Capítulo 2

BIANCA OLSEN:

Dias atuais...

— Está pronta, querida? — Se aproxima e me abraça por trás, em frente ao espelho.

— Sim! Só preciso calçar os sapatos. — Respondo, tentando me esquivar de seu braço.

— Está linda, a maquiagem está perfeita! — Segura meu queixo e me beija. — Desculpe-me por ontem, cheguei nervoso! — Pede, e mais uma vez sei que é da boca para fora.

— Tudo bem, James! Vamos logo com isso! — Finalmente me livro de seu aperto, e termino de me arrumar no closet.

Esse não foi nem de longe o destino que sonhei para mim. Sem nenhum controle sobre a minha própria vida, mantida em cárcere, como um animal. Saindo apenas, para ser exibida como esposa troféu, para a sociedade de New York. Sendo agredida, humilhada e abusada constantemente. Por aquele, que deveria me amar e me proteger, como prometeu diante de Deus e dos homens.

Nunca disse nada a ninguém. James ganhou muito mais credibilidade, depois que assumiu as minhas empresas, além de ser um policial poderoso e respeitado. Como ele mesmo diz: “Ninguém acreditaria em uma mulher desequilibrada, com um laudo de depressão e sinais de esquizofrenia. ”

Não subestime o poder de um homem manipulador. Depois de um tempo nas mãos de um agressor, você passa a acreditar em tudo o que ele diz. E por mais deplorável que possa ser, se acostuma a viver dentro dessa situação. Não tive outra saída, a não ser aceitar o meu maldito destino.

♡♡♡

Toda sociedade nova-iorquina, está reunida para homenagear os homens do ano. James recebe uma medalha de honra, pelos serviços prestados à comunidade. E mais uma vez, me exibe para todos, fingindo ser o marido perfeito, na frente das pessoas. Passo a noite toda, forçando sorrisos, posando para as fotos e fingindo felicidade ao lado do meu algoz.

Jantamos sentados à mesa, com mais alguns policiais e suas esposas. Tento parecer o mais normal possível, mesmo que por dentro eu esteja com vontade de sair correndo, daquela falsidade toda. James é ovacionado e cumprimentado por todos ao seu redor. E ele ama, ser o centro das atenções.

Próximo ao fim do evento, todos os casais dançam animados, enquanto me mantenho sentada aguardando, enquanto James é paparicado por cada convidado daquela maldita festa.

— Preciso falar com mais algumas pessoas, e depois iremos embora. Fique aqui, não saia e não fale com ninguém! — Instrui, com seu tom gelado de sempre.

Permaneço como ele ordena. Porém, em dado momento, o delegado geral e chefe de James, Bruce Parker, se aproxima e me cumprimenta.

— Boa noite, Bianca! Como vai? — Pergunta sorridente, o homem branco, de cabelos e barba grisalhos, vestindo um bonito smoking sob medida.

— Boa noite, Sr. Parker! Vou bem e o senhor? — Ponho-me de pé, para cumprimentá-lo e sou abraçada por ele.

— Melhor agora, querida! A Sra. Parker, não pôde vir hoje, me acompanha em uma dança?

— Oh, Sr. Parker, estou esperando por James, para irmos! — Reluto, sem jeito.

— Acabei de vê-lo, conversando com o prefeito, aposto que irá demorar!

— Eu não sei, é… acho que ele virá logo, temos que ir! — Insisto.

— Ora, vamos lá, Bia! Não negue uma dança a esse velho aqui! E seu marido é meu amigo, não irá se importar! — Argumenta e sem ter mais desculpas, me dou por vencida.

— Ok, tudo bem!

Ele me lança um sorriso gentil, e seguimos para a pista. Eu sabia que aquilo se voltaria contra mim, mas o que eu poderia fazer? Dar as costas ao homem? Hoje eu sei, deveria ter pedido ajuda a ele. Mas naquele momento, eu nada fiz.

Ao final da dança, que foi até divertida, enquanto volto para a mesa, observo James virar um copo cheio de Uísque, ao passo que, me fuzila com o olhar.

— Sua esposa dança muito bem, Benner! — Diz o Sr. Parker, ao cumprimentá-lo com um aperto de mão.

— Eu sei disso, Senhor! — James sorri falsamente e se vira para mim. — Vamos querida?

— S-Sim! — Gaguejo, nervosa.

