Capítulo 2

O meu filho, Leo, completou três anos hoje.

Eu preparei o seu bolo de aniversário preferido, mas ele não quis comê-lo.

Ele apontou para o homem na televisão e perguntou com a sua voz infantil, "Mãe, porque é que o pai não vem para o meu aniversário?"

O homem na televisão era o meu marido, Miguel.

Ele estava a receber um prémio, um troféu de ouro brilhante, como o "Jogador Mais Valioso" da liga de futebol.

Ele sorria para a câmara, o seu rosto bonito e radiante.

Atrás dele, a sua agente, Sofia, olhava para ele com um olhar cheio de admiração e carinho.

O meu coração sentiu-se um pouco pesado.

Eu peguei no telemóvel e liguei ao Miguel.

A chamada tocou durante muito tempo antes de ele atender. A sua voz estava cheia de impaciência.

"Estou ocupado. O que se passa?"

"Miguel, hoje é o aniversário do Leo."

Eu disse suavemente, tentando conter as minhas emoções.

"Ele quer ver-te."

"Eu sei, eu sei. Não posso simplesmente sair a meio da cerimónia de entrega de prémios, pois não? Diz-lhe que o pai o ama e que lhe vou comprar o maior brinquedo quando voltar."

Antes que eu pudesse responder, ouvi a voz ansiosa da Sofia ao fundo.

"Miguel, rápido, é a tua vez de dar o discurso. O mundo inteiro está a ver."

"Ok, já vou," ele respondeu a ela, e depois disse-me, "Tenho de desligar. Falamos mais tarde."

Ele desligou sem esperar pela minha resposta.

O som da chamada terminada ecoou nos meus ouvidos.

Olhei para o Leo, que estava a olhar para mim com os seus grandes olhos cheios de desilusão.

Eu forcei um sorriso.

"O pai está ocupado, querido. Ele vai voltar para te ver em breve."

O Leo baixou a cabeça e murmurou, "O pai está sempre ocupado."

Sim, ele está sempre ocupado.

Ocupado com treinos, ocupado com jogos, ocupado com entrevistas, ocupado com eventos sociais.

Tão ocupado que parece que eu e o Leo não fazemos parte da sua vida.

Nesse momento, o meu telemóvel vibrou. Era uma mensagem da minha sogra.

"Ana, o que se passa com o Miguel? A Sofia ligou-me e disse que tu o perturbaste antes do discurso dele. Sabes o quão importante este prémio é para ele? Não podes ser mais sensata?"

A minha mão a segurar o telemóvel tremia ligeiramente.

Sensata?

Eu tenho sido sensata há três anos.

Desde o momento em que desisti da minha carreira de bailarina para o ter a ele e ao nosso filho, tenho sido a esposa compreensiva por trás do grande jogador.

Mas o que é que eu recebi em troca?

Indiferença sem fim e acusações.

Olhei para o bolo na mesa.

Já não me parecia doce.

Eu disse ao Leo, "Leo, vamos cortar o bolo."

O Leo abanou a cabeça.

"Eu quero esperar pelo pai."

O meu coração doeu.

"Ele não vem hoje."

"Porque não?" os olhos do Leo encheram-se de lágrimas.

"Porque ele tem coisas mais importantes para fazer," eu disse, palavra por palavra.

"Mais importantes do que eu?"

Eu não consegui responder.

Peguei no meu telemóvel e enviei uma mensagem ao Miguel.

"Miguel, vamos divorciar-nos."

A resposta dele veio rapidamente, cheia de raiva.

"Estás louca? Divorciar-te por causa disto? Podes parar de ser tão infantil? O Leo precisa de um pai!"

Sim, o Leo precisa de um pai.

Mas ele precisa de um pai que se lembre do seu aniversário, não de um herói na televisão.

Eu respondi, "Ele precisa de um pai que esteja presente, não de uma figura ausente."

Ele não respondeu mais.

Provavelmente estava ocupado a celebrar o seu sucesso com a Sofia.

Olhei para o rosto do meu filho, e uma decisão formou-se na minha mente.

Eu não podia continuar assim.

Pelo bem do Leo, e pelo meu próprio bem.

Capítulo 3

No dia seguinte, fui a um advogado.

O advogado, um homem de meia-idade chamado Sr. Alves, ouviu a minha história em silêncio.

"Senhora, com base no que me disse, o seu marido não cometeu nenhum erro legal grave. Pedir o divórcio pode ser difícil, especialmente no que diz respeito à custódia da criança."

"Eu sei," eu disse calmamente. "Mas eu tenho de tentar."

"O seu marido é uma figura pública. Um processo de divórcio pode ter um grande impacto na sua carreira. Ele provavelmente não vai concordar facilmente."

"É por isso que preciso da sua ajuda."

O Sr. Alves acenou com a cabeça.

"Farei o meu melhor. Primeiro, precisamos de reunir mais provas da negligência dele para com a família."

Provas.

O meu coração sentiu-se pesado.

A vida dos últimos três anos passou pela minha mente como um filme.

As noites solitárias, as festas de aniversário perdidas, as promessas por cumprir.

Tudo isso eram provas.

Quando saí do escritório do advogado, o sol estava forte.

Senti-me um pouco tonta.

Peguei no meu telemóvel e vi dezenas de chamadas não atendidas do Miguel e da minha sogra.

Eu ignorei-as.

Fui buscar o Leo ao jardim de infância.

Ele correu para mim, o seu pequeno rosto cheio de sorrisos.

"Mãe!"

Eu abracei-o com força, sentindo um calor raro no meu coração.

"Leo, a mãe vai levar-te a um lugar divertido, ok?"

"Onde?"

"Um lugar muito, muito longe. Só nós os dois."

O Leo aplaudiu alegremente.

"Viva!"

Levei o Leo ao meu antigo estúdio de dança.

A proprietária, a Sra. Helena, era a minha antiga professora.

Ela ficou surpreendida por me ver.

"Ana! Há quanto tempo. Pensei que nunca mais voltarias a dançar."

Eu sorri amargamente.

"Sra. Helena, preciso da sua ajuda. Quero alugar um estúdio."

"Para quê? Queres voltar a dançar?"

"Não. Quero dar aulas."

Eu precisava de ganhar dinheiro, de ter a minha própria carreira.

Eu não podia mais depender do Miguel.

A Sra. Helena olhou para mim por um longo tempo, depois suspirou.

"Claro. O estúdio está sempre aqui para ti."

Naquela noite, recebi uma chamada do Miguel.

A sua voz estava fria como gelo.

"Ana, onde estás? Fui a casa e vocês não estavam lá."

"Estou fora."

"Fora onde? Foste a um advogado?"

Parece que a sua agente, Sofia, é muito eficiente.

"Sim."

"Tu queres mesmo divorciar-te? Por minha causa, por não ter ido ao aniversário do Leo?"

A sua voz estava cheia de incredulidade.

"Não é só por isso, Miguel. Tu sabes disso."

"O que é que eu sei? Eu trabalho tanto por esta família, e é assim que me retribuis? Com um pedido de divórcio?"

"Família?" Eu ri-me. "Que família? Uma família que só existe nos media?"

"Ana, não sejas irracional. Pensa no Leo. Queres que ele venha de uma família desfeita?"

"É melhor do que uma família fria e sem amor."

Houve um longo silêncio do outro lado da linha.

Então, ele disse, "Eu não vou concordar com o divórcio. Nem penses nisso."

Ele desligou.

Eu olhei para o telemóvel escuro.

Eu sabia que esta seria uma batalha difícil.

Mas eu não ia desistir.

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