Capítulo 2

Durante a noite escura, não consegui pregar os olhos e os mantive periodicamente abertos, sentindo-os pesados como grandes blocos de gelo, ansiando conseguir me concentrar apenas em tentar descansar. Ethan se prontificou em ficar acordado para fazer vigia, mas nem que eu me esforçasse arduamente, eu conseguia dormir. Era como tentar se afogar sem prender um pedaço de chumbo nos pés. Uma hora ou outra, você vai voltar para a superfície. O instinto de sobrevivência é feroz, mais do que a minha vontade de sair correndo por qualquer lado. Sei que se ele quisesse, já teria me matado. Mas será que isso importa para ele? O que ele poderia querer dizer com Ordem Lapidada? Algo que significaria sua possível “fuga” do mundo ao redor? Estar nessa floresta não me parece ser tão promissor.

Me encolhi quando ele caminhou para fora da zona de calor onde meu corpo já estava acostumado e um vento correu contra a minha cabeça, fazendo os meus cabelos se arrepiarem completamente. Observei-o se sentar próximo a uma árvore, estranhamente, eu sentia que ele gostava de ficar sozinho e com aquela mesma adaga de empunhadura vermelha com um diamante anormal no pomo. Tentei fechar os olhos novamente e não me dei conta de quando adormeci.

Ele estava ao meu lado. Senti o calor humano novamente e alguns grunhidos serem ecoados por baixo de sua máscara. Ele parecia estar em um pesadelo bem desagradável, escutei nitidamente a palavra “Adamas” e depois “eu sinto muito”, “pai”. Então, sentei-me com delicadeza para não acordá-lo. Tudo ainda estava escuro, talvez fosse de madrugada. Umas quatro horas. Afaguei os meus braços esperando que um calorzinho qualquer me aquecesse, mas não funcionou e puxei a manta negra para mais perto dos meus joelhos curvados.

Observei as árvores enquanto balancei-me como se estivesse em uma cadeira – o movimento podia me ajudar e ele bloqueava um pouco as baforadas do vento nevado –, elas eram tão altas e robustas o que fazia-me crivelmente acreditar que não estou na Noruega. Estou mais longe de casa do que eu imagino. Algum sentimento em meu corpo começou a surgir, raiva? Agonia? Ou tudo ao mesmo tempo. Principalmente por precisar da ajuda de um homem assassino, o mesmo que o guia no museu falava, para sobreviver. Isso é ridículo! Por que estou aqui? Maldito turíbulo. Eu só queria que isso fosse um sonho louco, que eu acordasse no museu com Chelsea ao meu lado, me chamando de Branquela e falando o quanto eu sou fresca por ter desmaiado com o frio.

Talvez a única saída seja morrendo. Se estou em um lugar onde eu nunca deveria estar, provavelmente a solução seja esta, o que enche o meu estômago de medo. Observei Ethan novamente, com aquela mesma máscara sinistra.

— Ah, por favor, poderia matar-me senhor mascarado? — Sussurrei para que ele não escutasse e esfreguei as mãos nos olhos. Essa parecia ser uma boa escolha. — Mascarado… — Repeti quando percebi que mais do que nunca, estou tremendamente curiosa para ver o seu rosto, mesmo prevendo que me decepcionaria. Ele deve esconder um rosto horripilantemente medonho por trás da máscara de metal. Uma deformidade horrorosa que deve assustar até os lobos que já estão mortos. Talvez fosse melhor ele ficar com essa máscara. A voz dele o torna ridiculamente desejável e atraente.

O que estou pensando, afinal? Ele matou oito homens! Oito! E mais quatro lobos para finalizar sua pena.

Sinto a ponta da lâmina tocar a minha barriga levemente, onde eu havia deixado. Curvei a cabeça, tentando resgatar alguma ideia louca que estava surgindo devagar na minha cabeça e então, ao pegá-la, deixo cair um pedaço de papel amarelado e repugnantemente velho, que estava guardando em algum dos seus bolsos da capa negra. Ele se remexeu e eu o fisguei por alguns minutos. Ele estava acordado? Se estivesse, já teria se levantado?

Peguei o papel sem desgrudar os olhos da máscara inquietante, vagarosamente para que nenhum barulho o fizesse agarrar a adaga Haavik e prensá-la em minha garganta. Quando desamassei o pouco que consegui do papel, havia um retrato pintado de um homem de cabelos lisos e negros, olhos azuis, pele branca e um olhar conciso. O desenho era vazio. Um pouco rasurado mas consegui entender. Embaixo estava escrito com todas as letras “Procurado, Fruto Sagrado da Ordem Lapidada”. Logo levei os olhos até a frase que preenchia uma lacuna pequena onde um desenho de um saco de pano havia sido malfeito: “oferece-se uma recompensa de Ç900.000.000 PREUS DE OURO pela captura do bandido. Tratar com o Comandante da Patrulha Lapidada”.

Suspirei, irritada. Então era isso, ele é um caçador de recompensas e está atrás desse homem que vale, aparentemente, bastante dinheiro? Quem não garante que neste mundo paralelo eu não seja uma rainha que também está sendo procurada por não sei quantos “preus”. Sem pensar duas vezes e no calor da adrenalina, inclino o meu corpo para a onde o seu estava adormecido e pressiono a adaga perto do seu pescoço.

Ele se remexeu um pouco. 

— Você não pode me matar. — Falou baixo. Ele estava acordado esse tempo todo? Estúpido!

Eu podia imaginar o sorriso sarcástico em seu rosto medonho neste exato momento. Mas não vou deixar que ele pense que eu sou uma inocente. Vou deixar que acredite que sou a pior assassina do planeta Terra!

— Não duvide de mim! — Resmunguei.

— Não estou duvidando. Estou fazendo uma afirmação. — Sua voz soou fria tanto quanto a noite. Ele não demonstrava nenhuma reação, o que atiçou todos os nervos do meu corpo com raiva. — Você não pode me matar.

Levantei o desenho para que pudesse analisar e apertei as sobrancelhas para parecer zangada. Me pareceu conveniente.

— É por isso que você está aqui? — Questionei, firme. — Para matar esse homem? Você é um caçador de recompensas, não é?

— Não. — Respondeu, sério. — Na verdade, eu sou um rei. Exilado e condenado a morte pelo meu próprio povo, por um crime glaudiamantico.

Um rei? Vestido desse jeito? Ele deve estar brincando com a minha cara. Além de tudo isso ser uma maluquice, ele acha que sou um palhaço convidando-o para fazer brincadeiras.

— Tá achando que sou um palhaço? — Questionei, retoricamente.

— Um o quê?

— Cale a boca ou eu…

— Hum? — Interrompeu-me.

Soltei um grunhido de raiva alto e tentei parecer durona ao querer aproximar mais a lâmina em sua garganta. Mas não consegui.

— Eu salvei a sua vida e você quer retribuir me matando? — Questionou, fazendo-me semicerrar os olhos por parecer tão errado o que estou fazendo. Mas ele é um assassino caçador de recompensas, preciso descobrir qual é a dele. Por que se interessou em me ajudar. — Vá em frente, não será a primeira a tentar fazer isso.

— Acha que não tenho coragem? — Questionei. — Já matei muitos!

Ele riu, irônico.

— Aposto que sim. — Respondeu. Ele segurou o meu pulso, fazendo-me apertar os lábios de dor quando começou a puxá-lo contra o seu pescoço com força. — Está focando o lugar errado. Aqui… — Disse, quase que sussurrando, com uma voz rouca. — Aqui fica a jugular, mas eu a chamo de Ponto de Precisão. Consegue sentir os batimentos? — Questionou.

Abri a boca para responder, mas só consegui arregalar os olhos nesse tempo, perplexa com sua atitude.

— É só apertar bem forte, sem hesitar. — Continuou sussurrando e pressionando a beirada pontuda da lâmina.

Franzi os lábios, dominada pelo ódio. Ele está me manipulando! Ele acha que não tenho coragem. Mas será que eu realmente tenho? Quem estou querendo enganar?

— Não me desafie seu insolente, eu que estou no controle agora! — Blefei, sem nenhum resultado. É ridículo. Estava mais nervosa e descontrolada do que o mascarado. Ao invés disso, ele está tremendamente tranquilo.

— Então, está esperando o quê? — Ele esperou. Talvez cinco minutos enquanto troquei olhares com a máscara. E ao notar que não aconteceria nada, moveu o punho cerrado, colocando seu pulso por baixo do meu, atravancando a minha faca. Ele girou a mão contra o meu braço depressa, contorcendo-o com brutalidade e fazendo a lâmina se soltar dos meus dedos para ir parar nos seus como se eu estivesse entregando-a de graça. Revirou o meu corpo contra o chão e montou sobre ele, onde a mesma faca encontrou um pescoço. Só que dessa vez, o meu. 

Aquela máscara monstruosa estava tão próxima que eu podia jurar ter sentido a sua respiração. Talvez eu realmente tenha sentido-a sair por alguma abertura nas bordas. Não conseguia entender mais nada. Nem mesmo as minhas atitudes estavam me levando a algum lugar que eu gostaria. Seu jeito manipulador só provou que eu nunca teria coragem para fazer nada, e agora estou tão vulnerável quanto uma formiga no chão, prestes a ser pisoteada miseravelmente. Provavelmente, agora, sua paciência se esgotou. Me sinto uma garotinha frágil e frustrada, não tenho medo se neste exato momento perder a vida, porém sinto uma agonia enorme e minha consciência me cobrando de que eu fracassei.

— Já matou muitos, não é mesmo? — Aproximou mais o rosto. — Com certeza competiria facilmente com todas as vidas que exterminei com cada lâmina que tenho…

Não respondi e continuei observando-o. Esperando que terminasse. Ele guardou a pequena faca de arremesso no cinturão e morosamente retirou outra. Aquela persistente adaga Haavik, de empunhadura vermelha e que tinha o formato de uma coroa dourada no protetor.

— Está vendo essa aqui? — Ele se ajeitou sobre o meu corpo, e seu peso começou a me incomodar um pouco, mas o seu calor era maravilhoso. — Essa aqui, eu usei para matar o meu próprio pai; enfiei dentro do seu coração.

— O quê…

Ele apertou a lâmina contra a minha jugular com delicadeza, sem querer me machucar de verdade.

— A lâmina que você não espera, é a que dói mais. — Sussurrou, o que pareceu ser mais particular. Não sobre mim. Sobre ele. — Não pense duas vezes quando tiver que matar alguém. — Aquelas palavras duras ecoaram como um desespero. O que estou fazendo aqui, com um homem que matou o próprio pai? Será este o motivo de todos quererem sua cabeça?

Ele se levantou e guardou a adaga no cinturão novamente, suspirando, tenso. É nítido que tenha recordado de muitas coisas que aconteceram em sua vida, e se ele diz a verdade, significa que seu pai era o rei e que ele o matou por ambiciosidade para assumir o seu lugar no trono. Que homem estúpido. Mas e se não for isso? Deve haver uma explicação para tudo isso.

— Já perdi a minha paciência com você. — Observou, depois de minutos. — Adeus. — Colocou o arco em suas costas, o mesmo que estivera no chão esse tempo todo, e começou a dar os primeiros passos

Restaurei a minha coragem, colocando-me em sua frente com o cartaz de “procurado” entre o meu peito e o seu.

