Capítulo 2

Três anos depois

Morgana Foster

Naquela manhã tudo parecia quieto quando cheguei no casarão. Depois de dois anos voltei, sentindo um arrepio percorrer meu corpo assim que fitei aquela gigante porta.

Respirei fundo algumas vezes antes de empurrar a maçaneta ponderando se essa era realmente uma boa decisão. Ganhei esta casa do vovô Burke quando casei com seu neto naquele contrato maluco, mas não quis permanecer aqui, como eu vivia na faculdade e mantinha o mínimo contato com o meu marido de papel, nunca me despertou a vontade de viver nesses muros brancos.

Usei minha aliança somente nas reuniões de família e festas em que tinha que o acompanhar para manter as aparências de um casal feliz e estável.

Nunca cogitei a possibilidade de morar com ele e ele também nunca me procurou para isso, nós até tentamos fazer o casamento falso parecer real no primeiro ano para que a família o deixasse em paz, foi quando eu fiquei no apartamento do centro da cidade durante os primeiros meses. Isso não deu certo.

Nosso casamento era apenas nominal. Havíamos conversado e concordamos que viveríamos nossas vidas normalmente longe deste contrato. Foi uma burrice sem tamanho. Eu me apaixonei por ele.

Ele tinha sua namorada, Elena. A mulher que ele amava era ela, mas sua família não a queria por perto e eu realmente nunca entendi por quê. 

Pelo que eu soube, no pouco tempo de convivência, Elena era o amor da vida dele. A grande modelo, Elena Kyle. Loira, alta, magra e delicada. Um rosto fino e elegante. 

Aquela mulher era o verdadeiro amor do meu marido. Não eu. E isso me manteve longe de criar expectativas, mas não o suficiente para não me apaixonar e ficar completamente à mercê de suas migalhas de carinho. 

Eu sabia que ele não me amava, sempre me tratou friamente, ao ser forçado a ficar comigo quando, na verdade, sempre quis se casar com Elena. Eu já a encontrei algumas vezes, mas nunca nos falamos diretamente.

Embora, ela sempre estivesse ao lado de Ryan quando nós tínhamos que nos encontrar. Trocando carinhos desnecessariamente na minha frente, como um cachorro marcando território. Sim, esse é o termo certo.

As únicas vezes que não tinha esse desprazer eram nas visitas ao vovô Burke. Eu sempre fui grata por isso, já que para meu marido de papel não importava muito como eu estava me sentindo com aquilo. A simples presença dele me deixava inquieta, ansiosa. 

Mas meu marido de papel sempre fez questão de estar o mais longe possível de mim. 

Eu preferia assim.

Não queria ser machucada por ver meu marido com outra mulher. Eu sei, um contrato. 

Depois de três anos casada com o excêntrico Sr. Ryan Burke, esta seria a primeira vez que o veria depois que terminei a faculdade e tive que sair do campus. Dois longos anos dando desculpas para não vê-lo. Ter começado meu estágio em um hospital me ajudou muito nessa parte.

Um plantão de última hora, uma prova da faculdade. Sempre o evitando o quanto podia. Aqueles primeiros meses aqui foram o suficiente. Eu o amava. E vê-lo com Elena, mesmo que eu soubesse que ele não seria meu, doía.

Eu o evitava como o inferno.

Embora este casamento tenha sido ocasionado por um contrato para salvar a vida do meu pai, ele não sobreviveu a quimioterapia e havia falecido há alguns meses. Então agora, eu deveria voltar para terminar isso. Me desprender desse casamento. E seguir.

Sentei no sofá branco da sala, jogando as chaves sob a mesa de centro. A casa estava impecável, provavelmente alguém limpava regularmente o lugar. Era realmente gigante. Decorada com luxo e elegância.

Peguei o celular para verificar a hora, vi um e-mail do meu marido.

De: Ryan J. Burke II

Data: 10 de fevereiro de 2017 10:00

Para: Morgana M. Foster

Assunto: Divórcio

Precisamos conversar sobre o divórcio, quando estará disponível? Retorne assim que possível.

Segue em anexo, os documentos listados e avaliados pelo meu advogado.

Atenciosamente,

Ryan J. Burke II

CEO, JBR ENTERPRISES LTDA.

Uma pontada ardeu em meu peito. Mesmo eu já esperando por isso, um pouco de esperança ainda corria em seu coração. Que como eu ele tivesse criado alguma afeição por mim. Eu sei que isso era patético. 

