Cheguei no hospital às pressas, mal estacionei o carro e entrei correndo, indo direto para os elevadores, sem me importar com todos me chamando na recepção. Eu tinha que chegar logo ao quarto do meu pai, desde que recebi a ligação da minha mãe contando de seu infarto, tudo o que eu conseguia pensar era que ele não poderia morrer, eu não aguentaria perdê-lo.
Assim que as portas de metal se abriram, eu me apressei procurando pelo número do quarto que minha mãe havia falado e um segurança surgiu no meu caminho.
- Senhor, deveria ter parado na recepção, não pode ir entrando aqui assim.
- Eu sei muito bem o que posso ou não, agora saí da minha frente. - bradei, avançando contra ele sem me importar se estávamos causando uma cena ou não. - Sou dono da metade desse hospital, então acredite que eu sei o que devo fazer, meu pai está naquele quarto e, se não sair da minha frente, agora mesmo, vai estar demitido em dois segundos!
- Tudo bem, ele pode passar. - Jack disse, chamando a nossa atenção da porta do quarto onde meu pai estava e o brutamontes saiu da minha frente, me deixando finalmente passar. - Não precisava de toda essa brutalidade para entrar aqui.
- Eu precisava ver meu pai e ninguém ia impedir isso. Deveria colocar seus funcionários na linha, amigo. - Falei, passando por ele e entrando no quarto. Meu pai estava deitado na cama com o rosto cansado, as rugas estavam ainda mais destacadas hoje e a pele frágil estava pálida como eu nunca vi. - Oi, pai.
Me aproximei dele, sentindo meu coração se apertar em vê-lo tão debilitado. O homem que sempre foi o meu super-herói, com quem eu sempre pude contar em todos os momentos da minha vida, agora estava ligado a vários aparelhos, com tubos enfiados no nariz e uma droga de máquina monitorando seu coração.
- Até que enfim chegou, estávamos preocupados.
- Preocupado comigo, pai? Foi o senhor quem teve um infarto, eu só estava em uma reunião e demoraram até conseguir me avisar. Mas vim o mais rápido que pude. - Falei a verdade, acariciando sua cabeça, mas ele fez um esforço em levantar o braço e agarrar minha mão.
- Você tem que parar de trabalhar um pouco. - Ele respirou fundo como se estivesse cansado e eu me curvei ainda mais perto dele, vendo minha mãe forçar um sorriso fraco nos lábios. - Tem que arrumar uma boa mulher e se casar.
- Papai, já falamos sobre isso. Tenho só trinta e cinco anos, tenho muito tempo pela frente para conhecer alguém e me apaixonar. - Repeti a mesma frase que eu dizia sempre e dei tapinhas em seu peito. - A empresa está indo muito bem, é a hora de trabalhar duro para ter muitos frutos para colher.
- Eu não tenho esse tempo! - ele bufou, soltando minha mão e agarrou o colarinho da minha camisa. - Está vendo o que me aconteceu hoje? Eu estou velho, Benjamin!
Suspirei, não querendo pensar nisso, ele já tinha perdido alguns amigos no último ano e seu medo de morrer sem conhecer os netos tinha começado a crescer daí. Eu não o julgava, depois de hoje, até eu estava com medo do que poderia lhe acontecer. Mas queria que ele entendesse que casar e ter uma família não eram minha prioridade no momento.
- Seu pai tem razão, Ben. Não somos mais jovens. - Minha mãe falou, intercedendo pelo marido. - Quando vai nos dar a dádiva de conhecer nossos netos, os nossos descendentes?
- Mamãe...
- Eu disse que devíamos ter tido mais filhos! - meu pai interrompeu a minha negação. - Se tivéssemos mais dois, teríamos mais chances de ter um legado. Você vai ficar trabalhando até ser velho demais para ter uma família e então vai deixar tudo para quem? Seu ingrato!
A máquina disparou e Jack correu para o lado da cama, querendo conferir os batimentos agitados.
- Vamos nos acalmar, ok?
Era um exagero enorme o que ele estava falando, mas eu sabia que era apenas o medo de que acontecesse comigo o mesmo que aconteceu com alguns de seus amigos. Ter a vida regada a dinheiro, mulheres sem compromisso e trabalho, os levou cedo para a cova e tudo o que construíram ficou para trás, com sócios e nenhum parente que continuasse o legado.
