Capítulo 2

Ponto de Vista de Carolina:

Sua voz, afiada e exigente, cortou o silêncio dos meus pensamentos quando voltei para a sala de jantar. "Carolina, onde você esteve?"

Virei-me, um sorriso educado já fixo no meu rosto. Era uma máscara que eu havia aperfeiçoado anos atrás, a ferramenta mais essencial de uma esposa de político. "Apenas tomando um ar, querido. Minha cabeça estava um pouco tonta com todas as lembranças do papai." Toquei minha testa, fingindo uma leve tontura. Era uma desculpa crível, dada a ocasião.

Seus olhos se estreitaram, examinando meu rosto, procurando por qualquer sinal. Ele era bom, mas eu era melhor. Minha cara de pôquer foi herdada de um homem que conseguia extrair a verdade de qualquer um com seu charme, e esconder a sua com igual habilidade. Eu sabia como jogar este jogo. Eu vinha aprendendo com o mestre a minha vida inteira.

Ele não deve ter encontrado nada, porque suas feições se suavizaram. Ele me puxou para perto, seu braço uma faixa possessiva em volta da minha cintura. "Você me preocupou, meu amor. Sabe como é perigoso para uma mulher andar sozinha, especialmente esta noite." Ele pressionou um beijo no meu cabelo. "Eu não conseguiria viver se algo acontecesse com você. Nós pertencemos um ao outro. Para sempre."

As palavras pareciam veneno, queimando minha garganta. Para sempre. Como era fácil para ele proferir tais votos enquanto seu coração, ou o que passava por isso, pertencia a outra. À minha irmã. Ele era um mestre da performance. E eu, sua plateia involuntária, finalmente tinha visto através do ato.

"Não consigo imaginar uma vida sem você, Carol," ele continuou, me segurando mais forte. "A ideia de te perder... eu desmoronaria." Ele enterrou o rosto no meu cabelo, expirando profundamente. "Você é minha âncora. Minha rocha. Meu tudo."

Suas mentiras eram tão ousadas, tão descaradas, que quase me fizeram rir. Senti uma onda de fúria fria. Este homem, que estava destruindo minha vida, estava fingindo estar loucamente apaixonado. Ele era um insulto ao próprio conceito de fidelidade.

"Então," comecei, minha voz suave, quase brincalhona, "se hipoteticamente, eu fosse... desaparecer, ou, digamos, te trair, o que você faria, Gustavo?"

Ele se afastou abruptamente, seus olhos brilhando com raiva genuína, não do tipo performático. "Carolina! Nem brinque com essas coisas." Seu aperto no meu braço era forte, machucando. "Traição é o pecado supremo. Lealdade é tudo." Ele olhou ao redor, certificando-se de que ninguém estava ouvindo muito de perto. "Minha família sempre defendeu isso. Nos traia, e você se arrependerá."

Ele olhou para mim, seu olhar intenso, quase ameaçador. "Você conhece o código da minha família. Lealdade é sagrada. E eu, Carolina Cruz, juro pela honra da minha família, que nunca te trairei."

Suas palavras ecoaram na sala elegante, uma promessa vazia que zombava da verdade que eu acabara de descobrir. Ele jurou pela honra de sua família. Pela sua família. A mesma honra que ele estava pisoteando com a minha irmã.

"Eu sei, querido," eu disse, um sorriso plácido no rosto. Bati em sua mão, forçando-me a relaxar em seu toque. "Eu estava apenas sendo boba. Claro que você não faria."

Ele relaxou, uma satisfação presunçosa se espalhando por seu rosto. Ele beijou minha testa, seus lábios demorando. "Você é minha, Carol. Sempre foi, e sempre será. Estamos destinados à grandeza juntos. Ninguém pode ficar entre nós." Seus olhos tinham um brilho possessivo. "Se alguém tentasse te tirar de mim, eu juro, eu faria essa pessoa se arrepender do dia em que nasceu." Ele se inclinou, sua voz um rosnado baixo. "E se você me deixasse, Carol, eu te caçaria até os confins da terra. Você não pode escapar de mim."

