Na manhã seguinte, Gracie e Ellie saíram com presentes cuidadosamente embrulhados para visitar a família Stanley.
O almoço transcorreu com perfeita harmonia, onde cada gesto era refinado, e cada palavra, cuidadosamente pensada.
Assim que os pratos foram retirados, Valeria Stanley, mãe de Theo e Brayden, ofereceu um sorriso caloroso. "Vocês são encantadoras. Não precisam ficar presas aqui conosco a tarde inteira. Já que todos estão presentes, por que não aproveitam para dar uma volta juntos?"
A sugestão foi bem recebida, e Gracie se levantou, alisando a saia antes de seguir os demais para o lado de fora.
Pouco depois, a sala de jantar estava vazia.
"Gracie, venha comigo." Brayden surgiu ao lado dela de repente, rompendo o silêncio com voz baixa e um rosto impossível de decifrar.
Antes que ela pudesse responder, ele já havia se virado e saído com passos decididos.
Sem escolha, ela o seguiu às pressas, os saltos ecoando suavemente enquanto entravam no escritório.
A porta se fechou com um clique, e o som abafado pareceu cortar a compostura de Gracie como uma lâmina.
Por um instante, ela sentiu como se fosse tragada de volta aos horrores do passado, onde a dor fantasma ainda a assombrava com tamanha intensidade que lhe roubava o ar. Sempre que Theo perdia a paciência com a teimosia dela, arrastava-a para um quarto, tirava a máscara de cavalheiro e, com o cinto na mão, desferia golpes sobre o corpo dela até sua pele arder e ficar marcada.
Gracie recuou um passo por instinto, um tremor percorrendo seu corpo enquanto o coração martelava nos ouvidos.
Brayden notou o medo dela e parou à uma distância segura. "Fique tranquila. Não encostarei em você. Algumas conversas são mais fáceis em particular."
Gracie inspirou fundo, tentando se recompor, os dedos cerrados em um punho firme.
"Entendo", ela murmurou.
Mesmo agora, ainda não havia se libertado da sombra que Theo deixara em sua alma.
Juntando os pensamentos, ela observou atentamente o rosto sereno de Brayden. Em sua vida anterior, eles só se encontraram duas vezes: uma no anúncio do noivado arranjado e outra após o trágico acidente que o deixou marcado e em uma cadeira de rodas. E naquela última vez, ela apenas o viu de longe.
Diferente do homem quebrado que ele se tornaria, o Brayden presente ainda exalava confiança, a de alguém que nunca conheceu a derrota.
Com seus imponentes um metro e noventa, o cabelo penteado para trás reluzia sob a luz, enquanto a camisa escura, ajustada ao corpo, acentuava seus ombros largos. As mangas arregaçadas revelavam antebraços definidos, reflexo de força e controle.
"O que você quer?", sussurrou Gracie, desviando o olhar.
Um arrepio percorreu sua pele ao perceber que se esse homem quisesse machucá-la, ela não teria como se defender.
Brayden caminhou até a mesa com passos firmes. Então pegou um documento, colocou sobre a mesa e declarou friamente: "Vamos deixar tudo bem claro — posso ter aceitado esse casamento, mas não existe sentimento entre nós."
Gracie já sabia que o coração dele pertencia a outra.
Com calma e indiferença, Brayden empurrou o documento para ela. "Imagino que você só tenha aceitado esse acordo porque não teve alternativa. Portanto, até que este casamento seja dissolvido, espero que cumpra as condições. Em público, pareceremos um casal apaixonado. Mas em privado, não tocarei em você nem interferirei na sua vida. E espero o mesmo em troca — você também não interferirá na minha."
Gracie ergueu o rosto, um traço de alegria aparecendo em sua face. "Está falando sério?"
Sua reação causou estranhamento — Brayden arqueou uma sobrancelha, um leve brilho de diversão nos olhos. "Você até parece satisfeita com isso."
"Não é isso." Mordendo o lábio inferior, Gracie apanhou o contrato e passou a examiná-lo com cuidado.
As cláusulas eram objetivas e razoáveis, deixando claras as condições do casamento arranjado.
Ela não protestou, mas, com a caneta em mãos, hesitou no último instante.
Brayden franziu o cenho. "O que foi? Algo não está claro?"
Olhando para ele, ela questionou: "Se eu continuar minha pesquisa após o casamento, você não vai se intrometer, vai?"
Um leve sorriso, quase sagaz, surgiu nos lábios dele. "Claro que não. Nossas vidas seguirão separadas."
Antes que ela pudesse responder, o celular dele vibrou.