- Na sua idade já tínhamos você e isso não impediu seu pai de trabalhar ou que eu estivesse nas passarelas. - Minha mãe disse com aquele tom doce e apaziguador que sempre usava quando estávamos discutindo. - Uma família não vai destruir suas chances no mercado, vai apenas te tornar um homem ainda mais sério.
Ela tocou meu rosto em uma carícia tendenciosa, que fazia apenas quando queria me convencer a repensar minhas decisões.
Eu amava os dois e temia que meu pai morresse sem ter o prazer de conhecer a mulher que seria a minha felizarda esposa, ou meus filhos. Mas não me sentia pronta agora, não teria tempo de ficar rodando em lugares a procura de alguma socialite que combinasse com o nosso estilo de vida, para entrar em uma rodada de encontros até saber se daria certo ou não. Era muito tempo para desperdiçar e eu não tinha esse tempo.
Mas olhar para aqueles dois que deram a vida a mim, que sempre fizeram tudo que fosse o melhor, aqueles dois que sempre estiveram do meu lado me apoiando, mesmo quando tinha as ideias mais idiotas do mundo, eu percebi que não teria outro caminho, pois eu não conseguiria dizer não a eles.
- Tudo bem, eu vou encontrar uma garota e me casar. - Foi o que me peguei dizendo e vi o olhar do meu pai se iluminar e minha mãe sorriu agarrando a mão dele.
Depois de alguns minutos, eu deixei o quarto para que ele pudesse descansar, mas prometi que à noite estaria de volta para dormir com ele e liberar minha mãe para voltar para casa.
- Então quer dizer que você vai estar casado em breve. - Jack zombou, me fazendo revirar os olhos enquanto descíamos até o térreo.
- Babaca, não brinca com isso. Agora me diz de verdade como ele está, qual é o quadro dele?
Meu coração ainda estava apertado, não me deixando sequer respirar direito. Eu nunca vi meu pai daquele jeito, ele não costumava ficar doente e muito menos parava na cama como estava. Meus instintos gritavam que algo ruim estava prestes a acontecer.
- Não está nada bem. - Ele confessou, suspirando e me lançando um olhar de compaixão. - Seu pai já tem sessenta e cinco anos, Ben. Um infarto na idade dele não é nada legal, as sequelas que podem ficar, problemas que podem surgir e o risco disso voltar a acontecer.
- E o que podemos fazer para impedir isso?
- Ele está em acompanhamento com uma nutricionista há um tempo, a alimentação está sendo regrada e ele tem hábitos saudáveis, tem se exercitado e tomado todas as vitaminas. - as palavras dele fizeram com que uma tristeza se abatesse sobre mim, eu sabia que não era a saúde dele que estava ruim, mas sim o coração dele. - O melhor agora é mantê-lo feliz, tranquilo e sem surpresas que possam disparar algum gatilho.
Soquei a parede ao meu lado, sabendo que nada disso acontecia na vida do meu pai, tirando surpresas de aniversário e a morte dos amigos. Ele não tinha passado por grandes emoções recentemente.
- Pelo visto, vou ter mesmo que me casar, quem sabe com a ideia de um neto ele se anime mais.
Jack explodiu em uma gargalhada, chamando a atenção das pessoas assim que as portas se abriram. Eu agarrei seu jaleco, o puxando para que calasse a maldita boca. Já era constrangedor pensar em ir atrás de uma mulher para agradar meu pai, não precisava das piadas e risadas.
- Ei, ei. Calminha aí, grandão! - ele exclamou antes de tossir e começar a segurar o riso. - Acho que tenho um lugar para ajudar você a encontrar a mulher perfeita.
Semicerrei os olhos e o soltei, ele voltou a sorrir como o grande filho da puta que era, antes de seguir para fora do elevador.
Eu o conhecia desde que éramos crianças, crescemos juntos e quando ele montou aquele hospital, eu fui o primeiro a investir com ele, me tornando o seu maior sócio.
- Se você não disser logo, eu vou arrebentar seu nariz, como na quarta série. - O lembrei, mesmo que fosse uma ameaça vaga, ele sabia que eu não faria isso realmente, mas ergueu o dedo do meio para mim. - Não estou brincando, Jack. Estou aceitando qualquer coisa que não me faça perder tempo, tendo que cortejar e sair várias vezes antes de saber onde vai dar.