Fechei os olhos brevemente, um arrepio percorrendo minha espinha. Você não pode escapar de mim. Ele estava certo. Ou, ele pensava que estava. Ele não tinha ideia de que a mulher que ele estava segurando já tinha partido. Meu coração, que antes batia apenas por ele, era agora um deserto estéril. Eu não sentia nada além de uma resolução fria e ardente.

Afastei-me gentilmente dele, meu sorriso nunca vacilando. "Gustavo, querido, eu realmente preciso de alguns minutos de silêncio. Estarei no escritório, apenas organizando meus pensamentos."

Ele franziu a testa, mas seu celular de repente vibrou no bolso. Ele olhou para a tela, e sua expressão confiante vacilou, substituída por um lampejo de irritação, e então outra coisa. Algo como... pânico. E desejo.

Meus olhos, afiados e perceptivos, captaram o nome no identificador de chamadas antes que ele rapidamente afastasse a tela. "Meu Canarinho." O apelido da minha irmã. Helô.

Ele murmurou algo sobre um assunto familiar urgente, uma crise repentina que ele precisava resolver. Seus olhos, agora cheios de um falso arrependimento, encontraram os meus. "Sinto muito, Carol. Não pode esperar. Você entende, não é?"

"Claro, querido," eu disse, minha voz doce, compreensiva. "A família sempre vem em primeiro lugar." A ironia era um gosto amargo na minha boca.

Ele se inclinou, pressionou um beijo rápido na minha testa. "Voltarei assim que puder. Espere por mim, meu amor. Suba para a nossa suíte, descanse."

Eu assenti, interpretando a noiva obediente, a parceira compreensiva. Ele sorriu, aliviado, e saiu apressado da sala, sua equipe de segurança seguindo-o. Observei suas costas se afastando, um fantasma de sorriso nos meus lábios. Ele pensava que estava escapando. Ele estava apenas caindo na minha armadilha.

Assim que seu carro partiu, eu me movi. Não para a suíte, mas para a entrada de serviço. Meu plano estava traçado. E minha presa, alheia, já estava me levando exatamente para onde eu precisava ir.

Capítulo 3

Ponto de Vista de Carolina:

Gustavo estava prestes a dizer algo mais, alguma instrução de despedida, quando Roberto, seu assessor, apareceu ao seu lado, sussurrando com urgência. A expressão de Gustavo mudou de preocupação fingida para aborrecimento genuíno. Ele lançou um olhar afiado para Roberto, depois apertou minha mão. "Mais tarde, meu amor. Eu prometo."

Ele me deu um sorriso misterioso, quase travesso, e então pegou minha mão, me conduzindo em direção às grandes portas duplas que se abriam para os vastos jardins da propriedade. "Venha, tenho uma surpresa para você."

Meu coração martelava contra minhas costelas, um tambor surdo e frenético. Uma surpresa? Esta noite? Depois de tudo? Eu queria resistir, me afastar, mas precisava manter a fachada. Precisava que ele acreditasse que eu ainda era sua.

Ele me parou na soleira, suas mãos cobrindo gentilmente meus olhos. "Sem espiar, minha linda Carolina. Isso é algo especial. A maneira perfeita de terminar um dia difícil e de te lembrar do nosso futuro." Sua voz era suave, sedutora, uma canção de ninar ensaiada.

Senti sua respiração na minha orelha enquanto ele começava a contagem regressiva. "Cinco... quatro... três... dois... um!"

Ele levantou as mãos, e eu pisquei, meus olhos se ajustando ao brilho suave das luzes do jardim. Acima de nós, suspensos contra a tela escura do céu noturno, centenas de drones se acenderam, mudando e girando, formando padrões intrincados. Eles dançaram, um balé de luz hipnotizante, até que finalmente, se uniram em uma única imagem de tirar o fôlego: meu nome. CAROLINA. Brilhava, radiante e etéreo, um testemunho de seu poder, sua riqueza, seu amor performático.

Ele me abraçou por trás, me puxando contra seu peito. "Feliz aniversário, meu amor," ele sussurrou, seus lábios roçando o lóbulo da minha orelha. "Sete anos desde que nos conhecemos. Sete anos da maior história de amor que conheço. A cada ano, tento me superar, para te mostrar o quanto você significa para mim."