Assim que atendeu, o tom de sua voz mudou por completo, ficando mais baixo, gentil e carregado de ternura. "Não se preocupe. Enviarei alguém imediatamente. Só estou finalizando algo aqui, mas já estou a caminho."
O calor em sua voz era bem diferente do tom reservado que usava com Gracie, revelando o quanto aquela pessoa significava para ele.
Sentindo uma estranha serenidade, Gracie assinou o acordo rapidamente.
Ao encerrar a ligação e se virar, Brayden viu a assinatura de Gracie no papel.
Com um leve aceno, ele agradeceu: "Obrigado."
Sobre a mesa, repousavam duas cópias do contrato, das quais ela pegou a sua e a colocou na bolsa sem dizer uma palavra.
Com tudo resolvido, Brayden não demonstrou intenção de continuar ali, então recolheu o contrato assinado com cuidado e abriu a porta para que ela saísse.
Ao sair do escritório, Gracie percebeu que o corredor estava completamente silencioso, e que nem Theo nem Ellie estavam em lugar algum.
"Parece que foram para outro lugar. Como pretende voltar? Quer que eu mande alguém levá-la?", disse Brayden em tom neutro.
Ele mantinha alguns passos de distância, com uma postura cortês, porém reservada. Essa distância educada parecia intencional, pois desde o início, ele havia sido claro quanto aos limites que não deveriam ser ultrapassados.
Curiosamente, essa reserva fez com que Gracie relaxasse os ombros. Pela primeira vez nesse dia, sentiu que podia respirar com um pouco mais de tranquilidade.
Depois de suportar os jogos mentais e o controle sufocante de Theo em sua vida anterior, ansiava por alguém estável como Brayden. Com ele, poderia se libertar da pressão familiar e se dedicar à pesquisa em paz. E, quando o casamento chegasse ao fim, finalmente teria a chance de viver como quisesse.
"Não precisa. Chamarei um táxi. Ainda assim, obrigada." O tom de Gracie era tranquilo, porém distante.
Brayden apenas inclinou levemente a cabeça em sinal de cortesia, o rosto impassível, e se afastou sem mais palavras.
Enquanto Gracie atravessava o jardim, diminuiu o passo ao ouvir vozes vindo das cercas vivas bem cuidadas.
"Confie em mim, Ellie. Eu não sou nada como Brayden. Ele pode estar se casando por dever, mas o que sinto por você é verdadeiro." A voz de Theo cortou o ar silencioso, o que fez com que Gracie se enrijecesse de imediato, a respiração presa na garganta.
Um frio conhecido percorreu sua espinha, pois o medo que sentia dele nunca a havia abandonado.
Por entre as folhas, Gracie viu Theo sorrindo docemente enquanto colocava um colar delicado no pescoço de Ellie.
"Me deixe te ajudar com isso", disse ele com suavidade.
As bochechas de Ellie coraram, e sua resposta veio em um tom tímido e leve: "Tudo bem."
Mas, de costas, ela não viu o brilho cruel que cruzou os olhos de Theo como lâmina afiada.
O favoritismo de Alan já havia apontado Ellie como herdeira dos negócios da família, o que, para Theo, a transformava na peça ideal do seu jogo de poder, enquanto Gracie, seguiria alheia, uma pesquisadora introspectiva que passava os dias no laboratório.
Ellie passou os dedos sobre o colar recém-colocado, um sorriso leve surgindo em seus lábios.
Em sua vida anterior, ela se casara com Brayden cheia de esperança, acreditando que o afeto surgiria da obrigação, que um dia seriam felizes.
No entanto, seu casamento não passou de um contrato frio e distante: cada erro a afundou um pouco mais, até que, sozinha na sala de parto, perdeu a vida junto com o filho que nunca chegou a abraçar.
Mas desta vez, ela decidira escolher Theo, o homem que aparentava ser genuinamente gentil.
Quando o dia do casamento finalmente chegasse, ela superaria Gracie em todos os aspectos.
"Já está anoitecendo. Permita que eu te leve para casa", sussurrou Theo, com um olhar terno e um leve sorriso nos lábios.
"Tudo bem." Ellie segurou a mão dele sem hesitar, o coração cheio de satisfação.
Por fim, os dois seguiram juntos.
Oculta sob a sombra densa das árvores, as pernas de Gracie quase cederam, fazendo-a apoiar a mão trêmula na pedra áspera ao seu lado.
Quando seu coração finalmente desacelerou, ela se recompôs e caminhou até a saída, onde viu Theo segurando a porta do carro com sua elegância habitual, enquanto Ellie entrava com um sorriso radiante.
