Capítulo 2

O sol da manhã era um mentiroso. Ele brilhava através das cortinas, radiante e alegre, fingindo que o mundo não tinha acabado na noite anterior.

Vivian estava de pé na frente de Julian, suas mãos ágeis enquanto amarrava a gravata dele. Era um nó Windsor. Perfeito. Simétrico. Assim como o casamento deles parecia ser.

"Você está bonito", disse ela. A mentira tinha gosto de cinzas em sua língua.

Julian checou o relógio. "Vou chegar tarde hoje à noite. Jantar de negócios no The Obsidian Club. Não me espere acordada."

The Obsidian Club. Era um estabelecimento exclusivo para membros, seleto, sombrio e notoriamente discreto.

"Claro", disse Vivian, alisando a lapela dele. "Boa sorte com os... negócios."

Ele beijou sua bochecha. Foi um selinho seco e superficial. "Você é uma boa esposa, Vivian."

Ele saiu.

Assim que a porta da frente se fechou com um clique, o sorriso de Vivian desapareceu. Ela caminhou até a ilha da cozinha e abriu seu laptop. Não entrou em suas redes sociais. Ela acessou a conta bancária que Julian pensava que ela não tinha acesso — a conta conjunta secundária que ele usava para "imprevistos".

Lá estava. Uma reserva no The Obsidian Club.

Camarote VIP 4. Dois convidados.

Vivian fechou o laptop. Suas mãos tremiam, mas não de medo. De raiva. Uma raiva fria e calculista. Mas ela não podia demonstrar. Ainda não. Se o confrontasse agora, ele distorceria tudo. Ele a chamaria de paranoica. Ele a cortaria antes que ela tivesse o suficiente para enterrá-lo.

Ela subiu e se trocou. Não vestiu os vestidos em tons pastel que Julian gostava. Ela escolheu um vestido preto discreto, algo que se misturaria às sombras. Ela calçou os saltos, mas guardou um par de sapatilhas na bolsa.

Ela dirigiu até o clube. Não usou o manobrista. Estacionou na mesma rua, mais para baixo, apertando o casaco contra o corpo.

Ela entrou pela entrada lateral, deslizando uma nota de cem dólares para a hostess de quem ficara amiga meses antes, durante um evento de caridade.

"Estou apenas procurando meu marido", Vivian sussurrou, fingindo um tremor na voz. "Quero fazer uma surpresa para ele."

A hostess assentiu com compaixão e apontou para a área VIP. "Camarote 4, Sra. Kensington."

Vivian não foi para o camarote. Ela foi para o mezanino com vista para os camarotes semiprivativos abaixo. A iluminação era fraca, as sombras, profundas.

Ela ficou nas sombras, olhando para baixo.

E lá estava ele.

Julian estava sentado em um sofá de veludo. Mas ele não estava em uma reunião.

Ao lado dele, sentada, estava uma garota. Ela parecia jovem, dolorosamente jovem. Tinha cabelos loiros e longos que caíam em cascata pelas costas. Usava um vestido vermelho que era pouco mais que um pedaço de tecido.

Scarlett Sharp.

Vivian a reconheceu das colunas sociais. A filha ambiciosa do império Sharp, uma família conhecida por sua ascensão implacável.

O braço de Julian estava jogado sobre o encosto do sofá, seus dedos brincando com as pontas do cabelo de Scarlett. Seus amigos — homens que Vivian havia recebido em jantares, homens que haviam comido sua comida e bebido seu vinho — estavam sentados ao redor deles, rindo.

"Então esta é a nova musa, Julian?", um deles zombou. "E a esposa?"

Julian riu. Foi um som cruel. "Vivian? Ela está em casa tricotando ou sei lá o que ela faz. Já a Scarlett... a Scarlett é cheia de vida."

Scarlett deu uma risadinha e se inclinou para ele, apoiando a cabeça em seu ombro. "Ah, Julian, você é terrível."

Vivian sentiu um golpe físico no peito. Não era o coração partido. Era o choque do puro desrespeito.

Ela agarrou o corrimão. O metal cravou em suas palmas. Ela respirou fundo.

