A casa cheirava a riqueza, móveis e eletrodomésticos de última geração estavam espalhados de maneira encantadora por toda a sala.
O segui até o escritório, que ficava atrás de uma porta lateral; era um lugar colorido e alegre, alguns quadros de modelos famosas vestindo as roupas de sua marca.
—Sente-se, Daniela... Como vê, a indústria é muito importante para mim e não vejo os funcionários apenas como um meio de produção, eu já fui um funcionário...
— Conheço esse seu discurso meritocrata e até o admiro por ter vencido, mas essas pessoas vão passar fome, consegue entender? Talvez uma pessoa com uma casa tão grande não entenda o que é não ter o que comer amanhã, mas...
— Eu entendo mais do que você, menina, por isso sei que o melhor é fechar e pagar a todos, uma pequena reserva pode mudar a vida deles... Imagina como seria se essas pessoas simplesmente não tiverem nada como reserva por um capricho seu?
— Capricho? — O encarei.
— Sim, você é jovem, pode depender dos pais...
— Não posso! — Saí do sério.
—Tem gente lá que é responsável por si mesma...
— Olha aqui, seu Antônio, eu...
— Me chame apenas de Antônio — Ele me interrompeu com a sobrancelha erguida num sinal de imposição.
— Olha aqui, Antônio. Eu sou uma pessoa que sempre se sustentou, ao contrário de você que tem boa vida. Eu sei o que é a fome e não acho que deixar de lutar seja uma opção, a fábrica pode crescer, mas se você a fechar, como tanto quer, na crise que o país enfrenta, a maioria daquelas pessoas não terão um emprego tão cedo.
— Com as indenizações terão tempo para procurar.
— Você cresceu sem ao menos se arriscar? — Ergui a sobrancelha.
— Eu não coloco ninguém em risco...
— Colocou quando colocou aquelas moças para cuidar da produção. Você há de convir que onde se ganha o pão não se come a carne, certo?
— Daniela, eu não comi nem pão, nem carne...
— Até parece... Vai nos dar os dois meses ou não? Você me enrolou demais...
— Eu já disse que não!
— O que esperar de patrão que não isso? — Ele deu dois passos em minha direção e coçou a barba, ele era tão bonito quanto egoísta.
— Você está sendo injusta comigo...
— Eu gostaria de estar mesmo.
— Daniela, me ouça, eu...
E a porta foi aberta tão rápido que eu mal percebi! Uma menina sorridente de janelinha entre os dentes estava parada na porta.
— Você disse Daniela, papai? É ela? — Ela era menor do que eu imaginava, e se jogou nos meus braços. — Mamãe, eu rezei tanto para você vir! Eu sabia, papai do céu me ouviu... Como você cheira bem...
Olhei para Antônio antes de falar a verdade que simplesmente se instalou em minha garganta, o olhar dele parecia vitrificado.
Eu poderia jurar que ele estava em pânico. A menina continuava a me puxar, como se quisesse colo, e ali notei que havia algo muito errado.
— Você está aí! Venha, Duda, temos de tomar banho...
— Olha vó Hilda, é a mamãe! Olha como a mamãe é linda! — O olhar dela procurou o do filho, que assentiu.
— Deixe a mamãe e venha tomar banho. Acha que sua mãe ficaria feliz em te abraçar suja de sorvete? Venha...
A menina me soltou, concordando com a avó.
— Verdade, vó Hilda, ela não me abraçou... — Ela já ia em direção à avó, mas ao sair parou na porta e me encarou. — Mamãe, não vá embora, eu já volto limpinha.
Quando a pequena saiu, fechando a porta, senti que meu pulmão respirava novamente.
— Ela não conhece a mãe? — perguntei para meu chefe e notei que ele chorava sem se dar conta. — Antônio?
— Não, não há nada para conhecer...
— Mas a sua esposa não está nos Médicos sem Fronteiras?
— Não. — Ele passou a mão pela barba. — Não faço ideia de onde ela possa estar... Daniela, eu aceito não fechar a fábrica. — A voz soou distante e fria. — Finja que é a mãe dela, apenas hoje, eu nunca vi minha filha tão feliz como nesse momento.
— Eu não entendi. Por um momento pensei que queria que me passasse por mãe de sua filha.
— É exatamente isso...
— Ela não vai notar?
— Não há retratos ou qualquer outra coisa que ela possa comparar. Além do mais, será só até ela adormecer...