- Alguns meses atrás, uns amigos do clube falaram sobre um leilão de mulheres, onde elas estavam dispostas a tudo pelo preço certo. - Ele disse assim que entramos na sua sala e as portas estavam fechadas.
- Isso é minimamente legal? - questionei, franzindo a testa e tentando imaginar um lugar onde mulheres eram leiloadas.
- É claro que é, Benjamin! Acha que eles estariam falando e recomendando para os caras do clube se não fosse? - Ele abriu uma gaveta e começou a vasculhar em busca de algo. - O lugar é bem secreto e tudo é muito discreto, porque ninguém quer exposição, os clientes e nem as garotas.
- É um prostíbulo chique, então? - Não podia acreditar que ele estava atrás disso, uma garota de programa não era o que eu ia apresentar como minha esposa.
- Não, idiota. É como se fosse uma agência de acompanhantes, mas você leva a garota que ganhar nos lances. Então, pode fazer o acordo que quiser com ela, ouvi dizer que algumas delas são até mesmo virgens e querem uma boa grana por isso.
Um leilão de garotas, eu precisava mesmo disso? Encarei a mesa à minha frente tentando imaginar como seria um lugar como esse. Eu não queria ter de fazer algo assim, era o mesmo que pagar para enganar meus pais e isso não acabaria bem.
O que eu precisava era uma esposa, uma mulher da nossa classe e nível, que os convencesse de que era perfeita para estar ao meu lado, que seria uma mãe majestosa. Só assim poderia dar dias de paz e calmaria para o meu pai.
- Jack, acho que já vou indo. - Falei, me levantando, decidido a ir em alguma boate essa noite para começar minha caçada.
- Achei! - ele gritou, erguendo a mão da gaveta com um cartãozinho preto nas mãos. - Aqui é onde você vai encontrar sua esposa em tempo recorde e pode assinar um contrato de casamento. Depois que estiverem casados, você pode pensar em conquistá-la, amor, bebês e blá blá.
Eu encarei o cartão estendido entre nós como se fosse uma bomba e não um simples cartão. Mas me peguei estendendo a mão e pegando o maldito cartão. Afinal, não tinha problemas em seu ter uma segunda opção, se a noite de hoje não fosse boa, eu poderia recorrer ao leilão.
A escuridão me sufocava como se eu estivesse presa em um pesadelo sem fim. Minha cabeça latejava, uma dor que pulsava da nuca às têmporas, e meu corpo parecia feito de chumbo, cada movimento era uma batalha contra a náusea que revirava meu estômago. Onde eu estava?
O último flash na minha mente era o banheiro da boate, o gosto amargo da bebida, a moleza nas pernas que me derrubou, as vozes de Alice e Jenny em pânico. Alice murmurando algo sobre sono... aquele homem com seu sorriso falso e então, o vazio.
Forcei os olhos a se abrirem, a visão embaçada lutando contra a luz fraca de uma lâmpada no teto. O quarto era luxuoso, com paredes de madeira polida, uma cama king size onde eu estava deitada, um espelho grande em uma das paredes e uma porta pesada, provavelmente trancada. Nada de janelas, só uma ventilação zumbindo no teto. Meu coração disparou, o pânico subindo como uma onda gelada. Isso não era um quarto de hotel. Era uma cela disfarçada de riqueza.
- Alice? Jenny? - chamei com a voz saindo quase como um sussurro. Minha mão encontrou um corpo ao lado, e eu sacudi com cuidado. - Acordem, por favor.
Alice gemeu abrindo os olhos lentamente, o rosto pálido e confuso tanto quanto eu imaginava que o meu estava.
- Becca? - ela murmurou, sentando-se com dificuldade e com a mão na cabeça. - Onde... onde estamos? Minha cabeça está explodindo.
Jenny se mexeu do outro lado, piscando, ainda com resquícios da droga nos olhos.
- Becca? Alice? - perguntou, esfregando as têmporas. - O que aconteceu? A gente estava na boate, e aquele cara e... a bebida...
- Ele nos drogou - respondi, a voz tremendo enquanto me sentava, o quarto girando por um instante antes de se estabilizar. - Lembra? A moleza, o sono que veio do nada. Ele nos trouxe aqui.