— Mas tão cedo? Ainda temos muita festa pela frente! — Argumenta, Bruce.

— Minha esposa dorme cedo, Senhor! Não é querida? — Mente e me força a concordar.

— Ah! Sim, já estou com sono! — Sorrio fraco e o homem sorri de volta.

— Bom, então até logo Bianca, foi um prazer revê-la! — Bruce me abraça e se despede de James.

Assim que o homem se afasta, meu marido me puxa para fora do salão de festas, em direção ao estacionamento. Entramos no carro, ele dá a partida e logo começa o que eu já esperava.

— Estava bom? Gostou de me fazer passar por corno, na frente de todos? — Me indaga, furioso.

— James, ele insistiu em dançar comigo, não foi nada de mais! — Explico.

— É sempre isso, você seduz os homens em todos os lugares. E depois se faz de santinha. Você não passa de uma piranha! Quer fo.der com o meu chefe, vagabunda? — Me ofende, puxando meus cabelos com violência.

— Me solta! James! — Grito, tentando desvencilhar-me dele.

— Cala essa boca, sua puta! Hoje, você vai me pagar! — Esbraveja, soltando meus cabelos e acelerando o veículo.

James dirigi de forma totalmente imprudente, ultrapassa os sinais vermelhos e quase atropela os pedestres.

— James vai mais devagar, você vai bater! — Peço, assustada.

— NÃO ME DIGA O QUE FAZER, CARALHO! — Ele berra e me encolho no banco, imaginando o que me aguarda, quando chegarmos em casa. O medo toma conta de mim, e lágrimas começam a rolar em meus olhos.

— Pare de chorar, mas que inferno! — Brada, socando o volante.

— Eu já estou cansada disso, fique com tudo, só me deixe ir embora. — Digo, entre os soluços do meu pranto. — Eu quero descer, pare esse carro!

— Você não irá se livrar de mim, nunca! Você é minha Bianca, só minha, aceite isso! — Desvia seus olhos possessivos da estrada, direto para mim e me ameaça. — E nem pense em fugir, eu te mato antes!

Engulo em seco, pensando desesperadamente em alguma saída para fugir daquela situação.

♡♡♡

Depois de mais alguns gritos, e ameaças de James. Finalmente chegamos na porta de casa. Assim que ele destrava o carro, em um impulso de desespero, abro a porta e saio correndo.

— Filha da puta! — Escuto, quando ele berra.

Poucos metros à frente, acabo tropeçando nos saltos e me espatifando no chão. James, rapidamente, me ergue pelos cabelos. São 2 h da manhã, a rua está deserta.

— Me solt… — Tento gritar, mas ele tapa a minha boca. E me arrasta para dentro de casa.

Sou puxada pelos cabelos escada acima, em direção ao quarto. Grito, choro, imploro e me contorço. Mas tudo é em vão. Ele é muito mais forte e muito mais ágil. Eu não tenho chance alguma de defesa.

Dentro daquele maldito quarto, ele desconta em mim, todo ódio que está sentindo. Dessa vez, não me bate no rosto. Entretanto, me agride com socos no abdômen e chutes nas pernas. Partes que podem ser cobertas facilmente, com roupas longas. Ele calcula tudo.

Sinto uma dor forte, ao ser arremessada e ter a minha cabeça, batida seguidas vezes contra a parede.

— Vagabunda! Eu deveria te matar! — Continua desferindo golpes contra mim, e eu não tenho mais forças para lutar.

— James, pelo amor de Deus… — Imploro, mas a minha voz, quase não sai.

— Eu te dou tudo, e você quer me abandonar? Desgraçada! Você tem outro? É isso?— Ele inquiri, ao passo que suas mãos, se fecham em meu pescoço.

Luto para desvencilhar-me dele, mas meu ar se esvai, minha visão fica turva e meu corpo passa a não me obedecer mais. Sem mais nenhuma força física, passo a suplicar mentalmente à Deus, por um milagre. Senhor, eu imploro, me ajude. Não o deixe conseguir, não o deixe…

No momento em que estou prestes a desmaiar, meu algoz solta-me bruscamente. Desmorono no chão frio e levo as duas mãos em meu pescoço machucado, buscando desesperadamente por um pouco de ar.

