Capítulo 2

Dias atuais A minha vida é tão monótona, mas, ao mesmo tempo rica de amor, pessoas boas, humildade e modéstia. Eu moro numa pensão familiar, a pensão “Luara Aurora” da minha querida avó, Aurora. Infelizmente, após a morte do meu pai, provocada por um incêndio, há dois anos, eu, a minha mãe e o meu irmão tivemos que pedir abrigo, ficamos sem teto; queimou a casa, os pertences, o bar; tudo. E vovó foi a única que nos acolheu, quem nos deu roupas, comida, força e motivos de se reerguer e de seguir adiante de novo. Hoje, é a nossa mãezinha da guarda. A amamos como ninguém. E por mais que ela diga não afetar a renda de outros futuros hóspedes, recompensamos o enorme carinho, o abrigo, a paciência; trabalhando, limpando, cozinhando, recepcionando e fazendo de tudo pela pensão. É o mínimo. Porém, ontem à noite, deitada na minha cama, com as luzes apagadas, no escuro, eu refleti que chegou a hora de mudar as coisas, não de sair da pensão da minha vozinha. Mas de sair da monotonia. De eu tomar coragem na cara e de correr atrás do meu grande sonho, de me tornar modelo fotográfica. Aos 28 anos, eu sou formada em pedagogia. Após a triste tragédia da morte do meu pai, o incêndio da nossa casa, do bar e pelo luto fastio, eu ainda não consegui retornar a rotina de dar aulas. Eu tive que largar o emprego como professora, e só de pensar em licenciar de novo... me sinto infeliz. Não de estar ensinando as crianças, de forma alguma, eu as amava, mas por estar trabalhando numa profissão influenciada pelos conselhos do meu pai e no desejo explícito da minha mãe –também professora pedagoga. Errei de certa forma, quis orgulhá-los, quis seguir os passos dela sem pensar nos meus passos sozinha. Jamais compartilhei desse sonho. Ser professor não é fácil. Respeito a carreira. E respeito a minha mãe. Afinal, vivi a experiência dela na pele. Contudo, eu agora quero ser feliz. Eu quero saber o que é ter felicidade pela primeira vez, fazendo o que se ama. E mesmo aos 28 anos, eu recuperarei esse tempo perdido. 05h42 Sem sono, após ferver um chá na cozinha da pensão, eu me sento a mesa, enquanto, bebericando da caneca, artículo como devo dizer a verdade para minha mãe e para Mariano, meu noivo e professor de química. Não queria decepcioná-los. Não quero. Apesar de já saber que vão ficar decepcionados. Todavia, lecionar não faz parte de um segundo futuro infeliz. — Oras, bom dia, acordou com o sol e os galos cantando na janela? — Quem questiona é o divertidinho do meu irmão Otávio. Que adentrou na cozinha só de cueca samba canção. — Otávio, por favor, pela milésima vez só nesta semana, toma vergonha na fuça de cachorro e vista-se. Aqui não é bordel para se andar pelado, é uma pensão familiar! Otávio nem liga, dá de ombros, pega uma caneca de café e cruza os pés perto dos armários. Então, retornamos o assunto em pauta: — Então... vai me dizer o que lhe deixou sem sono? — Não. Na verdade, é eu quem desejo saber, o que fez o senhor levantar tão cedo? — Vou sair... entrevista de emprego, sabe? — Ah, é? Sério? Assisto a National Geographic e nunca vi um bicho preguiça espalhando currículos pela selva. E ainda mais de manhã. — Ha-ha-ha! Engraçadinha. Mas é isso que ouviu, eu vou procurar um serviço. Quero ser acompanhante de luxo. O-o quê? Eu rolo os olhos. — Com 20 anos, o único acompanhante que você pode ser é de cegos. Vai estudar, garoto! — Quanta blasfêmia — ri irônico. — Estudar para quê? Para ser professor? Uma profissão que eu odeio... como voc... — Quando eu vejo, tem uma caneca de chá quente preste a sair voando. — E-ei calma! — Cala a boca, e sai daqui! — Eu estava só tirando onda. — É? Mas eu e esta caneca de chá quente não estamos. E você tem a plena consciência de que eu não brinco em serviço. Some daqui! A minha maior qualidade: Ser muito vingativa. Quase ninguém sabe ou entende que não se deve tirar a minha paz, nem o meu sossego. Eu só tenho carinha de anjo