Capítulo 2

Clara Vasconcelos POV:

No dia seguinte à finalização dos planos, voltei para a cobertura que um dia foi meu lar. Parecia um museu da vida de uma mulher morta. Cada superfície, cada objeto, era um testemunho dos nove anos que Juliano havia apagado.

Comecei em nosso quarto. Metodicamente, tirei suas roupas dos armários — os ternos sob medida, os suéteres de caxemira, as gravatas de seda. Empilhei tudo no chão. Depois vieram minhas coisas — os vestidos de grife que ele me comprou, as joias que um dia pareceram símbolos de amor e agora pareciam correntes.

Separei tudo em três pilhas. Vender. Doar. Destruir.

As empregadas me observavam com olhos arregalados e chocados enquanto eu orientava um serviço de consignação de luxo a esvaziar metade do closet. "Mas, senhora", uma delas, Maria, sussurrou, sua mão pairando sobre um colar de diamantes que Juliano me deu no nosso quinto aniversário, "este era o seu favorito."

"É apenas uma coisa, Maria", eu disse, minha voz vazia. "Livre-se disso."

A última pilha era a mais pessoal. Álbuns de fotos, flores secas de aniversários, bilhetes manuscritos que ele deixava no meu travesseiro. Levei tudo para o incinerador do prédio eu mesma. Observei as chamas consumirem nossas memórias, transformando nossos rostos sorridentes em cinzas negras e retorcidas. Não havia dor. Apenas um entorpecimento oco e purificador.

Minha última parada foi um estúdio de tatuagem na Vila Madalena. O artista, um homem com mais tinta na pele do que tela em seu estúdio, ergueu uma sobrancelha quando viu a delicada caligrafia na minha omoplata. 'Amor Vincit Omnia' - O Amor Conquista Tudo. Abaixo, a assinatura de Juliano, uma réplica exata. Ele mesmo a desenhou em nossa lua de mel.

"Tem certeza de que quer cobrir isso?", perguntou o artista. "É um bom trabalho."

"Tenho certeza", eu disse. "Quero uma fênix. Algo renascendo das cinzas."

Enquanto a agulha zumbia e picava, pensei no dia em que fizemos as tatuagens. Estávamos bronzeados e embriagados de amor em uma pequena loja em Positano. "Para sempre", ele sussurrou contra minha pele. "O amor conquista tudo, Clara. Até o tempo."

Que mentira linda.

O zumbido da agulha era uma dor bem-vinda, uma sensação física para me distrair do vazio interior. O amor não conquistava tudo. Não conquistava uma lesão cerebral traumática, e certamente não conquistava o veneno insidioso de uma amiga de infância manipuladora. A antiga eu estava morta. Eu não carregaria a marca de uma promessa falsa em minha nova pele.

Meu celular tocou quando eu estava saindo. Era da funerária. O velório de Léo estava marcado para o dia seguinte. Uma nova onda de luto, aguda e potente, cortou o entorpecimento. Esta era a última coisa que eu tinha que fazer. O último laço com minha vida antiga.

O funeral foi um evento pequeno e sombrio. Apenas um punhado de amigos e parentes distantes apareceram. Fiquei ao lado do caixão aberto, olhando para o rosto pacífico de Léo, tentando memorizar o irmão que eu amava, não o garoto quebrado no beco.

Então, as portas da capela se abriram.

Juliano entrou, com Helena agarrada ao seu braço como um parasita de grife.

Ele parecia cauteloso, seus seguranças se espalhando atrás dele como se esperasse que eu o atacasse. Ele manteve um braço protetor ao redor de Helena, protegendo-a da irmã enlutada do garoto que ele havia efetivamente assassinado.

"O que você está fazendo aqui?", perguntei, minha voz perigosamente baixa.

"Helena ficou chateada quando soube do seu irmão", disse Juliano, seu tom desdenhoso. "Ela queria prestar suas condolências."

Ele olhou para o caixão com uma expressão de leve aborrecimento, como se a morte de Léo fosse um inconveniente de mau gosto. "É uma pena. Ele era jovem. Mas quem se mete com gente errada acaba mal."

Minhas mãos se fecharam em punhos ao meu lado. "Acaba mal? É assim que você chama uma vida humana, Juliano? Uma vida que você tirou?"

"Não seja dramática", ele zombou. "Eu não toquei nele. Suas próprias decisões ruins o mataram. Helena estava apenas tentando me proteger das... conexões duvidosas dele."

