Capítulo 2

Ponto de Vista: Alice Drummond

Meu motorista era o melhor. Discreto. Eficiente. Ele não fazia perguntas, o que era exatamente o que eu precisava. Estávamos a quilômetros da cidade, indo em direção a um distrito industrial abandonado. Os prédios de concreto se erguiam, escuros e esqueléticos contra o céu cinzento, um cenário perfeito para o desmoronamento da minha vida.

A SUV preta de Caio, inconfundível mesmo à distância, parou em frente a um armazém dilapidado. Minha respiração falhou. Era aqui. O lugar onde todos os seus segredos, todas as suas traições, finalmente seriam revelados.

Eu o observei sair, seu corpo tenso, pronto para a batalha. Mas sua calma habitual havia desaparecido, substituída por um desespero cru que revirou meu estômago. Ele se movia com um propósito brutal, um homem no limite. Ele estava lá por ela. Por Bianca.

Saí do meu carro, ignorando o olhar preocupado do meu motorista. O ar estava frio, metálico, com gosto de ferrugem e medo. Aproximei-me furtivamente, escondida atrás de uma pilha de contêineres enferrujados, meu coração martelando contra minhas costelas.

Através de uma janela suja, eu a vi. Bianca Valente. Ela estava amarrada a uma cadeira, pequena e frágil, seu rosto pálido manchado de lágrimas. Ela parecia exatamente a flor delicada que os sites de fofoca sempre pintaram. O "amor inesquecível" do meu marido.

Uma figura corpulenta estava sobre ela, seu rosto uma máscara de raiva. Este devia ser o rival de negócios. "Montenegro," o homem rosnou, sua voz gutural, "você finalmente dá as caras."

Caio entrou na luz, seus olhos fixos em Bianca. A agonia em seu rosto era inegável. Não era a preocupação distante de um amigo. Era a dor visceral de um homem vendo a mulher que amava sofrer. A cena abriu um buraco no meu peito. Ele a amava. Mais do que tudo. Ele realmente a amava.

"Solte-a, Davi," Caio disse, sua voz baixa, perigosa. "Isso não tem nada a ver com ela."

"Tudo tem a ver com ela!" Davi berrou, gesticulando descontroladamente para Bianca. "Ela é a chave, não é? A princesinha perfeita e doentia. Aquela por quem você venderia sua alma! E você vendeu, não foi? Você se casou com aquela artista maluca para ter acesso à empresa do pai dela, aos seus medicamentos experimentais! Tudo por ela!"

As palavras me atingiram como uma rajada de balas. A empresa farmacêutica do meu pai. O medicamento experimental. Tudo se encaixou com uma clareza doentia. A "doença" de Bianca. Anemia Aplástica. Não era apenas uma namorada de infância. Ela era a missão da vida dele. E eu era o meio para um fim.

Uma onda de náusea me invadiu. Todos os meus atos rebeldes, todas as minhas tentativas de afastá-lo, haviam sido inúteis. Ele nunca me viu. Ele só via o caminho para a sobrevivência de Bianca. Eu era uma ferramenta. Uma mercadoria. Assim como meu pai me tratava.

"Deixe a Alice fora disso," Caio rosnou, seus punhos cerrados. "Ela não sabe de nada."

"Ah, ela sabe, Montenegro," Davi zombou. "Ou saberá assim que seu passarinho cantar. Mas vamos voltar ao evento principal. Você quer a Bianca? Quer o amor da sua vida de volta?" Davi puxou uma faca, sua lâmina brilhando perversamente. "Você sempre foi tão abnegado, não é, herói? Esfaqueie-se. Aqui." Ele apontou para o ombro de Caio. "Fundo. E ela sai andando."

Meu coração parou. Esfaquear-se? Por ela? A ideia de sua dor, mesmo que por ela, me fez querer gritar.

"Não, Caio, não!" Bianca chorou, sua voz fraca, mas cheia de uma proteção feroz. "Não faça isso! Por favor!"

