Ponto de Vista: Elisa Carvalho
Não houve dor.
Em um momento, eu era uma garota amarrada a uma bomba em uma sala de concreto. No seguinte, eu era... nada. Um fiapo de consciência flutuando na poeira silenciosa do rescaldo.
Abaixo de mim, onde meu corpo estivera, havia uma cena de devastação total. Uma cratera no chão, paredes enegrecidas e fragmentos espalhados e irreconhecíveis do que costumava ser eu.
Eu deveria estar horrorizada. Deveria estar gritando. Em vez disso, uma profunda sensação de paz me invadiu. O peso constante e doloroso de tentar ser suficiente para Arthur, de me sentir invisível, havia desaparecido. Eu estava livre. A morte não era um fim; era uma libertação.
Flutuei sem rumo pelo prédio em ruínas, uma observadora silenciosa em um mundo ao qual eu não pertencia mais. O tempo parecia não ter significado. Horas, ou talvez dias, passaram em uma névoa cinzenta e sem forma.
Então, senti um puxão. Uma amarra. Era fraca no início, depois mais forte, me atraindo de volta ao epicentro da explosão enquanto o som das sirenes ficava mais alto.
Arthur Mendes chegou com a primeira leva de investigadores forenses.
Ele saiu do carro, vestido em um terno escuro e impecável, o rosto uma máscara de distanciamento profissional. Ele estava ali como arquiteto, um consultor da prefeitura sobre integridade estrutural após explosões. A ironia era uma pílula amarga que eu não precisava mais engolir.
"O que temos aqui?", ele perguntou ao delegado-chefe, sua voz puramente profissional.
"Corpo não identificado. Parece que ela era o alvo. A bomba estava amarrada nela. Feio", o delegado resmungou, apontando para a cratera.
Arthur assentiu, seu olhar varrendo a cena. Ele se aproximou, seus sapatos caros rangendo nos destroços. Ele olhou para o chão queimado, para os poucos restos patéticos que a explosão deixou para trás.
Eu flutuei ao lado dele, uma estranha e desesperada esperança tremeluzindo dentro de mim. Uma esperança estúpida e humana que se recusava a morrer mesmo depois de mim.
Ele vai saber. Mesmo assim, ele vai saber que sou eu. Ele vai ver algo, um pedaço da minha blusa azul favorita, o medalhão que ele me deu... e ele vai saber.
E quando ele souber, ele vai desmoronar. A fachada perfeita e composta vai se estilhaçar, e ele finalmente, finalmente sentirá o peso do que perdeu. Do que ele jogou fora.
Ele se agachou, sua expressão clínica. "O dispositivo era C4 de alta qualidade. Trabalho profissional. A explosão foi direcionada para dentro, minimizando os danos estruturais às paredes de sustentação. Inteligente. Eles queriam contê-la."
Ele apontou para um pequeno pedaço de metal derretido. "Vê isso? O invólucro é de especificação militar. Não foi um amador."
Ele se levantou, limpando a poeira das calças. Ele não olhou para o que restou de mim novamente. Ele viu uma cena de crime, um quebra-cabeça a ser resolvido. Não a mulher que dividiu sua cama por três anos.
Ele não me reconheceu. Ele nem mesmo considerou que poderia ser eu.
A última brasa tola de esperança dentro de mim virou cinzas. Claro que ele não sabia. Para ele, eu era apenas um incômodo que estava fazendo um "drama" alguns dias atrás. Eu era uma inconveniência que ele já havia decidido cortar de sua vida. Por que ele sequer pensaria em me procurar aqui?
A equipe do IML chegou e começou a tarefa sombria de coletar o que restou de mim. Eles colocaram os fragmentos em um saco para cadáveres. Enquanto o fechavam, senti aquela estranha amarra se esticar.
Eu estava sendo arrastada junto com o saco, uma passageira espectral em minha própria jornada final. Eu estava presa a ele. A Arthur.
No carro, a caminho da delegacia, seu melhor amigo e colega, Caio Costa, sentou-se no banco do passageiro.
"Alguma notícia da Elisa?", Caio perguntou, sua voz gentil.
Arthur olhou pela janela, o maxilar tenso. "Não chequei. Provavelmente cem chamadas perdidas e um romance de mensagens raivosas. Juro, Caio, estou no meu limite com ela."