Ela pegou o celular. Suas mãos tremiam, mas ela o firmou contra a cortina de veludo.

Gravar.

Ela capturou tudo. A mão na coxa. O beijo no pescoço. A zombaria. Cada pixel era um prego em seu caixão.

"Eu não sou uma qualquer! Julian, diga a ela!", Scarlett guinchou em resposta a algo que um dos homens disse, embora Vivian não conseguisse ouvir o contexto.

"Esta é a Scarlett", Julian anunciou, sua voz chegando até o mezanino. "Ela é filha de Garrett Sharp. Ela é... como uma irmã mais nova para mim. Estou apenas cuidando dela."

"Uma irmã com quem você dorme?", Mark riu.

Julian não negou. Apenas deu um sorriso de canto e tomou um gole de sua bebida.

Vivian parou a gravação. Era o suficiente. Era mais do que suficiente.

Ela queria gritar. Queria descer correndo e acabar com os dois. Mas ela era Vivian Kensington. A "boa esposa". A "esposa fraca".

Ela virou nos calcanhares e foi embora. Não fez nenhum som. Saiu furtivamente pela porta lateral, passando pela hostess solidária, e encontrou o ar frio da noite.

Ela entrou no carro. O silêncio era ensurdecedor. Não ligou o motor imediatamente. Apenas ficou sentada ali, com a testa apoiada no volante.

Um soluço escapou de sua garganta. Apenas um. Depois outro. Ela se permitiu chorar por exatos cinco minutos. Checou o relógio. Cinco minutos era tudo o que ele teria dela.

Ela enxugou o rosto, checou a maquiagem no espelho retrovisor e ligou o carro.

Quando Julian chegou em casa, três horas depois, Vivian estava na cama, fingindo dormir. Ela o ouviu escovar os dentes, ouviu-o cantarolar uma melodia que tinha ouvido no clube.

Ele não fazia ideia. Achava que ela estava segura em sua ignorância. Ele se achava o caçador.

Ele estava enganado.

Capítulo 3

Três dias depois, o "pedido de desculpas" veio. Não foram palavras. Foi um convite.

"Vista-se", disse Julian, jogando uma capa de roupa sobre a cama. "Nós vamos à pré-festa da Kensington Charity Gala."

Ele não pediu desculpas. Apenas comprou um vestido para ela. Um vestido preto. Simples. Sem graça.

"É um pouco simples demais", observou Vivian, tocando o tecido.

"É elegante", corrigiu Julian. "Você não precisa chamar a atenção. Você sabe como fica ansiosa em meio a multidões."

Ele estava reescrevendo a realidade dela novamente. Pintando-a como a mulher frágil e neurótica que precisava de sua proteção.

Vivian vestiu o vestido. Serviu perfeitamente, é claro. Ele via o corpo dela como um manequim para o seu status.

O local era uma galeria de arte sofisticada no centro da cidade. Garçons circulavam com bandejas de champanhe e canapés. O ar zumbia com a conversa da elite da cidade.

Assim que entraram, Julian soltou a mão dela.

"Preciso cumprimentar os membros do conselho", disse ele. "Fique aqui. Tente não derrubar nada."

Ele desapareceu na multidão.

Vivian caminhou até o bar. "Um Dirty Martini", pediu ela. "Com azeitonas extras."

Ela pegou o copo gelado e vagou em direção ao fundo da galeria, procurando um canto tranquilo. Encontrou um lugar atrás de um grande biombo japonês decorativo. Ele oferecia uma visão do salão através das frestas, mas a escondia da vista de todos.

Ela bebericou sua bebida, a vodca queimando agradavelmente.

Então ela ouviu a voz dele.

"Ah, qual é, Julian. Ela está totalmente na sua mão."

Era um de seus amigos. Mark.

Julian riu. "A Vivian? Por favor. Ela morre de medo que eu a deixe. Para onde ela iria? De volta para aquele apartamento minúsculo onde a mãe dela mora? Ela precisa do nome Kensington para respirar."

A mão de Vivian congelou. O copo estava gélido contra seus dedos.

"Mas a boate...", insistiu Mark. "Achei ter visto um carro parecido com o dela por perto."

