Capítulo 2

Quando chegamos em casa, ainda estava muito assustada com o homem da delegacia. Todas as luzes estavam apagadas, minha tia e tio deviam estar dormindo.

— Vai me contar o porquê de ainda estar tão assustada?

Roberta acendeu a luz da sala. Suspirei.

— O homem pela qual fui conversar, ele é o dono do bar, onde vi a menina sendo violentada.

À expressão de Roberta endureceu.

— O filho da puta do delegado, teve a coragem de deixá-la conversar com o desgraçado do dono do bar?

Disse enfuriada, sua respiração acelerou.

— Como é esse dono do bar?

— Ele tem cabelos semelhantes ao ruivo..

Memorizei cada detalhe daquele homem, meu corpo treme angustiado, por suas palavras.

— Fez alguma coisa com você?

— Não, só.. só me ameaçou.

— Vou sondar esse estúpido, e aquele delegado, vi eles conversando, pareceram muito íntimos.

Neguei balançando a cabeça.

— Ele só vai me machucar se contar o que aconteceu naquela rua, se ficar calada, nada de mal ele fará.

Ainda penso na menina, mas, infelizmente, serei egoísta. Minha família é prioridade, aquele homem não pareceu brincar.

— Mesmo assim, vou atrás.

— Roberta..

— Conheço algumas pessoas, não se preocupe.

Me abraçou. Roberta é decidida,quando tem algo pelo qual deseja saber, é persistente em descobrir, se não ela não sossega.

~●~●~●~

Debruço a cabeça no travesseiro, remunerando os acontecimentos de hoje. Custo a pegar no sono, sinto medo, vejo que a janela do meu quarto está aberta, incomodada por ver a cortina flutuando pelo vento que bate nela. Levanto para fechá-la.

Nossa casa é simples, bonita, dois andares como diz o tio Teodoro. A casa é da tia Jenna, e também era da mamãe .

Arredei a cortina para fechar o loquete da parte de cima. Olhei para fora, e reparei um carro do outro lado da rua, com cautela abrir a janela passando para a pequena varanda.

Fiquei intrigada, os vizinhos possuíam veículos mas tinham suas garagens. Para enxergar melhor, me aproximei mais, não adiantou muita coisa, um carro preto no escuro. Vir então faíscas, elas se moveram, para a claridade, agora dando-me a visão Michelle de um homem fumando, ele estava com sua atenção em mim. Quando acenou com sua mão, meu coração quase deu um piripaque, voltei rapidamente para minha cama, me joguei nela e cobri todo meu corpo.

~●~●~●~

Pela manhã…

A primeira coisa que fiz ao despertar, foi correr para a janela à procura do carro, que já não estava mais lá. Queixei-me se não estava tendo um pesadelo, impressionada com todo ocorrido.

Concentro-me agora em vestir meu uniforme, as meias grandes cobriam quase toda minha perna por ela ser pequena, o que me fazia ter que dobrá-las.

— Não vai para a escola?

Pergunto para Roh, que está jogada na minha cama.

— Para quê?

— Estudar? — digo óbvia.

— Não estou interessada.

— Se estudasse comigo, ficaria mais animada para ir.

Tio Teodoro insistiu diversas vezes para que Roberta estudasse na Basis comigo, ele arcaria os custos. Mas, ela sempre se recusa.

— Para aturar aqueles mauricinhos e patricinhas, não, obrigado!

Olho irritada para ela.

— Eu estudo lá, esqueceu?

— O que falei não incluí você, você é de longe uma patricinha. Tá mais para uma princesa em apuros.

Rir. Mostro a língua para ela, vou para frente do espelho pentear meu cabelo.

— Você viu ontem? — perguntou séria.

— O quê? — paro de pentear.

— Um carro do outro lado da rua.

Virei para ela, deixando a escova de lado.

— Pensei que havia tido um pesadelo.

— Ele chegou pouco depois de nós duas, quando subimos fui para a varanda fumar, e vi.

Olho incrédula para Roberta, voltou novamente a fumar. Ela revira os olhos por saber o motivo da minha expressão, deixo isso de lado e foco sobre o assunto do carro.

— Acha que são os homens do bar?

— Tenho certeza.

— A gente tem que falar com a tia Jenna .

Fico agitada, batendo o pé no chão. Respirando fundo em sequências.

— Não, não vamos alarmar eles. O cara disse que é para ficar em silêncio, e isso que vamos fazer. Se contar para Jenna , ela vai querer ir na delegacia, e aquele delegado, a morena que nos levou até ele, não é de confiança. Sentir isso.