Considerando que Ryan nunca deu sinais disso, e bem, aquilo doía muito. Uma fraca esperança de chegar aqui e ele mudar de ideia sobre o fim desse contrato. Como meu pai não estava mais entre nós, a dívida com o hospital foi encerrada e o luto passou.

Mas isso era tudo que eu receberia? Um email me pedindo divórcio? Após anos aguentando as humilhações dele vivendo com Elena para cima e para baixo, sem se importar com o quão humilhante isso soava quando eu o amava.

Ele poderia encerrar o contrato e seguir seu caminho, já que meu marido nunca me tocou e consumou de fato esse casamento.

Como eu pensei, ele estava aguardando o luto passar para o fazer.

Dois meses depois do meu pai falecer, ele finalmente o fez. O divócio chegou. Essa esperança que me corria era apenas uma ilusão.

Eu me apaixonei tanto por ele no começo disso. Eu pensei realmente que conseguiria conquistá-lo.

E aqueles primeiros meses foram apenas para uma tentativa falha. As lágrimas encheram meus olhos enquanto eu processava a frieza daquele e-mail. Toda a ilusão que eu havia construído em torno da possibilidade de uma mudança de coração desmoronou naquele instante. Eu sabia que nosso casamento era apenas um acordo, mas a parte de mim que ansiava por algo mais, por uma conexão real, ainda estava viva.

Respirei fundo, tentando conter as lágrimas que ameaçavam escapar. Era hora de encarar a realidade e seguir em frente. Peguei meu celular e comecei a redigir uma resposta ao e-mail.

De: Morgana M. Foster

Data: 10 de fevereiro de 2017 10:15

Para: Ryan J. Burke II

Assunto: Re: Divórcio

Senhor Burke, Recebi seu e-mail. Estou disponível para discutir o divórcio. Podemos marcar um horário que seja conveniente para ambos.

Atenciosamente, Morgana M. Foster

Enviado. Olhei ao redor da sala, tentando absorver cada detalhe como se fosse a última vez que estivesse ali.

— Que tola eu fui, hein! — Falei para as paredes, encarando meu reflexo no espelho dourado em frente ao sofá — Pensar que realmente ele iria me amar.

Então suspirando profundamente, fechei os olhos e adormeci. Eu estava muito cansada.

De tudo isso.

Capítulo 3

RYAN BURKE

Era final de tarde, o céu tinha poucas nuvens lá fora. Sai da empresa pouco antes das 16:00. Morgana chegaria entre hoje e amanhã na "nossa casa'', ela estava me evitando há alguns meses. Eu não a procurei durante esse tempo necessariamente por gostar dela, mas eu precisava manter aquela farsa escrota em que ela e meu avô me colocaram.

Nunca quis essa porcaria de casamento, mas eu tive um pouco de empatia pela situação quando ela me explicou o estado de saúde do pai.

Eu fui enganado desde o início disso tudo. Então entramos em um consenso; eu não atrapalharia a sua vida, nem ela a minha. Nós estaríamos nesse acordo de casamento enquanto seu pai precisasse de tratamento médico e eu manteria meu relacionamento com Elena. O casamento com Morgana sempre foi nominal. Sinceramente eu nunca olhei muito para ela, minhas atenções sempre pertenceram a loira de olhos azuis que me dominava.

Como o pai faleceu há alguns meses, decidi esperar um tempo de luto para em seguida pedir a anulação do casamento.

Creio que a essa altura ela já havia recebido o e-mail com os documentos e termos do acordo.

Entrei no meu Rolls Royce e segui caminho por Rookgaard até chegar no meu destino. Eu estava morando lá há cerca de uma semana. Me certificando que tudo estaria em ordem quando ela chegasse, já que a casa ficaria com ela após o divórcio.

Estacionei na porta e desci apressado. Hoje ainda tenho que comparecer a um jantar na casa da minha família, pois nada pode ser simples na minha vida.

Assim que entrei na casa, avistei duas malas cor de rosa enormes. Eu sabia que ela havia chegado. Segui para sala e a vi esparramada no sofá.

A pequena mulher ali não passava de 1,62 e tinha cabelos os negros caindo sob a roupa amassada e pouco cuidada, grandes olhos e a boca vermelha de batom suspirando, enquanto cochilava. Arrastei as malas para o andar de cima e as coloquei no quarto principal. O meu quarto.

