NARRAÇÃO JOAQUIM
Passo a mão pelo meu rosto pela milésima vez. Detesto escrever essa coluna. Começou como uma brincadeira com Júlio e virou isso que está na minha frente. Uma coluna machista e sem qualquer verdade minha. Disse que eu não teria coragem de escrever algo machista no jornal e eu como adoro um desafio, propus ao meu chefe uma coluna que cutucasse as mulheres. Ele amou a ideia. Disse que conquistaria tantas leitoras com ódio que poderia dar certo. Elas iriam acompanhar a coluna por raiva. Só que eu odeio escrever isso. Discordo da forma como JD descreve o amor e a relação entre o homem e mulher. Só que a coisa bombou. O jornal recebe cartas diárias de mulheres que me odeiam e homens que me amam. Estou tentando fazer meu chefe excluir a coluna, mas ele alega que é a mais lida no momento e não pode se desfazer dela. Meu telefone toca e vejo no visor o nome do meu chefe.
- Fala James!
- Que voz é essa? Nem parece o colunista mais comentado da atualidade.
- Comentado não, você quis dizer odiado.
Ele começa a rir.
- Chegaram mais cartas. Quer pegar?
- Você sabe que me nego a ler essas cartas de mulheres irritadas me ofendendo.
- O dono do jornal está adorando esse sucesso todo. O mundo quer saber quem é JD.
- Não quero que o mundo saiba que sou eu. Alias, não quero mais escrever essa coluna.
- Joaquim você não pode parar agora. O dono pedirá a sua cabeça se abandonar a coluna.
- Passe para outro jornalista. Tenho certeza que alguém adoraria me substituir.
- Sabe que você é o cara e deve permanecer assim.
Paro na fila do café e um par de olhos azuis me chamam a atenção.
- Está ai ainda?
James pergunta no telefone.
- Sim, mas preciso desligar. Tchau!
Desligo o celular e o coloco no bolso. Permaneço com meus olhos na mulher encantadora a minha frente. Ela sorri para o João no balcão que sorri para ela de um jeito sexy. Ele está a caça.... Quero observar isso. Quero ver se ela se renderá a ele. Tenta chama-la para sair, mas ela foge. Fica vermelha com a insistência dele e isso é encantador. O tom vermelho dela é lindo quando fica com vergonha.
- Outro dia talvez.
Ela diz sorrindo e observo seus lábios sedutores. Sai da cafeteria e faço meu pedido para João.
- Não teve muita sorte.
Comento rindo de João.
- Essa mulher nunca me deu bola. Ela é durona e linda.
Ele sorri e me passa o pedido.
- Qual o nome dela?
- Diana.
Lindo nome para uma linda mulher. Saio da cafeteria e a vejo olhando as revistas e jornais. Bebo meu café admirando seu corpo. Ela é magra, mas tem curvas. Cabelos cor chocolate não muito cumpridos. Jogo fora meu copo vazio e paro na calçada ainda olhando ela comprar um jornal. Começa a abrir o Jornal de São Paulo em busca de algo. Anda sem prestar atenção e me movo para ficar a sua frente. O corpo dela bate no meu, mas demora a me olhar. Minhas mãos envolvem seus braços e ela ergue seus lindos olhos me encarando. Abre a boca em busca de ar e observo os detalhes de sua boca.
- Me desculpe!
Diz corando e isso de fato é muito encantador nela. Dou um sorriso e aperto ainda mais seus braços. Gostaria de envolvê-la em meus braços.
- Tudo bem! Apenas evite ler enquanto anda pelas ruas. Pode ser atropelada.
Encara minha boca e morde os lábios. Sinto uma parte minha pulsar e isso é sinal de ir embora.
- Preciso ir!
Digo soltando os braços dela e volto meus olhos para o jornal em suas mãos. Está na pagina da minha coluna. Deve ser uma das mulheres que me odeiam. O pensamento me desagrada.
- Fã do JD?
Pergunto sorrindo, mas acho que sei a resposta.
- Não. Eu detesto ele!
Diz sorrindo fraco e eu começo gargalhar. Todas me odeiam. Isso é um fato mais que certo.
- Muitas mulheres o odeiam. Preciso ir. Foi um prazer esbarrar em você.
Pisco para ela e me viro para ir embora.
- Até!
Sussurra fraco e apenas sigo pronunciando o doce nome dela.
- Até Diana!
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Sento-me em frente ao computador buscando inspiração para o próximo tema da coluna. É difícil ter inspiração quando o que escreve não é sua paixão.
- Papai, não quero mais pintar. Posso ver desenho?
Dulce diz pulando em meu colo. Aperto o corpo dela no meu e cheiro seu cabelo. Amo o cheiro dela.
- O que acha do papai ler um livro com você?
Digo passando a mão em seus cabelos dourados, ela começa a bater palmas e sorrir.
- Com chocolate quente?
Ela sorri ainda mais e eu não tenho como negar esse pedido.
- Com chocolate quente.
Pula do meu colo e corre para a cozinha, com seu pijama cheio de coelhinhos.
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Abro a geladeira e o armário em busca dos ingredientes.
