Capítulo 2

O mundo do lado de fora da porta do meu quarto de hospital era uma tempestade de atividade. Franco havia chegado, e com ele, toda a força de sua persona pública. Ele chorou ao meu lado, seu rosto bonito marcado por uma convincente demonstração de dor e angústia. Ele segurou minha mão, seu toque agora parecendo uma marca de ferro em brasa.

"Minha Elisa", ele murmurou, a voz embargada de emoção para que as enfermeiras e os médicos ouvissem. "Quem fez isso com você? Eu vou encontrá-los. Eu juro, vou fazê-los pagar."

As enfermeiras o olhavam com adoração. "Vocês dois são tão apaixonados", suspirou uma delas. "Ela tem muita sorte de ter você."

Eu fiquei imóvel, meu rosto uma máscara em branco. Por dentro, eu era um deserto congelado. A mulher que amou este homem estava morta, assassinada no porta-malas de um carro e sangrou até a morte no chão de um hospital. A pessoa que restou era uma estranha, até para mim.

Eu olhei para ele, olhei de verdade, pela primeira vez. O marido perfeito. O visionário da tecnologia. O filantropo. Era tudo uma atuação. Uma performance meticulosamente elaborada para uma plateia de tolos. E eu tinha sido a maior tola de todas.

Meu olhar se desviou para o calendário na parede. Era nosso aniversário. O dia em que ele me pediu em casamento, cinco anos atrás. Ele provavelmente tinha acabado de vir de comemorar com sua família de verdade.

O pensamento me fez querer vomitar de novo. Ele ainda estava segurando minha mão, seu polegar acariciando meus nós dos dedos em um gesto que uma vez significou conforto. Agora, era apenas mais uma parte da mentira. Senti uma onda de repulsa física tão forte que tive que puxar minha mão.

Ele pareceu magoado, a testa franzida de preocupação. "Elisa? Você está com dor?"

"Estou cansada", eu disse, minha voz plana.

"Vou chamar o médico", ele disse, pulando para resolver o problema, para ser o herói.

Nesse momento, o celular dele vibrou. Uma mensagem de texto. Ele olhou, e um lampejo de irritação cruzou seu rosto. Ele tentou esconder, mas eu vi. Ele tentou silenciar o telefone, mas vibrou de novo. E de novo. Implacável.

Eu não precisava ver a tela para saber quem era. Karine. Sua amante selvagem e obsessiva. Chamando seu "papai" para voltar para casa.

Fechei os olhos, forçando-me a interpretar o papel que interpretei por cinco anos. A Elisa compreensiva, gentil e pura.

"Franco", eu disse suavemente. "Está tudo bem. Você deveria ir. O trabalho é importante."

Ele olhou para mim, seus olhos cheios de um conflito fabricado. "Eu não posso te deixar."

"Eu vou ficar bem", menti. "As enfermeiras estão aqui. Você tem uma empresa para administrar. Vá."

Ele hesitou por mais um momento, a imagem perfeita de um marido devotado dividido entre o amor e o dever. Então ele se inclinou e beijou minha testa. "Voltarei assim que puder. Vou deixar minha equipe de segurança na sua porta. Ninguém vai chegar perto de você."

Ele queria dizer que ninguém poderia entrar. Mas o que ele estava realmente fazendo era garantir que eu não pudesse sair.

Ele saiu, e o quarto ficou em silêncio. O silêncio era um cobertor pesado, me sufocando. Eu não sentia nada. Apenas uma vasta e vazia expansão onde meu coração costumava estar. O amor, a confiança, a esperança - tudo isso havia sido arrancado de mim, deixando nada além de uma casca oca.

Dispensei os seguranças que ele havia postado, dizendo que precisava descansar. Mandei as enfermeiras embora com um sorriso fraco. Eu precisava ficar sozinha.

Por um longo tempo, apenas encarei o teto. Eu estava à deriva, um fantasma na minha própria vida. Então, com uma clareza que cortou a névoa, eu soube o que tinha que fazer.