— É o que faz de melhor, não é? Matar para ter sua “paz”? — Disse, desesperada. — Eu não sei o que está acontecendo! Não sei porque estou aqui, eu não sei que lugar é esse. Eu só quero voltar para casa. Então me mate, mate logo! E fará um favor para mim. — Levantei mais o cartaz. — Só espero que seja piedoso com este homem aqui, que você está procurando.

Senti meus olhos arderem com tamanha indignação por Ethan Haavik, e neste momento, lembrei de Chelsea de novo. Querendo apenas voltar para a minha irmã de consideração.

— Eu não vou te matar. Você não passa de uma maluca que adora testar a paciência alheia. Não sei como está viva nesses escombros de pessoas brutas. — Desdenhou e deu de ombros.

— Se não vai me matar, então porque está aqui? Por que está me ajudando? — Questionei, seriamente e sai andando dobrando o pergaminho atrás dele.

— Porque talvez eu tenha um coração mole quando o assunto é mocinhas em apuros.

— Eu não sou uma mocinha em apuros!

Ele soltou um suspiro.

— Certo. — Concordou.

— Só devolverei isso aqui — balancei o pergaminho fechado quando o alcancei e fiquei em sua frente — assim que me levar em segurança para a minha casa.

— Eu não quero isso, pode ficar de presente para você. Tem vários espalhados por aí. — Respondeu e me ultrapassou de novo. — E quanto menos tiver em exibição, melhor para mim.

— O quê! — Gritei. — Por favor, pelo menos me leve até a Noruega ou até o turíbulo que me trouxe a este lugar ridículo e grotesco!

— Turíbulo? — Ele cessou os passos e se virou. — Que turíbulo?

Dobrei a cabeça, esticando os lábios com um sorriso de vencedora.

— Tem interesse nesse turíbulo? — Ele não respondeu. — Foi ele, não é? Ele quem me trouxe para cá, com você, infelizmente.

— Se for o que estou pensando, provavelmente. Mas seria apenas a sua forma espectral.

— Como assim?

Ele balançou a cabeça.

— Turíbulo de Basami, o Limiar. — Sussurrou como se tivesse feito uma grande descoberta. — Onde ele estava?

— Na Noruega… No museu, comigo e com a Chelsea. Inclusive, ela estava me dizendo o quanto você é um idiota e…

— …Tá, tá, tá — Cortou-me. — Sei como tirar você daqui.

Ele me puxou pelo braço e ajeitou a espada na bainha, mas rapidamente freei o passo, junto com uma fumaça de frio que foi emanada pela minha boca quando suspirei.

— Espere! — O puxei contra mim. — Então você realmente vai me levar de volta?

— Eu não sei… Precisamos primeiro saber se o que a trouxe aqui fora o turíbulo de Basami.

Sorri.

— Então você me ajudará? — Questionei. — Sem voltar atrás ou me deixar em algum vilarejo?

— Ah… — Ele aproximou o punho fechado do “rosto” que na verdade era a máscara, e novamente suspirou, tentando manter a paciência. — Sim. Me dê isso. — Balançou os três dedos que estavam cobertos pela luva de arqueiro, mandando-me entregar o retrato.

Não hesitei e o entreguei. Ele agarrou o pedaço de pergaminho e o rasgou com força, jogando-o no chão.

— A última vez que salvei uma mulher, ela tentou me matar depois… — Murmurou, abaixou a cabeça e colocou a mão ao lado da máscara. Estou delirando? Ele vai mostrar a sua identidade? — Para a sua surpresa, não precisará deste retrato se quiser alguns preus de ouro. Eu sou o Fruto Sagrado, eu sou quem eles procuram.

Abri a boca quando sem hesitar arrancou a máscara do rosto e coloco-a no cinturão, onde havia um gancho para encaixá-la.

Minha face adormeceu ao contemplar seu rosto. Que olhos eram esses? Parecia algo surreal, algo mágico – algo que não poderia pertencer à Terra. Agora, mais do que nunca, ao observá-los, percebi que pareciam belos diamantes lapidados, mesmo com um risco ridículo que cortava o direito; os seus cabelos eram negros e bagunçados que criavam contrastes lindos com a sua pele branca e seus lábios, tive certeza que estava delirando. Minha garganta entalou, tentei falar mas não consegui.

Diga algo, qualquer coisa. Uaul, você é um assassino… diferente? Não… Isso não. O que está acontecendo? Por que ele está naturalmente me deixando tensa? Ele é um assassino, ele está sendo procurado. Ele matou o próprio pai. Ele matou oito homens. Então, ele me fez sair do transe infinito de admirar seu rosto, se aproximando. Fazendo-me engolir seco.

— É por isso, que peguei este pedaço de papel inútil. — Sussurrou. — Se me encontrarem, serei obrigado a…

— …Quantos inocentes você matou? — Questionei. — O que realmente fez para ser procurado?

— Eu já lhe disse, eu matei o meu pai! — Respondeu e pensou. — E mais umas quatrocentas pessoas…

— O matou para roubar o seu trono, não é?

— Não! Eu fui manipulado, eu… — Ele novamente se interrompeu e apertou os olhos azuis com os punhos fechados, furioso. — Eu sou um estúpido!

— Você é! Você mata as pessoas, mas não sabe que não se interrompe uma vida na qual você não conhece o propósito. Só Deus pode saber!

Ele observou-me taciturno. Parecia que eu tinha dito algo muito óbvio.

— Eu mato alguns para salvar muitos… — Murmurou e quase não consegui escutar. — Não é como se eu quisesse ou como se eu não me importasse com suas vidas…

Comecei a rir. Droga, além de assassino é um lunático se achando um tal de messias enviado.

— Qual é a graça?

— Não se vanglorie Ethan Haavik, suas ações foram permitidas por Deus, só ele tem o poder de tirar a sua vida, ou a de outras pessoas..

— Acha que sabe sobre os deuses? — Ele se aproximou na tentativa de sussurrar em meu ouvido, e recuei alguns passos, engolindo a saliva. Não sabia dizer que tipo de sentimento estava emanando. Mas o meu sangue começou a ferver.

— Não me importo com deuses, sei sobre um que é responsável por toda a existência.

— Eu não sei como o seu Deus de onde você veio, age, mas aqui, eu tomo as minhas próprias decisões.

— O que está querendo dizer?

— Estou dizendo que eu sou o deus e eu tomo as decisões em meu planeta! — Recuou.

— Ah, claro. — Respondi com ironia. Bufei e rolei os olhos, com uma certa impressão de que tais palavras saíram na tentativa falível de me galantear.

— Falei alguma coisa que não lhe agradou? Quer dizer que as informações que você exige só lhe agradam quando convém? Ou não se conformou por descobrir isso?

— Descobrir o quê? Que você é um deus?

— Sim. Especificadamente um Deus Diamantense. É mais complexo, mas não espero que você entenda, isso acabaria com o meu tempo.

Encarei-o com o canto dos olhos. De repente pareceu ser tão engraçadinho, que resolveu me provocar. Mas não vou cair nessa, já não basta em outro universo eu ser chacota da minha irmã. Não vou ser de um homem louco que se acha um deus.

— Ficou tão engraçadinho de uma hora para outra. Preferia quando estava de máscara, bancando uma de assassino sério. — Balancei as mãos para cima, tentando gesticular algo engraçado com a voz aquosa.

— Certo. — Respondeu. — Não me importo com o que você prefere.

— Sabe, você é um cretino, idiota, estúpido, grosso sem sentimentos e sem coração! Por que ainda estou aqui?

— Porque salvei a sua vida. Te falei quem eu sou. O que mais você quer? — Ele se aproximou com as mãos inclinadas em meu rosto. — Quer que eu faça carinho em você? — Começou a acariciar o meu rosto e por algum motivo eu não o impedi, mas cerrei as sobrancelhas para parecer brava, mesmo que eu estivesse gostando de seu toque bruto que logo sumiu quando derrapou a mão ao lado do corpo. — Costuma ser assim perturbadora em seu mundo também? Aqui, chamamos isso de tortura. Quando um homem comete um crime, algumas formas de torturá-lo é colocando-o na companhia de uma pessoa que não cala a boca. É justo. Cometi muitos crimes. — Refletiu.

Ele fala de uma forma tão séria e autoritária com este timbre e esse sotaque forte ecoado ao vento, que por um tempo eu me importei. Seu semblante demonstrava que não estava me levando a sério. Sorte Chelsea ter me ensinado alguns modos para que as pessoas pudessem me compreender com seriedade e não me tratassem como criança. Espero conseguir exercer.

Apontei o dedo para o seu rosto.

— Escuta aqui seu insolente debochado, quem faz as perguntas aqui sou eu! — dou três tapinhas no seu peito. — E outra, seu rosto parece de um bebê. E este risquinho grande que fez na sobrancelha está fora de moda — pensei —, apesar que ficou sinistro e bonitinho… Mas não quer dizer que seu galanteio tenha me convencido. Não pode tentar galantear uma mulher dizendo que é um deus quando na verdade é um homem… qualquer. Não vou dizer que é normal porque eu estaria sendo uma mentirosa.

— Isto é uma cicatriz.

— Ah… — Observei o corte reto em seu olho melhor. — Tem razão. Perdão, eu não vi direito. Como conseguiu essa cicatriz?

Ele revirou os olhos e deslizou o polegar e o indicador pelos lábios, abafando a arquejada. Sinto um constrangimento amarguroso se formar, acompanhando o remorso. Assim como eu tenho marcas do passado em meu corpo, com certeza isso lembraria algo que não o deixa feliz.

— É uma longa história, mas foi durante um torneio.

— Torneio? Tipo aqueles torneios que você luta até a morte?

— Com três camadas vigorosas de vidro que destruíram a minha pele.

— Camadas de vidro? Estou ficando cada vez mais confusa! — Expirei, ansiosa e ele esticou os lábios para um sorriso discreto, o que revirou algo dentro de mim.

— Lutei em um torneio onde o chão era feito com vidro.

— E você ganhou?

— Por que acha que estou aqui? — Respondeu. — E além do mais, eu não posso morrer.

Eu ri por achar a ironia completamente engraçada.

— E essa adaga? — Questionei, sentindo-me ainda mais invasiva e que essa pergunta, diferente da outra, possuía um apreço sentimental muito maior.

— Chega de perguntas. — Respondeu, secamente.

— Está bem… — Respondi, depois de um tempo em silêncio. — Então, acho melhor sairmos daqui. — Dei alguns passos para frente e percebo que o Ethan não moveu nenhum músculo do lugar. Espero que não tenha se irritado novamente comigo. — O que foi? Desistiu de me ajudar? Pensei que fosse um homem de palavra.

— E eu sou. — Respondeu e apontou o dedo para a frente. — Você está indo para o lado errado — ele vestiu a máscara e começou a andar —, é por aqui.

Provavelmente vestiu a máscara para rir da minha cara, por querer bancar uma de mandona sabichona. 

