A partir daquela premonição que conseguiu evitar, Isadora teve muitos outros sonhos. Quando sonhou com a mãe caindo da escada grávida, não conseguiu evitar porque aconteceu na mesma hora que acordou. Depois de outros episódios, seu pastor sinalizou que quando acontecia diretamente com ela, não conseguia evitar.
Sua mãe falou que seu dom não era de Deus, pois Ele não daria um dom pela metade dessa forma e Isadora seguiu contando para todos o que sonhava e o padrão seguia: quando não influenciava a sua vida diretamente, ela conseguia evitar.
Logo a mãe ficou grávida novamente para completar a alegria. Ela estava com 12 anos quando Sarah nasceu! No dia que o pai foi buscar a mãe na maternidade, Isa sonhou com a mulher do patrão do pai afogando o bebê deles na banheira. Quando o pai chegou com a bebê, Isadora insistiu para avisar e o pai chamou o patrão. Depois que ouviu o que Isadora contou, riu e falou que não acreditava em nada daquilo. E que Gonçalo não precisava inventar artimanhas como aquela para atrair o patrão pra casa dele a fim de conhecer o novo bebê.
No dia que o pai voltou de licença paternidade, estava em reunião com o chefe quando a secretária ligou assustada, dizendo que tinha dois policiais ali. O chefe mandou entrar e foi informado de que a mulher estava detida porque afogou o bebê deles de 4 meses na banheira.
Depois desse episódio, o pai foi demitido e o chefe espalhou que Isa era uma bruxa e tinha usado magia negra para induzir sua esposa a fazer tal atrocidade. Ele tinha muitos negócios na cidade e impedia os outros de contratarem Gonçalo. A situação ficou mais complicada quando o chefe começou a incitar as pessoas a agredir Isadora na rua, por ser uma bruxa.
Muitos de seus vizinhos e amigos acreditavam no dom dela. Ela já tinha ajudado muita gente, evitado muitas tragédias. Mas a grande maioria acreditava sim que ela era uma bruxa e tal qual na época da inquisição, queriam queimá-la viva.
Sem condições financeiras de se manter na cidade desempregado com cinco filhos e ainda tendo que proteger sua primogênita da ignorância da população, Gonçalo decidiu se mudar de cidade.
E suas vidas se transformaram quando passaram de família abastada e feliz vivendo na tranquilidade do interior, para a grande família vivendo no morro do Rio de Janeiro!
Depois de um ano nesse sacrifício, Isadora percebeu como tudo ficou tão ruim! Passaram de ir para a escola andando em turma, para o transporte escolar. O pai estava usando o dinheiro da venda da casa que sobrou para custear escola particular para os 5 no asfalto, inclusive creche para Sarah. E tinha aceitado trabalhar para o Urubu, chefe do tráfico e dono da boca.
Poucas vezes os moradores apareciam em sua casa, o barraco só tinha três quartos, as meninas dividiam um e os meninos o outro, tudo muito apertado e a mãe vivia mal humorada. Não era mais a mulher calma e tranquila, dona de casa perfeita, e eles brigavam muito. Ela sempre dizia pra ele tirar ela daquele lugar, antes que perdesse um dos filhos ou algo acontecesse com o dinheiro de Urubu e o pai fosse responsabilizado, mas nada mudava, e assim seguiram suas vidas com a nova realidade…
São Paulo - Capital
Isadora com 23 anos tinha acabado de receber seu canudo. Era enfim auxiliar e técnica de enfermagem como o pai sonhou por ela. Por causa da grana curta, ia começar a faculdade só no ano seguinte, e isso se Wesley permitisse ela continuar estudando!
Sentiu o bebê mexer enquanto ela ajeitava suas coisas pra ir pra casa. Morava na zona sul de São Paulo, e enquanto dirigia pra casa, pensava no dia em que o pai morreu e como tudo se transformou mais uma vez!
Lembrou que com 17 anos, estava chegando da igreja quando o pai a esperava pra conversarem. A discussão com a mãe (de novo) naquela manhã devia ser o motivo. Estava meio que preparada para o pai a cercar, pois naquele dia, foi o mais violento possível a argumentação da mãe, e Isadora achava que ia acabar perdendo a paciência com ela!
Tereza estava diferente, não era mais a mãe bondosa e carinhosa de quando viviam no interior do Rio. Era relaxada, começou a fumar, não ligava mais para as crianças e todas as obrigações da casa ficavam com Isadora. Ela dizia que tinha a vida perfeita e toda as desgraças da vida dela se deviam a Isa, então era justo Isadora compensar ela de alguma forma. Também culpava Gonçalo por ter levado a família para o morro.
