Capítulo 2

Senhor James – Elizabeth o cumprimentou com uma afeição genuína.

– É um prazer revê-lo – ela estendeu as mãos, que foram prontamente envoltas pelas

mãos muito maiores de Avery, cujo rosto se acendeu num raro sorriso. De braços

dados, ele a conduziu pelas portas francesas até um átrio interior.

Ela apertou seu braço:

– Pensei que talvez eu tivesse chegado tarde demais para meu compromisso.

– Não diga isso, Lady Hawthorne – ele respondeu com uma bondade áspera. – Eu

teria esperado a noite toda.

Inclinando a cabeça para trás, Elizabeth respirou fundo o ar exuberantemente

perfumado. A inebriante fragrância dentro do vasto espaço aberto era um alívio

prazeroso e muito bem-vindo depois dos cheiros de fumaça e cera queimada, talcos

e perfumes fortes que tomavam conta do salão.

Enquanto eles andavam casualmente pelos caminhos, Elizabeth se virou para

Avery e perguntou:

– Imagino que você seja o agente designado a me ajudar, estou correta? Ele sorriu:

– Sim, serei o parceiro de outro agente nesta missão.

– É claro – sua boca se curvou num lamento. – Vocês sempre trabalham em pares,

não é? Igual a Hawthorne e meu irmão.

– Essa maneira funciona bem, milady, e já salvou vidas. Seus passos se tornaram

hesitantes. Salvou algumas vidas.

– Lamento a existência da agência, senhor James. O casamento de William e a

subsequente renúncia é uma bênção pela qual eu agradeço. Ele quase morreu na

noite em que perdi meu marido. Aguardo ansiosa-mente o dia em que a agência não

fará mais parte da minha vida.

– Faremos o possível para resolver isso com a maior rapidez – ele a assegurou.

– Sei que farão – ela suspirou. – Estou contente por você ser um dos agentes que

Lorde Eldridge escolheu.

Avery apertou sua mão.

– Estou grato pela oportunidade de encontrá-la novamente. Já faz vários meses

desde nosso último encontro.

– Já se passou tanto tempo? – ela perguntou, franzindo a testa. – Estou perdendo a

noção do tempo.

– Gostaria de poder dizer o mesmo... – uma voz familiar vinda de trás os

interrompeu. – Infelizmente, os últimos quatro anos foram uma eternidade para mim.

Elizabeth ficou tensa, seu coração parou por um momento antes de as batidas

começarem a acelerar.

Avery virou os dois para encararem o visitante:

– Ah, aqui está meu parceiro. Soube que você e Lorde Westfield são velhos

conhecidos. Espero que tal circunstância fortuita possa apressar as coisas.

– Marcus – ela sussurrou, arregalando os olhos quando a razão de sua presença a

atingiu como um golpe físico.

Ele fez uma reverência:

– Aos seus serviços, madame.

Os joelhos de Elizabeth fraquejaram e Avery apertou a mão para estabilizá-la.

– Lady Hawthorne?

Marcus a alcançou com duas passadas:

– Não desmaie, meu amor. Respire fundo.

Parecia uma tarefa impossível enquanto ofegava como um peixe fora d’água,

repentinamente sentindo todo o aperto do espartilho. Ela fez um gesto para que ele

se afastasse, pois sua mera aproximação e o aroma de sua pele dificultavam ainda

mais o trabalho de seus pulmões.

Elizabeth observou quando Marcus lançou um olhar sério para Avery, que por sua

vez se virou e foi embora, fingindo interesse nas folhas de uma distante samambaia.

Sentindo um pouco de tontura, mas já se recuperando, Elizabeth balançou a

cabeça rapidamente:

– Marcus, você realmente perdeu o juízo.

– Ah, já está se sentindo melhor – ele disse pausadamente, com um tom de ironia

na voz.

– Vá se divertir com outra pessoa. Recuse esta missão. Deixe a agência.

– Sua preocupação é comovente, porém, confusa, considerando seu desprezo pelo

meu bem-estar no passado.

– Guarde seu sarcasmo para outro dia – ela respondeu irritada. – Não tem noção

de onde está se metendo? É perigoso trabalhar para Lorde Eldridge. Você pode se

machucar. Ou ser morto.

Marcus soltou um longo suspiro:

– Elizabeth, você está nervosa demais.

Ela o olhou com olhos cerrados e depois vislumbrou Avery, que permanecia

estudando a samambaia. Então, baixou a voz:

– Desde quando você é um agente? O queixo de Marcus se apertou:

– Quatro anos.

– Quatro anos? – Ela tropeçou para trás. – Você já era um agente quando

começou a me cortejar?

– Sim.

– Maldito seja – sua voz não era mais do que um sussurro aflito. – Quando

esperava relevar isso a mim? Ou eu nunca deveria saber até que você voltasse para

casa num caixão?

Marcus fechou o rosto e cruzou os braços.

– Não vejo a importância disso agora.

Ela endureceu o corpo diante do tom gélido de sua voz.

– Todos esses anos eu temia abrir o jornal e encontrar o anúncio de seu

casamento. Mas agora entendo que o que eu deveria temer era encontrar seu

obituário. – virando-se, Elizabeth levou a mão ao coração acelerado: – Como

gostaria que você tivesse permanecido longe, muito longe de mim – tomando a saia

com as mãos, ela começou a correr: – Juro por Deus que gostaria de nunca tê-lo

conhecido.

As batidas do sapato dele no chão de mármore foram o único alerta antes de seu

cotovelo ser agarrado e seu corpo, virado.

– O sentimento é mútuo – ele grunhiu.

Marcus se agigantou sobre ela, sua boca sensual tensa de raiva, seu olhar

brilhando com algo que a fazia tremer.

– Como Lorde Eldridge pôde escolher você para mim? – ela lamentou. – E por

que você aceitou?