O olhar de Caio varreu Bianca, um olhar de profundo amor e resolução desesperada em seus olhos. Ele não hesitou. Nem por um segundo. Ele pegou a faca de Davi, sua mão firme.

Meu sangue gelou. Ele faria isso. Ele realmente faria isso. Por ela. O homem que havia gentilmente cuidado da minha mão arranhada, perguntando se doía. Aquela ternura tinha sido uma mentira. Uma performance calculada.

Com uma careta, ele cravou a faca em seu próprio ombro. Um suspiro escapou da minha garganta, mas se perdeu no vasto espaço vazio do armazém. Ele não gritou. Seu rosto se contorceu, um grito silencioso, mas seus olhos nunca deixaram Bianca. Ele girou a lâmina, como Davi havia instruído, garantindo que a ferida fosse profunda e agonizante. O sangue floresceu rapidamente em sua camisa branca, uma mancha gritante e horrível.

Ele caiu de joelhos, agarrando o ombro, seu corpo tremendo. Mas mesmo assim, seus olhos ainda estavam em Bianca. "Você está segura," ele ofegou, sua voz rouca de dor, "Bianca, você está segura agora."

Eu queria vomitar. A realidade pura e brutal de sua devoção a ela, justaposta ao vazio de suas promessas para mim, era insuportável. Minhas pernas pareciam chumbo. Eu não era nada. Absolutamente nada.

"Não tão rápido!" Davi riu, chutando o ombro ferido de Caio. Caio gritou, desabando completamente. "Eu disse que ela sai andando, não que ela vai livre!" Ele agarrou o braço de Bianca, puxando-a bruscamente.

De repente, sirenes soaram à distância. Carros de polícia pararam com um guincho do lado de fora. Davi praguejou, empurrando Bianca de volta para a cadeira, sacando sua própria faca. Mas era tarde demais. Policiais armados invadiram o armazém, subjugando Davi e seus homens em um piscar de olhos.

No momento em que Davi foi detido, Caio, sangrando profusamente, se levantou. Ele cambaleou em direção a Bianca, seu único foco nela. Ele a alcançou, desamarrou suas amarras com as mãos trêmulas.

"Caio!" Bianca soluçou, jogando-se em seus braços, sua cabeça descansando em seu ombro não ferido. "Você me salvou! Você sempre me salva!"

Ele a segurou com força, seus olhos se fechando no que parecia ser puro alívio e exaustão. "Sempre," ele sussurrou, pressionando um beijo em seu cabelo.

Meu mundo já estava em cacos, mas então Bianca se afastou, seus olhos arregalados, ainda marejados. Ela olhou para o ombro sangrando de Caio. "Não! Oh, Caio, você está ferido!" Ela pegou a faca que Davi havia usado, sua mão pequena surpreendentemente firme no cabo. Antes que alguém pudesse reagir, ela cravou a lâmina em seu próprio braço, um corte superficial, mas deliberado.

"Bianca! O que você está fazendo?" Caio gritou, seu rosto empalidecendo, tentando agarrá-la.

"Se você se machuca por mim, eu me machuco por você!" ela chorou, lágrimas escorrendo por seu rosto. "Não posso deixar você sentir dor sozinho!"

Caio olhou para ela, depois a puxou com força contra ele novamente. "Minha garota corajosa," ele murmurou, sua voz embargada de emoção. "Minha doce e corajosa Bianca." Ele embalou a cabeça dela, acariciando seu cabelo. O mundo ao redor deles, as sirenes, as prisões, o sangue, tudo desapareceu no fundo. Eles estavam em sua própria bolha, dois amantes desafortunados, unidos em seu sofrimento e devoção. Eles eram tudo que importava.

Eu fiquei ali, invisível, inaudível, um fantasma na minha própria vida. Eu os observei, agarrados um ao outro, seus corpos cobertos com o sangue um do outro, suas lágrimas se misturando. Ele não me lançou um único olhar. Ele não sabia que eu estava lá. Ele não se importava.

Ele foi levado às pressas para uma ambulância, Bianca agarrada a ele a cada passo, recusando-se a soltar. Ele nunca perguntou por mim. Nunca me procurou. Ele apenas a segurou, murmurando palavras de consolo.