— Antônio, você está me dizendo que ela não conhece a mãe?
— Não sou de falar da minha vida, mas quero que faça isso por mim, estou disposto a tudo. Daniela foi embora quando minha filha tinha apenas duas semanas de vida. Ela não podia viver com esse estorvo. Eu protegi minha filha até aqui; estava pensando em uma atriz, mas você serve...
— Uma atriz?
— Sim, vestida de médica. Era isso que eu vim fazer mais cedo, queria uma mãe postiça só por hoje, mas ela chegou antes da hora e confundiu as coisas...
— Uma mãe postiça? Olha, essa é a pior coisa que já ouvi na minha vida. Eu nunca faria isso...
— Ela precisa ver a mãe, eu juro que essa situação não é permanente e...
— Você vai fazer o quê?
— Talvez uma morte? Ela é órfã mesmo... Por favor, só o bolo, a gente corta e você vai embora...
— Isso é horrível. Meu Deus, eu nem sei o que falar...
— Por favor, Daniela, é apenas uma noite. Eu faço o que você disse sem reclamar. — Revirei os olhos e virei o rosto. — Olhe para mim, Daniela. Saiba que estou desesperado, não sou de implorar nada, mas estou te implorando.
Engoli em seco e o encarei.
— Minha filha é tudo para mim. — Ele mordeu os lábios. — Não ligo se tiver de me ajoelhar a seus pés, faço tudo o que for necessário.
— Tudo? Você vai manter os empregos que não podia bancar há meia hora para enganar uma criança? Por orgulho? Você vai mentir hoje por orgulho?
— É aniversário dela. — Ele parecia distante.
— Aniversário? Pelo que entendi essa criança vive uma mentira desde que nasceu... Essa menina vai crescer como? Achando que a mãe é um anjo e o pai é perfeito, sendo que nenhum se importa com ela? Eu não farei parte disso...
Girei nos calcanhares, ele correu e parou na minha frente.
— Está bem, você está certa, falarei a verdade, mas não hoje. — Para minha surpresa ele me abraçou apertado. —Me ajude, por favor, eu te imploro. Eu não sou um pai perfeito, mas amo a minha filha.
— Fale a verdade, ou contrate uma atriz, mas não conte comigo nisso.
Abri a porta e antes que pudesse sair Duda veio até mim.
— Mamãe, eu estava te esperando!
— Você ia embora sem me dar tchau? Não ia nem ficar para me ajudar a cortar o bolo? — Os olhos amendoados estavam cheios de lágrimas.
— Não, eu ia exatamente atrás de você.
— Eu tomei banho, mamãe. — Ela cheirou o próprio pulso e me estendeu para que eu fizesse o mesmo. — A vovó me fez prometer que eu não ia aborrecer você com perguntas, e disse que você só veio para me ver rapidinho.
— Eu nunca perderia a oportunidade de ver você. — Ajoelhei-me diante dela, em um momento insano de coragem, e assumi o lugar da mãe que nunca tive. Eu a entendia, eu sabia o que aquelas lágrimas representavam.
— Eu te amo, mamãe. — E choramos juntas, uma dor que só quem não teve mãe entende. Estava dando a ela um abraço que esperei a minha vida inteira.
— Não vamos chorar, não é? — Sequei os olhos dela e em seguida fiz o mesmo com os meus.
— Eu morava na sua barriga. — Ela me olhou cheia de sabedoria infantil. — Foi a única vez que ficamos juntas.
A ergui no colo, enquanto um nó de sentimentos conflitantes me inundava o corpo e calava a minha voz.
Ela me arrastou até o quarto dela no andar superior, haviam variantes infinitas de bonecas e unicórnios.
Ela me mostrou uma boneca velha que estava em sua cama.
— Mamãe, eu sei que coisa velha não é presente, mas essa é a Lucinda, minha boneca de nanar. Eu quero que leve ela com você; a gente tem o mesmo cheiro, quando tiver saudade de mim, você vai poder sentir meu cheiro.
Ela era muito esperta. Isso não havia como negar.
— A mamãe não pode aceitar...
— Você não sente minha falta? — Ela lambeu o lábio inferior num gesto de nervoso.
— Sim, a mamãe sente, é que...
Ela pegou minha mão e me fez sentar com ela na cama.
— Você não ama mais o papai? É por isso que você não fica aqui?