Então caminhamos durante longas horas e o sol surgiu no céu, não fazia ideia do quanto as horas se passaram e o quanto poderia ser meio dia. Fiquei admirada observando o horizonte montanhoso, suas altos picos enregelados e brumados, diferente de tudo o que eu podia considerar normal no planeta Terra. Por um lado que a solidão ao lado de Ethan Haavik fosse aconchegante pelo seu silêncio e todo o seu ser misterioso e impenetrável, sentia uma angustia por não ter encontrado nenhuma civilização ou algum vilarejo mesmo que fosse abandonado. E embora eu me esforçasse para acompanhá-lo, o homem não explicitava nenhum cansaço físico, ao contrário de mim que já sentia os meus joelhos tremerem e se não fosse por estar o tempo todo viajando em pensamentos, e Ethan ter me dado seu cantil com água, já teria tombado de vez.

Ficamos sem trocar assuntos e provocações, algo que parecia o deixar bem satisfeito. Entretanto, algumas dúvidas surgiam sem parar ao seu respeito: Será que ele sabe mesmo onde está me levando, ou está me levando para o nada? E o que será que ele faz da vida? Fica só fugindo?

— Sr. Ethan Haavik, sabe mesmo onde fica o turíbulo? Não duvidando da sua capacidade, mas não vejo uma bússola indicando uma direção.

Sou ignorada com sucesso e meu rosto esquenta, de vergonha. Ele continuava calado enquanto eu corria para alcançá-lo; não queria ficar muito distante, mesmo depois de ele soltar a corda já que amanhecera e não havia necessidade de permanecermos grudados, tinha medo de algo esquisito agarrar-me por trás e levar-me para longe. Um pensamento de uma pessoa que está nitidamente se sentindo perdida.

Enquanto seus passos pesavam sobre a neve balofa, continuo meu questionário com um estoque renovável de perguntas. Algumas insolentes, outras que eram realmente necessárias. Mas nada, absolutamente nada que eu perguntava era saciado. Ethan era um enigma difícil de desvendar.

— Seus grunhidos não respondem as minhas perguntas! — E ele continuou em silêncio. — Ah, não adianta bancar o durão me ignorando ou ameaçar que vai me abandonar pois irei te perseguir eternamente, igual um carrapato. — Falei determinada enquanto escutava sua respiração impaciente. Talvez estivesse um pouco irritado comigo, apesar que seria tedioso duas pessoas desconhecidas andando caladas. Não é mesmo? — Por mais que você corra, irei te alcançar. Afinal, nem cavalo você tem. Até mesmo o cavalo deve ter fugido da sua presença irritante. Nossa, sério, você é chato demais —, rolei os olhos e comecei a bater os pés com força na neve, para parecer tão bruta quanto ele — eu sou o Ethan Haavik, eu sou um deus. Não, não! É melhor você não encher o meu saco porque se não eu vou cortar a sua garganta com essa espada aqui! Sim, eu sou um assassino idiota! E não preciso da sua ajuda porque eu sou chato e mandão e não abro a boca para falar absolutame…

Ele me interrompeu quando se virou e agarrou brutalmente os meus braços com as suas mãos ásperas.

— Já chega! — Bradou. — Você não consegue ficar um minuto sequer com a boca fechada?

— Deve ser por isso que está sozinho… — Murmurei, baixo, tentando encontrar seus olhos através da máscara. Era impossível.

— Quer saber por que estou sozinho? Quer? — Balançou o meu corpo. — Estou sozinho porque eu matei todo mundo que estava comigo! E sim, eu sou tudo isso que você falou e posso mudar de ideia a hora que eu bem entender porque diferente de você, eu não preciso da sua companhia irritante para encontrar o turíbulo! Sem você será até mais fácil.

— Sei que não vai mudar de ideia. Afinal, que honra um deus teria se não cumprisse uma promessa. É um homem de palavra. — Ironizei.

Ele colocou as mãos na cabeça.

— Aarg! Por que gosta de me irritar? Costuma usar chantagem emocional para conseguir tudo o que quer? Olha, muitas mulheres já tentaram esse truque mas não funcionou comigo. Está bem? Então, poupe seus esforços para alguém que realmente se importa com o que você fala. Agora, chega! Silêncio! Eu te ajudo a encontrar o seu lar e você me retribui ficando quietinha. Está bem? Podemos fazer este acordo?

— Entendi, senhor mandão. — Cruzei os braços e ele novamente os puxa com o jeito bruto. Só que dessa vez, para que nos agachássemos.— Ei, eu disse que entendi, seu ogro!

— Shhh… Se abaixa, sua tola. — Ele sussurrou e observamos alguns homens se aproximando.

— Quem são eles?

— Não sei dizer… Com essas roupas, talvez caçadores.

Tentei me levantar e ele empurrou o meu ombro para que eu me sentasse novamente.

— Olha, Sara, eu entendo que você gosta de ser curiosa. Mas está em Adamantem agora. Aqui, você não deve confiar em ninguém. Esses homens — apontou — provavelmente estão aqui por causa da matança lá atrás. — Retirou o arco das costas. — Existem caçadores de recompensas. Patrulheiros Lapidados e há Paladinos Diamânticos também. Esses caras, todos eles você deve temer. Todos eles querem a minha cabeça. Se verem você, ainda mais com essas vestes e com esse rostinho bonito, não terão piedade e vão torturá-la até possuírem alguma informação relevante. E… cá entre nós… não precisamos fingir que somos duas pessoas que confiam uma na outra.

Enquanto falava, me apeguei aos detalhes dos homens que montavam uma fogueira de cozer perto de árvores negras e robustas pelas quais se aconchegavam com cautela com seus cavalos.

— Ethan… — Ignorei tudo o que tivera dito, com a ideia particularmente genial que surgiu na minha mente. — Sei que não confia em mim, mas por favor, só estou pedindo uma chance. Eu prometo que vai dar certo.

Ele deu uma risada rápida e curta.

— Sem chances. Isso aqui não é brincadeira. Esses homens matam mais por diversão do que por necessidade e qualquer um deles pode escapar, acionar a Ordem Lapidada inteira sobre a minha posição e tudo o que eu fiz até agora seria em vão. Aqui é o único lugar em que estou seguro e você já me colocou em risco por me fazer matar aqueles homens lá atrás.

— Tá bom! Eu sei que fui irritante, mas a ideia é boa. Ok? Escuta, precisamos daqueles cavalos e talvez eles tenham algum dinheiro.

Ele dobra a cabeça, curioso.

— Você quer roubá-los? Alguns minutos atrás era totalmente a favor da vida. Bateu a cabeça em alguma árvore enquanto caminhávamos?

— Engraçado você. — Rolei os olhos. — É por uma boa causa e eu vi você lutar. Isso será facílimo, não é mesmo? Impediremos que eles façam maldades à qualquer outra pessoa, seja quem for ela.

Ele observou e pareceu compreender.

— Diga seu plano.

— Vou entregar você já que vale mais vivo do que morto. Só preciso que me entregue esta adaga aí… — Estiquei a mão para pegar a adaga e ele recuou.

— Não.

Detidamente aproximei a minha mão novamente e apoiei-a sobre a sua, com carinho, sentindo um calafrio subir a minha espinha.

— Eu sei que ela é especial para você, eu prometo que cuidarei muito bem. Mas preciso de uma prova concreta de que te tenho para mim. Como a minha recompensa que lucrará muito dinheiro. E também, saberei segurar muito melhor uma adaga do que uma espada.

Ele suspirou.

— E se algo acontecer com você? — Questionou, fazendo seu timbre vibrar muito mais. — Não seria um esforço que valeria a pena. Eu posso muito bem ir até ali e matá-los.

— Como você mesmo disse, um deles pode escapar. Ethan, vamos tentar… Caso algo dê errado, você me protege, não é?

Ele ficou em silêncio e mexeu um pouco a mão sob a minha, girando a adaga para entregar-me. Segurei a sua empunhadura vermelha cintilante e deslizei brevemente o polegar no pomo de diamante.

— Sim, eu protejo.

— Então vamos tentar.

Após nos prepararmos repassando o plano, ele retirou o gibão, algumas armaduras e permaneceu apenas com uma túnica fina e preta, com seus cinturões presos nas pernas e na cintura das calças. Sem arma alguma. Amarro as mãos de Ethan com a corda, em frente ao seu corpo e retiro a sua máscara, prendendo-a em seu cinturão do quadril com cuidado enquanto ele só observava-me em silêncio. Depois de um tempo, ele balançou a cabeça para a lâmina da adaga, querendo que eu entendesse algo.

— Corte-me um pouco aqui no braço. — Ele disse e recuei. — Vamos, eles não vão acreditar se não verem um pouco de sangue.

Hesitei um pouco, mantendo a adaga firme na mão. Escutei seu suspiro e ele se aproximou, forçando o braço contra a lâmina rapidamente, sem que eu pudesse impedir. Observei os seus olhos azuis refletindo a luz quando se afastou, e comecei a rasgar um pouco mais para parecer que houve uma luta e suspirei, pressionando com cuidado a lâmina na sua pele branca do peito um pouco exposta pela túnica de cordões meio abertos; e, tentando disfarçar, encarei as diversas cicatrizes que já se exibiam naquele pouco pedaço de pele.

— Tente parecer um pouco… Drogado. Bêbado.

— Certo.

Com a Adaga na mão, pressionada contra a sua jugular – como ele bem me ensinou –, empurrei-o com raiva contra o matagal com a mão livre, até que estivéssemos no campo de visão dos homens. Senti o cheiro da carne sendo queimada e o meu estômago embrulhou de nojo. Nem se eu estivesse morrendo de fome comeria isso. 

— Ei, homens, olhem! — Um deles se antecipou, já sacando a espada e se levantando. — É ele! É ele, Ethan Haavik!

Tenho tempo para observar todos aqueles maníacos com olhos fervendo para pegar a sua presa. Eu não tinha como saber o que estavam pensando, mas conseguia deduzir que coisa boa não era. Sorte a minha presa ser habilidosa demais para cair nessas mãos asquerosas.

— Nosso deus diamantense, Fruto Sagrado, foi pego por uma mulherzinha? Olha o estado dele, deve estar podre de bêbado. — Outro homem sem cabelo algum e negro disse enquanto balançava a espada para perto e apontei a adaga.

— Isso me parece estranho demais. Por que ela está com essas vestes? E como ela conseguiu isso tão rápido?

Corri para me explicar, recuando um passo com Ethan.

— Ele bebeu muito vinho, mal consegue ficar de pé. E estas vestes eram as do meu irmão! Ele era um cavaleiro da guarda. Morreu pelas mãos desse infeliz assassino!

Eles começaram um coro de questionamentos entre si. Mas um deles pareceu mais esperto e caminhou para mais perto.

— Dê ele, nós honraremos o seu irmão, torturando-o e depois entregando-o à Ordem Lapidada.

— Mas… você não tem interesse particular neste homem? Em sua recompensa? — O que estava agachado perto da fogueira perguntou.

— Eu ter interesse nele? Não me importo com o dinheiro. Quero vê-lo pagar pelo que fez e agradeceria se pudessem fazer isso por mim. — Respondi. — Sabe, eu teria muitas dificuldades em levá-lo. Vocês não têm ideia do quanto ele é insuportável.

Ethan me observou com os olhos semicerrados como se quisesse dizer: eu vou te matar, suspirou e então o soltei. Ele fingiu cambalear para trás, com se estivesse realmente bêbado. O homem chegou próximo o suficiente dele, o cheirou e pareceu confuso.