Finalmente saí do armazém, o gosto metálico de sangue na minha boca. Não o meu, mas o dele. E o dela. O sangue deles, entrelaçado. Era uma manifestação física de seu vínculo, um vínculo que eu nunca poderia quebrar, um vínculo que havia consumido meu marido. Tudo que eu senti por ele, cada lampejo de esperança, cada ternura confusa, virou cinzas. Fui usada. E depois descartada. Meu coração parecia uma caverna oca, ecoando com um grito que não conseguia escapar.

Consegui entrar no meu carro, o interior de repente parecendo sufocante. Meu motorista ligou o motor, mas eu não disse para onde ir. Apenas olhei pela janela, observando as luzes da cidade se tornarem um borrão. A dor era tão profunda que era física, um peso esmagador no meu peito.

Alguns dias depois, enquanto Caio ainda se recuperava, Bianca apareceu na cobertura. Ela estava pálida, o braço enfaixado, mas irradiava uma satisfação presunçosa que me gelou até os ossos. Ela me encontrou no meu ateliê, tentando me perder em uma tela, mas as cores zombavam de mim, sem vida e opacas.

"Alice," ela disse, sua voz suave, frágil, mas com uma corrente de aço por baixo. "Precisamos conversar."

Eu me virei, meu pincel ainda na mão. "O que poderíamos ter para conversar, Bianca?" Minha voz estava calma, calma demais. A raiva era um nó frio e duro no meu estômago.

Ela deu um passo mais perto, seus olhos brilhando. "Caio me contou tudo. Sobre a fusão. Sobre o medicamento do seu pai." Ela fez uma pausa, deixando as palavras afundarem. "E sobre como ele se casou com você para ter acesso a ele. Por mim."

Minha mão se fechou em torno do pincel. A verdade, na boca dela, parecia veneno. "Ele te contou isso?"

"Ele me conta tudo," ela disse, um leve sorriso brincando em seus lábios. "Sempre contou." Ela deu outro passo, invadindo meu espaço. "Sabe, ele nunca te amou. Não de verdade. Você sempre foi apenas um meio para um fim. Uma maneira de me manter viva."

Minha mente correu, conectando os pontos. A ternura quando ele cuidou da minha ferida, suas limpezas pacientes, sua indulgência com meu caos artístico. Foi tudo uma performance, calibrada para me manter complacente, para manter a fusão viva, para manter o fluxo do medicamento para ela. Ele era um mestre manipulador. E eu, a "rebelde indomável", não passava de uma tola.

"E você," eu disse, minha voz mal um sussurro, "você sabia o tempo todo, não sabia?"

Seu sorriso se alargou. "Claro. Não sou tão frágil quanto pareço, Alice. Sou uma sobrevivente. E Caio... Caio me idolatra. Sempre idolatrou." Ela estendeu a mão, sua mão roçando meu braço, e sua voz baixou para um sussurro conspiratório. "Seu pai, ele é tão ruim quanto. Ele também não se importa com você. Ele te usou como alavanca para a empresa dele. Ele ficou feliz em trocar a própria filha por bilhões."

As palavras, embora esperadas, ainda doíam. Meu pai. Meu próprio sangue. Ele me via como uma coisa, intercambiável, descartável. Entre ele e Caio, eu era apenas um peão.

"Saia," eu disse, minha voz como gelo. "Saia da minha casa."

"Ah, não é sua casa, Alice," ela ronronou, seus olhos brilhando. "É do Caio. E em breve, será minha novamente. Ele só está esperando o momento certo para se livrar de você. Ele quase fez isso quando você estava no hospital. Os médicos quase te deixaram ir."

O hospital. A escolha. Ele a escolheu. Lembrei-me do zumbido em meus ouvidos, das vozes distantes, da decisão agonizante que foi tomada sobre meu corpo inconsciente. Ele a escolheu. E eu deveria morrer.

"Você não vai se safar dessa," eu disse, minha voz tremendo com uma raiva que ameaçava me consumir. Minha mão, ainda segurando o pincel, tremia.