e, mesmo sendo meiga, eu não sei brincar quando eu quero arrancar o pescoço de certos inoportunos. É difícil revelar um jeito tão "maldoso", apenas Otávio conquista esta proeza toda semana. E será por quê, né? — Já estou ralando, sua maluca. Ele sai e, em seguida, o pesar da indecisão se possui outra vez do meu corpo. Eu suspiro e então decido que chegou a hora de correr atrás do prejuízo. Antes, eu mando uma mensagem para a minha melhor amiga, Suellen. Quero conselhos. Ela vai saber como me ajudar. Como hoje é seu primeiro dia de férias, Suellen aceita e vem mais cedo passar a tarde comigo. — Tem certeza?— Ela questiona após sentarmos no jardim e eu finalmente relatar a alguém dos meus planos futuros. — Você quer a verdade? Sim, é total certeza. É o que eu desejo para a minha vida, e eu não posso seguir o sonho de terceiros. Ser professora foi uma ambição da minha mãe. — Está certa. Aconselho você a fazer o que ama, se te faz bem ser modelo, então mergulhe de cabeça. Não vá pelo desejo da sua mãe ou do seu noivo. Procure as suas próprias realizações sem olhar para trás. — Ah, amiga, era isso que eu gostaria de ouvir. Eu concordo feliz. E ficamos em silêncio, enquanto ela me especula curiosa. — O que foi, Suellen, tem algo de errado? — É... Eloíse, mesmo eu aconselhando você a seguir seus instintos... O Mariano... e o sonho de montar uma escolinha... Não vai abalar a relação? Pois era o sonho dos dois. — Não, não vai. Mariano foi a melhor pessoa que poderia ter conhecido nos últimos dois anos. Eu não sei como aguentaria tanta dor sem ele. Foi uma coluna de apoio. Eu o agradeço por tudo e inclusive, por existir na minha vida. Não quero que ele fique chateado ou magoado. Porém, o plano é sempre apoiar um ao outro em cada decisão, seja ela individual. E eu tenho a absoluta certeza de que ele vai me apoiar no meu sonho de infância. Capítulo 2 Decidida a revelar primeiro tudo para o Mariano, meu noivo, eu vou até a escola particular onde ele trabalha e onde eu já trabalhei, sendo inevitável as crianças não me reconhecerem. — Amor... — Mariano é o único que está de folga no primeiro e no segundo tempo, então eu aproveito para conversarmos à sós na sala dos professores. — Você reparou o olhar de saudade deles? Estão ansiosos pela sua volta. Era a professora mais querida. — Mariano... — Não, não pode negar. — Por favor, amor, eu... eu preciso que me escute. É relacionado ao mesmo assunto.

Capítulo 3

O que foi? — Seus olhos estão ansiosos. Eu estou quase achando que foi uma péssima ideia ter vindo até a escola, dizer que eu odeio dar aula e que nunca mais eu quero me obrigar a seguir os passos de terceiros. Ou corrigindo, os passos da minha mãe. — Aconteceu alguma coisa com a sua vó? Ou com o infeliz do seu irmão? — Não chame Otávio de infeliz. E não, graças a Deus, não aconteceu nada com eles. É sobre eu voltar a dar au... — Eloíse... Meu Deus, menina! — Nilce, a coordenadora, cruza a porta, gritando e interrompendo-me. — Você voltou?! Que ótimo, à sos eu já não estava conseguindo dizer nada para o Mariano, agora, com ela aqui, que eu não digo mesmo. Continua preso na garganta. — Ontem, a sua mãe e eu estávamos discutindo sobre o seu retorno. E acabei de ser informada que você estava na escola. Vai voltar a dar aulas, por favor? Mariano me observa esperançoso, como a coordenadora Nilce. — E-eu... eu... na verdade... — droga, eu estou lascada. O que dizer a eles? — Não... não retornarei — opto de uma vez pela franqueza e vejo o olhar dos dois recaírem. — Eu apenas gostaria de rever a escola. — Ah, que pena. Uma pena mesmo. Esperava vê-la recuperada. Mariano está chateado, triste comigo. E a situação me acarretou sapos na goela. Eu engulo em seco e levanto-me. — Eu já me sinto recuperada, Nilce, porém... eu quero um momento sem pressões. A hora certa chegará! — A hora certa? — Mariano questiona baixo e irônico. — Bom eu deixarei vocês conversando sem