Roh, tem razão.

— Meninas, vão se atrasar!

Ouvimos a tia Jenna. Peguei minha mochila, amarrei meu cabelo sem muita frescura, pedi a vontade de arrumá-lo.

Descemos e encontramos a tia Jenna ajeitando a gravata do tio Teodoro. Achava lindo o jeito deles dois, quer dizer o jeito de Teodoro, minha tia é um pouco amofinada, ela trata ele bem, e não é essa questão. O que parece é que a tia Jenna não está completamente entregue a essa relação.

— Prontas?

— Sim, tio — respondi.

— Roberta?

— Hoje eu não vou.

Tia Jenna entortou a boca.

— Deixa que eu resolvo isso, podem ir.

Me despedi delas, e fui para o carro com o tio Teodoro . Roberta estava encrencada, a única que ela ouvia em silêncio, sem rebater em nada, era a tia Jenna .

~●~●~●~

NA ESCOLA.

Vou para meu armário pegar meus livros, e depois esperar pela professora que vai chegar atrasada. O que resta é sentar e esperar, não tenho amigos aqui, a maioria me olha torto, não me encaixo em grupo algum a não ser dos estranhos considerados pelos populares.

— Everton, está vindo na sua direção.

Michelle me avisa, olho para o lado e o vejo vindo com seu grupo de idiotas. Ela me puxa pela mão, e começamos a andar.

— Melhor ir na sala do seu tio.

— Ele me perguntaria o porquê de eu estar lá.

— Conta a verdade, que aquele otário fica alisando você.

Michelle não é minha amiga, mas, estou surpresa dela estar falando comigo. Ela é líder de torcida, o que é muita coisa nessa escola.

— Como Sabe?

— Todos sabem, Bella.

Abaixo a cabeça envergonhada.

— Tem que fazer ele parar.

— Tenho medo, não quero confusão.

— Ele está difamando você.

— Mas, eu não faço nada.

— Ele diz que você faz muitas coisas.

Fico sem saber o que fazer, será que é por isso que todos riem de mim? E alguns garotos deixam bilhetes grudados no meu armário?

— Não acredito que você faça as coisas que ele diz, mas, os outros sim. Aquele ditado "as tímidas que são o terror na cama"

Continuo em silêncio, perdida.

— Não posso fazer nada, sei que tudo que ele diz é mentira, isso que importa.

Convenço-me que não me abalo por pensarem que sou uma vadia.

— É bom você pensar dessa forma. Mas, se liga, esses garotos podem fazer uma besteira com você.

Bate no meu ombro, encaro ela.

— Já soube de alguma coisa?

— Não, mas conheço esses otários.

Diz e vai andando para longe.

— Michelle, obrigada!

Um beijo é jogado no ar para mim, era costume ela fazer isso para os fãs dela, o que eu não era.

Respirei fundo. Prestando atenção em todos os lados, mesmo os corredores sendo seguros por causa das câmeras, fiquei apreensiva, esses rapazes são medonhos.

~●~●~●~

Um tempo passou, e a professora chegou. Corri para sala, sendo a primeira aluna a chegar. Logo os demais entraram, abaixei a cabeça para não ver Everton que ao passar por mim, puxou meu cabelo.

A professora se justificou pelo seu atraso, ela ainda tinha algumas coisas para resolver, e que no sábado provavelmente teríamos aulas para cumprir as horas certas do plano de estudo.

E assim começou a aula de Estudo Sociais.

Na última parte da aula eu não peguei absolutamente nada, nada entrou na minha cabeça, meus pensamentos estavam desorganizados. Ouvia os sussurros atrás de mim.

— Vadia dos peitos pequenos…. Quero provar eles, ter certeza que Everton falou a verdade.

Um disse próximo a minhas costas, não tive coragem de olhar para trás. As lágrimas acumulam-se em meus olhos. Para minha sorte o sinal tocou.

Esperei que todos saíssem, arrumei minhas coisas. Caminhei devagar para sair, ao estar no corredor todos em volta ficaram me olhando,visivelmente surpresos. Cheguei no meu armário, arregalei os olhos, ao ver vários papéis colados.

Neles estavam escritos sobre a denúncia feita por mim, alegando ter visto uma menina sendo violentada na rua Cabral. E que acusei o dono do bar.

Amassei os papéis sentindo um enorme desespero crescendo dentro de mim.