— Isso é culpa sua, caralho! Eu quase te matei, porra! Por que você não se comporta, Bianca? Por que tem que ser uma vagabunda? – Ele derruba uma mesa de canto, fazendo o meu vaso favorito, se espatifar no chão. James se descontrola e tomado pela fúria, quebra o quarto inteiro.

Me encolho no chão, tentando proteger meu corpo dos móveis e objetos, que o homem, infrene, arremessa de um lado para o outro.

Ao erguer o meu olhar, observo sua pistola sobre a mesa de cabeceira. Objeto com o qual, ele já me ameaçou diversas vezes. Tomada por uma coragem que não sei de onde vem, aproveito seu momento de surto, levanto-me rapidamente e apanho a arma.

Por Deus, a encontro carregada. Sei atirar, pois desde cedo ia ao stand de tiro, com meu pai. Determinada a acabar de uma vez por todas com aquele martírio, destravo a pistola e miro nele. Ao notar minha ação, James se assusta.

— Que merda é essa, Bianca? Me dá isso! — Exige, dando um passo à frente.

— Não se aproxime James, eu estou falando sério! — Grito, sentindo meu corpo inteiro tremer.

Com medo que eu realmente atire, ele ergue as mãos em sinal de rendição e passa a tentar me manipular.

— Amor, larga a arma! Você não pode fazer isso, eu te amo, Bia! Só temos um ao outro!

James sempre me disse que não tinha família, foi abandonado ainda recém-nascido em um orfanato, onde sofria constantes maus tratos e agressões. Eu sentia muita pena dele, por isso. E após perder meus pais, caí ainda mais em sua rede de mentiras e manipulações, acreditando que realmente, só podia contar com ele, que dependia dele. Todavia, agora, encontro-me enxergando toda a minha vida de forma diferente. "Não é possível, que eu mereça um destino tão miserável."

— Eu prefiro morrer sozinha, a continuar com isso. Você não me ama, quem ama não machuca, não humilha. Não irei mais aceitar viver assim, eu não mereço isso. — Afirmo com convicção, olhando fixamente para ele.

— Amor, não podemos viver separados, você sabe por tudo o que passei, e agora nós dois somos órfãos. Você precisa de mim, Bia!

— Não, eu não preciso. Nem de você e nem de todo o inferno que você está me fazendo passar! Hoje, foi a última vez que você me agrediu!

— Me perdoa, por favor! Eu prometo que vou mudar! É só que, você me deixa louco de ciúmes, chama a atenção dos homens, e eu fico nervoso. Mas isso é porque eu te amo, e tenho medo de te perder. Por favor, Bia, solta a arma! — James pede, em um tom doce e suave. Mas dessa vez, estou decidida a não cair em nenhuma das suas manipulações.

— Já chega das suas mentiras, James! Eu cansei! Estou indo embora, e você não irá me impedir.

Percebendo que não está mais conseguindo me manipular, como das outras vezes. Ele sai do personagem e se enfurece novamente.

— Você não sairá desta casa, com vida! Eu vou te matar, sua vadia. Farei contigo, o que fiz com aqueles velhos desgraçados dos seus pais. — Vocifera, confessando seu crime.

Sua frase me atinge, com a mesma violência dos socos que ele desferiu contra meu estômago. As lágrimas de medo, dão lugar às de ódio.

— O quê? Repete o que você disse, seu desgraçado! — Exijo sua explicação, ao sentir o sangue borbulhando dentro de mim.

— Sou um gênio, não sou? Paguei muito bem, para sabotarem os freios dos velhotes. Chorei igual criança no velório, eu merecia um Oscar. — Debocha, soltando uma risada diabólica.

— Maldito! Demônio! Como eu pude me enganar tanto? Você me tirou tudo, desgraçado, tudo! — Grito e choro, sentindo toda a verdade despencando sobre mim.

"Agora tudo faz sentido. Ele planejou cada passo. Fui enganada, me casei não só com um maldito agressor, me casei, com um assassino."

— Você está presa a mim, Bianca! Sua vida me pertence! E eu jamais, vou perder o controle sobre você e muito menos, sobre a sua fortuna.

— Você vai pagar muito caro por tudo isso! Nem que seja a última coisa que eu faça nessa vida! — Aponto a arma em direção a ele, na intenção de ceifar sua vida e depois a minha. Acabando com toda essa dor, de uma vez por todas.

