Os acontecimentos da tarde voltaram a minha mente novamente. O carro passando rápido, eu salvando a menina e logo em seguida o pai dela. Aquele homem era lindo demais! Podia ser modelo ou algo do tipo, e deveria ter qualquer mulher aos seus pés, qualquer uma que quisesse. E aqueles olhos, ah aqueles olhos... lindos, cativantes e sedutores. Deve muito fácil se perder neles.
— Sonhando acordada? — Bel perguntou em tom de brincadeira e eu ri, deveria estar com cara de boba pensando no homem.
— Só pensando, vem comer.
Fizemos nossos pratos e fomos pra sala. Bel sentou no sofá e eu em uma poltrona.
— O que aconteceu pra você ser demitida dessa vez? Ofendeu alguém de novo? — ela conhecia bem o meu temperamento explosivo para saber que eu não deixava por menos em um bate-boca.
— O mesmo de sempre, você sabe que eu não abaixo a cabeça pra nin-guém, principalmente quando estou certa.
— Ai Tini. — Isabel soltou uma gargalhada. — Você é impossível.
— Obrigada amiga. — ri também e jogando um beijo pra ela. — Já terminou? Eu vou lavar a louça.
— Vou ver o que está passando na TV.
Peguei os pratos e fui lavá-los.
— Ta passando na TV. — Isabel comentou.
— Passando o que na TV? — perguntei sem me virar terminando de enxaguar os pratos e pegando o pano para secá-los.
— O acidente com a filha do Javier Rodríguez.
— Quem? — não fazia ideia de quem ela tava falando, eu não me ligava muito nesse negócio do mundo das celebridades, não tinha muita paciên-
cia, já Isabel adorava saber fofocas sobre famosos.
— O Javier Rodríguez, aquele jogador colombiano que joga aqui no Ba-yern, a filha dele quase foi atropelada agora à tarde.
Meu coração disparou ao ouvir o que Isabel disse e me virei devagar focando o olhar na TV. O pai da menina que eu tinha salvado de ser atropelada agora à tarde era o mesmo cara de quem a repórter falava agora.
— Puta merda! — as palavras pularam da minha boca e o prato que estava em minha mão foi parar no chão virando caquinhos.
— Tini! — Isabel gritou se virando. — O que foi?
— Aumenta a TV! — corri pra sala jogando o pano pra lá. — Aumenta Isabel!
— A menina Catalina Rodríguez Alonso não precisou ser hospitalizada após o acidente, teve apenas alguns arranhões superficiais e já se encontra em casa na companhia do pai. O carro que avançou o sinal vermelho e quase atropelou a menina, era dirigido por bandidos que tinham acabado de assaltar um banco e fugiam da polícia. — meu coração gelou ao ouvir aquilo. — A misteriosa salvadora da garotinha ainda não teve o nome divulgado, o jogador Javier Rodríguez apenas declarou que agradece de co-ração ao anjo que Deus mandou para salvar seu tesouro mais precioso, como ele mesmo disse. Voltaremos a qualquer momento com mais informações.
Eu tremia da cabeça aos pés. Bandidos!
— Ainda bem que tudo terminou bem. — Bel comentou abaixando o volume. — Não sabia que você se importava com celebridades Tini, e...
— Era eu. — falei sentando no sofá e escondendo meu rosto nas mãos.
— Você o que? Eu não entendi.
— Fui eu que salvei a menina. — olhei pra cara de Isabel que arregalou os olhos em espanto.
— Eu não acredito! — ela olhou para a TV que passava imagens do acidente e por um milésimo de segundo eu apareci, logo depois Isabel olhou pra mim. — É você mesma, mas como... como... você não tá machucada?!
— Só ralei o joelho, o carro pegou em mim de raspão.
— Cara eu não acredito nisso! É muita loucura!
— Eu sei, eu fiquei morta de medo de alguma câmera me filmar.
— Mas não filmou não se preocupe, só apareceu rapidamente. — Isabel sabia do meu medo. — E se você não me dissesse que era você, eu jamais saberia, não dá pra ver seu rosto, mas realmente não está machucada? Amiga você foi atropelada e deveria ir pra um hospital.
— Eu to bem. — garanti a ela. — Passei em uma farmácia e comprei um kit de primeiros socorros e alguns analgésicos pra dor.
— Menos mal.
— Bel eu vou dormir, to exausta.
— Claro amiga vai lá sim, eu termino de limpar a cozinha, qualquer coisa me chama.
— Tá bem, boa noite.
— Boa noite.