"Ela estava em casa, dormindo", descartou Julian. "Mulheres ficam emotivas. Comprei um vestido para ela, a trouxe para sair hoje à noite. Ela está bem agora. Sabe muito bem de que lado o pão dela é passado a manteiga."

"O Julian é o melhor marido!", uma voz aguda e animada interveio.

Scarlett.

Vivian espiou através do biombo. Scarlett estava lá, agarrada ao braço de Julian novamente. Ela usava um vestido branco que parecia suspeitosamente um vestido de noiva encurtado.

"Você é bom demais para ela", arrulhou Scarlett. "Se eu fosse sua esposa, nunca gritaria com você."

"Eu sei, querida", disse Julian, dando um tapinha na mão dela. "Ela é apenas... um tapa-buraco. Um troféu que minha mãe escolheu. Uma interesseira que deu sorte."

Interesseira.

Algo dentro de Vivian se partiu. Não foi um estalo alto. Foi o som de um cabo finalmente cedendo sob tensão demais.

Ela saiu de trás do biombo. Os nós de seus dedos estavam brancos ao redor do copo.

Ela olhou para eles. A vontade de jogar a bebida no rosto dele era avassaladora. Pulsava em suas veias, quente e exigente.

Mas ela viu Mark olhando para ela. Viu os outros convidados por perto.

Se fizesse uma cena, ela seria a esposa louca. Ela seria o problema.

Vivian forçou sua mão a relaxar. Forçou seu rosto a assumir uma máscara de confusão e mágoa.

"Julian?", ela sussurrou, sua voz tremendo perfeitamente.

O grupo ficou em silêncio. Os olhos de Mark se arregalaram. Scarlett ofegou.

Julian se virou lentamente. Quando a viu, sua arrogância vacilou por um segundo.

"Vivian", disse ele, afastando-se de Scarlett. "Há quanto tempo você está aí parada?"

"Eu... eu só queria perguntar se você estava pronto para ir", gaguejou Vivian, dando um passo para trás. Ela deixou o salto prender no carpete. Tropeçou, e o martíni transbordou pela borda, espirrando em seu próprio vestido.

"Ah!", ela exclamou, olhando para a mancha.

"Meu Deus, Vivian", suspirou Julian, revirando os olhos. "Você não consegue passar cinco minutos sem fazer bagunça?"

Scarlett deu uma risadinha, escondendo o sorriso atrás da mão.

"Me desculpe", sussurrou Vivian, com os olhos se enchendo de lágrimas. Lágrimas reais de frustração, mas para eles, pareciam fraqueza. "Eu só... não estou me sentindo bem. A multidão..."

"Vá se limpar", rosnou Julian. "Ou apenas vá esperar no carro. Você está me envergonhando."

"Eu vou... eu vou para o carro", disse Vivian.

Ela se virou e foi embora, de cabeça baixa. Parecia derrotada.

Enquanto atravessava a galeria, ela ouviu a voz de Julian atrás dela.

"Viram? Um desastre total. Ela estaria perdida sem mim."

Vivian saiu para o ar fresco da noite. Ela fez um sinal para o manobrista.

Assim que entrou no carro, as lágrimas pararam instantaneamente. Sua expressão endureceu, tornando-se de pedra.

Ela pegou o celular e abriu o aplicativo de gravador de voz. Parou a gravação.

"Tapa-buraco", ela repetiu para o carro vazio.

Ela não ia apenas deixá-lo. Ela ia arrancar a pele dele vivo.

Continue lendo
Apoie o autor e inspire mais histórias incríveis Moboreader
Desbloquear todos
Capítulo
Personalizar
Próximo Capítulo
Minishorts Logo
Leia web novels, ficção online e histórias românticas em alta no MiniShorts. Descubra romances de bilionários, fantasia de lobisomens, drama e novelas de fantasia, além de conteúdos selecionados de dramas curtos inspirados nas tendências de narrativa mais populares.
MiniShorts YouTube
PRODUTOS E SERVIÇOS
Sobre nós
support@minishorts.com
©2026 MiniShorts Todos os direitos reservados. CHASINGTOP HK LIMITED