— Já chega disso! Me entrega a arma, ou eu não respondo por mim, Bianca! — Ameaça, dando mais um passo à frente e fazendo menção de pegar a arma. Mas antes que ele consiga, eu aperto o gatilho.

Assisto o exato momento, em que a bala perfura seu abdômen. A camisa branca, passa a ser preenchida de vermelho, pelo sangue que escorre. Meu agressor, despenca no chão, apertando a barriga e berrando pela dor. Naquele momento, só consigo pensar em uma coisa:

"É a minha única chance de fugir."

— Ahhhh! Maldita! Você está fodi.da, eu vou te matar! — Esbraveja, tentando se levantar e grita ainda mais alto, agonizando, pela ferida em seu abdômen.

Para não chegar perto dele, subo na cama e atravesso para o outro lado do quarto. Abro a gaveta da mesa de cabeceira, e pego meu passaporte.

— Merda, que dor! — Reclama, contorcendo‐se deitado sobre uma poça de sangue. — Bianca, não ouse sair dessa casa!

— Adeus, James!

Saio do quarto e desço as escadas rapidamente, enquanto ele grita.

— Sua filha da puta, vai me deixar aqui para morrer? Eu vou te achar desgraçada, eu vou te achar!

No andar de baixo, procuro desesperadamente em todos os cômodos, pela chave do meu carro. Contudo, não consigo achá-la em nenhum lugar, James, provavelmente, a escondeu.

De repente, vejo-o se arrastando pelas escadas, mas antes que possa chegar ao andar de baixo, o homem escorrega no próprio sangue e rola escada abaixo. Ouço seu grito, seguido pelo som estridente de sua cabeça batendo com força, contra a quina do degrau. Automaticamente, ele perde os sentidos. Deus, será que ele morreu?

Desistindo de encontrar as chaves, abandono James e fujo da casa apenas com meu passaporte e nada mais. Corro para o mais longe que consigo, me debulhando em lágrimas, pensando que ele pode, de alguma forma, acordar e conseguir me capturar.

Sigo sem rumo por algum tempo, quando me dou conta, estou no parque onde costumava praticar ioga. Algo que eu amava e simplesmente deixei de fazer. Tudo pelo que venho passando, fez o desgosto tomar completamente o meu ser, perdi o amor por tudo, inclusive pela vida.

Ainda é madrugada, está escuro e o parque vazio. Em minha mente, milhões de pensamentos se misturam. Angústia, ódio, medo e culpa, muita culpa. Entreguei tudo de mim, para o assassino dos meus pais, é culpa minha, tudo culpa minha. Como fui ingênua, como fui burra.

Meu peito arde, sinto falta de ar e dor nas pernas, mas não paro de correr. Se sobreviver, James fará de tudo para me encontrar, ele é um delegado, tem recursos para isso. E se ele morrer, serei acusada de homicídio. Minha única solução é desaparecer.

Inesperadamente, saio do torpor em que minha mente se encontrava, ao esbarrar com força, em alguém que corria em sentido oposto. O impacto, me faz cair no chão.

— Meu Deus, me perdoe! Está escuro, eu não te vi. — O homem grande e forte se desculpa, ao passo que, me pega nos braços içando meu corpo do chão.

Ele me põe de pé e o encaro, observo seus trajes de corrida e o capuz que me impede de ver seu rosto com clareza. "Santo Deus, quem sai para correr às 4 h da manhã?"

— Está tudo bem, moça? — Pergunta em tom preocupado. — O que aconteceu com você, te assaltaram? — Tenta me tocar, mas me afasto imediatamente.

Sua pergunta, não é de se admirar. Já que estou na rua uma hora dessas, chorando, suada, com um vestido de festa e descalça.

— N-não foi nada, me desculpe! Com licença! — Peço e volto a caminhar para longe dele.

— Espere, eu posso te ajudar! — Grita, mas não olho para trás. Agora, não consigo confiar em ninguém.

"Deus, e agora? Para onde vou? O que eu faço?"

Capítulo 3

JOHN COOPER

No quarto de hotel, reviro na cama de um lado para o outro, tentei de tudo, mas simplesmente, não consigo dormir. Vim a New York, para um congresso de tecnologia. O evento foi um sucesso e amanhã, retorno logo cedo para Sydney. Fazia tempos que não vinha para cá e o fuso-horário está me matando, mesmo cansado, não preguei o olho a noite toda.