– Fui eu quem insistiu para ser o escolhido nesta missão.

Ao ver sua surpresa, os lábios dele se apertaram ainda mais:

– Não se engane. Você fugiu de mim uma vez. Não permitirei que aconteça de

novo – ele a puxou mais para perto e o ar entre eles quase sumiu. Sua voz se tornou

séria: – Não me importo se você se casar com o próprio rei desta vez. Você será

minha.

Ela tentou se desvencilhar, mas ele segurava firme.

– Meu Deus, Marcus. Já não causamos tristeza suficiente um ao outro?

– Ainda não – ele a empurrou, como se a proximidade dela fosse desagradável. –

Agora, vamos tratar desse assunto a respeito de seu falecido marido para que Avery

possa se retirar.

Tremendo, Elizabeth dirigiu-se rapidamente em direção a Avery. Marcus a seguiu

com a graça predatória de um felino selvagem.

Não havia dúvida de que era ela quem estava sendo caçada. Elizabeth parou ao

lado de Avery e respirou fundo antes de se virar. Marcus a observava com uma

expressão indecifrável.

– Soube que recebeu um livro escrito por seu falecido marido – ele esperou pela

confirmação silenciosa dela. – Sabe quem foi o remetente?

– A caligrafia no pacote era de Hawthorne. Obviamente foi endereça-do algum

tempo atrás, o papel do embrulho estava amarelado e a tinta, desbotada – ela havia

passado dias tentando entender aquele pacote, incapaz de determinar sua origem ou

propósito.

– Seu marido endereçou um pacote para si mesmo que chegou três dias após seu

assassinato – Marcus estreitou os olhos. – Por acaso ele deixou algum grille1, algum

cartão com furos estranhos, qualquer coisa escrita que pareceu incomum?

– Não, nada – ela retirou da bolsa um fino diário e a carta que recebera apenas

alguns dias atrás. Entregou os dois a Marcus.

Após uma breve análise, ele guardou o diário dentro do casaco e passou os olhos

pela carta, juntando as sobrancelhas conforme prosseguia com a leitura.

– Na história da agência, apenas o assassinato de Lorde Hawthorne permanece um

mistério. Eu tinha esperança de te envolver o mínimo possível neste caso.

– Farei o que for necessário – ela ofereceu rapidamente. – Hawthorne merece

justiça, e se meu envolvimento for requisitado, então que seja – ela faria qualquer

coisa para acabar com isso.

Marcus dobrou a missiva cuidadosamente:

– Não gosto de expô-la ao perigo.

Com as emoções à flor da pele, Elizabeth retrucou:

– Então você quer me proteger expondo a si mesmo? Tenho muito mais interesse

no resultado desta missão do que você ou a sua preciosa agência.

Marcus rugiu o nome dela como alerta.

Avery limpou a garganta fazendo um som alto:

– Parece que vocês dois não trabalharão bem juntos. Sugiro levar essa dificuldade

para Lorde Eldridge. Estou certo de que existem outros agentes que...

– Não! – a voz de Marcus estalou como um chicote.

– Sim! – Elizabeth quase desabou de alívio. – Uma excelente sugestão – seu

sorriso era sincero. – Certamente Lorde Eldridge entenderá a razão desse pedido.

– Fugindo novamente? – Marcus provocou.

Ela o encarou:

1 O método grille foi desenvolvido pelo cardeal francês Richelieu, no século XVI.

Seu propósito era criar mensagens secretas que poderiam ser decifradas somente

com um cartão especial cheio de furos em lugares estratégicos. (N. T.)

– Estou sendo prática. Você e eu obviamente não podemos nos associar um ao

outro.

– Prática – ele deu uma risada irônica. – Você quis dizer que está sendo covarde.

– Lorde Westfield! – Avery franziu as sobrancelhas.

Elizabeth ergueu a mão.

– Deixe-nos por um momento, senhor James. Por favor – seus olhos

permaneceram grudados no rosto de Marcus enquanto Avery hesitava.

– Ouça a mulher – Marcus murmurou, encarando-a de volta.

Avery resmungou, então girou o corpo e se afastou contrariado. Elizabeth foi

direto ao assunto:

– Se eu for forçada a trabalhar com você, Westfield, eu simplesmente me

recusarei a compartilhar qualquer informação com a agência. Resolverei a situação

sozinha.

– De jeito nenhum! – os músculos do maxilar de Marcus começaram a se apertar.

– Não permitirei que você se exponha ao perigo. Tente algo tolo e verá o que

acontece. Eu lhe asseguro de que não gostará do resultado.

– É mesmo? – ela zombou, recusando-se a se acovardar diante de uma fronte que

assustava a maioria dos homens. – E como você acha que irá me impedir?

Marcus se aproximou ameaçadoramente:

– Sou um agente da Coroa...

– Você já disse isso.

– ... em uma missão especial. Se apenas pensar em prejudicar a missão, irei

considerar suas ações como traição e as tratarei como tal.

– Você não se atreveria! Lorde Eldridge não permitiria.

– Oh, mas eu faria, e ele não me impediria – Marcus parou bem em frente a ela. –

É provável que este livro seja um diário das atividades de Hawthorne e pode estar

relacionado à sua morte. Se for o caso, você está em perigo. Eldridge não irá tolerar

isso mais do que eu.

– E por que não? – ela o desafiou. – Seus sentimentos em relação a mim estão

óbvios.

Ele chegou ainda mais perto, até que a ponta de seus sapatos desaparecesse

debaixo da saia dela:

– Aparentemente não é verdade. Porém, se quiser mesmo, apresente seu caso para

Eldridge. Diga a ele o quanto você fica abalada na minha presença e o quanto ainda

me deseja. Conte a ele todo nosso sórdido passado e como nem mesmo a memória

de seu querido esposo falecido é capaz de fazê-la superar seu desejo.