— Não sinto cheiro do álcool. — Analisou. — E ele não está tão mal assim…

O homem pareceu se irritar e balançou o dedo para que os outros se aproximassem. Nesse momento, Ethan já tivera avaliado todas as alternativas possíveis de uma batalha, contornando os olhos para todos os lados, avaliando todas as suas armas. Eles não tinham armaduras, isso tornaria tudo muito mais fácil e então e levantou a cabeça para encarar o caçador de recompensas com o olhar menos bêbado que pudesse existir.

— Ele não está bêbado! — Ele gritou.

— Talvez vocês estejam por cair nessa armadilha estúpida. — Vi ele sorrir, ironicamente.

— Ela nos enganou. Matem-na! Andem!

A cabeça dele encontrou a do homem e ele gritou de dor. E quando um deles começou a correr para me alcançar, assim que chegou perto, Ethan se virou e com o joelho acertou o seu membro com força, fazendo-o cair no chão para segurar a intimidade que devia latejar. O caçador que estava na frente dele, rapidamente tomou uma atitude para matá-lo e Ethan o chutou para longe, socando o terceiro homem com as duas mãos presas. Vi o sangue dele voar para perto do meu corpo e tentei me afastar o mais rápido possível.

Ethan astutamente bloqueou o quarto que se levantou da fogueira, com agilidade e pegou a sua mão armada com uma adaga contorcendo-a com raiva contra a sua garganta, fazendo-o se cortar como uma criança inocente. Quando o quinto homem sacou a espada para correr ao seu encontro, ele o acompanhou com a adaga do morto em suas mãos e os seus corpos quase se chocaram. Ethan se abaixou assim que o caçador de cabelos loiros girou a espada sobre a sua cabeça. E com a adaga, cortou a sua barriga e chutou-o para a fogueira aberta.

O homem gritou aterrorizantemente e eu tampei os ouvidos, completamente tensa.

Ainda com as mãos amarradas, de forma anormal, ele retirou uma faca que estava presa em um dos cavalos e arremessou no estúpido que também foi para ajudar os amigos. E com o próximo, Ethan jogou a adaga no chão, impediu a sua investida e chutou-o, fazendo-o cair. Contornou as mãos amarradas no pescoço dele apoiou o pé no apoio da cela e saltou por cima do cavalo que estava ao lado. Os outros saíram trotando assustados para dentro da mata. Este apenas relinchou quando Ethan foi parar do outro lado, com as mãos no pescoço do homem no outro lado, enquanto enforcava-o.

Então, um caçador que tivera caído no chão se levantou já com fulgor, mas vendo Ethan enforcando seu colega não pensou duas vezes e cortou duas vezes o ar. Quando tentou acertá-lo mais uma vez, peguei uma pedra e arremessei contra sua cabeça, fazendo-o mudar de foco. Ele resmungou com nojo e no momento em que começou a caminhar para perto de mim, Ethan o chutou com as duas pernas fazendo-o quase vomitar, e soltou o homem enforcado enquanto saltava para a frente. Ele investiu a espada para frente e Ethan girou, deslizando os dois pulsos pela lâmina, fazendo a corda se cortar em seus pulsos com habilidade. 

Por fim, encontrou as laterais da face do caçador com as duas mãos e sussurrou profundamente a frase “eu abençoo o seu corpo e a sua alma”. Ele não pediu misericórdia. Pelo contrário, usou o tempo para retirar uma pequena faca para transpassá-la no pescoço de Ethan. Mas morreu antes de conseguir.

— Seu plano foi bom, preciso admitir. — Ele se aproximou enquanto jogava os pedaços de corda no chão e vestia as armaduras, o gibão e alguns dos cinturões que tivera tirado com suas armas.

— Bom trabalho Sr. Haavik. Agora temos o que precisamos. — Retirei a adaga levantando-a para lhe entregar.

— Agradeço. — Segurou a adaga, guardando-a no cinturão. — Já estava começando a pensar que não tinha alguma utilidade, mas acho que me enganei. Apesar de ser irritante, sua ideia foi genial.

— Se isto for um elogio, então obrigada! Não precisa ficar dando voltas, Ethan Haavik. — Disse resplandecendo orgulho e erguendo o queixo em sua direção. — Apesar de que, essa é a primeira vez que eu não estrago tudo… — Falei pensativa, com o dedo no queixo.

— E só agora que você me diz isso? — Ele colocou as mãos na cintura e observou-me dos pés à cabeça. — Este é o primeiro plano a dar certo?

— Tudo tem a primeira vez. Hoje eu fui a mulher mais aventureira do universo. E você… bom, você finalmente é um cavaleiro com um cavalo.

Ele suspirou.

— Não sou mais um cavaleiro. — Respondeu e começou a caminhar. — Vamos revistar os cadáveres, quem sabe eles têm alguns preus — se agachou, sentando-se em seus calcanhares —, se quiser conhecer o seu amigo cavalo, fique à vontade. Os outros fugiram, tivemos sorte.

Enquanto ele juntava alguns tesouros, abrindo um saco de pano que encontrou nos pertences de um caçador de recompensa, observei o cavalo que ainda batia com os cascos no chão. Aproximei a mão, sussurrando para que ele se acalmasse e logo comecei acariciar sua pelagem parda de manchas amarronzadas, parecia ser forte. Enquanto estava distraída observando as armaduras que o preenchia, senti alguém tocando os meus ombros, fazendo-me tirar os pés do chão por um segundo.

— Procure não sair do meu campo de visão. — Bradou. — Não evacuamos o suficiente para saber se o local está limpo.

— Pare de me assustar desta forma, droga! Quase tive um ataque do coração. — Retruquei indignada pela sua forma surpresa de me tirar dos devaneios.

— Pelo visto já se simpatizou com o animal. Ótimo. — Ele começou a vasculhar o cavalo, e também a retirar algumas armaduras talvez para que ninguém pudesse desconfiar, deixando apenas a sua cela marrom. — Vamos cavalgar até o vilarejo, provavelmente chegaremos ao anoitecer. Consegui o suficiente para nos abrigar em alguma taberna.

— Certo, e a propósito, pode ficar despreocupado, não sairei do seu campo de visão, Ethan. Você não se livrará tão facilmente de mim. 

— Infelizmente sim. — Ele sorriu com o canto da boca enquanto colocava a máscara no rosto novamente. — Então, já que não sairá da minha cola, precisamos procurar algumas roupas para você. Tente esconder essas roupas com a minha manta o máximo que conseguir. Amanhã iremos para comércio comprar alguma coisa que sirva neste corpo minúsculo.

Meus olhos não conseguiram disfarçar o brilho, ficando totalmente alucinada com a ideia. Terei roupas novas! Droga… Ele provavelmente percebeu, e tentei disfarçar a minha alegria olhando para os lados, apesar que ele devia saber que qualquer garota gosta de comprar roupas.

— Por que essa carinha de boba? Ficou animada?

— Claro que não! Só estou concordando que preciso mesmo de algo melhor do que essas roupas largas. Então, é melhor nos apressamos.

— Certo — Concordou e bateu na anca do cavalo —, venha, suba no cavalo.

Me aproximei do animal assim que Ethan segurou a minha mão para me ajudar a montar e logo em seguida subiu, apertando as mãos na minha cintura para se ajeitar melhor atrás de mim. Tento prender o meu cabelo num coque para não atrapalhar a sua visão e percebo que quase não faria efeito. Ele é muito mais alto do que eu, seu queixo se apoia em minha cabeça com facilidade. Ethan apanha as rédeas com as duas mãos envolta do meu corpo e se remexe mais um pouco, então esporeia fazendo o cavalo começar a trotar sem pressa.

Nunca havia cavalgado desta forma. Emanava um sentimento prazeroso de liberdade e aventura em meu corpo e não há nada que compraria essa sensação. É, com certeza, a melhor sensação que já tive até agora e se isso tudo for um sonho, não quero acordar tão cedo. Está sendo um tanto especial e ainda vou jogar na cara da Chelsea que sobrevivi a mais um dia. Que não sou tão fraca assim.

Não deixo de pensar que talvez eu tenha conseguido conquistar um pouco da empatia de Ethan. Possivelmente um pingo só que existe de confiança no corpo dele ele deve ter depositado em mim, mesmo que fosse um assassino cruel. Será possível que ele tenha amado alguém, ou alguma vez sequer fora alguém melhor do que é, matando pessoas?

Quando puxou um pouco mais as rédeas do cavalo pardo, senti seu corpo. O jeito que ele me toca. “Não, deixa de bobagem!” Não posso me deixar pensar que ele poderia se importar comigo. Ou ele está se importando? Estou confusa! Se eu fosse tão irritante como ele fala, já teria se livrado de mim. Será que devo testar mais a sua paciência? Por ora, acho melhor não. Vou esperar chegarmos no vilarejo até saber se realmente ele irá me ajudar. E também porque quero comprar o vestido mais lindo de todos os reinos. Enquanto isso, só preciso acreditar ele que não vai me largar aqui, sozinha.

Capítulo 3

Após estarmos viajando durante longas horas cansativas, Ethan finalmente me faz um sinal ao dar duas breves batidas em minha cintura, enquanto permanecíamos montados sobre o garrano. De longe consegui avistar o primeiro vilarejo pálido pela neve e pela cor das casas, que estranhamente combinavam. Bege e algumas com cores extravagantes. Outras pretas e apenas sem cor alguma. Senti a euforia cobrir-me e então, quando Ethan puxou as rédeas para frear o animal, mal esperei quando ele saltou do cavalo e estendeu a mão para me ajudar a descer.

Continuei vidrada no pequeno vilarejo surreal, como sempre estive acostumada a ver em filmes de épocas, e ao tentar pegar a sua mão, caio de cara na neve.

— Vai com calma. — Ele disse com o olhar sério enquanto me levantei, limpando a roupa que se sujara de neve. — Existem formas melhores para se machucar.

Dobrei a cabeça e rolei os olhos.

— Engraçadinho. Estou bem para sua informação! — Pisquei para o seu rosto enquanto vestiu a máscara para que ninguém conseguisse vê-lo. — Para que se esconder tanto?

Ele deu de ombros.

— Precisamos averiguar. — Respondeu e ajeitou o peso do arco preso nas costas. — É o meu retrato que está estampado em todos os estados do continente Cothür.

Observei-o com cautela enquanto respirou fundo dando sinal para que começássemos a andar para o vilarejo. Ethan puxava o cavalo e demonstrava explicitamente desconhecer o lugar e andou com calma, devagar, mantendo sua posição de “caçador, procurado” ao escutar, sentir e observar tudo e todos ao redor. Tentando ao máximo, fazer com que nos misturássemos pela multidão para que passássemos despercebidos. E no momento em que nos aprofundamos pelos comerciantes, ele pegou a minha mão para que eu não ficasse para trás e puxou-me com um pouco mais de generosidade. Havia muitos artesões, curandeiros e alguns outros que não consegui identificar com suas barracas repletas de aparatos úteis. Tinham alguns que esticavam pedaços de tecidos para nós enquanto passávamos. Tentei observar de perto, mas Ethan me impedia e apenas murmurava “vamos, Sara”.

