Capítulo 2

Duarte de Albuquerque segurou as minhas mãos, os seus olhos fixos nos meus, a sua voz um sussurro desesperado contra o som das ondas do Algarve.

"Lúcia, por favor, espera só mais um pouco."

Eu conhecia aquela frase, tinha-se tornado a sua canção de embalar para a minha dor, a promessa que me mantinha acorrentada a ele.

Ele era o herdeiro de uma dinastia do Vinho do Porto, um mundo de quintas no Douro e apelidos que pesavam como ouro, eu era apenas Lúcia Almeida, uma marisqueira cuja única riqueza era o sol na pele e um pendente de filigrana, um Coração de Viana, que a minha mãe me deixou.

O nosso amor era um escândalo à espera de acontecer.

A família dele, os poderosos Albuquerque, descobriram-nos, a sua mãe, uma mulher com um olhar mais frio que a geada de inverno no Douro, deu-lhe um ultimato, a sua voz cortante como vidro partido.

"Queres essa mulher? Então dá-nos um herdeiro, garante a sucessão com a mulher que escolhemos para ti, Sofia Castelo Branco, só depois de cumprires o teu dever, poderás ter os teus caprichos."

Duarte aceitou, ele chamou-lhe um pacto, um sacrifício temporário, eu chamei-lhe o início do fim.

Ele casou com Sofia, a filha de um banqueiro, uma mulher que parecia feita de porcelana e seda, mas cujo sorriso nunca chegava aos olhos.

E a mim, ele pedia para esperar.

"É só por um tempo, Lúcia, até o bebé nascer, depois serei livre, seremos livres."

Eu acreditei, porque o amor nos torna tolos.

A primeira filha deles nasceu, uma menina frágil chamada Leonor, e o meu inferno começou.

Numa das raras visitas que me permitiam fazer à quinta, para ver Duarte de longe, Sofia aproximou-se de mim, o seu sorriso era doce, mas os seus olhos eram duros.

"Lúcia, que bom ver-te, a Leonor está ali, queres dar-lhe um beijo?"

Hesitante, aproximei-me do berço, a bebé era pequena, com a pele rosada, toquei-lhe na mão com a ponta do dedo, um gesto inocente.

Horas mais tarde, o caos instalou-se, a bebé estava com falta de ar, o seu corpo coberto de manchas vermelhas, uma reação alérgica grave.

Sofia gritou, apontando para mim, as lágrimas a escorrerem pelo seu rosto perfeito.

"Foi ela! Eu vi-a a dar algo à bebé! Ela tentou matar a minha filha!"

Ninguém me ouviu, ninguém quis ouvir, Duarte olhou para mim, não com amor, mas com uma frieza que me gelou a alma, a sua voz era um chicote.

"Como pudeste?"

O meu castigo foi rápido e brutal, os pais dele ordenaram que eu fosse trancada na adega, um lugar frio e húmido onde o cheiro a mofo e a vinho velho se misturava com o meu desespero.

Passei a noite no escuro, o frio a entrar-me nos ossos, mas o que mais me doía era o frio no olhar de Duarte, o abandono.

Quando a porta se abriu de manhã, foi a mãe dele que apareceu, o seu rosto uma máscara de desprezo.

"Devias estar grata, isto é apenas uma pequena lição, da próxima vez, as consequências serão piores."

Eu não disse nada, a minha voz tinha desaparecido, engolida pela humilhação.

Decidi que não podia mais esperar, esta vida de sombras e mentiras estava a matar-me.

Contactei a mãe de Duarte, a minha voz firme, apesar do tremor no meu coração.

"Eu vou-me embora, mas preciso da vossa ajuda para desaparecer, para um lugar onde ele nunca me encontre."

Ela riu, um som seco e sem alegria.

"Finalmente ganhaste juízo, achas que o meu filho alguma vez te levaria a sério? Tu és um divertimento, uma distração, nada mais."

As suas palavras eram cruéis, mas eram a verdade.

Antes de partir, eu tinha de o ver uma última vez, precisava de ouvir da sua boca que tudo tinha acabado.

Encontrei-o nos jardins da quinta, ele estava a empurrar o carrinho de bebé, com Sofia ao seu lado, eles pareciam a família perfeita, a imagem que os pais dele sempre quiseram.

Ele viu-me e a sua expressão endureceu, a desconfiança substituiu qualquer calor que pudesse ter restado.

"O que estás aqui a fazer? A Leonor ainda está a recuperar."

Foi então que o vi, pendurado no pescoço de Sofia, brilhando contra a sua pele pálida.

O meu Coração de Viana.

A única herança da minha mãe.

Duarte tinha-mo pedido, dizendo que o guardaria em segurança, longe dos olhos curiosos da sua família, mas ele não o guardou, ele deu-o a ela, como um prémio, uma compensação.

O ar abandonou os meus pulmões, uma raiva cega apoderou-se de mim.

"Isso é meu!", gritei, a minha voz rouca de dor e traição.

Avancei para Sofia, as minhas mãos estendidas para recuperar o que era meu por direito.

Ela recuou, um grito agudo a escapar dos seus lábios, e tropeçou deliberadamente, caindo no chão de uma forma teatral.