Ela riu, um som delicado e tilintante que irritou meus nervos. "Ah, Alice, você é tão ingênua. Ele nunca vai te deixar ir. Não até eu estar completamente bem. E então... você simplesmente vai desaparecer. Ninguém vai se importar. Você não tem ninguém além daqueles artistas patéticos que você chama de amigos."

Meus amigos. Essa foi a gota d'água. A única coisa que eu considerava sagrada. O único relacionamento que era real.

"Você acha que me conhece?" eu sibilei. "Você acha que sabe do que sou capaz?" Deixei o pincel cair, o barulho ecoando na sala. "Você e Caio, e meu pai, vocês são todos iguais. Vocês me veem como uma coisa a ser manipulada. Mas vocês estão errados. Eu não sou uma vítima passiva. Eu sou uma força da natureza. E vou fazer vocês se arrependerem de cada mentira, de cada manipulação."

Ela apenas sorriu, um sorriso arrepiante e triunfante. "O que você vai fazer? Correr para o seu papai? Ele fez o acordo. Ele não vai te ajudar."

"Não," eu disse, minha voz de repente calma, uma calma perigosa. "Vou falar com meu pai. Não para pedir ajuda. Por justiça. E então, vou garantir que vocês dois paguem pelo que fizeram."

Passei por ela, meus olhos em chamas, e a deixei parada no meu ateliê, em meio às cores vibrantes e caóticas que de repente pareciam um campo de batalha. Meu carro estava esperando. Eu sabia exatamente para onde estava indo. A cobertura do meu pai. Era hora de acertar as contas. Hora de confrontar o homem que vendeu sua filha por lucro. Hora de fazer um acordo por conta própria. Um acordo que me libertaria.

Capítulo 3

Ponto de Vista: Alice Drummond

O trajeto até a cobertura do meu pai foi um borrão. Minha mente era um turbilhão de fúria e uma clareza arrepiante. As palavras de Bianca, as palavras dele, as ações do meu pai – tudo se fundiu em uma única e brutal verdade. Eu era um peão. Mas não mais.

Invadi a cobertura, o opulento hall de mármore um contraste gritante com a tempestade que se formava dentro de mim. O brilho suave dos lustres, o murmúrio abafado de funcionários invisíveis, tudo parecia sufocante. Ouvi risadas da sala de estar. Família. Minha madrasta, com seu cabelo perfeito e joias brilhantes, minha meia-irmã mais nova, rindo de alguma trivialidade. Um quadro de felicidade doméstica, uma piada cruel.

Meu pai estava sentado em sua poltrona de sempre, um copo de cristal na mão, a imagem do poder satisfeito. Ele ergueu os olhos, sua expressão mudando de diversão para irritação quando me viu. "Alice. O que é agora? Não vê que estamos tendo um momento particular?" Sua voz estava carregada com seu habitual desdém mal disfarçado.

"Momento particular?" eu ecoei, minha voz perigosamente suave. "É assim que você chama? Ou é apenas mais uma transação que você está intermediando, mais um ativo que você está alavancando?"

Ele estreitou os olhos. "Cuidado com o seu tom, mocinha."

Eu o ignorei, meu olhar varrendo as superfícies polidas, a arte cara, os troféus de suas conquistas corporativas. Meus olhos pousaram em um frágil vaso de porcelana, uma relíquia da minha infância, um presente da minha avó. Estava colocado precariamente em um aparador, um símbolo de tudo que era delicado e quebrável na minha vida.

Sem uma palavra, caminhei até ele. Minha madrasta ofegou. As risadas da minha irmã morreram. O rosto do meu pai endureceu. Peguei o vaso, seu peso frio em minhas mãos. Era lindo, ornamentado, totalmente inútil. Assim como eu, aos olhos dele.

"O que você está fazendo?" meu pai exigiu, sua voz de repente aguda.