Quem poderia ter feito aquilo?

Ninguém sabia além de Roberta.

— Tem mais aqui, bebê, para você amassar.

Um dos que fazem parte do time da escola, disse zombando. Não aguentando mais ouvir, sair correndo vendo em todos os armários com os mesmos papéis que estavam no meu armário.

Desci as escadas com pressa, precisava avisar a tia Jenna . Não procuraria por Teodoro , quero sair dessa escola.

Na parte da entrada estava aglomerado, as meninas se batiam para ver o que estava lá fora. Andei devagar ao encontro delas, com muito esforço fui me espremendo entrando nas brechas dos corpos delas, não outra saída a não ser essa é a de emergência.

Levei cotoveladas, puxões de cabelo, o que me deu arrependimento de ter me metido. Mas, consegui sair.

Por um momento meu coração parou de bater, o mundo deu uma pausa, foi possível ouvir minha respiração pesada, o pavor tomando conta, meu corpo paralisando no lugar.

Vendo estar novamente na mira daqueles olhos azuis tão frios quanto a neve, olhando-me, transparecendo sua maldade.

Ele sabe que eu supostamente abri a boca sobre o que aconteceu? E veio me matar aqui na frente da escola?

Capítulo 3

Apreensiva, espero pelo ataque do homem que tem seus olhos fincados em mim. Meu coração bate apressado e inquieto por não saber o que fazer.

Minhas pernas se recusam a se movimentar, somente consigo respirar.

— Bella...

Michelle passou por mim, falou sem me olhar. Ela foi em direção ao homem preclaro, o abraçou e o puxou para entrar no carro, de imediato ele se reteve no mesmo lugar ainda me afrontando com seu olhar.

Arfei aliviada quando ele entrou no carro e deu partida. Olhei para os lados ainda sentindo o terror em meu corpo, observei os alunos que estavam no portão me encararem curiosos, devem ter percebido a tensão. Todos sabem claramente quem é esse homem, parece que somente eu estou por fora de que ele era o dono do bar.

Quem poderia ter descoberto? E porque faria a maldade de me expor ao perigo?

Que pergunta tola. Qualquer um faria, ninguém gosta de mim nesse lugar.

Não voltaria para dentro da escola, e encararia novamente a todos ainda mais depois daqueles vários papéis espalhados. Decidir ir andando para casa, ainda era cedo e a rua devia ter movimento.

~●~●~●~

O céu estava coberto por nuvens escuras, o que me deixou desanimada se chovesse agora não teria onde me refugiar, ficarei ensopada andando sozinha por essa rua.

A cada dez minutos passavam carros, às vezes caminhões, o que me assustava, dando-me vontade de me esconder na floresta.

Minhas pernas curtas não contribuem para meu bem estar.

— Gracinha, para onde estar indo?

Apressei meus passos ao ouvir alguém falar comigo, um carro vinha devagar me acompanhando, não havia reparado.

— Ei! Me responda!

— Não quero carona.

Resolvi responder para não provocar a ira dele. Me concentrei no que estava à minha frente.

— Quero conhecer você, não se faça de difícil.

O carro parou, dessa forma tive que olhar para ele. O vi tirando o cinto, e saiu do carro.

— Não se aproxime!

Disse em desespero, me preparando para correr.

— Só um segundo gata.

— Me solte!

Conseguiu me alcançar diante da minha lerdeira.

— Não vou machucar você, bebê..

Segurou meu rosto, mostrando um sorriso malicioso, os dedos dele foram passando por minha bochecha, fechei os olhos em pânico, orando para ser salva.

Quando de repente o homem que me segurava falou irritado.

— Qual é caralho? essa puta já é minha!

Meu braço foi puxado com violência, fazendo-me virar para frente, para quem ele estava falando. Fiquei atordoada reconhecendo a figura alta sair do carro que estava atravessado na rua.

O homem que me segurava soltou meu braço, seus olhos arregalados expressaram medo, não era indiferente ao que sentia no momento. Quando o vi em frente a escola ele usava roupa esportiva, mas agora estava num terno preto, parecendo um CEO.

— Ela é toda tua, senhor.

Me empurrou fazendo assim que eu caísse no chão, machucando meus joelhos. Sou tão azarada. Levantei com cuidado, já vendo o homem que queria me forçar a ter com ele sair disparado no carro, me deixando à mercê de outro malvado.

— ENTRA.NO.CARRO.

