A cobertura estava silenciosa. Era um silêncio pesado e sufocante que custava dezenas de milhões de reais.
Pisos de mármore, janelas do chão ao teto com vista para o Parque Ibirapuera e arte moderna que parecia respingos de sangue na neve. Era uma fortaleza. Era um museu. Não era um lar.
Sentei-me na ilha da cozinha, encarando meu celular até a tela ficar embaçada.
Dante: *Negócios. Não volto para casa.*
Quatro palavras. O resumo do meu casamento.
Eu não respondi. Em vez disso, abri as configurações de contato e rolei até o número dele. Meu dedo pairou sobre o botão de apagar. Eu não podia bloquear o Don — isso acionaria um alerta de segurança imediato — mas eu podia apagá-lo da minha vida pessoal.
Eu toquei em apagar. O nome Dante desapareceu, substituído por uma fria sequência de dígitos.
Foi um pequeno ato de rebelião, mas pareceu como cortar uma corrente.
Deslizei do banco e caminhei até o painel oculto na despensa. Atrás de uma fileira de azeites importados, puxei a mochila de fuga.
Um celular descartável. Três pen drives criptografados. Um passaporte com meu nome de solteira.
Sentei-me à mesa da cozinha e abri meu notebook. Era hora da purga digital.
Eu acessei as contas conjuntas no exterior. Meu nome estava nelas para fins fiscais, uma brecha conveniente para o império Moretti. Metodicamente, removi minha autorização. Desvinculei meu acesso biométrico do cofre no escritório. Apaguei minha pegada digital dos registros de segurança da propriedade.
Eu estava me tornando um fantasma na minha própria vida.
Meu celular vibrou. Uma notificação do Instagram.
Eu não deveria ter olhado. Eu sabia que não deveria. A dor era um vício, e eu estava procurando por uma dose.
Abri o aplicativo.
Lá estava ela. Sofia.
A foto foi tirada em um iate. O horizonte de São Paulo era um cenário cintilante. Ela segurava uma taça de champanhe, vestindo um roupão de seda que reconheci instantaneamente. Era de Dante.
Legenda: *Porto Seguro.*
Senti um ácido subir pela minha garganta.
A ameaça de segurança. A emergência que exigiu que o Don deixasse sua esposa na chuva. Era uma mentira.
Ele estava bebendo uísque em um barco com sua ex-amante enquanto eu estava sentada em sua torre vazia.
Verifiquei a data no meu notebook.
24 de outubro.
Feliz aniversário de vinte e três anos, Helena.
Fechei o notebook com um estalo.
Fui até o fogão. Eu havia comprado ingredientes para fazer *ossobuco*. Era uma receita tradicional, que a mãe dele me ensinou. Pensei, estupidamente, que se eu cozinhasse como uma boa esposa italiana, ele poderia ficar.
Liguei o queimador a gás. A chama azul piscou para a vida.
Comecei a picar cenouras. Depois cebolas. O som rítmico da faca contra a madeira era calmante.
*Pica. Pica. Pica.*
O elevador soou.
Eu congelei. Ele não deveria estar aqui.
Dante entrou. Ele parecia desalinhado. Sua gravata estava frouxa, o botão de cima desabotoado. Ele cheirava a maresia e àquele perfume floral e enjoativo.
Ele segurava uma caixa de confeitaria branca.
Ele parou quando me viu, parecendo surpreso por encontrar sua esposa em sua cozinha.
"Você está cozinhando", ele disse.
Eu não levantei o olhar. Continuei picando.
"Pensei que você estivesse trabalhando", eu disse.
"As negociações se estenderam", ele disse, colocando a caixa no balcão.
Ele a empurrou em minha direção.
"Feliz Aniversário", ele murmurou. Soou como uma obrigação. Como pagar um imposto.
Pousei a faca e abri a caixa.
Era um bolo de baunilha. Um bolo de baunilha genérico, comprado em loja, com cobertura branca.
Eu detestava baunilha. Eu odiava baunilha desde criança. Dante sabia disso. Ou pelo menos, o homem que se casou comigo deveria saber.
Eu encarei a extensão branca de açúcar. Parecia neve. Fria e sem gosto.
"Não estou com fome", eu disse.
Dante suspirou. Foi um som pesado e irritado.