Entrei para o meu quarto e fechei a porta. Era bem pequeno, mas estava ótimo pra mim. Joguei-me na cama e senti o joelho latejar.
— Droga. — gemi fechando os olhos e rezando pra dor passar logo.
Eram bandidos no carro e eles não iam parar, se eu não tivesse tirado aquela menina da frente, não quero nem pensar no que podia ter acontecido.
Fiquei deitada no escuro por alguns minutos tentando focar no som da minha respiração. Ouvi algo vibrar dentro do quarto e abri os olhos. Ouvi novamente e olhei para o lado, algo brilhava dentro da minha bolsa, devia ser meu celular.
Sentei e acendi a luz, peguei a bolsa e despejei seu conteúdo em cima da cama. Não era meu celular que vibrava, mas sim outro aparelho, bem mais moderno que o meu.
Peguei o celular estranhando e me perguntando como ele tinha ido parar na minha bolsa e de quem era. Vibrou novamente, mas eram men-sagens, percebi que tinham ligações também, o dono devia estar louco atrás, mas eu não podia fazer nada, já que o aparelho só desbloqueava com a impressão digital dele.
Deitei novamente e deixei por perto caso ele tocasse.
Estava quase dormindo alguns minutos depois quando Bel bateu à porta do meu quarto. Levantei meio grogue e fui abrir.
— Desculpa você já tava dormindo?
— Quase. — encostei-me à porta.
— Você tá tomando o remédio de quantas em quantas horas? Não se esqueceu de tomar não?
— Bem lembrado, eu tinha que tomar um comprimido antes de dormir.
— Por isso eu trouxe um copo de água. — me mostrou o copo sorridente e eu peguei o remédio pra tomar.
— Valeu amiga.
Desabei na cama e dormi instantaneamente. Estava cansada e os remédios faziam efeito.
Tive um sono um pouco agitado e sonhei com o acidente. No sonho, Javier me pegava no colo no meio da rua e me colocava no carro dele, nisso eu acordei, e engraçado que a filha dele não estava no sonho.
Quando acordei no outro dia, o sol já ia alto. Espreguicei-me e levantei da cama, observei meu joelho que já não doía muito, os remédios eram muito bons. Saí do quarto e percebi que Bel já tinha ido trabalhar, o café estava pronto e tinha um bilhete em cima da mesa.
Bom dia amiga, espero que você esteja melhor, qualquer coisa me liga.
Beijos Bel.
Que fofa! Vontade de abraçar.
Tomei meu café e lavei a louça. O dia estava lindo e decidi dar uma volta, procurar outro emprego, não posso ficar parada.
Voltei ao quarto para arrumar minha cama e vi que o celular que foi parar na minha bolsa estava vibrando, era uma chamada. Corri pra atender.
— Alô! — falei tentando acalmar minha respiração.
— Bom dia. — uma voz de homem soou do outro lado. — Eu to tentando ligar desde ontem, esse celular é da minha filha e ela perdeu.
— Bom dia. — prendi o celular entre o ombro e o ouvido e comecei a arrumar minha cama. — Ah sim claro, eu vi que tinham chamadas perdidas, mas não consegui mexer porque só desbloqueia com a digital do dono.
— Sim. — o rapaz sorriu de leve. — Minha filha quer o aparelho de volta por causa das fotos que tem nele.
— Eu entendo, é só marcar em algum lugar pra a gente se encontrar e eu te devolvo o aparelho.
— Muito obrigado! Isso significa muito. Catalina! Você ouviu filha? Eu achei seu celular!
O que eu ouvi fez com eu congelasse no lugar. Não era possível!
— Catalina? — perguntei devagar com medo de ter entendido errado.
— Sim, minha filha Catalina, ela perdeu ontem quando sofreu um aciden-te.
Eu tava falando com o Javier Rodríguez! Caralho, eu tava falando com o gostoso do Javier Rodríguez!
— Ah sim. — tentei não gaguejar. — Marque um lugar para eu devolver o celular da sua filha.
— É claro.
Ele marcou em um barzinho no centro. Eu conhecia o lugar, era bem conhecido e bem caro também. Só os endinheirados frequentavam aquela área.
Marcamos as dez em ponto, conferi o horário e faltava uma hora, decidi tomar um banho e vestir algo apresentável, afinal não é todo dia que você fica cara a cara com uma celebridade, de novo.
Meia hora depois saí de casa e fui em direção ao bairro nobre, decidi ir de metrô, era mais barato e eu não tinha muito dinheiro. Desci na estação e caminhei por entre as muitas pessoas, algumas eram turistas. Passei em frente a uma superfície de metal que refletia a imagem e dei uma olhada em mim mesma, acho que eu estava bem.
