Os gritos desesperados de Cris desapareceram enquanto minha segurança a escoltava para fora. Eu não me importava com o que ela pensava. Eu não me importava com o que Caio pensaria. Tudo o que me importava era a vida pequena e inocente dormindo lá em cima. Agarrei o corrimão da grande escadaria, meus nós dos dedos brancos, o mármore frio um contraste gritante com a fúria ardente dentro de mim.
Meu assistente, Léo, um homem quieto que estava com minha família há anos, aproximou-se com cautela. "Sra. Mendes, a equipe de segurança garantiu que a Srta. Viana não a incomodará novamente." Sua voz era calma, profissional, mas eu vi a tensão sutil em seu maxilar. Ele sabia o que eu acabara de ordenar, e sabia das repercussões.
"Ótimo", eu disse, minha voz rouca. "Garanta que todas as medidas necessárias sejam tomadas. Quero ela na lista negra de todos os estúdios, de todas as agências. Todos os contatos que ela já fez nessa indústria. Apagados."
Léo assentiu uma vez, um reconhecimento silencioso do meu comando absoluto. Ele se virou para sair, seus passos quase inaudíveis nos pisos polidos. Meus homens eram eficientes. Ouvi um lamento distante, seguido por um baque surdo, e depois silêncio. Uma satisfação fria se instalou sobre mim. Eu não sentia nada por ela, apenas um alívio arrepiante de que minha vontade havia sido feita.
A casa, antes preenchida com as exigências estridentes de Cris, agora estava quieta. Quieta demais. Caminhei até o berçário, meus passos pesados, o silêncio amplificando meu esgotamento. Meu filho dormia pacificamente, seu peito minúsculo subindo e descendo a cada respiração. Eu o peguei, aninhando seu calor contra minha própria pele fria. Ele era tão pequeno, tão perfeito. Ele era tudo.
Afundei na poltrona de balanço, segurando-o com força, o tecido macio de seu cobertor um conforto. Eu precisava de descanso. Eu precisava de paz. Fechei os olhos, tentando bloquear as imagens do rosto aterrorizado de Cris, dos olhos indiferentes de Caio. Minha mente era um turbilhão de raiva e luto.
Um estrondo súbito e violento vindo do andar de baixo me despertou, meu filho gritando de susto com o barulho repentino. Seu corpinho se enrijeceu em meus braços, seus choros ecoando na casa silenciosa.
"Shh, meu amor, shh", murmurei, balançando-o suavemente, meu coração batendo forte no peito. Olhei furiosa para a porta, já sabendo quem estaria ali.
Caio.
Ele entrou no berçário, seu rosto uma máscara de raiva mal contida, seus olhos avermelhados. Ele parecia não dormir há dias, mas não era por preocupação comigo ou com nosso filho. Era fúria por causa de Cris. Ele me viu segurando nosso bebê chorando, mas seu olhar se fixou em mim, com uma intensidade venenosa.
"O que você fez, Helena?!", ele rugiu, sua voz baixa e gutural. "O que diabos você fez com ela?"
Meu filho choramingou, enterrando o rosto no meu ombro. Eu o apertei mais perto. "Eu simplesmente garanti que ela recebesse as consequências por suas ações."
"Consequências?!", ele riu, um som amargo e sem humor. "Você chama arruinar a carreira dela, destruir seu futuro, de 'consequências'? Ela está no hospital, Helena! Gravemente ferida!"
Meus olhos se estreitaram. "Ela entrou na minha casa, Caio. Ela me desafiou. Ela ameaçou meu filho. O que mais eu deveria fazer? Me curvar e dar a ela tudo o que ela queria?"
"Você é um monstro!", ele cuspiu, dando um passo ameaçador para mais perto. "Um monstro cruel e sem coração! Você se acha acima de todos, não é? Acha que seu poder te dá o direito de destruir vidas?" Ele agarrou meu braço, seus dedos cravando na minha carne pós-parto, uma dor aguda florescendo. Meu filho chorou mais alto.
"Que tipo de retribuição você espera, Caio?", perguntei, minha voz perigosamente calma apesar da dor. "O que você quer que eu sofra? Humilhação? Pobreza? Morte, talvez? Como minha família antes de mim?"
Ele congelou, seu aperto afrouxando ligeiramente ao ouvir a crueza na minha voz. Aquele nome, Helena. O que ele usava em nossos primeiros dias, quando ele era apenas Caio, um jovem empreendedor faminto tentando subir na vida.