"Não seja ingrata, Helena. Eu arrumei tempo para voltar."
"Arrumou tempo?", eu ri. Foi um som seco e quebradiço. "A negociação correu bem? Ela assinou o tratado?"
Dante enrijeceu. Seus olhos se estreitaram.
"Do que você está falando?"
Eu peguei a foto no meu celular e virei a tela para ele.
"*Porto Seguro*", li. "Ela parece muito segura, Dante. E muito confortável no seu roupão."
Dante não vacilou. Ele não pareceu culpado. Ele pareceu irritado por ter sido pego, como um pai pegando um filho espionando.
"Ela estava histérica", ele disse. "O barco era o único local seguro disponível de última hora. O roupão foi porque ela estava com frio."
"E o champanhe?", perguntei. "Era para o choque?"
"Cuidado com o seu tom, *tesoro*", ele avisou. Sua voz baixou uma oitava. "Não me faça me arrepender de ter vindo para casa."
"Arrepender de ter vindo para casa?", eu me aproximei dele. "Você não veio para casa, Dante. Você apenas mudou de local. Você ainda está com ela. Você está sempre com ela."
Peguei a caixa do bolo e a joguei na lata de lixo. Ela caiu com um baque pesado.
"Eu não vou comer isso."
Dante agarrou meu pulso. Seu aperto era de ferro.
"Você está agindo como uma criança", ele rosnou. "Eu protejo esta família. Eu protejo você. Sofia é uma responsabilidade. Ela é a viúva do meu melhor amigo."
"Ela é a mulher com quem você gostaria de ter se casado!", eu gritei.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.
Dante me encarou. Ele não negou.
Ele soltou meu pulso.
Seu celular descartável tocou.
Nós dois olhamos para ele. Estava sobre o balcão de mármore como uma bomba.
Ele o pegou. "Luca", ele disse.
Ele ouviu. Seus olhos se voltaram para mim, depois se desviaram.
"Entendido. Estou a caminho."
Ele desligou.
"Eu tenho que ir", ele disse.
"Claro que tem", eu disse. Voltei-me para o fogão.
"Helena", ele começou.
"Vá, Dante."
Ele hesitou. Por um segundo, apenas um segundo, eu vi um lampejo de algo em seus olhos. Culpa? Fadiga?
Mas então a máscara se fechou novamente. O Ceifador retornou.
"Discutiremos sua atitude mais tarde", ele disse.
Ele se virou e saiu. As portas do elevador se fecharam.
Eu estava sozinha novamente.
Desliguei o fogão. Os legumes meio picados estavam na tábua.
Fui até a gaveta e peguei uma única vela de aniversário.
Eu a acendi. Segurei-a na cozinha escura.
"Eu faço um desejo", sussurrei para a sala vazia.
*Eu desejo parar de amar o monstro.*
Eu apaguei a vela. A fumaça subiu no ar, desaparecendo assim como minha esperança.
Os lustres do Salão de Cristal gotejavam diamantes, espelhando as mulheres sob eles.
Era o Baile de Aniversário da Famiglia, a única noite do ano em que as cinco famílias fingiam ser civilizadas. O ar cheirava a colônia cara, laquê e dinheiro sujo de sangue.
Dante estava ao meu lado, a mão pousada na curva das minhas costas. Para um estranho, poderia parecer possessivo, até protetor. Para mim, parecia uma marca — um aviso para outros homens: *Esta propriedade tem dono.*
"Sorria, Helena", ele murmurou, inclinando-se para o meu ouvido. "O Don russo está observando."
Eu colei um sorriso no rosto. Parecia tenso, quebradiço como argila seca.
"Eu *estou* sorrindo, Dante."
Ele apertou minha cintura — mais forte. Um beliscão de aviso.
Nós nos movemos pela multidão. Homens beijavam seu anel; mulheres me olhavam com uma mistura de inveja e pena. Elas sabiam. Todos sabiam sobre o iate. Todos sabiam sobre Sofia.
Eu era o Canário Engaiolado: bonita de se ver, mas incapaz de voar.
Marco, um soldado do círculo íntimo de Dante, aproximou-se de nós, segurando uma caixa de metal enferrujada.