Eu olhei para ele, meus olhos ardendo. "Estou te mostrando o que acontece quando você trata as pessoas como objetos, pai." E com uma onda de raiva crua e indomável, atirei o vaso do outro lado da sala. Ele se estilhaçou contra a parede oposta, explodindo em mil fragmentos brilhantes. O som foi ensurdecedor, ecoando no silêncio repentino.

Minha madrasta gritou, agarrando suas pérolas. Minha irmã choramingou, enterrando o rosto no lado da mãe. Meu pai, no entanto, permaneceu imóvel, seu rosto pálido de fúria.

"Sua pirralha ingrata!" ele berrou, levantando-se da cadeira. "Você tem alguma ideia de quanto isso custou?"

"Você tem alguma ideia de quanto eu custei?" eu retruquei, minha voz trêmula, mas firme. "Minha dignidade? Minha confiança? Minha vida inteira, embalada e vendida para a sua maldita fusão? É isso que vale, pai? Alguns bilhões de reais e uma vida inteira de mentiras?"

Minha madrasta, sempre a pacificadora, tentou intervir. "Alice, querida, por favor. Você está chateada. Vamos conversar sobre isso mais tarde."

"Fique fora disso, Evelyn," eu disparei, meu olhar não deixando o do meu pai. "A menos que você queira ser a próxima peça de porcelana estilhaçada." Minhas palavras pairaram no ar, uma ameaça arrepiante. Ela recuou, puxando a filha para mais perto.

Os olhos do meu pai brilharam com algo parecido com medo, uma emoção rara em seu rosto impassível. "Evelyn, leve a Clara para cima. Agora." Sua voz não admitia discussão. Elas se apressaram, nos deixando sozinhos na sala de estar coberta de destroços.

"Agora," ele disse, virando-se para mim, sua voz baixa e perigosa. "Explique-se. E é melhor que seja bom."

"Explicar-me?" eu zombei, uma risada amarga escapando dos meus lábios. "Explique-se você, pai. Caio Montenegro. Bianca Valente. O medicamento experimental. A fusão. Você realmente achou que eu não descobriria? Que sua teia de mentiras cuidadosamente construída não se desmancharia?"

Ele se encolheu, um aperto sutil em sua mandíbula. "Não sei do que você está falando." Ele tentou soar desdenhoso, mas um tremor em sua voz o traiu.

"Não minta para mim," eu sibilei, dando um passo mais perto. "Não mais. Você sabia que ele só se casou comigo para ter acesso ao medicamento experimental da sua empresa? Para salvá-la? Você sabia que estava vendendo sua própria filha para um casamento transacional, não por amor, não por família, mas por lucro corporativo?"

Ele cruzou os braços, sua fachada de indiferença se quebrando. "Foi uma aliança estratégica, Alice. Um arranjo mutuamente benéfico. Caio precisava do medicamento, sim. E eu precisava da fusão. Foi bom para os negócios. Bom para nossa família."

"Bom para nossa família?" eu zombei. "Você quer dizer bom para o seu lucro. Você me usou como alavanca, pai. Você me trocou como uma opção de ações. Você não se importou com a minha felicidade, meus sentimentos, minha vida. Você se importou com o seu maldito império farmacêutico."

"Eu fiz o que era melhor para todos!" ele berrou, sua voz ecoando nos tetos altos. "Essa fusão garantirá nosso legado por gerações! Proverá inúmeros empregos, desenvolverá tratamentos que salvam vidas! Foi um sacrifício, sim, mas necessário! Para o seu futuro! Para o futuro desta família!"

"Meu futuro?" eu ri, um som oco. "Você chama isso de futuro? Um casamento construído sobre mentiras? Uma vida como uma incubadora glorificada para o 'amor inesquecível' de Caio Montenegro? Você é patético, pai. Você prega sobre legado e progresso, mas não passa de um mestre de marionetes cruel e calculista."

Seu rosto era uma máscara de fúria fria. "Então, o que você quer? Uma festa de piedade? Uma esmola? Você conseguiu seu casamento, não conseguiu? Um marido poderoso, um futuro seguro."