Ela o observou, e então sua boca se abriu quando uma risada seca escapou.

– Sua arrogância é impressionante – Elizabeth se virou, escondendo a tremedeira

em suas mãos. Ele que ficasse com o maldito diário. Ela procuraria Eldridge logo

pela manhã.

A risada zombeteira de Marcus a seguiu:

– Minha arrogância? É você quem pensa que é tudo por causa disso. Elizabeth parou

e olhou para trás:

– Você fez disso uma questão pessoal com suas ameaças.

– Você e eu nos tornando amantes não é uma ameaça. É uma conclusão que

possui antecedentes e que nada tem a ver com o diário de seu marido – ele ergueu a

mão quando ela tentou argumentar. – Poupe seu fôlego. Esta missão é importante

para Eldridge. Insisti em participar só por causa disso. Levá-la para minha cama não

requer que eu trabalhe com você.

– Mas... – ela fez uma pausa, lembrando-se do ele falara anteriormente. Marcus

não havia dito que sua insistência tinha a ver com ela. Seu rosto enrubesceu.

Ele passou casualmente ao seu lado em direção ao salão.

– Então, sinta-se livre para revelar a Eldridge a razão de você não poder trabalhar

comigo. Apenas certifique-se de que ele entenda que eu não tenho problemas em

trabalhar com você.

Apertando os dentes, Elizabeth segurou sua vontade de praguejar tudo o que

pudesse pensar. Tola, ela não era. Entendia muito bem o jogo dele. Também entendia

que ele não a deixaria em paz até decidir que já tivera o bastante, com ou sem

missão. A única parte desse desastre que estava ao alcance de suas mãos era se

sobreviveria a isso com seu orgulho intacto.

Seu estômago se apertou. Agora que havia retornado à sociedade, teria de assistir

às seduções dele. Seria forçada a conviver com as mulheres que ele perseguia. Veria

os sorrisos que ele trocaria com outras, mas não com ela.

Maldição. Sua respiração disparou. Contra todo seu instinto de dignidade e

inteligência, ela deu o primeiro passo para segui-lo.

O leve toque em seu cotovelo a lembrou da presença de Avery:

– Lady Hawthorne. Está tudo bem?

Ela assentiu sem muito entusiasmo. Avery continuou:

– Falarei com Lorde Eldridge assim que possível e...

– Isso não será necessário, senhor James.

Elizabeth esperou até Marcus dobrar a esquina e desaparecer de vista antes de

encarar Avery.

– Meu papel é apenas entregar o diário. Feito isso, o resto depende de você e

Lorde Westfield. Não vejo necessidade para mudar os agentes.

– Tem certeza disso?

Ela assentiu novamente, ansiosa para terminar a conversa e retornar ao salão.

Avery estava claramente cético, mas mesmo assim disse:

– Muito bem. Vou atribuir dois homens para escoltá-la. Leve-os consigo a

qualquer lugar e me avise assim que receber detalhes sobre o encontro.

– É claro.

– Já que terminamos aqui, irei partir – o sorriso dele mostrava um toque de alívio.

– Nunca gostei muito desses eventos.

Ele tomou a mão dela e a beijou.

– Elizabeth? – a voz profunda de William retumbou pelo vasto espaço. Com olhos

arregalados, ela apertou os dedos de Avery:

– Meu irmão não pode vê-lo. Ele suspeitará imediatamente que algo está errado.

Avery, agradecido com sua preocupação e treinado para reagir rápido, assentiu e

se escondeu atrás de um arbusto.

Virando-se, ela vislumbrou William se aproximando. Igual a Marcus, ele não

media seus passos. Andou até ela com uma graça casual, sem mostrar qualquer sinal

do ferimento em sua perna que quase o matou.

Embora fossem irmãos, não poderiam ser mais diferentes. Ela possuía os cabelos

negros e os olhos de ametista de sua mãe. William tinha os cabelos claros e olhos

azuis de seu pai. Alto e de ombros largos, ele tinha a aparência de um viking, forte e

perigoso, mas com um toque de jovialidade, notável pelas linhas que marcavam seus

olhos, feitas obviamente por risadas.

– O que está fazendo aqui? – ele perguntou, lançando um olhar curioso ao redor

do átrio.

Elizabeth enganchou seu braço no dele e o conduziu até o salão.

– Estava apenas admirando a vista. Onde está Margaret?

– Está com algumas amigas – William diminuiu os passos e então parou,

forçando-a a parar também. – Soube que você dançou com Westfield há pouco.

– Você já quer antecipar as fofocas?

– Fique longe dele, Elizabeth – ele alertou suavemente.

– Não havia jeito educado de dispensá-lo.

– Não seja educada. Não confio nele. Acho estranha a presença dele aqui hoje.

Ela suspirou tristemente pensando no rompimento que causara. Marcus não daria

um bom marido, mas sempre fora um bom amigo para William.

– A reputação que ele estabeleceu nos últimos anos justificaram minhas ações do

passado. Não há perigo algum de eu cair em seus encantos novamente, isso eu

garanto.

Puxando William pelo salão, Elizabeth sentiu-se aliviada quando seu irmão não

ofereceu mais resistência. Se andassem depressa, ela poderia ver para onde Marcus

havia se dirigido.

Marcus saiu de seu esconderijo atrás de uma árvore e tirou uma folha solta em

seu ombro. Batendo a terra dos sapatos, seus olhos permaneceram grudados em

Elizabeth até ela desaparecer de vista. Ficou imaginando se o desejo enlouquecedor

que sentia por ela se mostrava óbvio de-mais. Seu coração acelerava e suas pernas

doíam pelo esforço de impedir a si mesmo de correr atrás dela.