Vi um flash do passado em seus olhos, uma memória de um tempo em que ele me adorava, em que acreditava em cada palavra minha. "Você costumava lidar com situações como essa com tanta... finesse, Caio", eu disse, uma ironia amarga tingindo minhas palavras. "Lembra daquele investidor conivente que tentou afundar seu primeiro grande negócio? Você desmantelou o império dele tão rápido, tão silenciosamente, que ele nem soube o que o atingiu até ser tarde demais. Ele perdeu tudo."
Ele abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. Ele apenas me encarou, seus olhos arregalados.
"Você jurou me amar, Caio", continuei, minha voz agora tremendo com uma dor muito mais profunda que a raiva dele. "Me proteger. Ser fiel. Na saúde e na doença. Lembra daqueles votos na capela? Ou aquilo foi apenas mais um 'acordo de negócios'?"
Ele havia jurado sua devoção em uma pequena e antiga capela, seus vitrais lançando luzes coloridas em seu rosto sério. Ele me disse que nunca tinha visto uma mulher como eu, forte mas gentil, capaz mas vulnerável. Ele parecia tão sincero, tão leal, disposto a sacrificar tudo para estar comigo, uma mulher de uma família antiga e estabelecida como a minha.
Ele finalmente encontrou sua voz, um rosnado baixo. "Foi um erro, Helena. Um momento de fraqueza. Homens cometem erros." Ele tentou descartar, minimizar, varrer anos de traição com um aceno de mão.
"E eu devo simplesmente perdoar esse 'erro'?", perguntei, minha voz subindo novamente. "Só porque você decidiu que está entediado com sua pequena atriz agora?"
Ele zombou, sua raiva explodindo novamente. "Você está com ciúmes, Helena. Sempre esteve. Você é fria, insensível. Você sempre me decepcionou."
Então ele se virou e saiu batendo a porta do quarto, a reverberação sacudindo a casa inteira. Ele me deixou de novo, como sempre fazia quando as coisas ficavam difíceis. Deixou-me com nosso filho ainda chorando em meus braços, meu corpo doendo, meu coração vazio.
Suas palavras ecoavam em meus ouvidos: fria, insensível, o decepcionei. Eu era? Eu tinha sido? Lembrei-me do aviso severo do meu médico após o parto. Meu corpo estava frágil. Esta criança... ele provavelmente seria meu único. Meu único legado. Minha única luz.
Olhei para meu filho, seu rostinho ainda úmido de lágrimas, agora aninhado contra meu peito. Meu coração doía, uma dor profunda e oca. As palavras de Caio, as provocações de Cris - elas giravam em minha mente, uma névoa tóxica. Como aquela mulher, aquela estranha, ousava tentar arrancar a única coisa preciosa que me restava neste mundo? Meu filho.
Eu estava certa em agir. Certa em protegê-lo. Minhas ações contra Cris não foram apenas vingança; foram uma declaração. Uma promessa de que ninguém jamais machucaria o que era meu novamente. Não enquanto eu ainda respirasse.
Fiquei sentada ali durante a noite, embalando meu bebê, os primeiros raios do amanhecer pintando faixas cinzentas no céu. Quando o sol nasceu completamente, uma clareza fria e dura se instalou sobre mim. Eu sabia o que tinha que fazer.
Liguei para Caio. O telefone tocou por um longo momento, fazendo-me pensar se ele sequer atenderia. Ele provavelmente pensou que eu estava ligando para me desculpar. Finalmente, ele atendeu, sua voz cautelosa.
"O que foi, Helena?"
"Venha para casa", afirmei, minha voz calma e firme. "Agora."
Houve um momento de silêncio. "Estou ocupado."
"Tenho certeza que está", respondi, com um tom afiado. "Mas isso diz respeito a nós dois. E garanto que você vai querer ouvir o que tenho a dizer."
Outra pausa, mais longa desta vez. "Tudo bem", ele disse, um suspiro de exasperação em sua voz. "Estarei aí em uma hora."
Antes que eu pudesse desligar, uma voz suave e aguda flutuou pelo telefone. "Caio, querido, o que há de errado? Você vai voltar para mim?" Era Cris, sua voz fraca, frágil, claramente destinada aos meus ouvidos. Ela ainda estava com ele. Ainda na cama dele.
A voz de Caio baixou, de repente terna. "Cris, pensei que você estivesse dormindo. Não se preocupe, querida, volto logo. Não se mexa." Ele falou como se eu não estivesse ouvindo, como se não tivesse acabado de me dizer que estava "ocupado". Imaginei-o acariciando o cabelo dela, pressionando um beijo em sua testa.
"Você não deveria ter provocado a Helena, meu amor", ele repreendeu levemente, uma nota de aviso em sua voz, mas sem raiva real. "Mas não se preocupe, eu vou resolver isso."