Peguei o celular descartável que a policial gentil havia me dado antes de sair.

Disquei o número que Caio me deu.

Capítulo 3

"Elisa", a voz de Caio era uma tábua de salvação na escuridão. "Você está bem? Eu estava ficando louco."

"Eu não estou bem, Caio", eu disse, as palavras saindo rachadas e secas.

"Eu vi as notícias", ele disse, sua voz baixa e irritada. "Um ataque aleatório? Besteira. Isso tem a assinatura do Franco por toda parte."

Eu fiquei em silêncio. Eu não precisava confirmar. Ele já sabia.

"Por que você me ajudou naquela hora, Caio?", perguntei, pensando no celular descartável, na forma como ele apareceu tão rapidamente.

Ele ficou quieto por um momento. "Porque eu sempre soube o que ele é, Elisa. Eu só... eu esperava estar errado. Pelo seu bem." Ele suspirou. "E porque eu te amo desde que éramos crianças. Antes mesmo de ele aparecer."

As palavras pairaram no ar entre nós. Uma vida diferente, um caminho diferente, passou diante dos meus olhos. Uma vida de afeto simples e genuíno. Era um caminho que eu não podia mais seguir.

"Caio, não estou procurando romance", eu disse, minha voz dura. "Estou procurando vingança."

Ele riu, um som curto e sem humor. "Ótimo. Porque romance é complicado. Vingança é limpa. Do que você precisa?"

"De tudo", eu disse. "Preciso saber de tudo."

Ele prometeu investigar. Ele tinha acesso. Como sócio de Franco, seu suposto melhor amigo, ele estava por dentro. Ele era a única pessoa em quem Franco confiava completamente. Outro dos erros de Franco.

Depois que desliguei, senti uma lasca de força retornar. A dormência começou a recuar, substituída por uma determinação fria e dura. Eu tinha um propósito agora.

Passei os dias seguintes me recuperando, interpretando o papel da vítima quebrada e traumatizada. Franco era uma presença constante, me cobrindo de presentes e afeto. Flores, joias, promessas de viagens luxuosas assim que eu melhorasse. Ele era o parceiro perfeito e dedicado.

Ele se sentava ao lado da minha cama, lendo meus livros favoritos, sua voz um bálsamo calmante que agora me dava arrepios. Ele me dizia o quanto me amava, como não podia viver sem mim.

E o tempo todo, eu podia sentir o perfume de outra mulher em suas roupas. Um perfume barato e enjoativo que se agarrava a ele como uma mortalha.

Uma noite, cheguei em casa de uma consulta de acompanhamento. A casa estava impregnada com o cheiro da minha comida favorita, frango assado com alecrim. A mesa estava posta para dois, com velas e uma garrafa de vinho caro.

Franco estava no escritório, gritando ao telefone. "Eu não me importo com o que for preciso! Encontrem-nos! Quero que eles sofram pelo que fizeram com ela!" Ele estava falando sobre meus agressores, os que ele contratou. A performance nunca parava.

Vi as chamadas perdidas no meu celular. Dezenas delas. Dele.

Ele me viu e seu rosto se transformou. A raiva desapareceu, substituída por um olhar de puro alívio e amor. Ele correu para mim, me puxando para um abraço apertado.

"Elisa! Eu estava tão preocupado. Você não atendeu o celular." Ele enterrou o rosto no meu cabelo, inalando profundamente. "Você é tudo que importa."

Fiquei rígida em seus braços. Eu não sentia nada.

"Onde você foi?", ele perguntou, a voz suave, mas com uma corrente de aço por baixo.

"Fisioterapia", eu disse, minha voz uniforme.

"O trabalho pode esperar", eu disse, minha voz mais fria do que eu pretendia. "Seu filho é mais importante, não é?"

Ele congelou. Apenas por um segundo. Um lampejo de pânico em seus olhos antes de ser mascarado pela mágoa.

"Elisa, como você pode dizer isso?", ele disse, a voz ferida. Ele segurou meu rosto em suas mãos. "Você é o meu mundo. Você é tudo."