Em um momento sem que eu compreendesse o que o assassino tivera visto, envolveu as mãos em minha cintura com força e jogou a minha coluna contra um grande muro de pedra enegrecida e úmida de um beco fechado. Virou a cabeça mascarada e pôs o braço ao lado de nossos rostos próximos. Escutei e senti a sua respiração abafada emanar belas brechas do metal e ele pediu que fizesse silêncio. E foi então que entendi, quando que com os cantos dos olhos eu vi inúmeros homens vestindo armaduras prateadas e cintilantes pela luz do dia com uma grande insígnia pendurada no peito em respeito à origem de seus superiores.

Justamente ao meu lado vi um retrato de Ethan e assim que o mesmo percebeu, foi com as mãos da minha cintura até a parede para retirar. Ele o rasgou quando todos os cavaleiros passaram e pareceu respirar melhor como se antes estivesse sendo sufocado grosseiramente. Então, nos afastamos e percebi que minhas bochechas estavam quentes de vergonha.

— Estamos seguros. — Respirou fundo novamente. — Tente ficar atrás de mim, não fale e não confie em alguma dessas pessoas.

Virei a cabeça para o lado, sentindo-me como uma criança boba.

— Ethan, não sou nenhuma criança e não o colocarei em alguma confusão — mostrei os dois dedos se cruzando para provar fidelidade —, prometo.

— Agradeço. — Disse. — Assim é melhor.

Então nos infiltramos pela multidão mais uma vez e uma imagem perturbadora invadiu a minha visão à frente, fazendo-me tampar a boca para não gritar. Uma grande criatura de cor azul e tinha alguns pelos? O que diabos era aquilo? Um bode? Um touro? Os dois? Tinha grandes chifres que se enrolavam e as pontas se inclinavam para frente de forma aterrorizante. Havia muitas cicatrizes em seu corpo musculoso e alto. Seus olhos pareciam grandes obsidianas negras e sinistras. Esta criatura também vestia algumas poucas armaduras prateadas. Um elmo que se abria onde seus chifres passavam sem dificuldade. E no instinto, agarrei o braço de Ethan que observou-me sem entender, apoiei a cabeça em seu corpo e temi que essas coisas horrendas corressem para me matar.

— Está com medo? — Ele questionou quando percebera o que estivera me incomodando. — São turantis, criaturas completamente dóceis… — Ele apontou para a frente onde um grupo de homens magros com pele acinzentada, quatro braços, que ocupavam um pequeno chafariz estava. Pareciam concentrados em uma oração, cantando alto para algum deus. — Deve temer aqueles ali.

— Que criaturas são aquelas? — Questionei.

— Sa’hamanianos.

— Não me parecem cruéis. — Analisei. — E a propósito, não estou com medo! — Retruquei.

— Então por que está apertando o meu braço?

Observei a minha mão que amassava os seus músculos e corei, largando-o imediatamente.

— Impulso! Instinto de sobrevivência, apenas. — Fechei os olhos e arqueei as sobrancelhas por alguns segundos.

— Certo.

Não demorou muito para que um comerciante mal encarado nos parasse com sua barraca ao se colocar em nossa frente. Notei os seus dentes sujos que muitos nem existiam, as unhas também não ficavam de fora e tinham grandes camadas negras. Parecia trabalhar com tintas e entendi quando mostrou-me a pintura de uma mão masculina segurando um diamante e entregando à outra mão. Havia um sol e uma lua que se mesclavam, criando algo de origem religiosa. Talvez? Não sabia dizer, mas então lembrei de quando Ethan comentara sobre ser um “diamantense”, será que aquele símbolo era sobre ele? Sobre a religião desse povo? É ridículo. Ethan é só um homem.

— Olá, bela dama. — Ele disse e pegou a minha mão. — Gostou da pintura? Gostaria de tê-la por apenas quatro preus de prata?

— Eu… — Comecei mas Ethan logo cortou-me.

— Não estamos interessados.

— Deixe-me então oferecer um bom estábulo para o seu cavalo, meu cavaleiro paladino? — Insistiu, já se aproximando de Ethan quando o mesmo deu um passo para o lado e apertou firme o meu braço e as rédeas do garrano.

— Vamos, Sara. — Ignorou o homem que continuou a gritar sob o vento. Puxou-me para o canto com a cabeça baixa.

— Tadinho do homem, Ethan! Como você é maldoso, deixe o bichinho lá com ele. O pobre homem tem um estábulo! — Ordenei perplexa e ele me virou contra o seu rosto. — Me solta! Não pode toda vez que discordar comigo agir desta forma, seu bruto sem sentimentos!

Ele virou a cabeça para os lados e voltou a me observar.

— Escuta, Sara, lembra do que falei? Lembra? — Questionou sussurrando e me encostando na parede com cuidado. — Sobre não confiar em ninguém?

— Está certo. Me desculpa, não entendo as regras daqui.

Afastou-se.

— Deve aprender se quiser o turíbulo.

— Eu sei! Mas proteger um fugitivo que tem o rosto estampado em cartazes a cada canto que andarmos não me parece ser uma tarefa tão fácil, sabe? Seria se você me contasse quantas pessoas mais ou menos — balancei a mão para simbolizar — estão atrás de você…

Ele não pensou e disparou para responder:

— O planeta inteiro.

— Ah, deixe disso. — Respondi, estalando a língua. — Quantas?

Suspirou como se estivesse prestes a perder um grande tempo para tentar me explicar e então simplesmente optou por ignorar a minha pergunta novamente.

— Vamos, precisamos de roupas melhores para você.

— Odeio quando você me ignora, mas está bem… — Comecei, rolando os olhos. — Vamos nessa, senhor! — Coloquei a mão na testa e fechei as pernas, mantendo a posição ereta.

Quando adentramos um pequeno ateliê mofado, encontramos uma velha com um grande pedaço de pano preto na cabeça. Ela me ajudou a escolher os melhores tecidos e os melhores vestidos e não que fosse possível provar, mas implorei para Ethan esperar e me coloquei em sua frente quando perdera a paciência e sentara-se em uma cadeira de madeira, com as pernas abertas enquanto brincava de girar a sua faca de arremesso entre os dedos.

Ele tentou ficar discreto quando pegou a sua manta de volta e apoiou o capuz na cabeça, escondendo a máscara o máximo que conseguira. Não era fácil ter que estar o tempo inteiro com isso. Seu rosto estava estampado em todos os cantos existentes, sendo assim, tentou disfarçar se passando de Paladino Lapidado da ordem, já que suas roupas não conseguiam esconder o que fazia de melhor. Que vidinha chata – pensei enquanto girei em sua frente.

— O que achou? — Exibi o vestido azul com bordas cheias de babados brancos. As mangas escuras e a cinta esguia em minha cintura, davam um ar muito mais fantasioso à minha cabeça, como se eu estivesse em um filme ou uma daquelas séries medievais. Eu estava delirando de felicidade, literalmente?

— Você costuma demorar tanto assim para vestir uma roupa no lugar de onde veio? — Questionou e parou de girar a faca por um minuto. — Você fez isso cinco vezes — voltou a girar.

— Na verdade, eu desfilo. — Coloquei as mãos na cintura e fechei os olhos por alguns segundos. — Mas veja bem, preciso provar o máximo que eu conseguir para depois não me arrepender! — Falei empolgada, com a intenção de animá-lo.

Ele se levantou e se aproximou. 

— Compreendo. Este ficou ótimo. — Segurou o tecido com o polegar e o indicador. — O tecido é bom.

Juntei as mãos em seu peito e sem perceber levantei a perna, feliz.

— Posso ficar? — Ele acenou a cabeça brevemente e gritei de alegria como uma criança ao receber um doce.

Ethan jogou contra mim uma grande manta vermelha que chegava até o meu quadril e tirou dos cinturões um grande saco que fez um barulho estrondoso quando encontrou as mãos da vendedora. E logo vi atrás de uma mesa de madeira um ser pequeno e magricelo demais. Parecia não se alimentar bem. As pernas eram curtas, as orelhas achatadas e finas, olhos grandes e pele arroxeada. Estava com medo? Dobrei a cabeça, ressentida e me aproximei.

— Oi… — Disse baixo para não o assustar. — Não precisa ter medo de mim… — Estendi a minha mão. — Me chamo Sara, qual é o seu nome?

Não podia saber se ele falava a minha língua, mas não custava nada tentar. Ele se aproximou devagar estendendo os pequenos dedinhos magricelos em minha direção mas logo levantou mais as orelhas em sinal de alerta, como um cachorro.

— Vá, vá! — Gritou a velha carrancuda. — Saía, seu glaudiamântico miserável! — A criatura saiu correndo para dentro do aposento amontoado de tecidos.

— Por que você…

Sinto as mãos de Ethan encontrar as minhas costas enquanto puxou-me para fora, agradecendo brevemente a senhora que não pareceu se importar com nada que tivera feito com a pobre criatura.

— Não fale com ninguém — resmungou enquanto ainda puxava-me —, não confie em ninguém!

— Desculpe!

— Você esquece de tudo o que falo, não é mesmo?

— Ethan, precisamos ajudá-lo! Ele estava com medo, parecia com fome… — Disse, segurando seus ombros.

— Olha, Sara, eu admiro a sua nobreza. — Respondeu. — Mas não podemos fazer nada. 

Soquei o seu peito com o intuito de passar a minha raiva.

— Como assim não podemos fazer nada? Nem dar-lhe um pedaço de pão? Em que século vocês vivem! — O soquei de novo, segurando a vontade de chorar. — O que Cristo ensinou sobre não dar julgo pesado a ninguém! Mas que… Argh!

— Vamos, Sara. — Ele começou a caminhar e eu o puxei contra mim novamente, acertando-o com o meu punho fechado com a quantidade máxima de força que eu era capaz de alcançar.

— Não! — Protestei e continuei batendo em seu corpo. — Eu não vou, Ethan!

Ethan suspirou enquanto eu o socava, olhou para os lados de novo, pegou-me pelas pernas e jogou-me contra o metal da sua armadura preta presa em seu ombro. Mas eu continuei. Soquei as suas costas onde havia sua aljava e seu arco, perplexa enquanto segurou as rédeas do cavalo com a outra mão e caminhou sem dificuldades em direção ao abrigo mais próximo. 

Assim que adentrou o estábulo de uma taberna velha e vazia de tijolos vergonhosamente desestruturados e escuros, jogou-me contra um monte de fenos fedorentos e se afastou guardando o cavalo, retirando a máscara para respirar melhor. Passou o tempo ignorando os meus resmungos de raiva. 

Me levantei rapidamente quando tirou o arco e a aljava das costas apoiando-os no chão. No impulso pulei contra o seu corpo e comecei a tentar derrubá-lo, a socá-lo. Ethan continuou intacto, ajeitando o cavalo ao retirar sua cela. Esse homem era indestrutível?

Depois de minutos lutando sozinha, exausta, como uma boneca de pano ele agarrou as minhas duas mãos e jogou-me contra os fenos que estavam enfileirados na parede novamente gritando “chega”, mas dessa vez, ele manteve as mãos enluvadas em meus pulsos e prendeu o seu corpo contra o meu.