- Nós fomos sequestradas! - Jenny afirmou, colocando em voz alta o que eu sabia dentro de mim, mas tinha medo de falar.
Alice se levantou, mas tropeçou sem muita força nas pernas, caindo de volta na cama.
- Sequestro? - repetiu, a voz subindo em pânico. - Meu Deus, Becca, o que eles querem? Não temos nenhum dinheiro...
Ela não precisou terminar a frase para que todas nós entendêssemos do que aquilo se tratava.
Eu me arrastei até a porta, me segurando nas paredes com aquelas pernas trêmulas, e puxei a maçaneta, só para descobrir que estava trancada, como esperado. Mas eu não me dei por vencida e bati com os punhos, fazendo o som ecoar no quarto vazio.
- Ei! Alguém aí! Deixa a gente sair! - gritei mesmo com a voz falhando. Mas só encontrei silêncio. Apenas o zumbido da ventilação.
Jenny logo se juntou a mim, fechando a mão e batendo com mais força contra a porta.
- Vocês não podem fazer isso! - berrou. - Soltem a gente agora!
Alice se encolheu na cama, abraçando os joelhos, com as mãos tremendo e os olhos cheios de lágrimas.
- E se ninguém nos encontrar? - perguntou, a voz quebrada. - Alguém... Alguém vai notar que sumimos, não é? Meu pai, ou no trabalho, nossos amigos? Mas e se for tarde demais?
Eu parei de bater sentindo o pânico se alastrando por cada pedacinho do meu corpo, me sufocando no processo. Meu coração estava disparado e a vontade de abraçar as duas e chorar era grande, mas forcei minha mente a pensar em algo que pudesse nos ajudar.
- Vamos nos acalmar - falei voltando para a cama. - Somos nós três. Sempre fomos. Vamos achar uma saída. Primeiro, as bolsas, nossos celulares, precisamos achar qualquer coisa.
Revistamos todas as bolsas jogadas no canto e mesmo nas nossas não encontramos nada. Nada de telefones, passaportes ou carteiras. Só maquiagem, um pacote de balas e uma garrafa de água que parecia nova.
- Eles tiraram tudo - murmurou Jenny, a voz cheia de raiva. - Estamos presas aqui e sem nossas identidades, sem nada.
Antes que pudéssemos dizer mais, a porta se abriu com um clique, e uma mulher entrou, empurrando uma arara cheia de vestidos brilhantes. Ela era jovem, talvez uns vinte e cinco anos, o rosto coberto de maquiagem pesada, o vestido curto preto cheio de brilho, como se tivesse saído de uma passarela.
Um homem a empurrou para dentro, fechando a porta com um estrondo antes que pudéssemos reagir. Corremos até ela, voltando ao presente, e sentindo o desespero vencer o medo.
- Por favor, nos ajuda! - implorei, agarrando o braço dela. - Fomos sequestradas, drogadas! Precisamos sair daqui!
A mulher se soltou de mim com um olhar frio, mas havia ao menos um pouco de compaixão no olhar dela.
- Bem-vindas a suas novas vidas. Não tem o que fazer - ela disse com um tom de deboche e a voz baixa, quase mecânica. - Vocês estão em um leilão. Uma rede de tráfico humano, poderosa. Ninguém derruba eles. Juízes, promotores, senadores... eles frequentam esses leilões. Ninguém os toca.
As palavras dela caíram como pedras sobre mim, e eu senti o chão sumir. Alice soluçou, caindo de volta na cama com as lágrimas escorrendo.
- Um leilão? - Jenny gritou, colocando as mãos entre os fios quase pronta para arrancá-los. - Eles vão nos vender? Como gado?
- Isso é loucura! - berrei sem conseguir acreditar - Não podem fazer isso!
- Meus pais... eles vão procurar a polícia quando eu não aparecer. - Jenny gaguejou entre as lágrimas, parecendo ainda mais perdida, mas tudo o que conseguiu foi fazer a mulher na nossa frente rir, um som seco e amargo.
- Polícia? Metade deles está comprada. Vocês não estão no Brasil mais. - ela disse nos chocando. - E até descobrirem para onde trouxeram vocês já será tarde, o leilão é amanhã e podem ser compradas por qualquer um e levadas para qualquer lugar no mundo. Se querem uma chance, saiam lá fora bem vestidas, maquiadas, com um olhar sensual, a ponto de conquistarem alguém com dinheiro que não queriam comprá-las apenas por uma noite. E seria bom que não fosse um velho asqueroso. Senão, vão acabar na rua, trabalhando como prostitutas.