"Chefe", ele sorriu, seus dentes manchados de vinho tinto. "Nós a encontramos. A cápsula do tempo da iniciação dos Jovens Capos. Cinco anos atrás."
Os homens ao nosso redor riram. Era uma tradição — prova de que antes de se tornarem monstros, eram apenas garotos com sonhos.
"Abra!", alguém gritou.
Dante parecia entediado, mas assentiu.
Marco forçou a tampa e começou a tirar itens: um canivete, uma garrafa de uísque barato, uma polaroid de um rival morto. E cartas.
"Aqui tem uma da Sofia!", Marco gritou, bêbado com a atmosfera.
A sala ficou em silêncio. Até o nome dela comandava atenção.
"Ela quer ser uma estrela de Hollywood", Marco leu, rindo. "Ela quer uma mansão no Morumbi e um marido que não carregue uma arma."
Uma onda de riso desconfortável percorreu a sala. Todos nós sabíamos que ela acabou com um Capo que morreu em uma sarjeta, e agora estava se agarrando ao Don.
"E aqui tem uma da... Sra. Moretti!", Marco tirou um pedaço de papel de carta cor de creme.
Eu congelei. Lembrei-me de ter escrito aquele bilhete. Eu tinha dezoito anos. Noiva de Dante. Ingênua. Estúpida.
"Leia!", o Don russo gritou.
Marco desdobrou o papel. Ele pigarreou.
"Eu espero", ele leu, "que quando isto for aberto, Dante me olhe da mesma forma que olha para o nascer do sol. Espero não ser apenas um dever, mas o seu lar."
O silêncio foi absoluto.
Foi humilhante. Foi uma vulnerabilidade crua e nua em uma sala cheia de tubarões.
Senti o calor subir pelo meu pescoço. Encarei o chão, incapaz de encontrar os olhos de ninguém.
Dante ficou imóvel ao meu lado. Eu podia sentir a tensão irradiando dele.
Ele pegou o papel da mão de Marco e olhou para ele — minha caligrafia, arredondada e feminina.
Ele olhou para mim. Pela primeira vez em meses, ele realmente *me viu*. Havia choque em seus olhos. Talvez até uma rachadura no gelo.
"Helena", ele começou, sua voz baixa.
Então, seu celular tocou.
O som quebrou o momento como vidro.
Dante não o ignorou. Ele nunca o ignorava.
Ele o tirou. "Sofia", ele atendeu.
Ele ouviu por dois segundos. Seu rosto endureceu como pedra.
"Onde?", ele latiu.
Ele desligou e se virou para Marco.
"Reúna os homens. Os Genovese a pegaram. Eles estão com a Sofia no armazém da Rua 4."
A sala explodiu em movimento. Soldados corriam, puxando armas de coldres escondidos.
Dante se virou para segui-los.
"Dante", sussurrei.
Ele parou. Ele olhou para trás, para mim.
"Por favor", eu disse. "Fique."
Foi um apelo. Um apelo desesperado e patético. Eu estava pedindo para ele me escolher. Apenas uma vez. Em vez dela.
Ele olhou para a porta. Depois olhou para mim.
"Ela está em perigo, Helena."
*Eu estou morrendo aqui*, pensei.
"Fique aqui", ele ordenou. "Não se mova. A segurança vai te vigiar."
Ele verificou a câmara de sua arma. "Eu tenho que ir."
Ele se virou e correu para fora do salão de baile.
Eu o vi partir. Eu o vi correr em direção à morte para salvá-la.
Ele me deixou parada no meio do salão, cercada por olhares fixos. A esposa que esperava por amor. O marido que corria para sua amante.
Eu estava desprotegida. Eu não era amada.
Caminhei até a mesa onde ele havia deixado meu bilhete. Eu o peguei.
Fui para a varanda. O ar da noite estava congelante.
Peguei um isqueiro de uma bandeja de prata na mesa de um garçom que passava.
Acendi a chama. Segurei o canto do papel no fogo.
Observei as palavras se enrolarem em cinzas. *Dante... nascer do sol... lar.*
Tudo isso, queimando.
Deixei o papel em chamas cair em um cinzeiro de cristal.
"Adeus, Dante", sussurrei para a fumaça.
Eu não chorei. Lágrimas eram para pessoas que tinham esperança.
Eu não tinha mais nada além da verdade fria e dura.