Elizabeth era irritantemente teimosa e obstinada, e era justamente por causa disso

que ele sabia que era perfeita para ele. Nenhuma outra mulher conseguia despertar

sua paixão daquela forma. Furioso ou consumido pela luxúria, apenas Elizabeth

fazia seu sangue ferver com a necessidade de possuí-la.

Rezava a Deus que esse sentimento fosse amor. Pois o amor eventual-mente se

esvanece, apagando assim que o combustível se acaba. A fome apenas piora com o

tempo, corroendo e implorando até que seja saciada.

Avery apareceu ao seu lado.

– Se isso é o que você chama de “velha amiga”, milorde, eu odiaria saber como

são seus inimigos.

Seu sorriso não guardava nenhum humor.

– Ela deveria ter sido minha esposa – um silêncio mortal foi sua resposta: – Por

acaso eu o deixei sem palavras?

– Maldição.

– Essa é uma descrição apropriada – baixando a voz, Marcus perguntou: – Ela

planeja falar com Eldridge?

– Não – Avery lançou um olhar de soslaio. – Tem certeza de que seu

envolvimento é sensato?

– Não – admitiu, aliviado por seu esquema ter funcionado e agradeci-do por,

apesar da passagem do tempo, ainda a conhecer tão bem. – Mas estou certo de que

não tenho alternativa.

– Eldridge está determinado a encontrar o assassino de Hawthorne. No decorrer de

nossa missão, talvez sejamos forçados a deliberadamente colocar Lady Hawthorne

em perigo para alcançarmos nosso objetivo.

– Não. Hawthorne está morto. Arriscar a vida de Elizabeth não o tra-rá de volta.

Encontraremos outras maneiras de prosseguir com a missão.

Avery sacudiu a cabeça numa estupefação silenciosa:

– Espero que saiba o que está fazendo, já que eu não sei. Agora, se me permite,

sairei pelo jardim, antes que mais alguma inconveniência ocorra.

– Eu o acompanharei.

Começando a andar ao lado de seu parceiro, Marcus riu diante da sobrancelha

erguida de Avery:

– Durante uma longa batalha, um homem deve estar preparado para recuar para

que possa retornar revigorado para aproveitar o dia.

– Santo Deus. Batalhas, irmãos, noivados rompidos. Sua história pessoal com

Lady Hawthorne irá apenas trazer problemas.

Capítulo 3

Estou sitiada! – Elizabeth reclamou quando outro grande arranjo de flores foi

colocado na sala de estar.

– Existem coisas piores para uma mulher do que ser cortejada por um homem

diabolicamente bonito – Margaret disse secamente, enquanto ajeitava a saia e

sentava-se no sofá.

– Você é uma romântica incurável, sabia? – Levantando-se, Elizabeth pegou uma

pequena almofada rendada e a colocou atrás das costas de sua cunhada. Ela manteve

seu olhar afastado do obviamente caro arranjo de flores. Marcus havia insinuado que

seu interesse era tão profissional quanto carnal, e ela sempre estivera o mais

preparada possível para tal combate. Mas este galante ataque a suas sensibilidades

femininas foi uma total surpresa.

– Estou grávida – Margaret protestou enquanto Elizabeth cuidava de seu conforto.

– Não sou uma inválida.

– Permita-me paparicá-la um pouco. Isso me deixa tão feliz.

– Tenho certeza de que serei agradecida no futuro, mas, por enquanto, sou bem

capaz de cuidar de mim mesma.

Apesar da reclamação, Margaret se ajeitou na almofada com um suspiro de prazer,

o leve brilho de sua pele combinando perfeitamente com os cachos de seu cabelo

escuro.

– Permita-me discordar. Você parece mais magra aos cinco meses do que antes.

– Quase cinco meses – Margaret corrigiu. – E é difícil comer quando você se

sente miserável o tempo todo.

Apertando os lábios, Elizabeth pegou um bolinho, colocou-o sobre um prato,

e ofereceu a Margaret.

– Aqui, coma – ela ordenou.

Margaret aceitou com um olhar zombeteiro, e então disse:

– William diz que todos estão apostando sobre as intenções matrimoniais de

Lorde Westfield.

Enquanto preparava o chá, Elizabeth ofegou:

– Santo Deus.

– Você se tornou uma lenda quando o dispensou. Um Conde tão bonito e desejado

que todas as mulheres o querem para si. Exceto você.

É simplesmente uma história boa demais para ignorar. A história de um amor

libertino frustrado.

Elizabeth bufou com desdém.

– Você nunca me contou o que Lorde Westfield fez para você romper o

noivado – disse Margaret.

As mãos de Elizabeth tremeram enquanto ela mexia as folhas na água

fervente.

– Isso foi há muito tempo, Margaret, e como já disse muitas vezes antes, não vejo

razão para discutir isso.

– Sim, sim, eu sei. Porém, ele claramente deseja sua companhia, como vimos

depois das muitas tentativas de contatá-la. Admiro a serenidade de Westfield. Ele

nem mesmo pisca quando é dispensado. Apenas sorri, diz algo charmoso e vai-se

embora.

– O homem tem muito charme, isso eu reconheço. As mulheres correm atrás dele

em bandos, fazendo papel de tolas.

– Você parece estar com ciúmes.

– Não estou – ela afirmou. – Um ou dois torrões de açúcar? Bem, na verdade,

você precisa de dois.

– Não mude de assunto. Conte-me sobre essa ciumeira. As mulheres também

achavam Hawthorne atraente, mas isso nunca pareceu incomodá-la.

– Hawthorne era fiel.

Margaret aceitou a xícara de chá com um sorriso gracioso:

– E você disse que Westfield não era.

– Não – Elizabeth respondeu com um suspiro.

– Tem certeza?