"Ai, a minha barriga! O bebé!", gritou ela, as mãos a protegerem o seu ventre ligeiramente saliente.

A sua segunda gravidez.

Ninguém me tinha dito.

Duarte não olhou para mim, a sua fúria era um vulcão em erupção, ele empurrou-me com uma força brutal, a minha cabeça bateu contra a parede de pedra do jardim, a dor explodiu atrás dos meus olhos.

Ele não se importou, não olhou para trás, correu para Sofia, levantou-a nos seus braços e levou-a em direção ao carro, gritando ordens para a levar a uma clínica privada no Porto.

Deixou-me ali, caída no chão, a sangrar, com o coração partido em mais pedaços do que eu sabia ser possível.

O meu Coração de Viana estava quebrado, e a minha alma também.

Capítulo 3

Fiquei ali, no chão frio de pedra, o sangue a escorrer pela minha nuca, a misturar-se com as lágrimas silenciosas.

Duarte nem sequer olhou para trás, o seu mundo inteiro agora resumia-se a Sofia e ao filho que ela carregava, a continuação da dinastia Albuquerque.

A ironia era amarga, doía mais do que a ferida na minha cabeça.

Lembrei-me de como ele me tinha perseguido, no início, quando eu era apenas uma rapariga da vila e ele o jovem fidalgo de férias no Algarve.

Ele aparecia na praia todos os dias, com flores, com promessas, com um sorriso que podia derreter o gelo do Ártico, ele aprendeu a apanhar marisco só para passar tempo comigo, as suas mãos macias e cuidadas ficaram cheias de cortes e calos, mas ele não se importava.

Uma vez, para me impressionar, ele escalou uma falésia perigosa para apanhar uma flor rara que eu tinha mencionado, ele escorregou e caiu, partindo um braço.

Recusei-me a vê-lo no hospital, sentia-me culpada, mas ele apareceu à minha porta no dia seguinte, o braço engessado, um sorriso parvo no rosto.

"Faria tudo de novo, Lúcia, só para te ver sorrir."

Foi nesse dia que o meu coração se rendeu, ele tinha sacrificado a sua segurança por um capricho meu, como poderia eu não o amar?

Ele cuidava de mim com uma devoção quase sufocante, se eu tossia, ele trazia-me chás e cobertores, se eu me cortava num rochedo, ele entrava em pânico, limpando a ferida como se fosse uma questão de vida ou de morte.

"És tão frágil, minha Lúcia, tenho de te proteger."

Agora, a sua proteção era para outra mulher, a sua devoção pertencia a outra família.

Com o corpo a doer, levantei-me, a vertigem a ameaçar derrubar-me, ignorei-a e caminhei, passo a passo, até ao pequeno posto de saúde da vila.

A enfermeira olhou para a minha ferida com preocupação.

"Isto precisa de pontos, o que aconteceu?"

"Eu caí", menti, a vergonha a queimar-me a garganta.

Enquanto ela tratava da minha ferida, o meu telemóvel tocou, era ele.

Atendi, uma parte estúpida de mim ainda à espera de um pedido de desculpas.

A sua voz era fria, dura.

"Onde estás? Fui informado de que foste a um posto de saúde, estás bem?"

Não havia preocupação na sua voz, apenas irritação.

"Estou bem", respondi, a minha voz um fio.

"A Sofia está bem, o bebé está bem, foi só um susto, mas podias tê-la magoado a sério, Lúcia, o que se passa contigo? Porque é que tens de causar sempre problemas?"

A injustiça da sua acusação roubou-me o fôlego, ele não acreditava em mim, ele escolheu acreditar nela.

"Eu não fiz nada, ela fingiu."

"Para com isso, Lúcia, eu vi o que vi, por favor, não tornes as coisas mais difíceis."

Desliguei a chamada, não conseguia ouvir mais, a ferida na minha cabeça latejava, mas a ferida no meu coração era insuportável.

Mais tarde, ele apareceu no pequeno quarto que eu alugava, o seu rosto cansado, os seus ombros curvados.

"Lúcia, eu..."

Ele não sabia o que dizer, as palavras pareciam presas na sua garganta.

"Eu sei que estás magoada, mas tens de entender, a minha família... a Sofia... é complicado."

"Pedi-te para esperar", sussurrou ele, a sua frase de sempre, a sua desculpa esfarrapada. "Espera só mais um pouco, quando o segundo bebé nascer, serei livre, eu prometo."

Olhei para ele, para o homem que eu amava, e pela primeira vez, vi-o como ele realmente era, fraco, um prisioneiro da sua própria herança, um covarde.

"Não", disse eu, a minha voz surpreendentemente forte. "Eu não vou esperar mais, acabou, Duarte."

A sua expressão mudou, o desespero substituiu a exaustão.

"Não digas isso, Lúcia, não podes fazer-me isto, eu amo-te."

As suas palavras eram vazias, ocas, como uma concha na praia, bonita por fora, mas sem vida por dentro.

Percebi, com uma clareza dolorosa, que não havia retorno, o nosso amor tinha sido construído sobre uma fundação de areia, e a maré da realidade tinha-a levado para sempre.

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