Capítulo 2

O silêncio do corredor era quase religioso. 

O ar, impregnado de mistério, parecia vibrar sob a batida grave do baixo que ecoava além das portas fechadas. Havia um compasso ali dentro, respirações contidas, gemidos abafados, couro estalando. Tudo formava uma sinfonia de prazer e dor cuidadosamente orquestrada.

O Red Velvet, o clube privado de Nikolai Romanov, não era um bar, não era um lounge, tampouco um ponto de encontro para curiosos. Era um templo. Um santuário dedicado à rendição e ao poder, onde só entrava quem merecia. Onde cada alma que cruzava aquelas portas sabia que jamais sairia a mesma.

Por trás da entrada principal, um mundo sombrio e luxuoso se revelava. As paredes negras eram revestidas de veludo, absorvendo cada som como se guardassem segredos proibidos. Lustres de cristal pendiam do teto, espalhando uma luz baixa, âmbar, que criava um jogo de sombras sinuosas sobre os rostos presentes. O chão de madeira polida refletia o brilho suave do ambiente, e o aroma era intoxicante, uma mistura de couro, perfumes caros e eletricidade no ar.

A música vibrava em ondas, lenta, profunda e sensual. Cada nota parecia invadir o corpo, ditando o ritmo de cada toque, de cada gemido, de cada rendição.

O Red Velvet era mais do que um clube. Era um convite. Um pacto silencioso. Uma promessa de que, ali, os limites seriam testados  e quebrados.

E, no centro de tudo, estava ele: Nikolai Romanov.

Sentado em uma ampla poltrona de couro preto, pernas afastadas, uma postura relaxada que escondia um controle absoluto,

Nikolai era um enigma envolto em carne, desejo e poder. A luz indireta iluminava o contorno preciso de suas feições: linhas afiadas, mandíbula marcada, lábios firmes, e um olhar cinza-azulado que parecia ver mais do que as palavras revelavam.

O cabelo loiro, penteado com perfeição, contrastava com o terno preto impecável que envolvia os ombros largos. A camisa branca estava parcialmente aberta, expondo um vislumbre do peitoral tatuado, e cada detalhe parecia calculado para seduzir e intimidar.

Ele não precisava falar, não precisava gritar. Enquanto outros dominavam com ordens, Nikolai comandava com silêncio.

Havia algo de quase hipnótico na forma como ele existia. Sua presença alterava o ambiente, despertava algo primitivo, visceral. Os olhares desviavam, os joelhos enfraqueciam. Até mesmo os dominadores mais experientes evitavam encará-lo diretamente.

Era impossível não sentir, era impossível não reagir.

À sua frente, no centro do salão principal, uma mulher ajoelhava-se sobre um tapete de veludo vermelho, os pulsos presos por tiras de couro que se cruzavam atrás das costas. O corpo dela tremia, a respiração vinha curta, e o rosto estava abaixado, obediente, incapaz de ousar encontrar o olhar dele.

Nikolai entrelaçou os dedos sobre o joelho, inclinando o corpo levemente para frente. O movimento foi mínimo, quase imperceptível, mas o efeito foi devastador. A tensão no salão se adensou como se o ar tivesse ficado mais pesado.

- Olhe para mim. - A voz dele saiu baixa, grave, aveludada, carregada de um poder que não aceitava resistência.

A mulher hesitou, engoliu em seco e, com lentidão quase ritual, ergueu os olhos. Um arrepio atravessou seu corpo quando encontrou o gelo cortante do olhar cinza de Nikolai.

Não havia raiva nele, não havia pressa, apenas controle absoluto.

- Você sabe por que está aqui? - perguntou, com uma serenidade que era mais ameaçadora do que qualquer grito.

Ela assentiu, mas o tremor nos ombros a denunciava.

Foi então que o sorriso surgiu. Um sorriso lento, perigoso, devastador. Nikolai se levantou, e caminhou até a mulher com passos silenciosos. A sola dos seus sapatos tocaram o piso de madeira com uma precisão meticulosa. O perfume dele, uma mistura de âmbar, couro e notas amadeiradas, invadiu o espaço entre eles, de maneira intoxicante.

Ele caminhou em círculos ao redor dela, estudando-a. Seu olhar deslizava sobre cada detalhe: o rubor no pescoço, o tremor da respiração, a pele arrepiada sob a tensão. Cada sinal era um livro aberto para ele.

Parou atrás dela, tão próximo que o calor do corpo dele parecia tocar sua pele. Inclinou-se, o rosto chegando perto o bastante para que os lábios quase roçassem a orelha dela.

- Quero que se lembre de uma coisa... - murmurou, com uma voz baixa e profunda, que mais acariciava do que falava. - Aqui... você não pensa. Aqui... você não decide. Aqui... você obedece.

O suspiro dela escapou sem permissão, os lábios entreabertos, os olhos fechados.

Foi então que ele ergueu a mão e a ponta dos dedos percorreu a linha da mandíbula dela, um toque quase carinhoso, mas carregado de poder. Um gesto calculado para lembrar que a submissão ali não era pedida, era exigida.

- S-sim, Mestre... - a voz dela falhou, mas o sussurro ecoou no salão como um pacto.

Nikolai sorriu. Um sorriso curto, satisfeito, letal. Deu um passo para o lado, pegando o chicote fino de couro sobre a mesa próxima. Girou-o nos dedos, devagar, com elegância quase artística. Mas Nikolai Romanov nunca se apressava. Cada toque, cada palavra, cada pausa era um golpe calculado.