- Papai, por que você não namora?
Paraliso diante da pergunta dela.
- Como assim?
- A tia Lívia é casada com o tio Jhon. A tia Jessica namora o tio Edu. Você não namora ninguém.
Me aproximo dela e fico de frente, nos olhando.
- Sou seu namorado.
Digo sorrindo e Dulce revira os olhos.
- Você é meu pai. Namorados beijam na boca e você precisa de alguém para beijar na boca.
Fala rindo, pulando em meu colo.
- Quem te disse isso?
- A tia Jessica.
Sabia que tinha dedo da minha irmã nisso.
- A tia Jessica é louca. Nem todo mundo precisa namorar.
- Mas ela disse que todo mundo merece amar e que você um dia vai encontrar alguém que o ame como eu amo.
Essa garota ainda me mata com essa fofura toda. Começo a morde-la toda e ela gargalha.
- Um dia quem sabe eu encontre alguém. Mas hoje eu sou feliz tendo só o seu amor.
Digo abraçando-a e nos levando para a sala com nossos chocolates. Senta ao meu lado bebendo o chocolate em sua caneca rosa e abro o livro para ler.
- Qual história hoje?
Ela mexe a boca de um lado para o outro.
- Preciso de novos livros. Cansei desses.
Seguro o riso.
- Amanhã vou com a tia Jessica comprar. Fazer coisas de meninas.
Não seguro mais e começo a rir, fazendo-a me olhar brava. Paro na hora.
- Leia essa.
Me entrega o livro da cinderela. Envolvo meu braço em seu corpo e começo a ler. Quinze minutos foi o suficiente de leitura para Dulce adormecer. Pego-a com calma e a levo para seu quarto. Beijo sua cabeça e a cubro. Sigo para o escritório tentar escrever algo. Sento à mesa e a tela pisca informando que recebi uma mensagem de um tal de DJ. Respiro fundo e clico em abrir.
De: DJ
Para: JD
Caro senhor colunista.
Creio que seja um homem, visto que escreve coisas machistas e irreais para os dias atuais. Quero deixar aqui minha singela opinião sobre sua coluna. É uma merda... Você trata a mulher como objeto e não acredita no amor. O que faz ainda no mundo? Deve ser uma pessoa infeliz e sem realizações na vida. Espero que um dia o amor bata a sua porta e te mostre que a mulher vai além de seios fartos e um corpo escultural para ser exibido. Boa noite e se torne algo melhor.
DJ
NARRAÇÃO DIANA
Mando a mensagem e respiro fundo. Acho que ele vai ler amanhã cedo. Esfrego o pelo do Zeca e ele se abre todo para o carinho.
- O que acha de irmos para a cama Zeca? O dia hoje foi longo.
Assim que me viro para o computador para desligar, ele apita avisando que tem uma mensagem. Assim que olho de quem é, meu coração acelera. Oh merda!!!! É do JD. Respiro fundo e clico para ler.
De: JD
Para: DJ
Cara LEITORA (Sim.....LEITORA.) Porque da mesma forma que concluiu ser eu um homem, pude concluir pelo seu comentário preconceituoso sobre mulheres bonitas que é uma mulher. E uma mulher provavelmente feia e mal amada, que neste momento deve estar com um de seus doze gatos no colo sozinha, desejando ser uma peituda sexy ao meu lado. Isso que está sentindo chama-se inveja. Inveja por não ser uma delas e inveja por saber que nunca será. Sim o amor é para pessoas sem ambição na vida. E se acredita nisso deve ser uma desempregada ou dona de um negocio de família sem futuro. Acorde para a vida e pare de ver um mundo como um romance de literatura antiga. Uma boa noite com seus gatos.
JD
Estou bufando e irritada com a cara de pau desse idiota. Eu não sou feia, mas também não sou bonita. Não tenho inveja, apenas odeio homens que buscam um corpo e não o conteúdo. Ele é esse típico homem e isso me irrita. Penso em uma resposta, mas então me vejo sentada em meu sofá com meu cachorro. Sou essa pessoa infeliz sentada com seus doze gatos. Merda ! Me levanto sem responder e sigo para o quarto. Amanhã com calma respondo esse email ridículo. Deito na cama e Zeca deita em meus pés como faz toda noite. Tento dormir, mas minha mente toda está em torno desse infeliz. Fecho meus olhos e tento pensar em coisas boas. O homem dessa tarde me vem a mente. Começo a pensar em seus lábios e seus lindos olhos. O cheiro dele invade minha narina e meu corpo relaxa me levando a escuridão.
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Abro a loja e vejo que Milene ainda não chegou. Hoje é o dia do Era Uma Vez. Uma vez por semana me visto de princesa e leio um conto de fadas para algumas crianças. Sempre no mesmo dia e horário. Fico feliz de já termos doze crianças que acompanham esse momento. Sigo para o espaço de leitura e arrumo as almofadas e as cadeiras dos pais que trazem as crianças. A porta da loja se abre e vejo uma Milene sorridente entrar.
- Bom dia, meu bem!
- Bom dia, Milene!
Ela sorri e segue para guardar a bolsa.