— Não! — Gritei em protesto, tentando me soltar. — Não, Ethan! Isso é… — tentei pegar folego para continuar — injusto! Em que mundo estou? Me diga! Para quem você luta? Para esse bando de cretino? Seu hipócrita!

— Não podemos salvar todos, Sara! Eu, mais do que ninguém posso lhe dizer isso com convicção. De verdade, eu admiro muito a sua nobreza. Mas não podemos fazer nada! Entendeu? — Questionou e tentei virar o rosto, mas ele se remexeu contra mim para encontrar os meus olhos. — Entendeu, Sara? Essas criaturas nascem e morrem desse jeito, todos os dias! Por que essa é Adamantem! Esse é o pior planeta que poderia escolher para viver e não vamos resolver nada desse jeito!

Respirei fundo e cedi.

— E como podemos resolver?

Ele não respondeu, só ficou me encarando.

— Ethan, me responde! Estou brava, muito brava!

— Respire fundo… — Sussurrou, próximo ao meu rosto e senti um frio na barriga sinistro quando o seu “r” vibrou pelo sotaque nórdico.

— Está bem. — Respondi. Ele começou a libertar os meus pulsos e a desgrudar o seu corpo forte do meu. Penso em pegá-lo de surpresa de novo mas seria inútil. Provavelmente rasgaria o meu vestido medieval novo durante a minha brincadeira.

Tenso e parecendo entristecido como se tivesse revivido grandes e amargurosas lembranças, Ethan se sentou e apoiou os cotovelos nos joelhos, logo derrubou o capuz para trás da cabeça e colocou as mãos nos cabelos negros. Apertou-os com força e soltou um suspiro alto e aflito. 

— O mundo é injusto! A vida é injusta. E pensar assim é como apontar uma flecha contra a Ordem Lapidada; como cometer o crime mais hediondo de todos antordens.

— Ethan… Esse nome me dá medo. — Respondi e me sentei ao seu lado. — Me desculpe…Você está certo, é injusto.

Apoiei a cabeça nos meus joelhos quando os juntei e o senti colocando a manta sobre os meus ombros, com carinho. Então observei-o depois de um tempo calado apenas segurando aquela mesma adaga vermelha.

— Eu gosto dessa adaga — eu disse, sorrindo —, combina com você.

— Obrigado. — Ele analisou e então me observou e a guardou no cinturão, levantando-se e cobrindo o rosto. — Vamos, Sara. Você precisa se alimentar. — Não precisou vestir a máscara novamente, preferiu colocar apenas o capuz para cobrir o rosto e jogou a mão para que eu pudesse me levantar.

Fomos atá a taberna e enquanto adentrávamos observei Ethan dos pés a cabeça pensando atentamente no motivo que o tenha transformado em uma máquina de matar. Sei que por trás desse jeito durão, essa casca impenetrável, há um homem que está sofrendo. E apesar de passar medo para alguns, eu me sinto segura ao seu lado e sei que estou sendo útil para ele também. Sei que no fundo do seu coração obscuro, há uma chama de alegria se ascendendo ao perder a cabeça com as minhas implicâncias.

É como se tivéssemos sido colocados um para o outro no momento certo, na dose certa. E se for este o real motivo que me fez parar aqui? Ensinar e aprender com Ethan. Não, bobeira. Nosso encontro foi por acaso. Mas não deixo de agradecer a Deus por ele ter aparecido. Sabe lá o que podia ter acontecido comigo naquela floresta.

O cheiro do álcool forte logo encontra as minhas narinas assim como o de vômito e sangue. O lugar era muito escuro, apenas com alguns candelabros pendurados nas paredes e mesas de carvalho velho, espalhadas por todos os lados. Uma banda tocava sobre um pequeno palco barulhento alguns instrumentos como salteiros e flautas, junto com tambores. Muitos estavam dançando e acompanhando o ritmo com alegria, mas Ethan nem se importou com o clima e apenas sentou-se sobre a cadeira da mesa mais distante possível e pareceu relaxar. 

— Esse lugar é muito divertido e é igual aos filmes e séries que estive acostumada a assistir! — O meu sorriso estava tão grande que qualquer um podia ver de costas.

Ele levantou a mão para um homem gordo barbudo e sem um olho, que nos encontrou para encher dois canecos com cevada.

— Eu realmente acho que você inventa essas palavras… — Disse depois que o taberneiro se ausentou.

— O quê? Filmes e séries? — Ri. — Ah, sempre esqueço que estou vivendo um sonho bem doido com um assassino bruto e medieval.

Achei a ideia cabível, mas louca demais para digerir.

Ele molhou e mordeu os lábios procurando algo para responder e decidiu apenas derrubar um pouco da cerveja goela a baixo. Mais tarde, quando continuamos a conversar mais um pouco sobre mim, sobre Chelsea, uma mulher com um avental bem gasto apareceu para jogar um prato com carne de galinha para que eu pudesse comer mas tive vontade de vomitar.

— Algum problema? — Ele questionou enquanto encarou-me tirando a carne do prato para entregar a alguns cachorros que estavam dentro do recinto festivo. — Não gosta de carne de galinha?

— Não! Eu não como carne.

Deu de ombros e bebeu mais cerveja. Observei o caneco cheio e até pensei em beber, mas logo me segurei e voltei a observar Ethan, como sempre, misterioso.

— Você não me parece um homem que curte festas. Nem faz sentido, na verdade, comparando as circunstâncias atuais. Sabe, você fugindo e lutando o tempo todo. Parece nem conhecer a palavra “paz” — tentei gesticular algo com as mãos para parecer brincalhona, mas ele só deu um sorriso irônico, bateu o caneco da cerveja na mesa, respirou fundo e jogou o braço esquerdo sobre o espaldar da cadeira.

— Não tive boas experiências com festas, portanto — bebeu —, não gosto delas e as evito. — Colocou o caneco sobre a mesa novamente.

— Ah, eu também sou reservada quanto a isso. Mas aqui é tudo tão diferente. Claro, né! Mas, tirando o fato de esses homens estarem muito bêbados, não parece ser tão ruim… — Pensei por alguns minutos, ansiosa. —Ethan, vamos dançar? Por favorzinho, só um pouquinho! — Que tipo de pedido era esse? É óbvio que Ethan odiava dançar. Era só analisá-lo por alguns minutos para ter certeza disso. E como previsto, ele balançou a cabeça em negatividade.

Fechei a cara e ele se aproximou, apoiando os cotovelos na mesa. 

— Se quiser, pode ir. — Disse, com carinho. — Ficarei observando, apenas.

— Ah, mais tarde eu vou. — Então lembrei-me de tudo o que aconteceu, de Chelsea e de todas as pessoas que amo. — Ethan, você tem um plano? Digo… Agora que conseguimos o que queríamos, precisamos de um plano para ter o turíbulo, certo? E ao que tudo indica, você parece perfeitamente saber onde ele fica.

Ele bebeu os últimos resquícios da cerveja e levantou a mão para ser servido novamente.

— Não. — Respondeu.

— Não? Não o quê?

— Eu não sei onde o turíbulo está. — Continuou. — Mas conheço alguém que deve saber.

Semicerrei os olhos, curiosa.

— Quem?

Ele se inclinou mais em minha direção.

— Zelena Szereban.

— Quem é ela? — Questionei.

— Uma bruxa sábia. Ela já me ajudou uma vez… — Pensou por um tempo e seu rosto se encheu de consternação. Algo o incomodava, mas eu não queria saber o quê para não estragar o clima.

— Eu nunca conheci uma bruxa! Adoraria ver uma pessoalmente. Ela tem magia?

— Não.

— Algum poder maligno?

— Não. — Respondeu novamente, sério. — O poder dela está aqui… — cutucou a minha cabeça três vezes, devagar, enquanto observei os seus olhos azuis refletindo a luz da taberna. Como belos diamantes lapidados. — Devo-lhe admitir que desconfio sobre muitas coisas de Szereban, mas infelizmente ela é a nossa única solução.

— Eu já fico muito grata por saber que ela pode nos ajudar.

Ele pensou.

— Ela ficará grata se tivermos um pagamento digno de sua informação.

— Não temos dinheiro para pagar-lhe?

Ele deu um sorriso fechado, como se minha pergunta fosse boba.

— Você teve sorte, há algo comigo que pode interessá-la.

— O quê? — Questionei e pensei no que pudesse ser. O que poderia satisfazer uma bruxa?

— Você verá.

Sorri por finalmente saber que em breve estarei com Chelsea de novo, mas me senti um pouco estranha quando também pensei no quanto eu estaria longe de Ethan. Bobagem. Nem era para eu estar aqui nesse lugar horrível. Só preciso voltar e ficar o mais longe possível deste homem.

— E então, não vai beber? — Questionou quando percebera que a bebida estivera intacta no meu caneco.

Observei o líquido espumoso dentro do caneco sentindo um enjoo. Essa cerveja, com certeza, deve ser mais forte do que qualquer outra que os terrestres estão acostumados a tomar.

— Não costumo beber muito. Como eu disse, sou uma mulher reservada.

— Você quem sabe. — Respondeu. — Isso poderá aquecer o seu corpo e além do mais, está em um mundo que não lhe pertence. Ninguém saberá. — Deu um sorriso provocativo.

Arqueei as minhas sobrancelhas e arregalei os olhos. Ethan com certeza é um abusado! Parece até o pior inimigo da tentação me influenciando a ser inconsequente.

— Está tentando me manipular, Ethan Haavik? — Respondi, séria, apoiando os cotovelos na mesa ao me inclinar em sua direção.

— Sou bom em fazer isso. — Se aproximou mais também, colocando uma mão sobre a outra e ainda com o sorriso provocativo no rosto.

Senti um frio na barriga e engoli a saliva, nervosa.

— Tudo bem! — Me afastei um pouco para conseguir respirar melhor. — Não será um caneco que me deixará mal, não é?

Ele não respondeu e arqueou uma sobrancelha. Então me observou virar o líquido todo contra a minha garganta. Senti o gosto extremamente amargo escorregar e até mesmo me aquecer por um tempo curto.

— Vai com calma… — Escutei uma curta risada sua.

— Ow! — Encolhi o rosto e franzi a testa. — Eu aguento! — Exclamei entortando a boca pelo gosto horrível. Porém, não posso deixar de fora o sentimento bom de euforia e liberdade que está preenchendo o meu corpo mais uma vez. Isso é bom demais! — Jamais — levantei o indicador contra o seu rosto — duvide de uma dama, Sir!

Ele não disse nada e então me levantei sacudindo o vestido com o calor do momento. Como se todo o meu corpo estivesse prestes a evaporar. Eu precisava daquilo. Comecei a balançar o meu corpo de um lado para o outro, a jogar os meus cabelos para cima e mordi os lábios de felicidade. Bati os pés no chão, tentando inutilmente acompanhar o resto das pessoas e o ritmo da música. Mas eu estava zonza demais para conseguir.

Vi Ethan tentar disfarçar a risada e então sorri, me aproximando.

— Vou lhe mostrar uma dança comum do meu planeta!

— Vou adorar ver. — Respondeu e bebeu mais.