– Não poderia ter mais certeza nem se o flagrasse no ato. Os olhos verdes de

Margaret se estreitaram.

– Você tomou a palavra de terceiros sobre a do seu próprio noivo? Sacudindo a

cabeça, Elizabeth tomou um gole encorajador antes de

responder.

– Eu tinha um assunto importante para tratar com Lorde Westfield, tão importante

que fui pessoalmente à sua casa numa certa noite...

– Sozinha? O que em nome de Deus poderia incitá-la a agir assim tão

precipitadamente?

– Margaret, você quer ou não ouvir a história? Já é difícil o bastante falar disso

sem suas interrupções.

– Desculpe – ela respondeu quase em silêncio. – Por favor, continue.

– Esperei durante alguns minutos até que ele viesse me receber. Quando apareceu,

seu cabelo estava úmido, a pele corada, e vestia um roupão.

Elizabeth encarou o conteúdo de sua xícara e sentiu-se mal.

– Continue – Margaret insistiu quando ela permaneceu quieta.

– Então, a porta por onde ele surgiu se abriu e uma mulher apareceu. Vestida do

mesmo jeito, com o cabelo tão úmido quanto.

– Meu Deus! Isso deve ter sido bem difícil de explicar. Como ele tentou fazer

isso?

– Não tentou – Elizabeth soltou uma risada seca e sem humor. – Disse que não

tinha a liberdade de discutir o assunto comigo.

Franzindo as sobrancelhas, Margaret baixou sua xícara e a colocou sobre a mesa.

– Ele tentou explicar em outra ocasião?

– Não. Eu fugi com Hawthorne, e Westfield deixou o país até o fale-cimento de

seu pai. Até o baile no Moreland, na semana passada, nunca havíamos cruzado

nossos caminhos.

– Nunca? Talvez Westfield tenha aceitado seus erros e agora queira consertar as

coisas – Margaret sugeriu. – Deve haver alguma razão para ele a perseguir com tanta

obstinação.

Elizabeth tremeu ao ouvir a palavra “perseguir”.

– Confie em meu julgamento. O objetivo dele não é tão nobre quanto consertar os

erros do passado.

– Flores, visitas diárias...

– Vamos conversar sobre algo menos desagradável, Margaret – ela alertou. – Ou

irei tomar chá em outro lugar.

– Oh, certo. Você e seu irmão são mesmo teimosos.

Mas Margaret nunca fora uma pessoa que desistia fácil, e por ser as-sim

conseguiu convencer William a deixar a agência e casar-se com ela. Portanto,

Elizabeth previu que Margaret voltaria ao assunto, e não ficou surpresa quando isso

aconteceu mais tarde naquela noite.

– Ele é um homem tão bonito.

Elizabeth seguiu o olhar de Margaret pela multidão de convidados durante o jantar

na casa dos Dempsey. Encontrou Marcus de pé ao lado de Lady Cramshaw e de sua

adorável filha, Clara. Elizabeth fingiu ignorá-lo mesmo quando analisava cada passo

dele.

– Após ouvir sobre nosso passado, como você pode se encantar com o rosto do

Conde?

Ela havia deliberadamente evitado os eventos sociais da última se-mana, mas no

fim aceitara o convite dos Dempsey, certa de que o baile dos Faulkner ao final da

rua provavelmente seria mais atrativo para Marcus. Mas o impertinente homem a

encontrou mesmo assim, e sua aparência era impecável. Seu casaco vermelho-escuro

chegava até as coxas e era ricamente decorado com fios dourados. A pesada seda

brilhava debaixo das luzes das velas, assim como os rubis que adornavam seus

dedos e gravata.

– Perdão? – Margaret virou a cabeça, com olhos arregalados de estupefação.

Elizabeth apontou seu leque para o outro lado do salão. Foi então que ela viu

William e sentiu o rosto corar furiosamente por causa de seu erro.

Margaret riu.

– Eles formam um casal incrível, seu Westfield e Lady Clara.

– Ele não é meu e tenho pena da pobre garota se ela despertou o desejo dele –

Elizabeth ergueu o queixo e desviou os olhos.

O farfalhar de sedas pesadas de uma saia anunciou uma nova participante na

conversa.

– Concordo – murmurou a velha Duquesa de Ravensend. – Ela é apenas uma

criança e nunca poderia fazer justiça àquele homem.

– Minha senhora – Elizabeth fez uma breve reverência diante de sua sogra.

A duquesa tinha um brilho malicioso nos suaves olhos marrons.

– A sua viuvez é uma infelicidade, minha querida, mas apresenta uma

oportunidade renovada para você e o Conde.

Elizabeth fechou os olhos e implorou por paciência. Desde o princípio, sua sogra

defendia as qualidades de Marcus.

– Westfield é um tratante. Eu me considero uma felizarda por ter descoberto esse

fato antes de dizer os meus votos.

– Ele possivelmente é o homem mais bonito que já vi – Margaret observou. –

Depois de William, é claro.

– E muito bem educado – a duquesa acrescentou observando Marcus através de

seu binóculo. – Material de primeira para um marido.

Suspirando, Elizabeth ajeitou a saia e tentou não revirar os olhos.

– Gostaria que vocês duas esquecessem a ideia de que eu me casarei novamente.

Pois não irei.

– Hawthorne era pouco mais do que um garoto – notou a duquesa.

– Westfield é um homem. Você descobrirá que é uma experiência muito diferente se

o escolher para compartilhar a cama. Ninguém aqui disse nada sobre casamento.

– Não tenho desejo algum de ser acrescentada à lista de conquistas desse

libertino. Ele é um conquistador. Você não pode negar isso, minha senhora.

– Há vantagens nos homens com experiência – Margaret sugeriu. – Casada com

seu irmão, eu posso atestar – ela sacudiu a sobrancelha de modo sugestivo.