- Boa garota... - disse, com a voz baixa, carregada de um calor perigoso. - Agora... vamos começar.

O primeiro estalo ecoou no ar. O couro cortou o silêncio com precisão cirúrgica, e o som vibrou no peito de quem assistia.

Ninguém ousava falar. Ninguém ousava respirar mais alto.

No Red Velvet, Nikolai Romanov não era apenas o dono.

Ele era a lei.

E, naquela noite, como em todas as outras, ele lembraria a todos que ousassem atravessar aquelas portas quem era o verdadeiro

Mestre.

Capítulo 3

O inverno russo castigava São Petersburgo com seu vento cortante, mas o que gelava Irina Petrov por dentro não tinha nada a ver com o frio. Aos 19 anos, ela já conhecia o peso do desespero. A vida lhe havia arrancado a inocência cedo demais, deixando cicatrizes invisíveis, gravadas no coração.

Seus cabelos loiros dourados caíam em ondas suaves pelos ombros, a pele clara parecia quase etérea sob a luz cinzenta da cidade, e os olhos verdes intensos guardavam um brilho que chamava atenção sem esforço. Uma beleza quase perigosa, uma mistura de fragilidade e força, de luz e sombra. Quem a olhava, sentia que havia nela segredos que não ousava revelar.

Mas, por trás da aparência angelical, havia uma jovem que carregava o peso do mundo sobre os ombros. E agora, pela primeira vez, estava prestes a tomar uma decisão que mudaria tudo.

Duas semanas antes, a vida dos Petrov desmoronou. Alexei Petrov, o pai de Irina, um homem outrora respeitado, havia perdido tudo para os cassinos de Moscou. Dinheiro, propriedades, influência... tudo evaporou. Envergonhado, ele fugiu deixando sua família desprotegida e sem um pilar. As dívidas se multiplicaram, e as ameaças chegaram.

Foi numa manhã fria de domingo que o inevitável bateu à porta.

Irina abriu e se deparou com um homem alto, de expressão impenetrável, vestido com um terno escuro impecável. O homem estava parado na porta enquanto o vento gelado de Moscou entrava com ele, trazendo um peso que parecia sufocar o ar. Seu terno escuro estava impecável, mas o olhar era duro, frio e impiedoso. Em uma mão, ele carregava uma pasta de couro. Na outra, um cigarro aceso que exalava um cheiro amargo.

Irina engoliu em seco, sentindo a garganta secar quando os olhos dele pousaram sobre ela. Não havia simpatia, nem compaixão. Só cálculo e ameaça.

Ele abriu a pasta devagar, tirando de dentro um envelope grosso. Estendeu-o para Ekaterina, que hesitou antes de pegar, como se o simples toque pudesse queimar.

- Vocês têm trinta dias para quitar a dívida. - A voz do homem soou baixa, rouca, mas carregada de um peso que fez o estômago de Irina revirar. Cada palavra vinha pausada, como um veredito. - Caso contrário... a casa será confiscada.

Fez uma pausa longa, olhando para o interior da casa com desdém. Seu olhar percorreu os móveis simples, os tapetes gastos, os retratos na parede, como se medisse tudo o que poderia ser tomado deles.

Então, inclinou-se levemente para frente, abaixando a voz, tornando-a ainda mais cortante:

- E vocês... despejadas.

Ekaterina apertou o envelope contra o peito, encarando o homem com o rosto pálido, mas o homem não havia terminado. Um sorriso lento, perturbador, surgiu no canto dos seus  lábios.

- Claro... - disse, ajeitando o paletó, como quem escolhe as palavras com precisão. - Sempre existem... outras formas de pagamento.

Irina sentiu o corpo inteiro gelar. O olhar dele a percorreu de cima a baixo, lento, insolente, parando por um instante nos lábios dela antes de voltar para os olhos.

- Uma garota bonita como você... - murmurou, com um tom que fez o sangue de Irina ferver de indignação e medo. - Com toda certeza... o senhor Gorbachev aceitaria"acertar" a dívida de outro jeito.

Ekaterina deu um passo à frente, colocando-se instintivamente entre o homem e a filha o encarando furiosa. 

- O senhor não tem o direito de falar assim! - disse, com a voz trêmula, porém  firme.

O homem ergueu as sobrancelhas, como se estivesse se divertindo com a reação.

- Direito? - Ele riu, um som baixo e seco. - Não, senhora Petrov... não é questão de direito. É negócio. Quem tem o poder... define as regras e o senhor Gorbachev não é um homem paciente, isso pode custar mais caro do que vocês possam imaginar. 

Então, recuou um passo, colocando as mãos nos bolsos com um ar calculado, antes de soltar o último golpe:

- Pensem bem. Trinta dias passam rápido... e tudo tem um preço.

E saiu, fechando a porta devagar, como quem sabia que havia deixado uma bomba-relógio para trás.

Ekaterina estava parada ao lado da porta, tentando manter a postura, embora os olhos marejados a traíssem. No tapete da sala, Anastácia, sua irmãzinha de cinco anos, abraçava o ursinho de pelúcia gasto, com os olhos azuis cheios de inocência, sem imaginar que todo o mundo delas estava prestes a ruir.

naquele instante que Irina entendeu que não havia saída fácil.

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