Suas palavras eram tão escandalosamente insensíveis, tão descoladas da realidade, que uma risada borbulhou na minha garganta. Era um som quebrado e histérico que fez todos se virarem para olhar. Olhei para Helena, que segurava um cachorrinho branco e fofo nos braços, seu rosto uma máscara de tristeza angelical. Notei um pequeno arranhão em seu pulso, quase invisível.

"Proteger você?", eu ri, o som se transformando em um soluço. "Ele te admirava, seu desgraçado. Ele achava que você era um deus. Ele costumava me dizer a sorte que eu tinha de ter você." Minha voz falhou. "E o que você fez? Você mandou espancá-lo até a morte por causa de um arranhão no pulso dela."

"Não fale com a Helena desse jeito", Juliano rosnou, parando na frente dela.

"Por que tem um cachorro numa funerária?", eu disparei, meu luto se transformando em fúria incandescente.

Helena fingiu um olhar confuso. "Ah, me desculpe. A Fifi fica ansiosa quando está sozinha. Não quis desrespeitar." Enquanto falava, seu aperto no cachorro pareceu afrouxar, um movimento sutil, quase imperceptível.

A cachorrinha branca, sentindo a liberdade, pulou de seus braços.

Aconteceu em câmera lenta. A cachorra correu para frente, suas patas arranhando o chão polido. Antes que alguém pudesse reagir, ela pulou. Direto para dentro do caixão de Léo.

Um suspiro coletivo encheu a capela. A cachorra, pequena e inconsequente, começou a cheirar e a patinhar no rosto do meu irmão, suas garras se prendendo no trabalho cuidadoso que o agente funerário havia feito para esconder os hematomas. Ela latiu feliz, abanando o rabo, profanando a última imagem que eu teria do meu irmão.

"Oh, Fifi, não!", gritou Helena, sua voz carregada de falso horror.

Um grito primitivo rasgou minha garganta. Eu avancei, empurrando a cachorra para longe do corpo de Léo. "Tire ela de cima dele! Tire ela daqui!"

Juliano correu para o lado de Helena, ignorando o sacrilégio monstruoso que acabara de ocorrer. Ele a puxou para um abraço protetor, acariciando seus cabelos. "Está tudo bem, querida. Foi um acidente." Ele me fuzilou por cima do ombro dela, seus olhos cheios de desprezo.

"Um acidente?", eu gritei, embalando a cabeça de Léo, tentando alisar seu cabelo de volta no lugar. "Ela fez isso de propósito!"

Ele olhou para o caixão, para o corpo do meu irmão, o garoto que ele havia condenado à morte, e zombou. "Faz alguma diferença? Não é como se o degenerado pudesse sentir."

Capítulo 3

Clara Vasconcelos POV:

"Já chega, Clara", ordenou Juliano, sua voz carregada com a impaciência cansada de um rei lidando com uma camponesa histérica. "Foi um acidente. Helena se sente péssima." Ele acariciou o cabelo dela enquanto ela enterrava o rosto em seu peito, seus ombros tremendo com o que eu sabia serem soluços fabricados. "Eu compro um caixão melhor para você. O melhor que o dinheiro pode comprar. Agora, pare de fazer cena."

Um caixão melhor. Ele achava que o dinheiro poderia consertar isso. Ele achava que poderia comprar meu silêncio, comprar meu perdão, cobrir a ferida aberta e gritante da morte do meu irmão com seus reais ensanguentados.

A raiva dentro de mim, que era um fogo brando, explodiu em uma supernova. Queimou minhas lágrimas, meu luto, meu choque, deixando apenas uma certeza fria e dura.

Em um movimento fluido, eu me virei. Minha mão voou para cima, o estalo dela conectando com a bochecha de Helena ecoou no silêncio atordoado da capela. A cabeça dela virou para o lado, uma marca de mão vermelha florescendo em sua pele pálida. Seus soluços falsos se transformaram em um grito real de dor e surpresa.

Todos congelaram. Os enlutados, os seguranças, até mesmo Juliano. Eles me encararam como se eu tivesse criado uma segunda cabeça. A irmã enlutada e quebrada se foi. Uma Fúria estava em seu lugar.

"Você", eu rosnei, minha voz um sussurro venenoso enquanto apontava um dedo trêmulo para Helena. "Você vai queimar no inferno por isso."

