Capítulo 2

Ponto de Vista de Júlia Mendes:

Ele achava que eu estava quebrada. E ele estava certo. Mas algo quebrado pode ser reforjado em algo muito mais afiado. Naquela noite, a garota fraca e confiante que ele conhecia foi queimada até as cinzas, e das cinzas, nasceu uma mulher fria e com um propósito.

Ele queria jogar um jogo? Tudo bem. Eu jogaria melhor.

Soltei um suspiro trêmulo, uma performance calculada de angústia. Inclinei-me em seu abraço, permitindo que minha cabeça descansasse em seu peito, bem sobre o coração que eu agora sabia que era oco.

"Estou bem", sussurrei, minha voz intencionalmente rouca. "Só... cansada."

A tensão em seus ombros diminuiu. Eu senti, o relaxamento sutil de um homem que acreditava que sua mentira tinha sido entregue com sucesso.

"Você precisa descansar", disse ele suavemente, sua mão acariciando minhas costas. "Vou preparar um banho quente para você. Você não pode se dar ao luxo de ficar doente agora."

Não, não posso, pensei, um calafrio amargo percorrendo meu corpo. Há muito a ser feito. Em três semanas, na Gala anual da Academia de Música, Beatriz estava programada para se apresentar. Era a noite em que eles planejavam revelar minha obra-prima como se fosse dela. Era a noite em que eu ia queimar o mundo deles até o chão.

Leo me ajudou a levantar e me levou ao banheiro, cada movimento seu um estudo em cuidado devotado. No hospital na manhã seguinte, para minha consulta de pré-natal agendada, ele era a imagem do noivo perfeito e atencioso.

Ele segurou minha mão durante o ultrassom. Fez uma dúzia de perguntas ao médico sobre nutrição e horários de sono.

"Ele vai ser um pai maravilhoso", comentou a enfermeira com um sorriso enquanto me entregava um lenço para limpar o gel da minha barriga. "Tão atencioso."

Leo apenas sorriu, apertando minha mão enquanto me ajudava a sentar. "Mal posso esperar para conhecer nosso pequeno", disse ele, sua voz embargada por uma emoção que era totalmente falsa.

Estávamos saindo da clínica quando a vi. Beatriz. Ela estava parada perto dos elevadores, radiante em um vestido de caxemira creme que provavelmente custou mais do que meu primeiro carro. Sua mão repousava protetoramente em sua própria barriga levemente arredondada.

Ela se iluminou quando viu Leo, um brilho triunfante e possessivo em seus olhos. Era um olhar que eu já tinha visto mil vezes, mas só agora entendia.

Eu sempre soube que ela estava grávida, claro. A data prevista para o parto dela era apenas um mês depois da minha. Ela havia cronometrado perfeitamente, mais um pequeno drama para garantir que todos os olhos estivessem nela.

Ela caminhou em nossa direção, seus quadris balançando. "Aí estão vocês! Eu estava prestes a ligar."

Ela estendeu a mão para tocar meu braço, um gesto de afeto fraternal. "Como você está se sentindo, Juju? Você parece um pouco pálida."

Puxei meu braço antes que seus dedos pudessem fazer contato. Minha pele se arrepiou com o pensamento de seu toque.

O sorriso de Beatriz vacilou por uma fração de segundo antes de ela se recuperar, virando seu beicinho para Leo. "Ela está mal-humorada de novo."

Senti uma onda súbita de tontura, real desta vez, e balancei nos meus pés. Agarrei minha barriga, minha respiração presa na garganta.

"Minha barriga...", gemi, deixando meus olhos se fecharem. "Está doendo."

O rosto de Beatriz ficou rígido.

A reação de Leo foi instantânea. Ele estava ao meu lado em um segundo, seu braço firmemente em volta da minha cintura.

"O que foi? O que há de errado?", ele perguntou, sua voz tensa de alarme. Ele me guiou para um banco próximo. "Sente-se. Vou chamar o médico."

Ele era todo preocupação em pânico, mas enquanto me acomodava no banco, vi seus olhos se desviarem para Beatriz, um lampejo de ansiedade compartilhada passando entre eles. Ele se importava com este bebê, não porque era nosso, mas porque era uma ferramenta, uma corrente para me prender a ele e a seus planos.

"Eu só preciso de um minuto", eu disse, minha voz fraca. "Por favor, só... me deixe sentar aqui sozinha por um segundo. A atenção está piorando as coisas."

Leo hesitou, dividido. "Não quero te deixar."

"Vou ficar bem. Cinco minutos", insisti, inclinando a cabeça para trás e fechando os olhos.