Cada palavra era um prego no meu caixão, me selando nesta realidade fria e escura. Eu era um fantasma, e ainda estava sufocando.
"Arthur, talvez você devesse ligar para ela", Caio insistiu. "Ela parecia genuinamente assustada quando o pai dela me ligou. Ele disse que ela está desaparecida há dois dias."
"Ela não está desaparecida", Arthur zombou, pegando o celular. "Ela está me punindo porque eu tive que trabalhar. É o que ela faz."
Ele abriu suas mensagens, e eu vi meus últimos textos para ele aparecerem na tela.
Eu sei que você não se importa. Mas eu estava grávida. Você ia ser pai.
Espero que a gente nunca mais se encontre. Nem nesta vida, nem na próxima.
Observei seu rosto, meu coração inexistente batendo forte. É agora. Este é o momento.
Sua expressão não se suavizou com dor ou choque. Endureceu-se com fúria.
"Inacreditável", ele murmurou, o polegar pairando sobre meu nome.
"O que foi?", Caio perguntou.
"Ela está alegando que estava grávida", disse Arthur, a voz pingando nojo. "Chegando a novas profundezas para me manipular. Que coisa doentia de se inventar."
Ele tentou me ligar. A chamada, claro, não completou.
"Viu? Direto para a caixa postal. Ela desligou o telefone para completar o drama", ele ferveu. "Bem, eu cansei. Cansei de jogar esses joguinhos infantis."
Ele praguejou baixinho, uma torrente de palavras cruéis dirigidas a uma mulher que não existia mais.
Então, com um toque final e decisivo, ele bloqueou meu número. Ele apagou meu contato. Ele me apagou de sua vida com a mesma facilidade com que se limpa uma mancha de uma tela.
A dor que senti em meus momentos finais foi um incêndio violento. Isso era um vazio frio e rastejante. Os últimos vestígios da garota que amava Arthur Mendes morreram naquele carro. O que restou foi outra coisa. Algo vazio e vigilante.
Eu havia desistido do fantasma da esperança de que ele um dia me amaria. Agora, eu desistia do fantasma da esperança de que ele sequer sentiria minha falta.
Segui meus próprios restos para o IML. Fui forçada a assistir enquanto o médico legista dispunha os fragmentos em uma mesa de aço.
E então Arthur entrou, uma prancheta na mão, pronto para ajudar com o relatório oficial.
Eu estava acorrentada a ele, uma reviravolta cruel do destino. Fui forçada a assistir o homem que eu amei, o homem cuja indiferença assinou minha sentença de morte, realizar uma autópsia em meu corpo irreconhecível.
Um grito silencioso e invisível cresceu dentro de mim, mas nenhum som saiu. Eu estava presa. Presa com ele. Para sempre.
Ponto de Vista: Elisa Carvalho
O laudo final da autópsia foi lido em voz alta na sala estéril de azulejos brancos.
"Vítima não identificada, sexo feminino, idade estimada entre vinte e cinco e trinta anos. Causa da morte, trauma massivo por dispositivo explosivo. A detonação foi instantânea."
O médico legista fez uma pausa, limpando a garganta antes de continuar. "Evidência de contusões pré-morte nos pulsos e tornozelos, consistentes com ter sido amarrada. Marcas de ligadura no pescoço sugerem um período de estrangulamento antes da morte, embora não tenha sido a lesão fatal."
Cada palavra clínica pintava um quadro das minhas últimas horas aterrorizadas.
"Além disso", disse o examinador, sua voz suavizando um pouco, "a vítima estava grávida de aproximadamente oito semanas no momento da morte."
Um silêncio pesado desceu sobre a sala. Os detetives, os técnicos de laboratório, até mesmo Arthur — todos ficaram paralisados, o peso das palavras se assentando sobre eles.
Minha própria forma espectral estremeceu. Oito semanas. Eu não sabia. Uma vida minúscula e secreta estava crescendo dentro de mim, uma vida que eu nunca tive a chance de valorizar ou proteger. Uma vida que Arthur nunca saberia que criou, ou perdeu.
Uma lágrima, fria e insubstancial, escorreu pela minha bochecha fantasmagórica. Não era por mim. Era pelo bebê. Meu bebê. Morremos juntos, sem nome e sem o amor da única pessoa que deveria ter movido céus e terra por nós.