Elizabeth estremeceu.

– Margaret, por favor.

– Lady Hawthorne.

Virando-se rapidamente, ela encarou George Stanton com um sorriso agradecido.

Ele fez uma reverência, com o bonito rosto exibindo um sorriso amigável.

– Será um prazer dançar com você – ela disse, antes mesmo que ele pedisse.

Ansiosa para fugir da conversa, Elizabeth ofereceu a mão e permitiu que ele a

conduzisse para longe.

– Obrigada – ela sussurrou.

– Achei que você precisava ser resgatada.

Ela sorriu quando tomaram seu lugar na fila.

– Você é muito perspicaz, meu querido amigo.

Olhando de soslaio, ela observou Marcus oferecer-se para levar a jovem Clara

para a pista de dança. Enquanto ele se aproximava dela, Elizabeth não pôde deixar

de admirar seu andar sedutor. Um homem que se movia daquela maneira com

certeza seria um especialista na arte do amor. Outras mulheres também o

observavam, cobiçando-o da mesma forma que ela o fazia, desejando-o...

Quando ele ergueu o olhar em sua direção, Elizabeth desviou os olhos

rapidamente de seu sorriso mordaz. O homem sabia como irritá-la e não se furtava a

usar esse conhecimento para sua vantagem.

Quando os passos da contra-dança aproximaram os dançarinos para depois

separá-los, ela continuou seguindo o progresso dele com o canto do olho. O próximo

passo os colocaria frente a frente. Uma forte expectativa correu por suas veias.

Ela se afastou de George e virou-se graciosamente para encarar Mar-cus. Sabendo

que o encontro seria breve, ela se permitiu aproveitar a visão e o perfume dele. O

desejo se acendeu instantaneamente. Ela o via nos olhos dele, sentia-o em seu

próprio sangue. Então, se afastou com um suspiro de alívio.

Quando a música terminou, Elizabeth se ergueu de sua curta reverência. Ela não

resistiu a um sorriso. Fazia tanto tempo desde a última vez que dançara que quase se

esquecera do quanto gostava disso.

George retribuiu o sorriso e habilmente os recolocou em posição para a próxima

dança.

Alguém parou em frente aos dois, bloqueando o caminho. Antes que pudesse

olhar, ela sabia quem era. Seu coração acelerou as batidas.

Obviamente, ela subestimou até onde Marcus chegaria para conquistar seus

objetivos.

Ele os cumprimentou assentindo brevemente.

– Senhor Stanton.

– Lorde Westfield – George olhou para Elizabeth franzindo as sobrancelhas.

– Lady Clara, permita-me apresentar-lhe o senhor George Stanton – Marcus disse.

– Stanton, esta é a adorável Lady Clara.

George tomou a mão de Clara e reverenciou-se.

– É um prazer.

Antes que Elizabeth pudesse adivinhar suas intenções, Marcus lhe estendeu a

mão.

– Um excelente par – ele disse. – E já que Lady Hawthorne e eu sobramos, então

deixaremos vocês terminarem a dança.

Enlaçando o braço dela firmemente, ele a puxou em direção às portas abertas que

davam para o jardim.

Elizabeth ofereceu um sorriso de desculpas por cima do ombro, enquanto seu

coração martelava por dentro diante do comportamento primitivo de Marcus.

– O que você está fazendo?

– Achei que era óbvio. Estou causando uma cena. Você me obrigou a isso ao me

evitar durante toda essa semana.

– Não estive evitando você – ela protestou. – Ainda não recebi outra parte do

diário, portanto, não havia razão para encontrá-lo.

Saindo até a varanda, eles encontraram vários outros convidados aproveitando o

ar fresco da noite. Mantida tão perto ao seu lado, a pura força da presença de

Marcus mais uma vez a surpreendeu.

– Seu comportamento é atroz – ela murmurou.

– Você pode me insultar o quanto quiser quando estivermos a sós. A sós. Uma onda

de consciência escoou através de sua pele.

O olhar dele percorreu o rosto de Elizabeth até chegar aos olhos.

Os olhos dela cerraram-se e, embora ela tenha tentado discernir seus pensamentos, a

bela expressão dele parecia esculpida em pedra. Quando tomaram a escadaria até o

jardim, os passos dele aceleraram. Ela seguia quase sem fôlego, imaginando o que

ele pretendia fazer, o que pretendia dizer, surpresa por descobrir em si mesma um

resquício perdido de romantismo juvenil que se animava diante de sua determinação.

Jogando-a em uma pequena alcova na base da escadaria, Marcus checou os

arredores cuidadosamente. Certificando-se de que estavam sozinhos, ele se moveu

rapidamente. Com a ponta do dedo, ergueu gentil-mente o queixo dela.

Um beijo, ela pensou tarde demais quando suas bocas se encontraram. E então,

ela não mais conseguiu pensar.

Seus lábios eram incrivelmente gentis enquanto se fundiam aos dela, mas as

sensações que despertavam eram brutais em sua intensidade. Elizabeth não podia se

mexer, presa pela poderosa resposta de seu corpo tão próximo ao dele. Apenas seus

lábios se tocavam. Um simples passo para trás quebraria o contato, mas ela não foi

capaz nem mesmo disso. Permaneceu congelada, vacilando ao sentir seu perfume e

seu sabor, cada terminação nervosa disparando diante de seu avanço atrevido.

– Beije-me de volta – ele rosnou, circulando os dedos em seus pulsos.

– Não... – ela tentou desviar o rosto.

Praguejando, ele tomou novamente sua boca. Mas não beijou tão suavemente

quanto havia feito um momento antes. Agora era um ataque impelido por uma

amargura tão forte que ela até podia senti-la. A cabeça dele se inclinou levemente,

aprofundando o beijo, e então sua língua invadiu forçosamente entre seus lábios

abertos. A intensidade de seu ardor a assustou, e então, o medo evoluiu para algo

muito mais poderoso.