Mentiroso.

"É o nosso aniversário", ele disse, a voz caindo para um sussurro. "Deixe-me cuidar de você."

Ele me levou para a mesa, me serviu o jantar e encheu minha taça de vinho. Ele falou sobre nosso futuro, sobre todas as coisas que faríamos juntos. Ele era um mestre artista, pintando um quadro lindo sobre uma tela de sujeira e mentiras.

Eu mal comi. Meu estômago era um nó apertado de nojo.

O celular dele vibrou de novo. Ele olhou, um movimento rápido e furtivo.

"Me desculpe", ele disse, levantando-se. "É uma emergência no escritório. Um servidor caiu. Eu tenho que ir." Uma mentira, outra mentira fácil e praticada.

Ele me beijou, um beijo longo e demorado que tinha gosto de cinzas. "Voltarei antes que você perceba, meu amor."

Eu o vi sair. No momento em que a porta se fechou, a máscara do marido amoroso caiu, e eu sabia que ele estava correndo para sua família de verdade.

Caio as havia instalado. Câmeras minúsculas e indetectáveis por toda a casa. Um presente de despedida de um "amigo preocupado". Liguei o monitor.

Observei o carro de Franco se afastar em alta velocidade. Rastreiei sua localização até um condomínio elegante e moderno do outro lado da cidade. Um lugar que eu nunca soube que existia.

Mudei para as câmeras que Caio conseguiu instalar lá. E eu a vi.

Karine Bastos.

Ela não era mais a assistente sem graça e apagada que eu lembrava. O dinheiro de Franco a transformou. Seu cabelo era uma juba de mechas loiras caras. Seu corpo era tonificado e esculpido por personal trainers. Ela usava um robe de seda que se agarrava às suas curvas. Ela parecia uma pessoa diferente, mas a mesma ambição venenosa estava em seus olhos.

Ela o esperava na porta.

"Você está atrasado", ela ronronou, envolvendo os braços em volta do pescoço dele. "Sua santinha preciosa te prendeu?"

Franco não a empurrou. Ele a puxou para mais perto, a mão deslizando por suas costas. "Não fale dela", ele disse, mas não havia calor em suas palavras.

"Por que não?", Karine provocou, seus dedos traçando a linha de sua mandíbula. "Com medo de que eu a contamine com a minha selvageria? É isso, Franco? Você precisa da pureza dela e do meu fogo? Você não pode ter os dois."

"Observe", ele rosnou, e a beijou, um beijo faminto e brutal que não era nada como o afeto gentil que ele me mostrava.

Léo correu para a sala então, pulando nos braços de Franco. "Papai! A mamãe disse que você ia me trazer uma surpresa!"

Franco sorriu, um sorriso genuíno e desprotegido que eu não via há anos. "Eu trouxe, campeão."

Ele tirou uma caixa do bolso. Era um console de videogame novo, de edição limitada. O mesmo que eu mencionei querer comprar para uma campanha de caridade na semana passada.

Karine riu, um som triunfante. "Ele te ama mais, viu", ela sussurrou para o menino, alto o suficiente para a câmera captar. "Não ela."

Deixei o tablet cair. Ele bateu no chão. O som ecoou na casa vazia e silenciosa. Minha casa. A casa para a qual ele voltava quando terminava de brincar de família.

Ele não tinha apenas um caso. Ele construiu uma segunda vida, uma existência completa e paralela. Ele amava a selvageria dela. Ele amava a minha pureza. Ele era um colecionador, e nós éramos suas duas posses mais preciosas e incompatíveis.

A dor foi um golpe físico, tirando o ar dos meus pulmões. Caí de joelhos, tremendo.

Ele não era apenas um mentiroso. Ele era um monstro. E eu era casada com ele. Não, nem isso. Eu era apenas uma conveniência. Um objeto bonito e puro para exibir em sua prateleira.

E eu tinha o dinheiro dele. Eu tinha a empresa dele.

Eu ia queimar o mundo dele até o chão.

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