Sua voz prepotente fez-me pular no lugar. Minha língua travou assim como todo meu corpo para obedecer ao comando do estranho. Abri a boca com esperança que qualquer som saísse, nem que fosse somente para gritar, virei minha cabeça para trás, à espera de qualquer veículo para alguém me acudir.

Minha permanência no mesmo lugar não lhe agradou, marcando seus passos na pista úmida veio achegar-se até onde estava. Seu olhar rígido com o meu espanto não era uma boa conciliação.

— Por favor, não faça nada comigo.

Sussurrei encarando o chão não conseguindo corresponder mais ao seu olhar fulminante.

Meu corpo bateu com o seu ao me puxar rústico para perto de si. Minhas narinas sentiram o aroma que vinha dele, fui obrigada a olhar para ele pois levantou meu queixo.

Esperava que ele dissesse alguma coisa, mas só me fez andar com ele para o carro. Sentindo meus joelhos arder. Estavam feridos.

Desajeitada fui com ele, que se não tivesse sua mão segurando meu braço, com certeza estaria no chão nesse momento.

Quando abriu a porta do carro somente me empurrou para dentro, por meu corpo ser pequeno não me machuquei, logo estava sentada no banco da frente. Ele deu a volta e entrou também no carro tomando seu assento. Ele ligou o carro tranquilamente, estava sendo sequestrada? Esse seria o final da minha triste vida?

— Peço clemência por tê-la atarantado à sua atividade diária.

Mesmo que sua frase tenha sido irônica, sua expressão era sisuda. Seus olhos atentos à estrada, seu corpo ereto, dava-me para pensar que ele trabalhasse como modelo.

Voltando à questão real, ele realmente pensava que sou uma garota que faz serviços, satisfazendo homens em troca de dinheiro.

— Não pratico essa atividade..

— Não vincula-se a mim ter sua negação, e explicação de nada Bella. Foda-se o que faz com seu pequeno corpo, e essa boquinha.

Olhou para mim enquanto deu sua resposta sinuosa. Desci meus olhos para meus pés, sentindo-me constrangida pelo o que pensava.

— Por qual motivo atrapalhou-me a ganhar meu dinheiro diário?

Meu subconsciente berrou comigo por confirmar o que ele havia dito e pensava a meu respeito. Olhei pela janela segurando as lágrimas.

— Quero conversar, Bella.

— Sobre quando vai me matar?

— Ainda não farei isso, tenho planos para nós dois.

Ao dizer isso meu corpo eriçou.

— Nós dois? — não escondi meu medo.

— Vá hoje às 23:00hrs na rua onde você viu a pirralha sendo abusada.

Não me contive e virei para ele, procurando lê-lo de alguma forma descobrir o que planejava.

— O que faz pensar que irei?

— Sua família é a garantia disso.

— Eu não disse nada, a ninguém senhor, juro que não contei nada. Quando saí da sala havia vários papéis espalhados..

Desalenta me expliquei, aguardando que ele acreditasse em mim.

— Se não foi você, quem foi?

— Não sei .

— Sua irmãzinha Roberta..

— Ela jamais me prejudicaria.

— Alguém tem que sofrer por isso.

O carro parou em frente a minha casa, olhei para fora a chuva começava embaçando os vidros do carro. Minha tia estava em casa, não posso permitir que ninguém se machuque.

— Que seja eu então.

— Admite que fez aqueles cartõezinhos e espalhou para todos seu ato corajoso?

Balancei a cabeça afirmando.

— Quem contou para você?

— Sei de tudo que acontece nessa cidade, Bella. Pelo menos os do meu interesse.

Não tinha mais nada para argumentar. Ajeitei minha mochila e tentei abrir a porta do carro, mas ela estava trancada.

— Não esqueça do seu compromisso.

— Farei o possível para ir.

— Meu dia vai ser cheio, e posso chegar um pouco atrasado, do mesmo jeito me espere.

Avisou-me.

— O que farei ali sozinha? É perigoso.

— Eu sou o perigo, Bella.

— Me refiro a seus amigos.

— Os deixe entretidos enquanto não chego.

Diz simples, olhando firme para frente, raros momentos em que me olhou fixo.

— Agora, sai do meu carro!

Enxotou-me, apressada abrir a porta e firmei meus pés no chão, não consegui correr para dentro de casa, a chuva estava sendo bem recebida por meu corpo, tirando meus joelhos que começavam a arder. Sem uma despedida. CLARO QUE NÃO. O carro entrou em movimento indo para longe.

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