Ao meu lado, na cama King Size, Camilla dorme tranquilamente, ela insistiu para vir comigo e concordei, afinal, eu iria querer transar uma hora ou outra. Camilla é uma mulher jovem, bonita e boa de cama. É modelo, a conheci por amigos em comum, e desde então temos saído. Recentemente, começou a me exigir um relacionamento sério, quer casar, mas já deixei claro que não estou disposto. Eu gosto dela, mas não a amo, nem sou apaixonado. Não consigo mais me relacionar dessa forma com ninguém. Estamos juntos, há cerca de seis meses e nesse período, me relacionei com várias outras mulheres, inclusive garotas de programa. Não me orgulho disso, mas foi a forma que encontrei, para não ser destruído novamente.

Atualmente vivo em modo automático, descontando no trabalho, todas as minhas frustrações. Tenho mais dinheiro do que preciso, tenho poder e posso conseguir a mulher que eu desejar, mas nada disso é capaz de suprir o vazio que sinto. Minha única alegria na vida, é Lívia e mesmo assim, não sou o pai que ela merece. Estou sempre ausente, permitindo que minha filha seja criada por babás. Sei que preciso dar jeito em minha vida, não posso ficar eternamente de luto. Eu não mereço isso, e muito menos a Lilly. Ela é só uma criança, não tem que pagar pelos erros das pessoas que a geraram.