Sete anos. Sete anos em que acreditei nesta fantasia cuidadosamente construída. Sete anos de mim, a garota ingênua, me apaixonando pelo político carismático que me prometeu a lua. Eu costumava olhar para surpresas como esta e sentir meu coração inchar de amor, de gratidão. Agora, parecia uma piada cruel. Uma gaiola dourada.

Lembrei-me da garota que eu era há sete anos. Cheia de esperança, transbordando de ambição, mas disposta a deixar tudo de lado pelo homem que eu acreditava ser minha alma gêmea. Eu tinha sido tão sincera, tão dedicada. Eu me afastei da minha própria carreira política em ascensão, do caminho que meu pai meticulosamente traçou para mim, para apoiar a dele. Para ser sua estrategista, sua confidente, sua força silenciosa nos bastidores. Eu tinha sido uma tola. Aquela garota se foi, substituída por uma mulher fria e calculista.

"E a cada ano, eu consigo," ele riu, sua voz grossa de orgulho. "Você não merece nada além do melhor, Carol. Sempre mereceu." Ele me virou em seus braços, seu olhar intenso, prestes a se inclinar para um beijo.

Assim que seus lábios tocaram os meus, seu celular vibrou novamente. O zumbido áspero quebrou a ilusão romântica, rasgando um buraco no momento cuidadosamente elaborado. Ele se afastou, sua mandíbula se contraindo de aborrecimento. Ele arrancou o celular do bolso, seus olhos brilhando de irritação.

Mas então ele viu o identificador de chamadas. Sua expressão, tão cheia de romance performático um segundo atrás, perdeu toda a cor. Seus olhos se arregalaram, um lampejo de pânico, depois um desejo cru e descontrolado. Era ela. "Meu Canarinho."

Ele se atrapalhou com o celular, tentando silenciá-lo, escondê-lo. Tarde demais. Eu já tinha visto. Meu coração, já uma bagunça fraturada, se estilhaçou ainda mais. A pura audácia. Ligando para ele agora, no memorial do meu pai, na nossa celebração de "aniversário".

Ele tentou se recompor, uma máscara de desculpa cansada se instalando em seu rosto. "Carol, eu... sinto muito. É uma emergência familiar. Uma crise que tenho que resolver imediatamente." Seus olhos imploravam por compreensão, por crença.

Esperança. Uma faísca minúscula e tola, piscou dentro de mim. Talvez não fosse o que eu pensava. Talvez fosse um mal-entendido. Talvez...

"Está tudo bem, Gustavo?" perguntei, minha voz um fio delicado, quase frágil.

Ele balançou a cabeça, passando a mão pelo cabelo perfeitamente penteado. "Não, minha querida. De jeito nenhum. É... complicado. Minha tia, um problema de saúde inesperado. Preciso ir. Imediatamente." Ele evitou meu olhar, seus olhos correndo em direção aos portões.

Ele estendeu a mão, sua mão segurando suavemente minha bochecha, depois pressionando um beijo suave, quase casto, na minha testa. "Voltarei assim que puder. Por favor, entre, descanse um pouco. Ligo para você assim que estiver livre."

Ele já estava se virando, sua mente claramente em outro lugar. "Não me espere acordada."

"Claro, Gustavo," respondi, minha voz um sussurro suave e complacente. A noiva obediente. A mulher confiante. Era um papel que eu desempenhava bem, anos de prática.

Ele me deu um sorriso rápido e grato, claramente aliviado pela minha fácil aceitação. "Essa é a minha garota." Ele se afastou, sua equipe de segurança se apressando para alcançá-lo. Observei seu sedan preto elegante desaparecer pela entrada, as luzes dos drones ainda formando meu nome no céu, um toque final e zombeteiro de sua ilusão cuidadosamente construída.

Não havia chance de eu entrar. Não agora. Não quando a verdade estava chamando. Rapidamente chamei um carro discreto da equipe de segurança, um que ele não notaria. "Siga-o," instruí o motorista, minha voz baixa e firme. "Mantenha distância. Preciso saber para onde ele está indo."

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