Eu me sentei sentindo as pernas cederem enquanto o pavor me engolia, medo que estava prestes a acontecer
- Como você sabe disso? - perguntei, a voz tremendo. - Quem é você?
- Me chamo Lara - respondeu, os olhos desviando para o chão. - Fui como vocês, há dois anos. Não fui escolhida no leilão. Agora... trabalho pra eles, faço o que mandam e ando na linha. É assim ou morro.
- Isso é um pesadelo - Jenny se virou, com os olhos cheios de raiva e lágrimas. - A gente estava só comemorando seu aniversário, Alice. Como isso aconteceu?
Eu abracei as duas, sentindo o peso daquela realidade horrível onde tinhamos sido jogadas. Nós crescemos juntas, elas estiveram lá por mim em cada aniversário, na perda dos meus pais, nós apoiamos umas as outras desde sempre. Não seria diferente agora, estávamos unidas e conseguiríamos passar por todas as dificuldades.
- Nós vamos sair disso - afirmei com a voz falhando, mas me mantendo firme. - Vamos fazer o que ela disse. Nos arrumar, sermos escolhidas por alguém rico, alguém que não pareça um monstro. E na primeira chance, fugimos e procuramos ajuda umas para as outras. Não vamos desistir até estarmos juntas novamente!
- Tem razão - Jenny disse enxugando as lágrimas, apertando a mandíbula. - Vamos jogar o jogo deles, mas só até termos uma chance. Laram, nos diga o que temos que fazer pra sermos escolhidas por alguém de alto nível? Alguém que não seja um velho nojento?
Lara hesitou, olhando para a arara de vestidos e voltando o rosto para nós, parecendo incerta do que dizer.
- Eles querem virgens. Garotas intocadas rendem mais, homens ricos pagam uma fortuna por isso. Se vocês forem... digam antes do leilão, vai atrair os melhores lances.
Nós três nos entreolhamos, o silêncio pesado entre nós. O pacto idiota da adolescência, aquele juramento bobo de só nos entregarmos aos vinte um anos para o "amor da nossa vida". Nunca pensamos que seria uma vantagem. Eu nunca estive com ninguém, nem Alice, ou Jenny. Não por falta de oportunidade, mas porque nunca encontramos alguém que valesse a pena. E agora, isso poderia nos salvar de um futuro pior do que onde já estávamos enfiadas.
- Então estamos com sorte - murmurei, tentando soar confiante, mas o medo ainda me corroía. - Somos virgens. Todas nós.
Lara arregalou os olhos com um brilho de surpresa e sorriu.
- Vocês têm sorte mesmo ao menos nisso. - disse, quase aliviada. - Isso vai atrair os grandes. Homens com dinheiro, poder. Mas cuidado. Alguns são piores que os velhos, escolham bem para quem olhar e tentem seduzi-los de alguma forma, se puderem.
Alice enxugou o rosto, parecendo sentir a raiva voltando com força total.
- Vamos fazer isso - falou com a voz firme apesar das lágrimas. - Vamos nos arrumar, parecer perfeitas, e sair daqui para termos a chance de fugir e ajudar você também Lara.
O sorriso de Lara morreu e ela apenas sacudiu a cabeça em negação, como se não acreditasse nisso. Jenny assentiu, pegando um vestido da arara, um tom de azul que brilhava sob a luz.
- Vamos ser as melhores do leilão - disse, a voz cheia de determinação. - E quando estivermos fora, vamos nos encontrar. Não importa o que aconteça.
Nós passamos a noite escolhendo vestidos, forçando a comida que Lara trouxe para manter a força, e planejando em sussurros. Cada uma de nós pegou um vestido que combinava perfeitamente com nosso corpo, valorizando nossas curvas e nos deixando sexy. Eu escolhi um prateado que abraçava o corpo; Alice, um verde que destacava seus cabelos; Jenny, o azul que parecia feito para ela. Lara nos observava, às vezes dando dicas, mas seus olhos carregavam uma tristeza que me assombrava. Ela já tinha desistido. Nós não.