"Eu quero sair," afirmei, minha voz clara e inabalável. "Quero o divórcio. E quero renunciar à minha herança. Cada centavo da fortuna Drummond. Não quero nada de você. Nunca mais."

Ele me encarou, seus olhos arregalados de surpresa, depois um estranho, quase imperceptível brilho de triunfo. Bom. Uma herdeira a menos para se preocupar. Uma reivindicação a menos sobre sua preciosa fortuna. Suas emoções mascaradas eram mais dolorosas que sua raiva.

"Tudo bem," ele disse, sua voz recuperando sua compostura fria. "Se é isso que você quer. Mas há condições."

"Claro que há," eu disse, um sorriso amargo brincando em meus lábios. "Quais são, grande mestre de marionetes?"

"Primeiro, o divórcio será rápido e silencioso. Sem escândalo. Segundo, o medicamento experimental para Bianca Valente será garantido, sem perguntas, indefinidamente. E em troca, você assina a renúncia a todos os direitos ao nome Drummond, a cada ativo, a cada reivindicação futura. Você desaparece. Completamente." Ele apontou para uma pilha de papéis em uma mesa próxima. "O acordo de renúncia. Já redigido."

Meu coração martelou. Ele havia antecipado cada movimento meu. Ele já havia preparado meu exílio. A pura frieza de seu movimento calculado fez minha respiração falhar. Mas também era meu bilhete de saída. Minha liberdade.

Minha mão tremeu quando peguei a caneta. O papel parecia pesado, denso com o peso de sonhos desfeitos e confiança quebrada. Era isso. O corte final. Eu assinei. Meu nome, Alice Drummond, rabiscado na parte inferior, selando meu destino. A tinta parecia sangue. Cada traço era uma ruptura.

Quando terminei, ergui os olhos, encontrando os dele. "Uma última coisa, pai," eu disse, minha voz mal acima de um sussurro. "Se você alguma vez, alguma vez, interferir na minha vida novamente, se alguma vez tentar me controlar, ou me usar, ou mesmo falar meu nome em público, eu não apenas exporei cada segredo sujo desta família, como também desmantelarei sistematicamente todo o seu império. Pedaço por pedaço. Considere este meu aviso final."

Seus olhos se arregalaram, finalmente mostrando um lampejo de medo genuíno. Eu havia atingido um nervo. Eu havia mostrado a ele um lado de sua "rebelde indomável" que ele nunca soube que existia. Eu me tornei a arma que ele havia forjado.

Saí da cobertura, deixando-o parado em meio à porcelana estilhaçada e aos destroços de nosso relacionamento. O ar lá fora parecia fresco, frio e estranhamente revigorante. Eu estava livre. Mas a liberdade tinha gosto de cinzas.

Meu telefone tocou. Era Clara, minha irmã. "Alice! Você está bem? Papai está furioso. E a Evelyn está me fazendo limpar a bagunça. O que aconteceu?"

"Acabou, Clara," eu disse, minha voz plana. "Tudo. Estou livre."

"Livre? O que isso significa?"

"Significa que não sou mais uma Drummond. E você não terá que se preocupar comigo te envergonhando no seu próximo baile de debutantes." Tentei injetar um pouco de leveza na minha voz, mas saiu oca.

"Alice, não. Você não pode!"

"Eu já fiz." Encerrei a chamada antes que ela pudesse protestar mais. Eu não queria mais falar sobre isso. Eu só queria desaparecer.

Fui ao meu bar de sempre, as luzes fracas e os rostos familiares um pequeno conforto. Meus amigos, um grupo heterogêneo de artistas e espíritos livres, já estavam lá. Eles olharam para mim, seus rostos marcados pela preocupação.

"Alice? O que aconteceu?" Léo perguntou, colocando a mão no meu braço. "Você parece que viu um fantasma."

"Pior," eu disse, virando um shot de tequila. "Eu vi a verdade." Contei tudo a eles. A fusão. Bianca. O medicamento. A mentira. A escolha. A traição do meu pai. Minha decisão.