O choque de Juliano se transformou em uma fúria estrondosa. Seu rosto ficou carmesim. "Peguem-na", ele rugiu para seus seguranças. "Agora!"

Dois homens grandes se moveram em minha direção, suas expressões hesitantes. Eles trabalhavam para Juliano há anos. Eles me conheciam como sua esposa, a mulher que ele havia estimado.

"O que vocês estão esperando?", berrou Juliano, sua voz tremendo de fúria. "Façam isso!" Ele apontou para mim. "Façam-na pedir desculpas a Helena. De joelhos."

Eu ri, um som cru e agudo. "Pedir desculpas? Prefiro morrer."

O diretor da funerária, um homem pequeno e careca, correu para frente. "Sr. Monteiro, por favor, esta é uma casa de Deus. Não vamos ter mais problemas."

Juliano lançou-lhe um olhar tão letal que o homem recuou fisicamente e se dissolveu de volta nas sombras. A capela era dele agora. Ele era o deus aqui.

"Última chance, Clara", disse Juliano, sua voz perigosamente suave. "Peça desculpas."

Quando eu apenas o encarei de volta com todo o ódio da minha alma, ele acenou para seus homens. "Quebrem as pernas dela."

Os seguranças trocaram um olhar horrorizado. "Senhor", um deles começou, "ela é..."

"Ela não é nada", Juliano o interrompeu, sua voz caindo para um frio ártico. "Ela é um inconveniente. Façam o que eu digo, ou podem se juntar ao irmão dela."

Isso foi tudo o que foi preciso. O medo, cru e primitivo, apagou qualquer lealdade remanescente que eles tinham por mim. Eles agarraram meus braços, seus apertos impiedosos. Eu lutei, mas foi inútil. Eles eram montanhas de músculos, e eu era apenas uma mulher estilhaçada pelo luto.

Eles me forçaram a ficar de joelhos no chão de mármore frio. Olhei para Juliano, para o rosto que um dia amei mais que a própria vida, e não vi nada além de um vazio. Sem amor, sem memória, apenas um vazio arrepiante e cruel.

Um dos guardas levantou um pesado genuflexório de madeira do primeiro banco. Ele hesitou por uma fração de segundo, seus olhos implorando para que eu apenas dissesse a palavra, para pedir desculpas. Encontrei seu olhar e balancei a cabeça lentamente.

Nunca.

Juliano deu outro aceno seco.

O genuflexório desceu.

O som do meu próprio osso quebrando foi doentiamente alto na capela silenciosa. Uma agonia diferente de tudo que eu já conheci subiu pela minha perna, incandescente e ofuscante. Eu gritei, um som longo e irregular de pura dor animal.

Eles não pararam. Eles o derrubaram na minha outra perna. Outro estalo, outra explosão de dor que ameaçou me engolir inteira.

Eu desabei no chão, meu corpo um monte inútil e quebrado. O mundo estava girando, pontos pretos dançando na frente dos meus olhos. Através da névoa de dor, vi Juliano me dar as costas. Ele gentilmente conduziu Helena, que agora me olhava com um sorriso triunfante e malicioso, para fora da capela.

"Limpe isso", foi a última coisa que o ouvi dizer antes que a escuridão finalmente me levasse.

Enquanto eu mergulhava na inconsciência, uma memória surgiu. Anos atrás, um rival de negócios desprezível me encurralou em uma gala, sua mão deslizando muito baixo nas minhas costas. Juliano viu do outro lado da sala. Ele não levantou a voz. Ele não fez uma cena. Ele simplesmente se aproximou, pegou a mão do homem e dobrou seus dedos para trás, um por um, até que o homem estivesse de joelhos, gemendo de dor. Juliano se inclinou e sussurrou: "Se você sequer respirar na direção da minha esposa de novo, eu pessoalmente vou te arruinar."

Ele tinha sido meu protetor. Meu protetor feroz, possessivo e amoroso. Ele estava disposto a quebrar a mão de outro homem por um toque desrespeitoso.

Agora, ele havia ordenado que minhas próprias pernas fossem quebradas em uma capela, sobre o corpo do meu irmão morto.

A linha entre o amor e o ódio, percebi enquanto a escuridão me consumia, não era uma linha. Era um penhasco. E Juliano tinha acabado de me jogar dele. Meu amor por ele, minha própria alma, foi estilhaçada nas rochas abaixo.

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