Sorri, começando a girar. Segurei o vestido e remexi o meu quadril devagar, depois segurei os meus cabelos com as duas mãos, os jogando para cima, deslizando a mão direita pelo braço esquerdo, ainda remexendo toda a minha estrutura calorosamente, com a liberdade gritando dentro do meu peito e vi Ethan totalmente atento aos meus movimentos, sem conseguir disfarçar o seu jeito obcecado.

— Venha! — Peguei as suas duas mãos. — Vamos dançar! Vou mostrar como se dança. — Comecei a puxá-lo.

— Não, Sara. Agradeço! — Continuou impedindo-me. — Você está bêbada, sente-se um pouco.

— Ah, deixe de ser chato! — Coloquei as mãos em seu rosto. — É só um pouco.

— Está bem. — Se levantou.

— Coloque a mão aqui… — Peguei as suas duas mãos e as coloquei em minha cintura devagar.

— Eu sei dançar. — Ele afirmou, com um sorriso fechado.

Então, começamos a acompanhar a música altamente agitada e ainda calorosa para aquecer a noite fria. Ethan prensou a minha cintura com as suas mãos brutas e depois, segurou uma minha e me fez girar sob o seu braço, o mesmo que me envolveu com êxito quando nossos corpos se selaram com força. 

— Viu? — Mordi os lábios enquanto observei o seu rosto mais animado, como eu nunca havia visto antes. Isso me deixou completamente feliz.  — Não foi tão ruim assim.

Ele me levantou como se tivesse levantando uma pena e colocou-me no chão novamente para acompanhar os demais dançantes. Vi um sorriso lindo e aberto se formar em seu rosto para acompanhar o seu corpo empolgado, dançando com êxtase contra o meu. Ele riu, me afastei segurando a sua mão e me juntei em seu corpo novamente. Coloquei o indicador em seu ombro, e contornei o seu corpo enquanto ele mesmo batia os pés no chão. Depois, estávamos um ao lado do outro, acompanhados por taberneiros.

— Com quem você aprendeu a dançar? — Questionei. — Você já foi em algum baile?

— Com a minha mãe, Naya. — Respondeu, sério. — E sim, eu já fui em um baile.

— E como foi?

— Bom, prazeroso pela noite que tive com a minha parceira depois do baile. Mas ao amanhecer, eu quase morri com uma facada no peito.

Arregalei os olhos, quase tropeçando em meus próprios pés enquanto dançava.

— Deve ter sido… diferente — respondi e senti uma ânsia subir a minha garganta e uma tontura tomar lugar em meu corpo. E então paro por alguns segundos, segurando na mão de Ethan para que eu não caísse no chão.

— Venha, você está mal. — Disse. — A colocarei para dormir.

Meu corpo estava tão leve que se alguém me desse um peteleco, cairia facilmente.

— Mas eu…

Antes de terminar a frase, um homem grande se aproximou cheio de entusiasmo.

— Me conceda a honra de dançar com esta dama? — O homem estava sorrindo empolgado e parecia que eu já havia lhe visto antes, mas não conseguia dizer onde.

Ethan segurou as minhas mãos e tentei impedir.

— A dama está exausta, Sir.

Empurrei Ethan e fui até o homem calvo e desleixado, com um sorriso animado no rosto. Jamais que esse assassino Haavik me impediria de dançar até os meus pés criarem calos esta noite. 

— É claro que eu aceito dançar com você! Não estou bêbada! Estou ótima. Se quer descanso, volte você mesmo Ethan. Vai, tchau! — Balancei a mão para lhe provocar, me jogando nos braços do homem de armaduras.

Começamos a dançar e observo Ethan se sentar com a mesma cara carrancuda de sempre. E não consigo entender como ele consegue ficar tanto tempo com essa mesma cara de quem comeu e não gostou. Chega a ser irritante, mas me contenho em ficar só pensando em sua personalidade inflexível, para focar na dança.

Então durante um longo tempo, dividi a dança com diversos homens simpáticos que me puxavam para dançar sobre a madeira ranzinza. Por algum motivo todos estavam adorando dançar comigo e eu nunca me senti tão bem e tão empolgada comigo mesma. Alguns homens de armaduras estranhamente me fizeram perguntas sobre Ethan, mas preferi ficar em silêncio como ele havia me dito sobre não confiar em ninguém e além do mais, ele está sendo procurado.

Depois de me soltar de um velho que mal conseguia ficar de pé, me aproximei de Ethan que não largava a bebida. Talvez estivesse em sua décima rodada. Quando fui me inclinar na mesa para falar com ele, um homem segurou a minha mão e puxou-me para trás e Ethan apenas arqueou uma sobrancelha.

— Dance comigo, gracinha. — O homem forte e negro disse, rindo de forma maliciosa.

— Espere, espere! — Gritei enquanto ele forçadamente me puxava. — Deixe eu falar com o meu amigo primeiro!

— Ei, moça! Venha aqui comigo para eu lhe ensinar. — Um homem gordo falou enquanto colocava um caneco sobre a mesa e ria alto começando a me puxar pelo outro braço.

— Parem! — Gritei com a cabeça zonza.

Sem conseguir entender mais nada do que estava acontecendo, as paredes escuras de pedra começaram a girar ao redor dos meus olhos e os meus braços começaram a arder com a frequência em que esses homens me puxavam de um lado para o outro. Brigando? Acho que estavam brigando. Não prestei muita atenção. Foquei em tentar procurar Ethan, mas não o encontrava de forma alguma e comecei a ficar nervosa, com muito medo. Medo de que tivesse ido embora e tenha deixado-me aqui com esse monte de bêbado que não parava de gritar no meu ouvido.

Então senti o meu corpo encontrar o chão quando o gordo perdeu a paciência com o outro homem que me puxava e levantei a cabeça, ainda procurando Ethan, mas não o encontrei. Estúpida! É isso que eu sou por ter confiado nesse insolente que deve ter ido embora. E mais uma vez senti duas mãos encontrarem os meus dois braços e alguém me levantou novamente, observei com o canto dos olhos e vi o homem negro abraçando-me. Logo o homem gordo tentou acertá-lo com um soco que passou de raspão pelo meu rosto, mas acertou o outro cavaleiro forte.

— Por favor, não há motivos para briga! — Gritei de novo.

— Vem, meretriz. — Um outro homem disse. Quantos existiam ali?

Então eles entraram em um estúpido acordo e começaram a me levar para algum lugar escondido e no impulso chuto o meio das pernas de um deles e dou um tapa no rosto do segundo, tropeçando em meu vestido seguidamente quando tentei correr. Eles começaram a gargalhar falando “ela morte” e quanto senti a mão do cavaleiro me tocando mais uma vez, vi a sombra de Ethan se erguer atrás dele, quebrando uma grande garrafa na cabeça do homem que de tão bêbado apenas revirou os olhos e caiu no chão. 

Encarei um sorriso se formar nos lábios de Ethan Haavik quando todos os outros homens voltaram a atenção diretamente para ele que abriu os braços e dobrou os dedos da mão como se estivesse falando “venham” os provocando e começando uma verdadeira confusão.

Ethan nem precisava fazer muitos esforços contra os homens, eles estavam tão bêbados que mal conseguiam ficar de pé. 

Com um sorriso empolgado no rosto, Ethan desviava e sem arma alguma lutava. Segurou a cabeça de um homem gordo e jogou-a contra o balcão de madeira da taberna e o velho taberneiro que estava do outro lado limpando canecos levantou as mãos assustado. Depois, Ethan segurou o corpo do homem e o jogou contra dois que se aproximaram dele, derrubando-os como bolas de boliche e ele ainda parecia se divertir com aquilo. Estava com um sorriso grande no rosto enquanto chutava e desviava do que se levantou.

Ele acertou outro com um soco no queixo o fazendo cambalear com raiva. O homem era um cavaleiro e carregava uma espada: vendo Ethan em pé, lutando sem problema algum, praguejou com raiva desembainhando a lâmina, correndo em sua direção. Ele fez um corte próximo de Ethan e não eu sabia dizer se acertou ou não, mas Ethan pareceu ter ficado com muita raiva e vi algo estranho surgir em seu rosto. 

Podia ser algo da minha cabeça que estava transtornada e bêbada. Mas, os seus olhos estavam brilhando? 

Pisquei rapidamente para ter certeza se aquilo que eu estava vendo era real. Os olhos de Ethan estavam brilhando? Ok. Estou realmente muito bêbada.

Ele parecia estar dominado por uma raiva descomunal. Cerrou os dentes, agarrou a mão do homem que portava a espada e quebrou o seu braço como se estivesse quebrando um ovo e o queimou com um fogo azul que saiu de suas mãos. Eu estava delirando. Completamente enlouquecida. Aquilo era tudo coisa da minha cabeça, a mesma que apertei com força e balancei.

Depois, quando vi outro se aproximando com uma faca, segurei uma cadeira e a quebrei contra a sua coluna. Esses homens são tão hostis! Não sabem lutar sem ter que pegar armas? De qualquer forma, eles realmente não sabiam o que estavam fazendo. Tonta, tombei contra a parede e senti as mãos de Ethan me pegarem. Ele me colocou em seu colo enquanto apoiei a testa em seu peito e me carregou até a nossa estalagem que nada mais era que um monte de feno dentro do estábulo da taberna. 

Era o melhor que o taberneiro podia nos oferecer.

Ethan me colocou nos fenos que nos servia como leito e tirou o capuz da cabeça mostrando os cabelos negros e rebeldes. Apoiou a mão ao lado do abdômen depressa, apertando os lábios e as sobrancelhas logo em seguida, com um grunhido abafado de dor.

— Por que arrumou confusão, Ethan? Você é um chato! — Tentei me levantar, mas o lugar girou novamente e eu caí. — Você estraga tudo!

 Ele não me respondeu, se sentou e tirou a manta das costas, a armadura, depois o gibão, ficando só com a sua túnica preta que estava por baixo das calças da mesma cor e dos cinturões armados de couro.

— Eu estava me divertindo! E você estragou tudo! — Resmunguei. — Eu vou voltar para lá. — Me levantei e caí novamente, fazendo-me socar os fenos com raiva. Tentei de novo e dessa vez com mais força e consegui. Andei pelo cômodo e tropecei, fazendo-o tirar a mão do abdômen, que parecia incomodar ele, para me segurar quando caí em seus braços.

— Você está bêbada, Sara. — Ele disse, com calma. Não respondi e apenas levantei a minha cabeça para encontrar o seu rosto. — Aqueles homens não eram boas pessoas, fariam mal a você!

Ao ouvir aquelas palavras, ainda em seus braços e observando os seus olhos com aquela cicatriz reta que marcava o direito, começo a desabar em lágrimas, sentindo o meu corpo cada vez mais mole. O que está acontecendo comigo? Como pude ser tão inocente? Como pude trair a minha própria dignidade dessa forma? O que está acontecendo comigo!

Ethan colocou uma mão em minha cabeça e começou a se agachar para se sentar junto ao meu corpo, fazendo-me acompanhá-lo, devagar. Ele me abraçou com carinho enquanto eu chorava. Agarrei o corte sobre seu o peito de sua túnica fina com força e chorei mais, molhando-a. Ele sussurrou algo, mas não consegui escutar. 