Relutantemente, ele assentiu. Ele deu um último aperto tranquilizador no meu ombro antes de se afastar.

No momento em que tive certeza de que ele estava fora do alcance da minha voz, meus olhos se abriram de repente. Observei enquanto ele ia direto para Beatriz, de costas para mim. Eu estava longe demais para ouvir suas palavras, mas a linguagem corporal deles gritava a verdade.

Ele estendeu a mão, acariciando suavemente o braço dela, sua expressão uma mistura de segurança e frustração.

Beatriz estava reclamando, seus braços cruzados petulantemente sobre o peito. "Ela está fazendo isso de propósito, Leo. Ela sabe que eu odeio vê-la."

"Shh, Bia, acalme-se", ele murmurou, sua voz um ronronar baixo e apaziguador. "É só por mais um pouco. Assim que o prêmio estiver garantido e o bebê chegar..."

Ele não terminou a frase. Não precisava.

Ele enfiou a mão no bolso e tirou uma pequena caixa de veludo. Ele a abriu e, mesmo à distância, pude ver o brilho dos diamantes. Era uma pulseira delicada, uma que eu reconheci da vitrine de uma joalheria pela qual passamos na semana passada. Eu a admirei. Ele me disse que era extravagante demais.

Ele prendeu a pulseira em seu pulso, seu toque demorado.

O beicinho de Beatriz se desfez, substituído por um sorriso presunçoso. "É linda. Aposto que custou uma fortuna. Isso vai ficar incrível com meu vestido de gala. Você acha que eu deveria ir com o vermelho ou o esmeralda?"

Meu sangue gelou. A música que eu escrevi, a obra-prima que ele estava roubando, estava pagando pelos diamantes no pulso da minha irmã. Meu talento estava financiando o futuro deles.

Levantei-me, meus movimentos rígidos, e me afastei sem olhar para trás.

Peguei meu telefone, meus dedos firmes enquanto discava um número.

"Sim, olá", eu disse, minha voz clara e calma. "Gostaria de confirmar meu horário para amanhã às dez da manhã. Aquele para o... procedimento."

"Júlia?" A voz de Leo, afiada de confusão, veio de trás de mim. "Com quem você está falando?"

Virei-me lentamente, um sorriso sereno se espalhando pelo meu rosto. Mantive seu olhar enquanto falava ao telefone.

"Isso mesmo", eu disse, minha voz doce como veneno. "E enquanto estiver lá, eu gostaria de fazer um molde de gesso da minha barriga. É para uma lembrança. Um pequeno souvenir de um tempo que eu prefiro não esquecer."

Capítulo 3

Ponto de Vista de Júlia Mendes:

O rosto de Leo ficou rígido. Sua expressão charmosa e preocupada se dissolveu, substituída por um lampejo de confusão e algo mais... apreensão. Ele deu meio passo em minha direção, depois parou, seus olhos indo do meu rosto para o telefone em minha mão.

"Um molde?" Ele forçou uma risada, mas soou tensa. "Querida, do que você está falando?"

"Para o bebê", eu disse, meu tom leve e arejado, como se estivesse discutindo o tempo. "Eu quero me lembrar disso."

Seu olhar estava fixo em mim, procurando, tentando decifrar a mudança repentina. Ele não conseguia. Ele não conhecia a verdadeira eu, aquela que ele havia enterrado viva. Ele só conhecia a versão que ele havia criado.

"Podemos fazer isso mais tarde", disse ele, sua voz um pouco tensa demais. "Você está cansada. Não está pensando com clareza. Eu tenho aquela reunião importante com a gravadora amanhã, lembra? Podemos ir juntos na próxima semana."

Ele estava tentando adiar, controlar o cronograma.

"Ah, é verdade", eu disse, fingindo uma súbita percepção. "Seu trabalho é tão importante. Claro que você não pode estar lá."

Eu sorri, um sorriso largo e beatífico que não alcançou meus olhos. "Não se preocupe com isso, Leo. Eu posso ir sozinha."

O alívio que inundou seu rosto foi tão profundo que foi quase cômico. Ele achou que tinha se livrado de uma bala.

Ele se adiantou e beijou minha testa, um gesto de afeto paternalista. "Essa é a minha garota. Sempre tão compreensiva."

O dia seguinte era o dia. O dia em que eu cortaria a última corrente que me prendia a eles.

Quando Leo estava saindo para sua "reunião importante", ele parou na porta. Ele colocou uma pequena caixa desajeitadamente embrulhada em minha mão.

"Uma coisinha para te animar", disse ele, sua voz com o veludo suave de sempre.