- Preparada para a tarde do Era Uma Vez?
- Sim... já deixei o vestido no quartinho.
- As crianças ficam encantadas quando você aparece. Já escolheu o livro?
- Ainda não. Estou buscando inspiração para escolher.
Segue para a porta, pra sair de novo.
- Vou buscar café. Quer o de sempre?
Confirmo com a cabeça e sigo para o computador. Preciso responder um certo email. Sento-me e respiro fundo. Abro a caixa de mensagens e clico no ultimo email do cretino do JD. Clico em responder e sigo digitando a mensagem. Leio o texto e aperto o botão enviar.
- Que cara é essa?
Milene está parada na minha frente com meu copo de café.
- Cara de quem acabou de ofender uma pessoa.
Ela sorri e balança a cabeça.
- Era o Marcelo?
- O Marcelo? Nem falo mais com ele. Por que pensou que era ele?
- Porque a única pessoa do mundo que te faria mandar um email assim seria ele.
Tomo um gole do café que me trouxe e suspiro
- Não o odeio Milene. Estou magoada e enojada pelo que ele fez, mas não o odeio.
Vira abrindo o saco com seu bolinho de chocolate.
- João mandou um oi. Ele disse que espera uma resposta sua para o pedido dele.
Um sorriso safado surge nos lábios dela.
- Quando vai aceitar sair com ele? O coitado está de quatro por você.
- Não me sinto atraída por ele. Não faz meu tipo.
- Diana, aquele homem faz o tipo de qualquer mulher.
- Milene, não vejo o corpo. Vejo o que a pessoa tem por dentro. Ele é lindo e simpático, mas não me sinto atraída pelo jeito dele.
Sorri e morde o bolo gemendo. Ela é uma figura.
O dia na livraria passa voando. Olho mais uma vez para minha caixa de mensagem e nada ainda de uma resposta dele.
- Não vai se arrumar?
Milene me pergunta arrumando os livros.
- Vou sim.
Saio do balcão e sigo para o quartinho. Olho-me no espelho e ajeito a saia. Respiro fundo e abro a porta para sair. Assim que saio, vejo uma linda garotinha de cabelos dourados olhando os livros do setor infantil.
- Posso te ajudar?
Vira assim que pergunto e leva as mãos a boca.
- Oh meu Deus! Uma princesa.
Começa a sorrir e pular e tento conter a risada.
- Não exatamente.
Digo me ajoelhando a sua frente.
- Sou a dona dessa livraria.
- Você é a dona dessa livraria e princesa?
Pergunta com os olhos brilhando. Não gosto de mentir, mas ela está tão encantada que não tenho coragem de contar a verdade.
- Posso te contar um segredo?
Ela diz que sim com a cabeça levando as mãos ao peito.
- Sou a dona dessa livraria para esconder meu verdadeiro segredo. Na verdade sou uma princesa em busca de um príncipe. Escondo-me aqui da bruxa má.
Sorri e pula em meu pescoço.
- Eu sabia que princesas existiam.
Me pego sorrindo e abraçando essa linda garotinha.
- Qual o seu nome?
- Dulce. Tenho quatros anos!
Diz passando a mão em meu rosto.
- Dulce o que acha de me ajudar hoje na leitura para as crianças?
- Sim...
Grita e pula me puxando para o cantinho da leitura. Assim que chegamos uma mulher se aproxima. Acho que é a mãe dela.
- Dulce onde estava?
Pergunta se abaixando em frente a menina.
- Tia Jessica, achei essa princesa no corredor. Acha que ela aceitaria ser o amor da vida do papai?
Me assusto com as palavras dela e a tia sorri para mim.
- Acho que essa princesa já tem um príncipe.
- Não tem não tia. Ela disse que está procurando.
A mulher levanta sorrindo.
- Me desculpe pela Dulce. Ela quer encontrar um amor para o pai. Meu nome é Jessica.
Ela diz estendendo a mão.
- Diana, muito prazer. Os pais são separados?
Pergunto soltando minha mão da dela.
- Não. A mãe dela faleceu em um acidente de carro.
- Oh!
Digo me virando para olhar a pequena garotinha que sorri para mim.
- Vamos começar a leitura?
Pergunto e ela pula no meu colo sorrindo.
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Faço uma grande roda com as crianças e Dulce senta em meu colo. Ela é linda e sinto uma vontade enorme de cuidar dela, depois do que soube sobre sua mãe. A história termina e as crianças correm para seus pais, enquanto Dulce continua em meu colo.
- Vamos meu anjo.
Jessica a chama e ela vira para mim.
- Você não quer conhecer meu papai? Ele é bonito, inteligente e faz um ótimo chocolate quente.
Dou um sorriso e aperto o nariz dela.
- Quem sabe um dia!? Vamos pensar nisso.
Ela pula feliz do meu colo e corre para o da tia dela.
- Mais uma vez me desculpe.
- Imagina Jessica. Sei como são as crianças. Volte sempre com a pequena, gostei muito dela.
- Pode deixar, que voltaremos sim.
Abre a porta e segue para fora. Dulce sorri para mim e me manda um beijo. Essa garotinha já conquistou meu coração.