Cris choramingou. "Mas estou com tanto medo, Caio. Meu rosto... e se você não me achar mais bonita? E se eu ficar desfigurada?"
"Besteira, meu passarinho", ele acalmou, sua voz escorrendo afeto, do tipo que ele não me mostrava há anos. "Você é perfeita. Sempre será. Agora, descanse. Eu volto para você."
Uma onda de náusea me invadiu. Eu não conseguia mais ouvir. Desliguei, o telefone batendo contra a mesa de cabeceira. Minha garganta parecia apertada, uma dor ardente subindo por ela. Ele nunca falou comigo daquele jeito. Nenhuma vez. Em oito anos. A percepção foi uma pedra fria e dura no meu estômago. Ele nunca, nem uma vez, me mostrou um afeto tão terno e dedicado.
Menos de uma hora depois, Caio chegou. Ele cheirava a antisséptico, misturado com um leve e enjoativo doce do perfume de Cris. O cheiro fez meu estômago revirar. Tive que lutar contra a vontade de vomitar. Ele estava vestido com um terno elegante, como se estivesse pronto para uma reunião de diretoria, não para um confronto com sua esposa.
Caminhei até a mesa de centro, meus movimentos deliberados, e coloquei um envelope pardo grosso em sua superfície polida.
"Caio", eu disse, minha voz monótona, desprovida de emoção. "Acho que você vai querer ver isso."
Ele ergueu uma sobrancelha, um toque de sua arrogância habitual. "O que é agora, Helena? Mais provas fabricadas?"
Empurrei o envelope em sua direção. "É um acordo de divórcio."
Seus olhos se arregalaram, sua compostura cuidadosamente construída se quebrando. Ele encarou o documento, depois olhou para mim, um brilho de incredulidade em seu olhar. "Você está brincando."
Encarei seu olhar, meus próprios olhos frios. "Eu pareço estar brincando, Caio?"
Ele arrancou os papéis, examinando-os rapidamente, seu rosto escurecendo a cada linha. Então, com um rugido furioso, ele amassou o documento e o jogou na lixeira mais próxima. "Nunca! Eu nunca vou me divorciar de você, Helena! Só se eu estiver morto!"
"Por quê?", perguntei, minha voz tingida com um novo tipo de dor. "Por que você não me deixa ir?"
Ele riu, um som áspero e frágil. "Você acha que é tão fácil? Nós nos casamos nas Ilhas Cayman, Helena. Sob as leis de lá. É... complicado." Ele saboreou a palavra, usando-a como uma arma contra mim. "Você não pode simplesmente ir embora."
Antes que eu pudesse responder, uma batida frenética ecoou da porta da frente. Léo a abriu, seu rosto marcado pela preocupação. Ali, frágil e pálida, estava Cris. Ela parecia um fantasma, seu rosto enfaixado em alguns lugares, sua estrutura delicada tremendo.
"Caio, meu amor?", ela choramingou, seus olhos arregalados e lacrimejantes ao vê-lo.
Caio correu para o lado dela, sua fúria anterior contra mim esquecida. "Cris! O que você está fazendo aqui? Você deveria estar no hospital!" Sua voz estava carregada de preocupação genuína, com uma ternura que torceu uma faca em minhas entranhas. Ele realmente se importava com ela. Eu era apenas uma observadora distante, assistindo ao drama deles se desenrolar, percebendo que nunca fui a protagonista em sua vida.
"Eu... eu tive que vir", Cris gaguejou, seu olhar se desviando para mim, depois de volta para Caio. "Tenho algo importante para te dizer. Algo que os repórteres me contaram."
Caio olhou para ela, sua expressão suavizando. "O que é, meu amor?"
Cris hesitou, depois respirou fundo e trêmula, seus olhos se fixando nos meus, um brilho malicioso em suas profundezas. "Eles disseram... eles disseram que seu filho... o filho da Helena... não é seu."
Minha mente ficou em branco. O mundo girou. Meu filho? Não era de Caio? O que ela estava dizendo?
"Isso é mentira!", gritei, minha voz crua e desesperada. "Como você ousa?"
Cris se encolheu, agarrando o braço de Caio, seu corpo tremendo. "Ela é tão assustadora, Caio! Mas os repórteres disseram... disseram que é verdade! Disseram que deveríamos fazer um teste de paternidade para provar!"
A cabeça de Caio se virou para mim, seus olhos agora frios e acusadores. "Um teste de paternidade", ele ecoou, sua voz perigosamente baixa. "Um teste de paternidade será feito." Ele estalou os dedos, e um segurança imediatamente se moveu para providenciar.
Meu coração se estilhaçou. Ele acreditou nela. Ele realmente acreditou nela.