interrupções. E retorne, Eloíse. Esta escola, as crianças, todos nós temos enorme afeição por seu trabalho e dedicação. Desejo felicidades! E se a minha felicidade for longe das salas de aula? — eu penso na resposta, após ela fechar a porta e me deixar com o Mariano. — Não compreendo você, Eloíse. Está recuperada, todavia, não deseja voltar a dar aula? Quer distância da sua profissão? Faz dois anos que não leciona, nem pensa no caso. Eu não devo mais enganar o meu noivo, nem a mim própria. Eu respiro fundo e peço para ele me acompanhar até a piscina de natação. — Eu preciso te confessar tudo, sem rodeios — finalmente, comento, caminhando, sem encará-lo nos olhos. — Eu estou a todos ouvidos, diga?! — Ele para, cruza os braços e me faz levantar a cabeça. — Ficará chateado, ou até bravo. Só que eu... — aperto meus dedos — eu não quero mais ser professora. Eu precisava te dizer, Mariano, ser professora pedagoga sempre foi o desejo da minha mãe. Eu nunca quis me formar nesta profissão! — O quê? Só pode estar de zoeira — ele ri. — Você não gosta de ser professora? É isto? Meus nervos fervem, parece que eu acabei de contar uma piada de mau gosto. — Sim, eu odeio ser professora! É isto! — Não, não, você está de brincadeira. Sempre brincalhona. — Tudo bem, eu não esperava que “meu noivo” me compreendesse logo de início. Entretanto, só me ouve... por favor? — Ele não interfere e eu continuo. — Desde que eu era menina, meus pais deixavam explícito de que eu deveria seguir a profissão da mamãe, que eu deveria ser professora, pois o sonho dela era promissor. Criaram expectativas. E tanta, que eu não pude decepcioná-los. Eu entrei na faculdade, fiz o curso, me formei, trabalhei, dei aula, todos ficaram felizes.... — pauso. — [...] porém, não estava. Nunca esteve feliz, odiava! Fingia! Surpreendida, eu tento priorizar o controle emocional. — Você não está me entendendo, ouvindo... não compreende. Eu confesso, eu nunca estive feliz presa dentro de uma escola barulhenta. Mas eu amava as crianças. Eu amava elas, carinho nunca faltou. O meu sonho, a minha felicidade, o meu bem estar... estes sim faltaram de sobra. Mariano passa a mão no rosto, negando tudo o que eu disse. Eu estou chocada, não esperava a incompreensão logo dele. — Eloíse, a morte do seu pai ainda é recente. Você está desabilitada, desistindo por conta do luto. E pelo que aconteceu na sua vida... — É exatamente pelo que aconteceu na minha vida! — triste e magoada, eu fragilizo. — Eu não posso acreditar que não me escuta, que não me compreende. Você não pensa na minha felicidade? — Eu penso na minha e na sua felicidade. Por isso eu nunca deixei de estar presente com você em cada decisão! — Mas não apoia o meu sonho de modelar. Sabia que eu sempre tive este sonho. E o ignorou! — Sim, não vou ser hipócrita. Contudo, a beleza acaba. É patético querer desistir de lecionar para tirar fotinhas do corpo! Eu sorrio, sentindo meu sangue borbulhar de raiva, de afronta. — Que ótimo, meu amor! Porém, quer saber de uma coisa? Eu farei o que me der na telha. Como a minha melhor amiga me disse ontem, eu não devo dar ouvidos a você e nem a minha mãe. Eu devo fazer o que me torna bem! E não tenha dúvidas de que farei! Eu viro as costas. Trêmula, quase chorando de ódio, mágoa. Eu amo tanto o Mariano, só que o que ele jogou no ventilador foi como levar um soco no estômago. Seria idiotice eu desistir de anos de faculdade para correr atrás de um sonho imprevisível, patético? Que droga! Por que não podemos ver o futuro? Prever a merda do destino? Eu saio por pouco correndo no corredor dos professores, viro na saída do pátio e perto da porta da coordenação, eu não vejo a Nilce... e trombo de frente com o corpo dela. Ela segura rápida o meu quadril e eu, a sua cintura. — Meu Deus, Nilce! Me perdoe, eu não vi você. Se machucou? — Não, está tudo bem — responde, recompondo-se.

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