— Me desculpe, Ethan! Por favor, não vá embora! Não me deixe sozinha aqui, perdida! Estou desesperada, eu…

— …Shh — sussurrou e com a mão enluvada começou a acariciar o meu cabelo como eu nunca pensei imaginar em um assassino como Ethan Haavik. — Está tudo bem, Sara… não tem com o que se preocupar. Não vou abandoná-la. — Continuou sussurrando com o mesmo sotaque brando.

Levantei um pouco a cabeça, com o rosto próximo ao seu, observei-o o que o fez parar de acariciar o meu cabelo por um tempo.

— Você promete? — Questionei e ele pensou. — Promete, Ethan?

— Eu prometo. — Respondeu, sério.

Sorri e engoli um pouco o choro.

— É melhor você se lavar e descansar. Temos uma longa caminhada amanhã. — Disse depois de um tempo.

Balancei a cabeça concordando e me desapoiei do seu peito, observando o seu rosto mais uma vez, terminando de limpar o meu rosto.

— Estou tão confusa, minha cabeça está doendo muito.

— Eu sei, eu sei…

Ele se levantou e me ajudou a levantar também. Ethan me guiou até uma tina de madeira velha e um pouco mal cuidada com partes lascadas e bem suja. Ele a encheu com água e antes que pudesse se retirar, entregou-me um grande pedaço de pano qualquer para que eu pudesse me secar e assim pôde se retirar. Sorri enquanto o vi se afastando e me afundei na água ao retirar a cinta apertada do vestido e fazê-lo cair em meus pés.

A água gelada faz o meu corpo inteiro estremecer. Fechei os olhos pedindo perdão por toda a vergonha que passei em pensamentos. Senti o meu espírito calmo e após longas horas, afundada na água, me enrolei com o pano que com o tempo passei a chamar de toalha. Mas era tão surrado que me perguntei da onde ele tirou isso. Vesti o meu vestido novamente e espremi os meus cabelos contra o chão frio.

Ao voltar para onde o cavalo estava, na baia, me deparei com a cena mais aterrorizante que já vi até então. Meu Deus, estou embriagada ainda, o banho gelado não foi o suficiente?

— Você está melhor? — Ethan questionou enquanto passava um pedaço de pano num corte de formato crescente em seu abdômen bem trabalhado. Talvez até demais.

Engoli a saliva.

— Acho que ainda estou bêbada. — Falei, analisando a parte de cima do seu corpo que era exposta e muito definida: é claro, ele é um cavaleiro. Passa a vida lutando e fazendo sei lá o quê!

Mas o que mais me chamou atenção foram as infinitas cicatrizes, algumas de tamanhos grandes como riscos de garras no peito e ao lado do abdômen. Outras pequenas como no coração que me fez perguntar em pensamento como conseguira justamente ali. Eram muitas, tão impossíveis de contar quanto estrelas. Me arrepiei completamente, pensando nas inúmeras possibilidades que o fez alcançar este estado horrendo. O quanto ele sofreu para ter todas essas cicatrizes? Será que ele mesmo se autoflagelava? Ou então, todas essas cicatrizes foram sinais de todas as batalhas de sua vida? De qualquer forma, isso só provava o quanto ele era um homem forte, a cada corte espalhado para cada pedaço de pele. Era aterrorizante. Assustador. Era a coisa mais horrível que já vi.

Ele pareceu perceber o meu estado de choque ao observá-lo com a barriga de fora e ficou receoso.

— Perdão, não queria assustá-la. — Disse. — Vou terminar isto lá fora. — Começou a caminhar e sem pensar corri contra o seu corpo forte, o puxando com dificuldade.

— Não! Ethan, você não me assustou! — Respondi mesmo que fosse mentira. Como uma pessoa normal podia ter tantas cicatrizes assim? E ele tinha muito mais nas costas, como se tivessem chicoteado-o umas quatrocentas vezes junto mesmo com mais marcas de garras. — Me deixe ajudá-lo… — Sussurrei, estudando-o.

Ethan pareceu hesitar. Não gostou da ideia como eu mesma já sabia. 

— Não se preocupe, logo estarei melhor. — Respondeu e arranquei o pano de sua mão.

— Pare de ser teimoso e me deixe ajudar você! Já fez muito por mim, preciso retribuir.

Ele sorriu e cedeu, sentando-se sobre um grande pedaço quadrado de feno. Molhei o pano e comecei a passar em sua ferida com carinho. Notei também uma tatuagem em seu antebraço direito, sob suas veias grossas. Parecia algo tribal, de origem desconhecida por mim. Dois riscos para cima, embaixo se sustentava um na horizontal e depois mais três para baixo na vertical. Deixei de reparar na sua tatuagem quando me prontifiquei em analisar o ferimento mais uma vez. O corte era profundo demais e começou a me preocupar.

— Isso está horrível, Ethan… — Eu resmunguei, preocupada.

— Isso não é nada. Já passei por coisas piores. — Ele mostrou onde havia uma cicatriz que marcava todo o seu pulso como se tivessem cortado a sua mão fora. Bobagem. Se tivessem feito isso, hoje ele não estaria com ela agora, obviamente. — Eu me recupero. Como eu disse: sou um deus.

Apertei as sobrancelhas com raiva por nem nesse momento de dor ele conseguir deixar de falar coisas idiotas. Estúpido.

Continuei limpando a sua ferida e estudando o seu corpo delicadamente. Vendo cada ponto e cada cicatriz de formatos diferentes que o marcava, causando um estranho arrepio em minha espinha que logo se transformou em um frio na barriga cheio de adrenalina e fulgor. Eu estava cuidando da ferida de um homem assassino. Isso sim era a coisa mais estranha que já me aconteceu. Meu corpo esquentou de uma forma anormal e senti os meus pelos se eriçarem quando ele colocou a mão sobre a minha.

— Já está bom. — Disse e afastou os meus dedos. A ferida parecia menor. Será que nunca vou deixar de estar bêbada? Como aquilo era possível?

— Ethan, você por acaso é um tipo de louco que se flagela? — Questionei, no impulso, temendo que ele me matasse. — Sabe, é que eu imagino o quanto você deve se sentir culpado pelas vidas que tirou, não é mesmo?

— Eu deixei você cuidar da ferida, não que fizesse perguntas.

Rolei os olhos.

— Está bem, seu bruto. — Sem pensar direito, soquei a sua ferida para ver sua careta de dor como uma forma de vingança.

— Ai… — Ele apertou os lábios e grunhiu. Então o observei com os olhos arregalados e logo em seguida começou a rir. — Suas mãos são leves, delicadas.

— Não ouse! — Eu disse, apontando o dedo para o seu rosto. — Se não eu soco a sua ferida de novo, e mais forte!

Ele abriu os braços.

— Vá em frente. — Respondeu, completamente tranquilo, como se estivesse me testando.

Então o soquei com toda a força que existia em meu ser e até precisei respirar fundo para retomar minha capacidade. E de novo. E mais uma vez. Ele não se importou, embora eu soubesse que sentiu dor.

— Por que não se importa? — Questionei.

Ele ficou em silêncio analisando a minha pergunta ou talvez, analisando algo dentro de sua mente.

— A dor é um privilégio em meu corpo. — Murmurou depois de minutos. — Me faz lembrar de que estou vivo. De que existo mesmo que eternamente.

Não respondi com a ideia de tentar entender o que realmente queria dizer com aquilo. Ele gostava de sentir dor? Mas quem gosta de sentir dor? Realmente ela nos faz sentir vivo, mas é horrível.

— Todos morrem algum dia… — pensei — viver por gerações seria uma maldição horrível. Ter que enterrar seus entes queridos. — Ele se entristeceu mais uma vez. — Você tem família, Ethan?

Pensei que esta fosse ser mais uma pergunta a ser ignorada e eu já estava me levantando para deitar sobre o leito formado de feno quando escutei a sua voz firme:

— Eu já tive uma. — Respondeu. — E você, tem alguém?

Fiquei em silêncio olhando para os lados, sem reação. Queria esconder-me em algum lugar neste momento e sinto a minha pele esquentar e meus olhos não conseguirem parar de piscar com a ardência que os cobriu. Droga, não consigo disfarçar. 

— Eu respondi, agora é a sua vez. — Ele disse, fazendo-me virar para lhe observar.

— Okay… — Respirei fundo tentando controlar o meu coração que se acelerava mais e mais por ficar tanto tempo encarando-o. — Nunca tive família, pai, mãe e irmãos. No dia do meu casamento tiraram a vida da pessoa que eu amava. — Suspirei e o vi franzir a testa. — Todas as pessoas que me apego, se machucam ou vão embora. O que mais fiz nessa vida foi fracassar com eles. Todos se foram por minha culpa, eu mereço a solidão. — Suspirei tentando segurar as lágrimas. — Então Ethan, se você quer realmente viver tem duas opções, ou me deixa aqui sozinha ou vai ter que suportar meu jeito irritante. É a única forma que tive para não ficarmos tão íntimos, porque eu sei que não sou forte o suficiente para seguir em frente caso você morra.

Voltei a caminhar, e já fora do estábulo o escuto dizer:

— Eu sou o culpado pela morte de todos os que estavam comigo, e sou responsável pelo sofrimento do meu povo. Por suas dores. Pelo motivo de suas mortes hediondas. — Esperou um tempo. — Talvez nós dois mereçamos a solidão.

O escutei se levantar também mas não o observei. Diferente disso, continuei encarando as árvores abarrotadas de neve, o céu estrelado, algumas luzes surgirem dentro de um bosque. Estranhamente me senti mais próxima de Ethan. Desabafar foi bom, mas não sei dizer se eu realmente queria isso. Porém, a ideia de continuar distante de Ethan me satisfaz muito mais o que o conhecer. Pelo menos é o que eu anseio. Ele me leva de volta para casa, me reencontro com Chelsea e assim eu esqueço que ele existiu. Será que a minha irmã acreditaria que andei com o assassino do museu?

Me desfoquei quando vi algo se mexer entre algumas árvores com um som de galho se partindo. Tentei enxergar melhor ao dar um passo para frente, mas a mão de Ethan logo encontrou o meu ombro.

— Eu faço a vigia. — Bradou. — Descanse. — Continuou baixo, já vestido com suas armaduras e com seu capuz. Antes que eu entrasse no estábulo para dormir, me impediu por alguns segundos ao segurar a minha mão com força. — Você é uma mulher forte, Sara. Eu posso sentir isso.

Senti algo estranho em meu corpo, como se eu tivesse compartilhado as minhas memórias amargas com Ethan Haavik. Como se ele tivesse sentido o que eu estava sentindo. O que poderia ser? A minha pele então se congelou sob uma carga completamente fora do normal. Entrei desconfiada no estábulo, apagando o fogo das tochas. Ainda com a mesma sensação formigante na pele onde Ethan tocou, eu deito, observando-o pela entrada do recinto onde a lua encontrava um lugar para iluminar. Ele ficou em pé, observando-a no céu e depois se abaixou. Tirou a adaga Haavik do cinturão e a fincou na neve, começando uma oração baixa. Escutei apenas algumas palavras simples como: eu os escuto e eu os sinto. E então fechei os olhos.

Segunda noite de sono, só espero conseguir encontrar a bruxa de que ele tanto falara e assim voltar para o meu verdadeiro lar. Sair desse inferno e nunca mais olhar para esse assassino.

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