— O quê?
— A mãe do Joaquim não ama o pai dele e foi embora com um homem que não usa camisa.
— Não é isso, foram outras coisas e...
A porta se abriu e Antônio entrou, me deixando aliviada.
— Duda, o papai estava preocupado com você. A vovó te deixou na sala de TV e você saiu...
— Estou com a minha mãe; sabia que minha mãe ama você, papai?
Senti meu rosto queimar quando ele me lançou um sorriso.
— Também amo a mamãe e nosso amor te trouxe para a terra. Duda, você pode deixar a mamãe se vestir e tomar um banho antes da festa?
Antônio me estendeu a mão, que aceitei de bom grado. Saímos do quarto e fomos em direção a outro, este maior e mais espaçoso. Os tons sóbrios emprestavam uma masculinidade que combinava com o perfume que tornava o ambiente altamente atraente.
Só percebi que ainda estava de mãos dadas com meu chefe quando ele me soltou e fechou a porta.
— Obrigado, estou tão aliviado que não sei sequer como agradecer...
— Ela disse que vai ter uma festa?
— Sim, só para familiares e amigos íntimos.
— Essas pessoas não conhecem a verdadeira Daniela?
— Não, a Daniela nasceu aqui em São Paulo, eu sou de Ipiaú, uma pequena cidade no sul da Bahia. Meus parentes que moram aqui agora só conhecem a mesma Daniela que a minha filha conhece, uma moça tímida que detestava fotografias e que me deixou para seguir a vocação.
— Você engana todo mundo? É isso?
— Eu mataria todo mundo pela minha filha, quanto mais mentir. Minto e não me arrependo, meu arrependimento maior foi não ter dito que a mãe tinha morrido, mas pensei que se ela voltasse isso seria complicado.
— E se ela voltar agora? Vier para a festa, por exemplo?
— Daniela se casou com um turco e vive na Europa. Pelo que sei, há filhos e a menor vontade de lembrar que existe alguém aqui com seu sangue...
— Agora a pouco você me disse que não fazia ideia de onde essa mãe estava e...
— Eu menti, gostou? Eu teria te contado qualquer história que fizesse você fingir que era a mãe dela. Você tem o mesmo nome, isso é um trunfo...
— Você me trouxe aqui com esse objetivo? — O encarei e ele riu.
— Não, mas cheguei a pensar nisso enquanto estávamos no carro. Tem mais...
— Mais? — Meneei a cabeça.
— Eu sou apaixonado por minha esposa, qualquer mulher nesse período foi apenas necessidade física, por isso nunca casei, nem tive namoradas. Na realidade não quero que minha filha tenha uma madrasta.
— E a Daniela te largou? E você sofre por isso, sei...
— Não, eu pinto nosso relacionamento como uma espera, então vou ter de colocar a mão na sua cintura durante a festa...
— Você o quê?
— Te abraçar, te olhar assim... — Ele se aproximou de mim e o olhar dele foi tão carregado de desejo que quase caí sentada no chão.
— Nada de abraços... — Tentei me manter segura.
— Dois meses e você contrata e demite quem quiser. Pode cuidar de cada detalhe do seu projeto para a empresa.
— Quem eu quiser?
— Se minha mão puder ficar assim durante alguns momentos... — A mão dele acarinhou minha cintura, meu olhar pousou na boca rosada. — Você pegou o espírito. Quem te vê agora até acha que você quer me beijar.
— Você está louco! — Soltei a mão dele da minha cintura e senti que ainda queimava com o toque, naquele momento parecia uma adolescente tola e impressionável.
— Apenas te elogiei.
— Sua mão na minha cintura só quando tiver gente presente. Eu quero três meses para apresentar lucro e você demite aquelas modeletes que você contratou.
— Certo. — Ele estendeu a mão num gesto de acordo, que eu correspondi. — Há um banheiro ali, naquela porta, nesse lado do closet tem algumas peças femininas, agulha e linhas, ajuste alguma que combine com seus sapatos. Quero ver se você é tão boa costureira quanto é chantagista. Eu te espero lá embaixo e, mais uma vez, obrigado.
Ele saiu fechando a porta atrás de si, peguei um dos vestidos e comecei a ajustá-lo na minha cintura.
Mal sabia naquele momento que a gente só escolhe começar a mentir. Não há o menor controle sobre quando parar.