Através do vidro escuro, ao ver o rosto pálido de Gracie, Ellie lançou-lhe um olhar provocativo de triunfo e desprezo, presumindo que ela já tivesse em mãos o contrato assinado por Brayden, e pensou que, pelo menos nesta vida, a felicidade não era algo reservado para sua meia-irmã.
Observando o carro desaparecer ao longe, Gracie sentiu apenas um alívio profundo e silencioso. Desta vez, tudo o que ainda a ligava a Theo finalmente havia se encerrado.
O tempo voava, e o tão aguardado dia do casamento se aproximava cada vez mais.
Após o noivado, Ellie e Theo mergulharam em um romance intenso — jantares românticos, passeios longos pela cidade e uma comemoração luxuosa no Dia dos Namorados.
Gracie, por sua vez, não teve mais notícias de Brayden desde a última e contida conversa no escritório dele. Assim, ela se refugiou no trabalho, encontrando consolo no constante zumbido do laboratório.
Depois de muitas negociações, ambas as famílias decidiram realizar os dois casamentos no mesmo dia, uma cerimônia dupla grandiosa feita para impressionar a elite.
Na véspera, um vestido branco impecável e uma caixa com acessórios reluzentes foram entregues à porta de Gracie, tudo enviado cuidadosamente pelo assistente de Brayden, Charlie Willis.
Como prometido, Brayden mantinha a imagem impecável em público, a tratando com toda a elegância e respeito que seu título exigia.
"Senhorita Sullivan", disse Charlie com um gesto respeitoso. "Este é um vestido exclusivo de alta costura, encomendado pelo senhor Brayden Stanley há três meses. E estes são raríssimos diamantes azuis, lapidados à mão por um mestre joalheiro de um ateliê centenário e escolhidos pessoalmente por ele."
O vestido cintilava sob a luz, e o colar brilhava como se aprisionasse pequenas estrelas.
Mesmo diante de tanto luxo, Gracie apenas sorriu levemente e agradeceu em um tom calmo: "Obrigada."
A seriedade de Brayden era inegável. Ela imaginava que, enquanto cumprisse o acordo, ele também manteria sua parte.
Assim que Charlie saiu, Gracie se virou e se deparou com Ellie na sala de estar.
Com um leve brilho invejoso nos olhos, Ellie comentou: "Impressionante, não é? Se casar com Brayden, sem dúvida, te coloca um nível acima das demais."
Ao se lembrar de tudo o que Ellie fizera em sua vida anterior, Gracie achou inútil discutir com alguém tão mesquinha.
Mantendo um tom frio e sereno, ela replicou: "Você e Theo parecem se dar bem. Acredito que ele também não economizou nos detalhes. Cada detalhe do seu vestido e acessórios deve ter sido escolhido com esmero."
Na vida passada, Theo escondeu quem realmente era sob uma fachada encantadora, até revelar sua verdadeira face três meses após o casamento.
O comentário controlado de Gracie feriu o orgulho de Ellie, pois ela se lembrou de que Theo havia argumentado que, por Brayden ser o herdeiro e os casamentos ocorrerem no mesmo dia, não caberia ofuscar o evento principal.
Embora os itens que Theo fornecera fossem refinados, comparados aos de Gracie, pareciam comuns e inferiores.
"Está se achando, é isso? Mas não se acostume demais", Ellie curvou os lábios em um sorriso ácido, os olhos cintilando com desprezo.
Na outra vida, ela arruinara Brayden, o deixando marcado e incapacitado. Agora, ela estava convencida de que, com o amor de Theo, seria capaz de elevá-lo à posição de herdeiro.
Gracie apenas fez um aceno contido e passou pela irmã com uma elegância silenciosa.
Às quatro da manhã, a equipe de maquiagem apareceu, e Gracie e Ellie foram colocadas em salas separadas para se prepararem.
Gracie mal dormira uma hora após uma noite inteira dedicada à pesquisa, e mesmo agora, seus pensamentos seguiam presos aos dados que giravam em sua mente.
"Que estranho", murmurou a maquiadora ao abrir uma embalagem, franzindo o cenho. "Esse batom parece estranho. Será que está vencido?"
"Duvido", gaguejou a assistente, visivelmente tensa. "Acho que é assim mesmo. Como estamos sem tempo, é melhor usarmos outra cor nela."
Sem dar muita atenção, a maquiadora pegou outro batom e se aproximou para aplicá-lo nos lábios de Gracie.
"Espere", disse Gracie, erguendo a mão para detê-la. "Quero dar uma olhada nesse batom antes."
Ela olhou rapidamente para a assistente, e notou um lampejo de pânico cruzar seu rosto.