Mesmo contra a minha vontade, minha mente viaja para um dos momentos mais dolorosos da minha vida.

~~~

Quatro anos antes…

Fiquei uma semana em Madri, para fechar um negócio importante, que me traria muitos frutos futuramente.

Todavia, apesar de a empresa estar crescendo cada vez mais, na minha vida pessoal, as coisas estavam indo de mal a pior. Depois que Lilly nasceu, passei a sentir Sarah estranha, distante e sempre nervosa. Eu a amava, e não estava confortável em vê-la daquela forma. Eu trabalhava feito um condenado, para que não faltasse nada, nem a ela e muito menos a nossa filha. Mas, a minha ausência estava fazendo Sarah se afastar de mim. Pensando em melhorar a nossa situação, decidi fazer uma surpresa para minha esposa, e cheguei um dia antes da viagem.

Antes de encontrá-la, passei no quarto de Lilly, que dormia feito um anjinho. Ela continuou dormindo tranquilamente, enquanto a peguei no colo, beijei sua cabecinha e a coloquei de volta no berço. Havia acabado de completar seu primeiro aninho de vida. Lilly é meu sopro de vida, a força que me mantém de pé.

Ao sair do quarto de Lilly, ouvi ruídos altos vindo do meu. Corri e abri a porta rapidamente, imaginando que algo poderia estar acontecendo com Sarah. Entretanto, para a minha desgraça, encontrei minha esposa, nua e de quatro, gemendo alucinada enquanto era fodi.da, pelo meu sócio e melhor amigo.

— Mas que porra, é essa? — Gritei, sentindo como se meus olhos fossem explodir a qualquer momento. — Seu filho da puta! — Berrei ainda mais alto, puxando o desgraçado pelado, pelo pescoço.

— Calma, irmão! — Pediu em tom assustado, tentando subir as calças.

— Calma, irmão? Você tem coragem de me chamar de irmão, seu desgraçado?— Bradei, jogando o homem com força no chão.

Naquele momento, eu saí de mim. Soquei seu rosto com toda a minha força. Não enxerguei mais nada, além de ódio. Descontei nele, toda a minha ira e decepção. Ouvi os gritos desesperados de Sarah chamando pelos seguranças, e de repente, fui içado por eles do chão.

— Me solta, porra! Eu vou matar esse desgraçado! — Esbravejei, tentando me soltar dos quatro homens, que me imobilizaram com dificuldade.

Após me acalmar um pouco, eles me soltaram e removeram o corpo desmaiado e sangrando do meu grande amigo traidor. Encarei Sarah, que agora estava coberta com um roupão. E chorando copiosamente.

— John, não é nada dis… — Sarah tentou falar, mas a interrompi.

— Não ouse continuar essa frase!

— Amor, não! Pelo amor de Deus, me ouça… — Implorou, vindo em minha direção.

— Não chegue perto de mim, porra! Saia daqui, agora! Antes que eu perca o controle, Sarah! — Exigi, fazendo todo o esforço possível, para não descontar toda a minha ira sobre ela.

Senti como se meu coração tivesse sido arrancado do peito. O ódio me queimou por dentro e por fora. A dor da decepção, foi o sentimento mais amargo que já tive o desprazer de conhecer.

— Se for embora, levarei Lívia comigo! Vai conseguir viver sem a sua filhinha? — Ameaçou em tom de deboche, saindo completamente de seu personagem.

— Dê-se por satisfeita, em sair levando as suas roupas. A minha filha, você só tira daqui por cima do meu cadáver. — adverti. — Christina? Christina? — Na porta do quarto, berrei alto, chamando pela minha governanta.

— Isso não é justo, somos casados, eu tenho direitos. Se pensa que vou sair, com as mãos abanando, está muito enganado! — Ela berrava e foi apenas nesse momento, que entendi tudo.

Sarah não se importava nem um pouco comigo e muito menos com a filha. Sua única razão de permanecer nesse casamento era o meu dinheiro.

— É somente isso que te interessa, não é? Dinheiro! Saiba que nos casamos com separação total de bens, portanto, você não tem direito a porra nenhuma. — esclareci e ela arregalou os olhos.

— Senhor, já estou aqui! Do que precisa? — A mulher de meia-idade, com a pele parda e cabelos cor de ébano, me questionou assustada.

— Por favor, Chris, faça as malas dessa mulher! — Ordenei e ela me encarou com espanto. — Ela está indo embora daqui! — Pontuei.

— Não ouse, Christina! — Sarah advertiu. — Não sairei dessa casa!

— Pode ter certeza, que você sairá! Nem que eu mesmo, tenha que te colocar para fora. — Afirmei, furioso. — Faça o que pedi, Chris, por favor! — A mulher assentiu e se encaminhou para o closet.

— Você não pode fazer isso comigo, por causa de um erro, John! — Novamente, tentou se aproximar de mim.

— Não encoste em mim, caralho, já disse! Um erro, sua filha da puta? Há quanto tempo, Sarah? Há quanto tempo, você trepa com o meu melhor amigo, na nossa cama, com a minha filha dormindo ao lado? — Bradei, indo para cima dela.

— Foi a primeira vez, eu juro! — Disse ela, aos prantos. Mas é claro, que não acreditei.

— Maldita, mentirosa! Esqueça que a minha filha e eu existimos, eu nunca mais quero te ver na minha vida.

— Mas… — Ela tentou argumentar, mas a impedi.

— Ah é claro, o dinheiro. É isso que te preocupa? Fique tranquila, não irei te deixar morrer de fome! Apesar de ser exatamente o que você merece. — Meu tom era frio e cruel. Dentro de mim, havia apenas raiva e mágoa. — Você receberá muito bem pelo acordo de divórcio, mas que fique bem claro, se chegar perto de mim ou de Lívia, eu acabo com a sua raça Sarah, e você sabe que tenho poder o suficiente para isso. — Prometi e ela sabia que era verdade.