Desci novamente as escadas e ela permanecia dormindo. Sua face tranquila durante o sono lhe dava um ar levemente angelical. A não ser pelo batom vermelho que tornava a sua boca atraente.

A observei por alguns instantes intrigado com aquele sentimento. Essa mulher era uma figura diferente da última que eu conheci. Engoli a seco a vontade súbita de beijá-la e limpei a garganta para que ela notasse minha presença.

Assustada ela levantou a cabeça e me fitou limpando os olhos com as costas das mãos.

— Quando chegou aqui? — eu disse sem esboçar nenhuma reação a sua presença.

Ela me encarou atônita e soltou um gemido enquanto se espreguiçava, alinhando o corpo no sofá.

— Esta manhã! — ela respondeu bocejando — Pouco antes do almoço.

Ela esticou a mão e deu um leve pulo olhando para o celular, provavelmente tomou um susto vendo que já se passava das 17:00 horas e havia perdido quase seu dia todo quando cochilou.

— Droga! — esbravejou ainda parecendo atordoada

— Deveria ter me avisado, o motorista a buscaria. — disse servindo um copo de whisky e sentando em frente a ela o meu e-mail?

Ela assentiu e manteve seu rosto sério.

— Basta você ler e se não tiver nenhuma objeção quanto a divisão de bens, assine e estaremos separados.

Ela me olhava mantendo seu rosto em branco. Eu queria saber o que ela estava pensando, mas era ilegível. Ela fez silêncio durante um longo tempo.

Eu bebi meu whisky e permaneci encarando seu rosto. Essa mulher parecia em nada com a que me casei. Estava mais confiante. 

— Sei que vai estar tudo certo. — ela suspirou e olhou para o lado — Amanhã eu irei assiná-lo. Com licença, tenho que organizar minhas coisas.

Ela se levantou e saiu em direção à cozinha. Apenas observei atento cada movimento até que o meu celular tocou.

O nome de Elena brilhou na tela. Peguei o celular e afastei-me um pouco para atender a ligação, mantendo um olhar de desinteresse enquanto Morgana desaparecia na cozinha.

— Oi querido. Como foi o seu dia? — a voz suave de Elena ecoou pelo telefone.

— Normal. Trabalho, como sempre. — Eu respondi,  — E estou em casa agora.

Elena suspirou do outro lado da linha. Eu podia sentir sua frustração. Nosso relacionamento sempre foi às escondidas, e ela ansiava por mais.

— Ryan, precisamos conversar. Aquela mulher já respondeu o e-mail? Isso não está mais funcionando para mim. Estamos nessa situação há anos, e eu estou cansada de esconder nosso amor como se fosse algo sujo.

Engoli em seco. Eu sabia que essa conversa era inevitável, mas eu não esperava que acontecesse tão cedo, especialmente no mesmo dia em que Morgana chegou.

— Eu sei, Elena. Estou ciente das complicações, mas temos que continuar assim por enquanto. Morgana está aqui agora, e... bem, precisamos lidar com algumas coisas.

O silêncio do outro lado da linha foi seguido por um suspiro resignado. A menção a Morgana como "aquela mulher" me causou um certo amargor — Na verdade, eu acabei de falar com ela, Elena. Ela está aqui e concordou com assinar o divórcio. 

— Sério? — Elena respondeu parecendo espantada do outro lado da linha — sem nenhuma objeção?

— Sim, sem objeções. Não se preocupe, vou resolver isso o mais rápido possível. — eu suspirei pesadamente sentindo um pouco de ressentimento crescendo no meu peito. — Mas não foi para falar disso que você ligou não é?

— Ah! Não. Na verdade, eu liguei para você não esquecer que nós temos aquele jantar hoje.

Eu havia me esquecido completamente disso. Alisei meu rosto. O jantar com ela conflitava com o jantar na casa da minha família.

— Claro querida, às 21:00? — perguntei — Tenho que ir à casa da minha família ainda hoje.

— Ah... Tudo bem. — a voz dela soou menos animada — Eu te vejo mais tarde, então?

— Estarei aí às 21:00.

— Okay, estarei esperando.

Desliguei o celular e subi para um banho rápido. A noite seria longa. Enquanto a água do chuveiro caía sobre mim, não pude deixar de refletir sobre a complexidade da minha vida. Dois relacionamentos, ambos baseados em mentiras, segredos e conveniências. A decisão de finalmente encerrar o casamento com Morgana aliviou parte do fardo, mas agora eu enfrentava o desafio de manter as aparências com Elena.

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