uma vovó de cabelinho grisalho das histórias infantis. Mas sem nenhuma ruga e com um espírito de liberdade incrível. — Amber segue destacando as qualidades da moça. — Eu adoraria conhecê-la. Apesar de tantas qualidades destacáveis, ela tem um certo mistério no olhar. Não acha?

Mark... Cada dia, mês ou ano que passamos longe, não afetou em nada a elegância e jovialidade que ele carrega. Como ainda pode estar tão lindo, charmoso e fazer meu coração disparar desse jeito?

— Deve haver alguma coisa errada para eles estarem juntos há tanto tempo e não terem assumido um relacionamento. — entrego o celular para Amber.

— Claro, ela não é perfeita. — Julie diz antes de dar uma mordida em um muffin.

— Talvez o problema seja ele. Pelo menos entre nós, foi ele quem estragou tudo.

— E você não pretende perdoá-lo nunca? — Amber arquea as sobrancelhas.

— Neste exato momento, meu casamento está indo pro ralo por causa dele. Acha mesmo que tenho como perdoá-lo?

— Ele pode ser culpado por dizer a coisa errada no momento errado, Ali, ou por esconder parte da história de vocês quando você perdeu a memória, mas ele não é culpado pelo acidente ou pelo Harold ter te manipulado. — ela recosta na cadeira, com um tom argumentativo. — Não sou advogada para defende-lo de certas coisas, mas também não sou juíza para condená-lo por algo que, obviamente, ele não tem culpa. Sou apenas jornalista, e especulação é minha especialidade.

— Não importa o que ele fez ou não fez. Ele é passado agora. E eu estou visando um futuro que tenha como prioridade a minha felicidade.

— O que pretende fazer agora, Ali? — Julie pergunta de boca cheia.

— Bom, eu quero visitar meus pais inicialmente. Depois, vou dar entrada no divórcio e manter meu tratamento com a Dra Kall. — Amber e Julie se entreolham. — Para então, ser mãe.

— Ali...

— Ah, não. — Amber parece preocupada.

— Eu serei mãe de um jeito ou de outro. Não me importo em ser mãe solo, de aderir a inseminação artificial. E não existe Mark ou Harold que me impeça de ter o que eu quero!

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