Hawthorne nunca a tinha beijado daquela maneira. Era muito mais do que uma

mera junção de lábios. Era uma declaração de posse, uma vontade desenfreada, uma

necessidade que Marcus instaurou dentro dela até Elizabeth não poder mais negar

sua existência. Com um gemido, ela se rendeu, timidamente retribuindo o toque de

sua língua, desesperada para sentir o sabor inebriante dele.

Marcus grunhiu sua aprovação, com o som carregado de erotismo, fazendo-a

balançar instável sobre seus pés. Liberando seu pulso, ele segurou a cintura dela

enquanto a outra mão quente agarrava sua nuca, mantendo-a no lugar para continuar

seu ataque. Sua boca se movia habilmente, retribuindo a resposta dela com carícias

mais fortes de sua língua. Ela agarrava o casaco dele, puxando e empurrando,

tentando ganhar algum controle, mas não sendo capaz de fazer nada, exceto aceitar o

que ele oferecia.

Finalmente, ele afastou a boca com um rosnado torturado e enterrou o rosto nos

cabelos perfumados dela.

– Elizabeth – sua voz rouca parecia falhar. – Precisamos encontrar uma cama.

Agora.

Ela riu com nervosismo.

– Isso é loucura.

– Sempre foi uma loucura.

– Você deve se afastar.

– Já fiz isso. Por quatro malditos anos. Já paguei o preço de meus pecados

imaginários – ele deu um passo para trás e a encarou com olhos tão ardentes que até

pareciam queimar sua pele. – Esperei tempo o bastante para tê-la. Eu me recuso a

esperar mais.

A lembrança do passado trouxe os dois de volta para a situação presente.

– Existe muita história entre nós para que um dia possamos nos unir novamente.

– Mas saiba que pretendo me unir a você com ou sem história. Tremendo, ela se

afastou e, para sua surpresa, foi libertada imediata-

mente. Elizabeth pressionou os dedos em seus lábios inchados pelo beijo.

– Não quero a dor que você traz. Não quero você.

– Você está mentindo – ele disse asperamente. Seus dedos tracejaram as curvas

do corpo dela. – Você me quis desde o momento em que nos conhecemos. E ainda

me quer, posso sentir isso em seu beijo.

Elizabeth praguejou contra a traição de seu próprio corpo, ainda tão enamorado

dele que se recusava a escutar as ordens do cérebro. Excitada e desejosa em todas

as partes, ela não era melhor do que qualquer uma das tolas mulheres que caíam tão

facilmente em sua cama. Voltou a se afastar, mas parou ao chegar ao frio corrimão

de mármore. Levando as mãos até as costas, ela agarrou o corrimão com tanta força

que suas mãos ficaram embranquecidas.

– Se gostasse mesmo de mim, você me deixaria em paz.

Mostrando um sorriso que fez seu coração parar, Marcus deu um passo em sua

direção.

– Irei mostrar o mesmo carinho que um dia você mostrou a mim – seu olhar ardia

com um desafio sedutor. – Entregue-se ao seu desejo por mim, minha querida.

Prometo que não irá se arrepender.

– Como pode dizer isso? Já não me magoou o suficiente? Sabendo como eu me

sentia sobre meu pai, ainda assim você agiu daquela maneira. Eu detesto homens da

sua laia. É algo desprezível prometer amor e devoção para conseguir levar uma

mulher para a cama, para depois descartá-la quando você se cansa.

Marcus parou abruptamente.

– Fui eu quem foi descartado.

Elizabeth recuou ainda mais contra o corrimão.

– Por uma boa razão.

Os lábios dele se curvaram num sorriso cínico.

– Você irá atender meus chamados, Elizabeth. Você irá sair comigo e me

acompanhar a eventos como este. Não serei rejeitado novamente.

O mármore frio congelou as mãos dela através das luvas e enviou calafrios pelos

braços. Apesar do arrepio, ela se sentia quente e corada.

– Você não está satisfeito com a quantidade de mulheres que corre atrás de você?

– Não – ele respondeu com sua habitual arrogância. – Ficarei satisfeito quando

você queimar por mim, quando eu invadir cada pensamento e cada sonho seu. Um

dia, sua paixão será tão arrebatadora que cada respiração longe de mim irá rasgar

seus pulmões. Você me dará qualquer coisa que eu desejar, quando e como eu

desejar.

– Não darei nada!

– Você me dará tudo – ele acabou com a pequena distância entre os dois. – Você

entregará tudo a mim.

– Você não tem vergonha? – lágrimas surgiram e se acumularam em seus cílios.

Ele permaneceu impecável, e o horror de sua situação a atingiu com um efeito cruel.

– Depois do que você fez comigo, ainda precisa me seduzir? Será que a minha

completa destruição é a única coisa que vai satisfazê-lo?

– Maldita seja – ele encostou a testa na dela, passando a boca em cima de seus

lábios num leve beijo. – Nunca pensei que a teria – ele sussurrou. – Nunca esperei

que um dia ficasse livre de seu casamento, mas aqui está você. E eu terei aquilo que

me foi prometido há tanto tempo.

Soltando o corrimão, Elizabeth encostou a mão na cintura dele para afastá-lo. Os

firmes músculos de sua barriga fizeram o corpo dela responder com uma doce e

selvagem agonia:

– Eu lutarei contra você com todas as minhas forças. Eu lhe imploro que desista.

– Não até eu ter aquilo que quero.

– Deixa-a em paz, Westfield.

Relaxando de alívio ao ouvir a voz familiar, Elizabeth ergueu os olhos e viu

William descendo as escadas.