Arthur quebrou o silêncio. Ele balançou a cabeça, um lampejo de algo que parecia pena em seus olhos. "Meu Deus, que brutal. Com uma mulher grávida. Que tipo de monstro faz isso?"
Ele passou a mão pelo cabelo perfeitamente penteado. "Precisamos encontrar esse filho da puta. Quero estar na equipe que o prender. Pessoalmente."
Eu queria rir. Um som oco e quebrado. Claro. O grande Arthur Mendes, campeão da vítima grávida e sem nome. Ele caçaria meu assassino com uma fúria justa que nunca pôde me dedicar em vida.
Ele seria tão justo, eu me perguntei, quando finalmente descobrisse que a vítima não identificada que ele estava defendendo era a mulher que ele tão friamente dispensou? Ele sentiria culpa? Ou apenas irritação por minha morte ter se tornado uma mancha inconveniente em sua vida perfeita?
Mais tarde, Arthur e Caio estavam do lado de fora, no ar fresco da noite, a fumaça de seus cigarros se enrolando na escuridão.
"Você precisa ir para casa, Arthur", disse Caio, a voz carregada de preocupação. "E você precisa ligar para a Elisa. Todo esse caso... deveria ser um alerta. A vida é curta."
Arthur deu uma longa tragada no cigarro, as brasas brilhando no escuro. "A Elisa não vai a lugar nenhum. Ela vai estar sentada em casa, esperando que eu peça desculpas por qualquer crime que ela inventou esta semana. Mandei uma mensagem dizendo que terminamos. Ela sabe."
Eu não estou em casa, Arthur, pensei, as palavras um grito silencioso no vazio. Estou aqui. O que restou de mim está em uma mesa de aço a trinta metros de você.
Eu não me importava mais se ele sentia remorso. A esperança por isso havia virado pó. Tudo o que eu queria agora era estar livre dele. Flutuar para o que quer que viesse a seguir e deixar a memória de Arthur Mendes para trás para sempre.
Nesse momento, seu telefone vibrou. Ele olhou para a tela, e as linhas duras de seu rosto suavizaram instantaneamente. Era uma chamada de vídeo.
O rosto perfeito de Gênesis Sampaio preencheu a tela.
"Arthur, querido", ela fez beicinho. "Você perdeu nossa reserva para o jantar. Fiquei esperando."
Ele conseguiu um sorriso cansado, aquele reservado apenas para ela. "Me desculpe, Gên. Surgiu uma coisa no trabalho. Uma coisa feia."
"Pior que a minha crise na fundação?", ela perguntou, um brilho brincalhão nos olhos.
"Muito pior", disse ele, a voz gentil. Ele a estava protegendo dos detalhes feios, protegendo sua inocência de uma forma que nunca se preocupou em proteger meus sentimentos. "Não se preocupe com isso. Eu te compenso amanhã. Prometo."
A hipocrisia era sufocante. Ele podia mover montanhas por ela, mas por mim, não conseguia nem superar sua própria arrogância.
A investigação do assassinato da vítima não identificada estagnou. Sem uma identidade, não havia pistas. Dias se transformaram em uma semana. Frustrado, foi Arthur quem sugeriu que divulgassem uma descrição da vítima para a mídia.
"Vinte e cinco a trinta anos, um metro e sessenta e sete, cabelo e olhos castanhos", relatou a âncora do jornal sobre uma silhueta genérica. "A vítima usava os restos de uma blusa de seda azul e brincos de argola de prata."
Meus brincos. Minha blusa.
O telefone na mesa de Arthur tocou assim que a transmissão terminou. Ele atendeu, sua atenção ainda nos papéis à sua frente.
"Mendes."
Ouvi a voz do outro lado, fina e fraca de pânico, e meu coração inexistente se apertou.
"Sr. Mendes... Arthur... é o Ricardo Carvalho. Pai da Elisa."
Eu arquejei, um grito silencioso e desesperado. Pai.
"Desculpe incomodá-lo no trabalho", meu pai gaguejou, a voz embargada. "Mas não conseguimos falar com a Elisa. O telefone dela vai direto para a caixa postal. Não temos notícias dela há mais de uma semana. Ela... ela corresponde à descrição do jornal. Por favor, Arthur. Diga-me que não é ela."