Seus rostos se transformaram de preocupação para incredulidade, depois para raiva crua. "Aquele canalha!" Maia, minha amiga mais próxima, bateu com o punho na mesa. "Ele te usou! Todos eles!"

"Eu sei," eu disse, as palavras com gosto de veneno. "Mas está feito. Estou fora. Estou livre."

"E o Caio?" Léo perguntou, sua voz gentil. "E ele?"

Olhei para o meu copo de shot, girando o líquido claro. "Ele fez a escolha dele. Ele sempre fez. Eu que fui estúpida demais para ver." A dor no meu peito era uma dor surda agora, uma companheira constante. "Ele não vai sentir minha falta. Ele tem seu 'amor inesquecível' agora."

Maia me abraçou. "Estamos aqui por você, Alice. Sempre."

"Eu sei," sussurrei, agarrando-me a ela. "Isso é tudo que importa agora."

Mas uma voz minúscula e insidiosa no fundo da minha mente sussurrou: Será? Será que ele vai notar que eu fui embora? Ele virá atrás de mim? Eu a reprimi. Ele não viria. Ele não podia. Ele tinha tudo que queria.

Fiquei com meus amigos naquela noite, bebendo até o mundo se tornar um borrão. Quando o sol da manhã invadiu as persianas, pintando o quarto em tons suaves, eu sabia o que tinha que fazer. Eu precisava ir embora. Deixar esta cidade, este país, esta vida. Desaparecer completamente, assim como meu pai havia exigido.

Enquanto arrumava uma pequena mala, minhas mãos se moviam mecanicamente. Meus materiais de arte, algumas roupas, meu passaporte. Era isso. Eu estava deixando tudo para trás. Mais do que apenas posses, eu estava deixando para trás a garota que eu costumava ser. A rebelde indomável, a contestadora. Ela tinha sido tola. Ela tinha acreditado em uma mentira.

Saí do apartamento de Maia, a cidade ainda quase adormecida. O ar estava fresco, com um leve cheiro de chuva. Chamei um táxi, meu coração um espaço oco no peito. Um novo capítulo. Uma tela em branco. Mas primeiro, eu tinha que garantir que estava realmente sozinha.

Assim que o táxi parou, uma SUV preta parou com um guincho ao meu lado. Era o carro de Caio. Meu sangue gelou. Ele me encontrou. Como? Eu nem tinha comprado a passagem ainda.

A porta se abriu. Um homem que reconheci como um dos seguranças de Caio saltou, seu rosto sombrio. "Sra. Drummond, o Sr. Montenegro exige seu retorno imediato."

"Não vou a lugar nenhum," eu disse, minha voz firme, tentando passar por ele. Mas ele foi muito rápido, muito forte. Ele agarrou meu braço, seu aperto como ferro.

"Me solta!" eu lutei, mas ele me segurou firme.

"O Sr. Montenegro insiste. Ele sabe sobre o divórcio. Ele quer conversar."

"Não há nada para conversar." Eu me torci, tentando me libertar. Minha mala caiu na calçada, seu conteúdo se espalhando. Meu passaporte. Ele viu.

"Indo a algum lugar?" uma voz fria e calma arrastou-se do banco de trás da SUV. Caio. Ele saiu, alto e imponente, seus olhos como gelo. Ele parecia absolutamente enfurecido, uma fúria que eu nunca tinha visto dirigida a mim. "Acredito que temos um casamento para discutir."

Ele estava aqui. E o olhar em seus olhos prometia uma tempestade.

Continue lendo
Apoie o autor e inspire mais histórias incríveis Moboreader
Desbloquear todos
Capítulo
Personalizar
Próximo Capítulo
Minishorts Logo
Leia web novels, ficção online e histórias românticas em alta no MiniShorts. Descubra romances de bilionários, fantasia de lobisomens, drama e novelas de fantasia, além de conteúdos selecionados de dramas curtos inspirados nas tendências de narrativa mais populares.
MiniShorts YouTube
PRODUTOS E SERVIÇOS
Sobre nós
support@minishorts.com
©2026 MiniShorts Todos os direitos reservados. CHASINGTOP HK LIMITED