Eu a abri. Dentro, aninhado em algodão barato, havia um medalhão de prata. Era bonito o suficiente, mas eu o reconheci instantaneamente. Era uma peça padrão da loja de presentes do hospital, do tipo que você compra como um pensamento de última hora. Ele provavelmente o pegou ontem enquanto eu estava "me recuperando" no banco.

Uma onda de raiva fria e dura me atravessou, tão intensa que quase me deixou tonta. Ele estava dando à minha irmã diamantes comprados com a minha alma, e me dando uma bugiganga de cinquenta reais para me manter quieta.

Forcei meus lábios em um sorriso de gratidão. "É lindo. Obrigada, Leo."

Ele sorriu, satisfeito consigo mesmo. "Eu sabia que você ia adorar. Te vejo à noite, querida."

Depois que ele saiu, decidi fazer uma última parada. Dirigi até a casa dos meus pais, a mansão suburbana que minha música havia pago. Estacionei na rua, meu coração um tambor frio e constante no peito.

Subi o caminho de pedra e parei pouco antes da porta da frente. Eu podia ouvir suas vozes através da janela da sala de estar ligeiramente aberta.

"Ela só está sendo dramática, mãe", Beatriz estava choramingando. "Ela sempre fica assim quando eu tenho um grande evento chegando. É como se ela não suportasse quando eu sou o centro das atenções."

"Eu sei, querida, eu sei", a voz da minha mãe acalmou. "Apenas seja paciente por mais um pouco. Você conhece sua irmã. Ela sempre cede pelo bem da família. Lembra quando ela deixou você ter a vaga dela na academia de música? Isso não é diferente. Assim que você tiver aquele prêmio, e o bebê chegar, ela voltará para a linha."

Meu pai suspirou, um som pesado e cansado. "Linda, Beatriz, por favor. Vamos apenas manter as coisas calmas até a gala terminar. Não podemos nos dar ao luxo de a Júlia fazer uma cena. Se o conselho do Vanguarda descobrir... ou pior, se o Leo se assustar... tudo isso pode desmoronar."

A voz de Leo interrompeu, firme e tranquilizadora. "Não se preocupe, Sr. Mendes. Tudo está sob controle. Estive com ela no hospital esta manhã. O médico confirmou que o bebê está perfeitamente saudável. Só temos que esperar até depois do nascimento. Então, a Júlia não terá escolha a não ser ficar comigo, e eu vou garantir que ela continue a apoiar a Beatriz, incondicionalmente."

Meu corpo gelou. Não era apenas meu noivo e minha irmã. Era minha família inteira. Uma conspiração de rostos sorridentes, todos unidos na destruição silenciosa e sistemática da minha vida.

Eu não era a filha deles. Eu era o investimento deles. Uma galinha dos ovos de ouro que eles mantinham trancada em uma gaiola, e este bebê... este bebê seria a fechadura.

O medalhão no meu bolso de repente pareceu um peso de chumbo. Minha mão tremeu quando o tirei. Ele escorregou por meus dedos dormentes e caiu nos degraus de pedra, o fecho barato quebrando com o impacto. A caixa em que veio caiu da minha bolsa, espalhando seu conteúdo de papel de seda aos meus pés.

Eu me virei e fugi.

De volta ao meu carro, meu telefone vibrou. Era o Leo. Deixei tocar. Ele ligou de novo. E de novo. Finalmente, uma mensagem de texto chegou.

Júlia, onde você está? A faxineira disse que viu suas coisas espalhadas na porta dos seus pais. Aconteceu alguma coisa? Me liga.

Eu ignorei. Meu telefone tocou novamente. Desta vez, atendi, mas não disse nada, deixando o silêncio se estender.

"Júlia? Graças a Deus. Você está bem? Onde você está?" Sua voz estava carregada de um tom frenético que eu nunca tinha ouvido antes. Ele estava perdendo o controle.

Ao fundo, ouvi uma voz calma e profissional. Uma enfermeira.

"Sra. Mendes? Se a senhora puder assinar o formulário de consentimento aqui, podemos iniciar o procedimento."

O procedimento para interromper minha gravidez.

Houve uma inspiração aguda do lado de Leo na linha. Um som de choque puro e absoluto.

"Procedimento?", ele engasgou. "Júlia, que procedimento? O que você está fazendo? Você não pode!"

Sua voz falhou com um pânico que era finalmente, abençoadamente real. Ele nunca teve medo de me perder. Ele tinha medo de perder sua vantagem.

Olhei para a tela do meu telefone, para o nome dele piscando ali.

Então, com um toque final e libertador do meu polegar, encerrei a chamada e desliguei o telefone.

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