O vestido leve e florido e acima do joelho era próprio pra aquela época, a jaqueta jeans por cima me protegia do vento que vinha às vezes, nos pés botas marrons de cano curto e salto médio. Meus cabelos castanhos curtos ondulados estavam soltos. Os óculos escuros me protegiam do sol que brilhava.
Andava por entre as pessoas tomando o cuidado de não esbarrar em ninguém e machucar meu joelho. Parei em frente ao bar e entrei, notei o carro preto estacionado, seguranças, é claro, o cara é famoso afinal.
Empurrei a porta e entrei, estava quase vazio a essa hora da manhã. Olhei ao redor procurando pelo anfitrião e o localizei em uma mesa mais ao fundo, mantinha meus olhos nele enquanto me aproximava. Ele também olhava ao redor procurando por alguém e fixou os olhos em mim ao me notar, tirei os óculos e ele também tirou os dele, pude ver a surpresa em seu olhar.
Sorri quando me aproximei. Javier me olhou de cima a baixo e levantou, ele era bem mais alto que eu, de salto alto eu chegaria ao queixo dele no máximo.
— Você! — disse surpreso e abriu um sorriso.
— Olá. — falei sorrindo também.
Eu tinha razão, ele sorrindo fica irresistível.
— Mas porque não me disse que era você? — Javier perguntou ainda me olhando.
— Eu quis fazer uma surpresa. — brinquei e ele riu mais ainda. Que sorriso é esse!
— Vamos sentar. — sentei de frente para ele. — Você simplesmente sumiu ontem, nem me deixou te ajudar.
— Tá tudo bem.
— Você se machucou, sentiu alguma dor?
— Eu to bem, não se preocupe, só vou ganhar uma cicatriz no joelho.
Ele me olhou sem entender. Levantei e parei ao seu lado, levantei um pouco o vestido e ele olhou para o meu joelho, ficando surpreso.
— Nossa! Tá feio isso! — falou olhando de perto e colocando a mão na minha perna. Senti um formigamento no lugar que a mão dele tocou, mas tentei disfarçar.
— Tá tudo bem. — garanti me afastando e sentei de novo. — Eu to tomando remédios, falando nisso, pode pedir uma água pra mim? Ta na hora eu tomar o remédio.
— É claro. — ele se virou pra chamar o garçom e eu pude observá-lo mais um pouco.
Javier usava uma camisa polo azul marinho que combinava bem com ele. O braço esquerdo era cheio de tatuagens, no outro braço que estava em cima da mesa, deu pra ver o nome da Catalina tatuado, dava pra perceber que ele era louco pela filha. Os botões abertos da camisa mostravam o início do peito, me imaginei correndo a mão pelo peitoral dele. Que devia ser maravilhoso.
— Pronto. — Javier disse sorrindo e saí do meu devaneio. O garçom tinha trazido a água.
Agradeci com um sorriso e peguei o remédio na bolsa tomando junto com a água, Javier não tirava os olhos de mim. Eu podia ficar encabulada ou me sentir tímida, mas eu não era assim.
Enfiei a mão na bolsa e peguei o celular.
— Está aqui o celular da sua filha. — coloquei o aparelho em cima da mesa e Javier o pegou.
— Não estou acusando você, mas como ele foi parar na sua mão? — ele perguntou colocando o celular no bolso.
— Na hora que o carro bateu em mim, minha bolsa caiu no chão, eu recolhi tudo e joguei dentro, o celular da sua filha devia ta no chão também e eu peguei por engano.
— Claro, me desculpe à pergunta.
— Não precisa pedir desculpas. — coloquei a bolsa no ombro, eu queria ficar mais tempo conversando com ele, mas precisava procurar emprego. — Bom eu já vou indo, o celular está entregue.
Fiz menção de levantar, mas ele segurou meu braço.
— Espera, fica mais um pouco, você nem me disse seu nome.
— Martina.
— É um nome bonito.
— Obrigada.
Olhei pra aquele rosto bonito. Ele podia fazer uma mulher perder facilmente a cabeça, era só continuar sorrindo daquele jeito.
—Eu ia perguntar se você gostaria de tomar um drinque comigo, mas acho que não dá. — olhou sugestivamente para o meu joelho e eu ri.
— Não, talvez em outra oportunidade. — mas eu pensei um pouco, se Javier Rodríguez estava flertando comigo, eu também poderia flertar com ele. — Mas um refrigerante eu posso.
Ele sorriu mais ainda, se possível e seu olhar brilhou.
— Um refrigerante tá ótimo.