— John, não faça isso conosco! Eu te amo! Me perdoa, por favor! — Mentiu e seria digna de um Oscar, já que se debulhava em lágrimas de crocodilo.

Caiu de joelhos aos meus pés e agarrou as minhas pernas, implorando por perdão. Não senti pena, apenas tive asco.

— Tudo que sai dessa sua boca, são mentiras. Não quero mais ouvir a sua voz, junte suas tralhas e suma. — Me afastei, fazendo ela soltar as minhas pernas.

Ouvi o choro de Lilly e meu peito se apertou.

— Irei sair com a minha filha e quando retornar, não quero mais te ver aqui. — Avisei e abandonei o cômodo, deixando aquela mulher mentirosa para trás.

Sarah nasceu em uma família rica, mas seu pai perdeu tudo em jogos de azar. Quando a conheci, ela estava sozinha e falida. Dançando em uma boate, segundo ela, para pagar as dívidas do pai. Ela era doce, cativante e ingênua. Me compadeci com a sua situação e resolvi ajudá-la. Eu, e a minha mania de bancar o super-herói.

Aos poucos, fomos nos envolvendo e quando percebi, já estava perdidamente apaixonado. Contudo, percebi que era apenas um personagem. A mulher que um dia achei amar, na verdade, nunca existiu. Era tudo uma mentira, que eu mesmo criei. Me senti a criatura mais desgraçada dessa Terra, por ter acreditado tanto naquela mulher.

JOHN COOPER

Dias atuais…

Decidido a sair da agonia em que minha mente se encontra, e esquecer aquelas lembranças infelizes, coloco-me de pé. Apanho o celular e ligo a tela para conferir as horas, são exatamente 4 horas da manhã. Boa hora, para uma corrida, John!

— Aonde vai, amor? — Camilla pergunta, se espreguiçando ainda com os olhos fechados.

— Vou sair um pouco, volte a dormir! — Respondo e ela faz o que digo.

Visto-me com uma calça e um casaco, ambos pretos e de moletom. Apanho meus tênis de corrida na mala, e após colocá-los, abandono o quarto.

Meus fones de ouvido, tocam “Bad Liar” do Imagine Dragons. Cubro a cabeça com o capuz do casaco e caminho por um tempo, até que encontro um parque próximo ao hotel. Após fazer meus alongamentos, aproveito a pista vazia e corro muito, na tentativa de ficar exausto e conseguir dormir um pouco.

Subitamente, esbarro com força em alguém, que cai de imediato no chão. Ainda está escuro, portanto não consigo vê-la com nitidez.

— Meu Deus, me perdoe, está escuro, eu não te vi. — Peço levantando-a do chão, com o máximo de delicadeza que consigo.

A garota está assustada e não diz nada, o que me deixa aflito. Percebo seu estado e meu coração se aperta. Está descalça, usando um longo vestido azul—claro. O cabelo solto e um pouco desgrenhado, a maquiagem dos olhos borrada por lágrimas, que ainda escorrem pelo seu rosto. E posso jurar, que mesmo no ambiente escuro, vi sangue e hematomas em seu corpo. Ela está ofegante, suada e parece desesperada, como se estivesse fugindo de algo, ou de alguém. Santo Deus, o que houve com essa garota?

— Está tudo bem, moça? O que aconteceu com você, te assaltaram? — Questiono com preocupação, mas ela me ignora. Apenas volta a andar.

Tento tocá-la, mas ela se afasta rapidamente.

— N... não foi nada, me desculpe! Com licença! — Finalmente fala, e sinto a tristeza em sua voz. Aquilo parece rasgar meu peito. Preciso fazer algo.

— Espere, eu posso te ajudar! — Grito, mas ela nem olha para trás.

Corro ao seu encontro e seguro em seu braço, a fazendo parar.

— Espere, não posso te deixar nesse estado sozinha! Precisa ir a um hospital, a polícia, vamos, eu te levo. — Sugiro, mas ela puxa o braço com força e nega.

— Polícia? Não, eu não… — Pausa, parecendo pensar no que vai dizer — Olha, agradeço, mas não preciso da sua ajuda.

— Mas… — Tento argumentar, porém, ela me interrompe.

— Não preciso ser ajudada por nenhum homem! Me deixe em paz, por favor!— Pede aos prantos e decido não insistir.

Apenas assisto, enquanto ela corre para longe de mim. Céus, pobre garota! Por que ela está com tanto medo, será que foi abusada?

Sem ter outra opção, mesmo sentindo meu coração angustiado, volto a correr em direção ao hotel. Dentro do quarto, passo direto para o banheiro, me livro das roupas e entro debaixo do chuveiro. A água quente, cai limpando meu corpo suado, mas infelizmente, não é capaz de limpar a minha mente. Os olhos grandes e assustados dessa garota, não saem nem por um minuto da minha cabeça.

"Polícia? Não, eu não…" Me lembro da sua expressão de pânico, quando mencionei ir à polícia. Por que ela se assustou? Será que cometeu algum crime?

Me espanto comigo mesmo, por ficar tão mexido com a situação daquela menina. Não sou de acreditar fácil em ninguém, depois do que passei, me tornei um homem frio. Todavia, a situação daquela garota, a forma com que ela reagiu, me deixou completamente intrigado. Ela deve ter passado por algo muito terrível, para ter sido tão relutante em confiar e aceitar a minha ajuda.

E eu a entendo completamente, O que Sarah me fez, partiu meu coração, partiu em incontáveis pedaços. Mudei completamente o homem que eu era. Nunca mais consegui reparar os danos que aquilo me causou.

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