Ao ouvir o pedido de Gracie, a maquiadora prontamente entregou o batom para ela. "Está mesmo esquisito, mas talvez seja o estilo da marca. Ainda bem que temos outros disponíveis."
A assistente se apressou em dizer: "Exatamente, vamos deixá-lo reservado para os retoques depois da cerimônia."
Gracie abaixou os olhos, abriu o batom e examinou com atenção a superfície. Em seguida, aproximou o item do nariz, inalou suavemente, e um sorriso discreto surgiu em seus lábios.
O aroma logo o denunciou — havia pó de amendoim ali. E ela, justamente, era alérgica a isso.
Ninguém além de Ellie seria capaz de algo tão ardiloso. Afinal, ela sempre fora adepta de truques baixos, mesmo na vida anterior.
Por fim, Gracie sorriu de canto, devolveu o batom e, com um gesto elegante, chamou a maquiadora, que se inclinou para ouvir o que a noiva lhe tinha para dizer.
A assistente observava, inquieta, tentando captar alguma coisa, mas sem sucesso.
Momentos depois, a expressão da maquiadora mudou sutilmente, e ela assentiu. "Entendido."
Assim que os últimos retoques foram feitos, as madrinhas entraram em um turbilhão de cetim e perfume.
Gracie havia escolhido apenas uma madrinha — Jessie Holt, sua melhor amiga e cúmplice de infância.
Jessie se aproximou, os olhos cintilando, e sussurrou: "Está tudo pronto, exatamente como você pediu. Mas falando sério, como você conseguiu prever que Lina faria uma coisa dessas? Você tem mesmo certeza de que ela vai aparecer no casamento?"
O coração de Brayden sempre esteve nas mãos de Lina Douglas.
Na vida anterior, Ellie perseguiu Lina com insistência, desesperada para afastá-la de Brayden. No fim, chegou a se aliar ao maior rival do próprio marido para armar uma cilada: Brayden saiu gravemente ferido, suas feições marcantes desfiguradas por cicatrizes, e ficou preso a uma cadeira de rodas.
Lina, a mulher por quem Brayden quase entregou a vida, ficou ao lado dele por apenas três meses. Ao perceber que ele não servia mais aos seus propósitos, ela o abandonou sem sequer se despedir.
"Não posso garantir", replicou Gracie, os lábios se curvando em um sorriso tranquilo. "Mas nunca é ruim estar um passo à frente."
Na vida passada, Lina invadira o casamento e arruinara a cerimônia ao virar o público contra Ellie.
Jessie assentiu, refletindo por um momento. "Você tem razão. Mesmo sendo apenas um casamento contratual, e você não gostando de Brayden, Lina pode não enxergar as coisas dessa forma. É melhor estar em alerta."
Gracie confiava em Jessie por um motivo forte: na vida passada, ela morrera tentando protegê-la da fúria de Theo.
Desta vez, Gracie jurou que não permitiria que nada acontecesse à sua amiga.
Logo, os casais seguiram em direção ao grande salão onde ocorreria a cerimônia.
Na entrada, os quatro pararam, Gracie e Brayden à frente, imponentes e calmos, seguidos por Theo e Ellie logo atrás.
As portas se abriram, e uma salva de palmas ecoou pelo salão iluminado, como uma onda de entusiasmo.
Com seu charme natural, Brayden estendeu a mão, Gracie a aceitou, e os dois se moveram em perfeita harmonia.
Aos olhos dos convidados, eles formavam o casal ideal, refinados e alinhados.
Ellie caminhava alguns passos atrás. Antes de cruzar a entrada, passou uma última camada de batom, ajustou o cabelo e segurou o braço de Theo com um sorriso confiante.
Mas, assim que os refletores a atingiram, o salão mergulhou em um silêncio desconcertante, e os murmúrios cessaram.
De repente, um desconforto súbito subiu pelo corpo de Ellie, começando nos lábios e espalhando-se pelas bochechas em calor que queimava sem trégua.
Seu coração disparou ao se virar para Theo. "O que está acontecendo? Há algo de errado com meu rosto?"
Franzindo as sobrancelhas, Theo respondeu com um tom calmo, mas sério: "Fique calma. Parece só uma reação alérgica leve. Vou pedir que tragam uma pomada agora mesmo."
Ellie ficou estática, chocada com o que ouvia.
Uma reação alérgica? Isso não podia estar certo. A vítima deveria ser Gracie, e não ela!
Um lampejo de raiva se acendeu em seu olhar ao perceber o que acontecera — Gracie, sem dúvida, tinha interferido nisso!
Desde quando essa mulher dissimulada aprendera a agir com tanta frieza?