Ele pediu duas cocas. Tomei um gole, estava geladinha, uma delícia. Olhei distraidamente para uma das janelas de vidro e o sol brilhava lá fora.
— Me desculpe. — ele pediu abaixando o olhar. — Você deve ir trabalhar ainda e eu aqui te prendendo.
— Na verdade, eu vou procurar um emprego. — corrigi sorrindo e ele levantou o olhar pra mim.
— Sério? — parecia surpreso.
— Sim, fui demitida ontem.
— Por quê? — dei risada e ele riu também. — Me desculpa a curiosidade.
— Digamos que eu não consiga manter a boca fechada em determinadas situações, principalmente se for injustiça.
— É uma defensora então?
— Quando acho necessário.
— Mas você já tem algum emprego em vista?
— Ainda não.
— Tem experiência em qual área?
Estranhei aquelas perguntas, principalmente quando ele recostou na cadeira e me olhou intensamente.
— Garçonete, operadora de caixa, faxineira, o que aparecer eu faço.
— Tem experiência com crianças?
— Por acaso isso é uma entrevista de emprego? — perguntei rindo e tomando o restante do refrigerante.
— Talvez. — Javier sorriu enigmático e eu parei de sorrir, não entendendo nada.
— Desculpe, mas eu não entendi.
— Eu vou ser direto com você, preciso de uma babá pra minha filha e gostaria de contratá-la.
Agora sim meu queixo caiu de vez! Eu devia estar com cara de idiota, porque ele riu.
— Mas... por quê? — foi à única coisa que conseguir perguntar de tão surpresa que estava.
— Porque acho que minha filha vai gostar de você.
Eu ainda estava muito surpresa.
— Desculpe, mas você quer contratar uma pessoa que mal conhece pra cuidar da sua filha? Tem certeza disso?
— Posso até não conhecê-la Martina, ainda, mas ontem você se jogou na frente de um carro pra proteger minha filha, uma criança que você não conhecia, e pra mim isso basta.
O modo como ele falou aquilo, de algum jeito, tocou em meu coração e me fez muito bem.
— Eu não sei, nunca fui babá.
— A Catalina não é uma criança difícil de lidar, você vai ver.
— Me desculpe a curiosidade, mas porque você não procura uma agência qualificada pra isso?
— Eu já fiz isso e não deu muito certo. — Javier passou a mão pelos cabelos bem arrumados. — Eu queria uma babá que falasse espanhol, é o único idioma que minha filha fala, por enquanto, e as moças que a agência mandou, não foram do meu agrado.
Eu não sabia o que dizer, pela primeira vez na vida, eu estava sem palavras.
— Por um tempo minha mãe veio me ajudar, mas ela volta pra Colômbia amanhã. Não seria justo com ela fazê-la parar a vida dela lá, pra vir me ajudar aqui.
— E a mãe da Catalina? — indaguei achando natural fazer aquela pergunta, mas quando Javier me encarou surpreso, acho que não foi uma boa ideia. — Desculpe, não quis ser intrometida.
— Você não sabe? — ele perguntou agora rindo.
— Saber de que?
— Eu me separei da mãe dela há alguns meses.
Agora entendi o que ele quis dizer com “Você não sabe.” Mas a criança não deveria ficar com a mãe em caso de separação? Achei melhor não perguntar.
— Eu não leio revistas de fofoca e muito menos sites.
— Você me conhecia antes do que aconteceu ontem?
— Sim. — fui sincera. — Assisti há alguns jogos seus pela Colômbia durante a copa, você joga bem e eu fiquei chateada quando o seu time foi eliminado nas oitavas.
Javier me encarou novamente surpreso.
— Que? Eu estava torcendo pelo seu time, depois do meu é claro.
— A Alemanha, lógico.
— Sou brasileira.
— Sério?
— Sim. Mas estamos perdendo o foco Javier Rodríguez.
— Você tem razão, então aceita minha proposta?
— Eu não sei...
— Dois mil e oitocentos euros.
— Oi? — achei que não tinha entendido direito.
— Eu lhe pago dois mil e oitocentos euros por mês para ser babá da minha filha.
Dois mil e oitocentos euros?!
— Você é louco!
— Três mil euros e não se fala mais nisso.
— Javier eu...
— Martina eu preciso de alguém que cuide da minha filha, que brinque com ela e lhe dê atenção, e não uma babá que acha que está em um quartel general e dita ordens como se minha filha fosse um soldado.
Tive que rir com aquilo.
— Aceite Martina, você está precisando de um emprego e eu de alguém que cuide da Catalina.