Capítulo 2

Naquela manhã, o médico entregou-me o relatório do teste de ADN, com uma expressão séria.

"Senhora Costa, o seu filho, o Pedro, não tem a doença de Fabry. No entanto, o seu marido, o Diogo, tem."

Senti um alívio imenso, seguido imediatamente por uma confusão profunda.

Olhei para o papel. O resultado era claro.

"Mas... como é possível? O Diogo não tem sintomas. E esta doença é genética."

O médico empurrou os óculos para cima no nariz.

"É uma variante de início tardio. Pode não manifestar sintomas durante décadas. Mas ele é portador. A boa notícia é que o Pedro não herdou o gene defeituoso."

Agradeci ao médico, a minha mente a girar.

No corredor do hospital, liguei para o Diogo. Queria partilhar a boa notícia sobre o Pedro imediatamente.

A chamada tocou várias vezes antes de ele atender. A sua voz soava distante e apressada.

"Helena? O que se passa? Estou ocupado."

"Diogo, tenho ótimas notícias. O resultado do Pedro chegou. Ele não tem a doença."

Houve uma pausa. Não a pausa feliz que eu esperava.

"Ok, ótimo. Tenho de ir agora. A mãe da Clara está a ter um ataque de pânico. Tenho de a levar ao hospital."

Clara. A sua ex-namorada.

A minha garganta secou.

"A mãe dela? O que aconteceu? Ela não tem família para ajudar?"

"Sabes como ela é. Só confia em mim. A filha dela, a Bia, também está doente. É o meu dever ajudar. Falamos mais tarde."

Ele desligou antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa.

Fiquei parada no corredor barulhento do hospital, o telefone na minha mão. O alívio que senti há minutos transformou-se numa pedra fria no meu estômago.

O nosso filho escapou a uma doença genética grave, e a primeira reação do meu marido foi correr para ajudar a família da sua ex.

Não era a primeira vez. Nem a décima.

O Diogo sempre teve uma desculpa. A Clara era frágil. A sua mãe era idosa. A sua filha Bia precisava de uma figura paterna.

E eu? E o Pedro? Éramos sempre a segunda opção.

Olhei novamente para o relatório na minha mão. O nome do Diogo estava ali, impresso a preto e branco, ligado a uma doença que o afetaria para o resto da sua vida.

E ele não sabia.

Eu tinha o seu futuro nas minhas mãos, e ele estava a caminho do hospital com outra mulher e a sua família.

Naquele momento, uma decisão formou-se na minha mente, clara e afiada.

Se eu e o Pedro não éramos a sua prioridade, então ele também não seria a minha.

Capítulo 3

Cheguei a casa e encontrei a minha sogra, a Dona Teresa, na sala de estar, a ver a sua telenovela.

Ela mal olhou para mim quando entrei.

"Onde está o Diogo? Ele disse que vinha almoçar."

"Ele teve de ir ajudar a Clara. A mãe dela sentiu-se mal."

A Teresa bufou, os seus olhos ainda fixos na televisão.

"Essa mulher. Sempre a arranjar problemas para o meu filho. E tu deixas. Uma esposa a sério não permitiria tal coisa."

Ignorei o comentário. Já estava habituada. Para a Teresa, eu nunca era boa o suficiente.

Fui para o quarto do Pedro. Ele estava a dormir pacificamente no seu berço. A sua respiração era suave e regular. Vê-lo assim, seguro e saudável, reforçou a minha decisão.

Peguei numa mala de viagem do fundo do armário. Comecei a arrumar as minhas roupas e as do Pedro, de forma metódica e silenciosa.

A minha sogra apareceu à porta.

"O que estás a fazer?"

"Vou passar uns dias a casa da minha mãe."

Ela cruzou os braços, os seus olhos a percorrerem a mala meio cheia.

"A fugir dos teus problemas? Que patético. O Diogo tem um bom coração, ajuda toda a gente. Devias ter orgulho em vez de fazeres birra como uma criança."

"Ele não ajuda toda a gente, mãe. Ele ajuda a Clara."

"E qual é o problema? Eles são amigos. És tão insegura, Helena. É por isso que o Diogo se afasta."

Fechei a mala com um clique alto. O som pareceu ecoar no silêncio tenso.

"Talvez. Mas agora, preciso de me afastar eu."

Peguei no Pedro, que começou a resmungar com o movimento. Embalei-o suavemente até ele se acalmar.

Quando passei pela Teresa na porta, ela agarrou-me no braço. A sua força surpreendeu-me.

"Não te atrevas a levar o meu neto. Se queres ir, vai sozinha. O Pedro fica. Ele é um Álvares."

"Ele também é meu filho."

Puxei o meu braço para me libertar. O seu rosto estava vermelho de raiva.

"Vais arrepender-te disto, Helena. Vais voltar a rastejar. O Diogo é um bom homem. Não vais encontrar outro como ele."

Não respondi. Apenas saí do quarto, desci as escadas e saí pela porta da frente, sem olhar para trás.

O ar fresco da rua encheu os meus pulmões. Senti-me mais leve.

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