Marcus se afastou praguejando. Endireitando-se, lançou um olhar fulminante para

seu velho amigo. Elizabeth aproveitou a distração para fugir. Correndo para o

jardim, ela desapareceu entre as folhagens. Ele fez menção de correr atrás dela.

– Se eu fosse você, não faria isso – William disse com um leve tom de ameaça.

– Você chegou na hora errada, Barclay – Marcus engoliu sua frustração, sabendo

que seu antigo amigo adoraria qualquer oportunidade para lutar com ele. A situação

piorou quando espectadores chegaram, alertados pelo tom de voz ameaçador e a

rigidez do corpo de William, e se alinharam na varanda antecipando notáveis

fofocas.

– Quando quiser a companhia de Lady Hawthorne no futuro, Westfield, saiba que

ela está fora do seu alcance indefinidamente.

Uma ruiva alta abriu caminho entre os curiosos e desceu as escadas em direção a

eles.

– Lorde Westfield. Barclay. Por favor! – ela agarrou o braço de William. – Aqui

não é lugar para esse tipo de conversa privada.

William quebrou o contato visual com Marcus e olhou para sua adorável esposa

com um sorriso sombrio.

– Não precisa se preocupar. Está tudo bem – erguendo os olhos, ele fez um gesto

para George Stanton, que desceu da varanda e se aproximou deles rapidamente. –

Por favor, encontre Lady Hawthorne e a acompanhe de volta para casa.

– Eu ficaria honrado – Stanton passou cuidadosamente entre os dois homens antes

de acelerar os passos e desaparecer no jardim.

Marcus suspirou e esfregou a nuca.

– Você nos interrompe baseado em falsas premissas, Barclay.

– Não discutirei o assunto com você – William retrucou, dispensando qualquer

sinal de civilidade. – Elizabeth se recusou a encontrá-lo e você respeitará o desejo

dela – ele gentilmente removeu a mão de Margaret da manga de seu casaco e deu

um passo à frente, com seus ombros tensos de raiva represada. – Este será seu único

aviso. Mantenha distância de minha irmã ou enfrentará as consequências – a

multidão acima eclodiu numa série de murmúrios abafados.

Marcus teve dificuldades para acalmar sua respiração. Ter a cabeça fria já o tirara

de muitas situações voláteis, mas desta vez ele não fez esforço para neutralizar a

tensão. Ele tinha uma missão, além de suas questões pessoais. As duas coisas

necessitariam de muito tempo junto de Elizabeth. Nada poderia bloquear seu

caminho.

Encarando o desafio de William de frente, ele tomou os últimos passos até

ficarem a centímetros um do outro. Sua voz guardava um tom de ameaça.

– Interferir em meus assuntos com Elizabeth não seria inteligente. Ainda há muito

para ser resolvido entre nós e não permitirei que se intrometa. Eu nunca a

machucaria deliberadamente. Se duvida de minha palavra, diga isso agora. Minha

posição é firme e não mudará, seja qual for sua ameaça.

– Arriscaria sua vida por isso?

– Sem dúvida.

Uma pausa pesada recaiu entre eles enquanto se analisavam cuidadosamente.

Marcus deixou sua determinação muito clara. Nada o impedi-ria, nem mesmo

ameaças de morte.

Em resposta, o olhar de William era capaz de penetrar de tanta intensidade.

Durante os anos, eles conseguiram manter uma gelada associação pública. Com o

casamento de William contrastando com a vida solteira de Marcus, eles raramente

tinham oportunidades para trocarem alguma palavra. Marcus lamentava isso.

Frequentemente sentia falta da companhia de seu amigo, que era um bom homem.

Mas William decretou seu julgamento rápido demais, e Marcus não feriria seu

orgulho apelando a ouvidos surdos.

– Devemos voltar às festividades, Lady Barclay? – William finalmente disse,

relaxando levemente os ombros.

– A noite está esfriando – Marcus murmurou.

– Sim, milorde – Lady Barclay concordou. – Eu estava prestes a dizer o mesmo.

Escondendo seu arrependimento, Marcus assentiu, e então se virou e partiu.

Elizabeth cruzou o saguão do Chesterfield Hall soltando um suspiro silencioso.

Seus lábios ainda pulsavam e sentiam o sabor de Marcus, um sabor inebriante que

era perigoso para a sanidade de uma mulher. Embora seu ritmo cardíaco tivesse

abrandado, ela ainda sentia como se houvesse participado de uma longa corrida.

Ficou grata quando seu mordomo removeu seu casaco pesado e, tirando as luvas, foi

direto para as escadas. Havia tanta coisa a se considerar, coisas demais. Ela não

esperava que Marcus estivesse tão determinado a conseguir o que queria. Seria

necessário um planejamento cuidadoso para lidar com um homem como ele.

– Milady?

– Sim? – ela fez uma pausa e se virou para encarar o mordomo.

Ele segurava uma bandeja de prata com um envelope cor creme. Por mais inócuo

que parecesse, Elizabeth estremeceu diante da missiva. A caligrafia e o papel eram

iguais as da carta que exigia a entrega do diário de Hawthorne.

Ela sacudiu a cabeça e soltou um longo suspiro. Marcus a chama-ria amanhã,

disso ela tinha certeza. Seja qual fosse a demanda da carta, poderia esperar até o dia

seguinte. Ler sozinha não era algo que estava disposta a fazer. Ela sabia o quão

perigosas eram as missões da agência e não subestimava seu novo envolvimento

nelas. Portanto, se Marcus estava tão determinado a persegui-la, ao menos ela

poderia tirar alguma pequena vantagem disso.

Dispensando o mordomo com um gesto, Elizabeth segurou as saias e subiu as

escadas.

Que triste golpe do destino que o homem designado a protegê-la era o mesmo em

quem ela não poderia confiar.

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