Mas a verdade que Isadora sabia e que lutava a todo custo pra evitar que os irmãos descobrissem, era que a mãe estava envolvida com drogas. Ela não sabia até que ponto a mãe estava viciada, mas que estava usando, isso era claro. Ela estava no último ano do ensino médio, e mesmo que não concordasse com o que o pai fazia pra sustentar a casa, já que ele era contador do crime organizado no morro, também não podia de todo culpa-lo.
Ele conseguiu manter todos em escola particular no asfalto, e enquanto era o homem de confiança de Urubu, ninguém mexia com ele nem com as crianças, estavam protegidos! A mãe era outra história.
Ficou mal humorada, seca, perdeu o amor pela família. Isadora preparava as crianças pra escola, lancheiras, entregava no transporte escolar e depois cuidava da casa toda. As vezes fazia almoço e a mãe ainda não tinha levantado, aí ela arrumava todo o resto e acordava a mãe para quando as crianças chegassem, todos almoçarem juntos para que eles pensassem que a mãe quem cuidou de tudo. Então ia pra escola e quando voltava ajudava as crianças com o dever, os obrigava a fazer suas orações antes de dormir.
Respeitava a decisão de cada um de não seguir nenhuma religião, mas explicava que a fé não tinha nada a ver com religião e seu momento de conversar com Deus e entregar sua vida a Ele, era diário e pra cada ser humano dessa terra, independe de religião! As crianças aprenderam a respeitá-la. Mesmo que ela os enganasse para acreditar que a mãe quem fazia as coisas, era ela que eles viam cuidando toda vez.
Patrícia era mais complicada. Desde pequena tinha um gênio forte. Os pequenos, os gêmeos Miguel e Pedro, que estavam com 9 anos e Sarah, com 5 anos, ainda acompanhavam ela na igreja muitas vezes, acatavam as ordens e a respeitavam. Patrícia, com 13, fugia pra ir aos bailes funks, usava as roupas conforme as meninas do morro, shorts muito curtos, tops que não cobriam nada, falava na gíria e não aceitava comando de ninguém. Era rebelde desde sempre! E as discussões com a mãe começaram justamente por causa dela.
Tereza jogava a responsabilidade pra cima da filha mais velha e também queria que Isa controlasse Patrícia. Mas toda vez que Isa ia falar alguma coisa, a resposta era a mesma: você não é minha mãe! Então Isa pedia pra mãe resolver e a mãe mandava ela se virar.
Nessas horas, Isa tinha vontade de mandar o primeiro mandamento com promessa a merda e dar um boxe na mãe. Sim, Isadora era humana. As pessoas tem o costume de achar que evangélica tem que ser boba e só falar de Deus, mas não entendem que a calma espiritual é buscada diariamente em oração e contato com Deus. Mas a humanidade está ali, a raiva, a fome, as frustrações, todas as emoções estão ali. A rebeldia de adolescente, graças a Deus, era controlada e Isadora não tinha o direito de ser adolescente.
Por ter estragado a vida dos pais ao revelar seu sonho, a mãe a obrigou a assumir seu papel. E ela se sentia responsável por cuidar de todos. E tentar manter a normalidade!
No dia anterior, não teve a última aula, então dispensou o transporte e pegou um Uber pra casa. Ela era sempre a última a ser entregue, então normalmente chegava em casa depois do pai. Como naquele dia chegou umas duas horas adiantada, descobriu Patrícia se pegando com um bandidinho, daqueles metidos a bandido mas que são uns idiotas. Usam réplica mal feita do jacaré, as calças lá embaixo parecendo que tem um troço de bosta nos fundos, mostrando a faixa da cueca “Kevin Clain” que são vendidas de bacião a dois reais no chão da feirinha e andam parecendo que estão espantando mosquito do traseiro.
Quando Patrícia a viu, o sangue fugiu de seu rosto e antes que ela pudesse armar o escândalo, correu pra dentro. E o bandidinho, frouxo do jeito que Isadora tinha certeza que era, correu pro outro lado, sem nem saber porque estava correndo!
Ela entrou e encontrou o cenário que nem imaginava! A mãe estava jogada no sofá, uma garrafa de vodka do lado e Isa não viu copo, então imaginou que ela tomasse direto no gargalo. Estava adormecida. Os gêmeos estavam jogando vídeo game, gritando um com o outro como sempre e ela não viu Sarah. Ela chamou os irmãos pra perguntar da caçula e eles estavam na vibe deles e não lhe davam atenção. Ela ouviu o chuveiro ligado e imaginou que a frouxa da Patrícia correu para dar banho nela!