Não consegui dormir ao lado de João após a discussão que tivemos no dia anterior, portanto, dormi em um dos quartos de hóspedes. Meu marido não estava mais em casa quando despertei para tomar o café matinal, no entanto, havia me deixado um áudio no telefone, pedindo desculpas pela briga boba. Briga boba? Era assim que ele tratava todas as nossas discussões como sendo tolices, briguinhas bobas, mas não era nada disso, era algo sério que ele fazia questão em fingir que não. Nossas brigas me magoavam tanto, não costumávamos ser um casal de discussões, vivíamos antes em paz, tudo acabou se perdendo, eu não sabia de quem era a culpa se minha ou dele.
Decidi de última hora sair de casa, espairecer as ideias, qualquer lugar bem longe de Marta. Ela estava feliz por saber de mais uma discussão minha com o meu marido, percebi isso quando ela serviu o café da manhã e falou orgulhosa de que João tinha saído muito cedo e que o pobre coitado deveria ter dormido pouco por não ter dormido do lado da esposa. Não tinha nada que ela não soubesse da nossa casa, cada dia que passava eu sentia mais raiva da presença daquela mulher, mas eu não poderia dizer nada, não da Martinha de João, assim como ele a chamava carinhosamente.
Escolhi uma das minhas melhores roupas, me perfumei bastante antes de sair do meu quarto, de qualquer maneira a fofoqueira da minha empregada falaria para João da minha saída, portanto, daria reais motivos para ela fofocar, que ele sentisse raiva e explodisse quando soubesse.
— Vai visitar o seu marido na empresa senhora? — questionou, com seu olhar de peixe morto.
— Marta, alguma vez me viu visitar meu marido no trabalho? De onde tirou isso, querida? Estou indo curtir e não tenho hora para voltar! Diga ao seu patrão quando ele vier almoçar que a mulherzinha dele levou aquele carrinho azul que ele tanto ama. Obrigada por sempre ser tão preocupada com nossas vidas, não sei o que seria de nós sem você.
Para finalizar meu sarcasmo sorri para Marta e segui meu caminho até a garagem. Entrei no maldito carro azul do meu marido e liguei o som bem alto. Qual seria meu destino? Compras, claro! Queria gastar até não ter mais limite nenhum no cartão de crédito, contudo, minhas compras seriam todas doadas aos necessitados. Fiquei algumas horas comprando o que seria útil para os moradores de rua, então, distribuí tudo. Passava do meio-dia quando resolvi parar em uma lanchonete e comer qualquer coisa, o ambiente era agradável. Meu sossego logo cessou quando meu telefone começou a vibrar na bolsa.
— Eu sabia que aquela fofoqueira contaria tudo para meu marido. — resmunguei, rejeitando a ligação.
Paguei minha conta na lanchonete e resolvi alugar uma garagem para guardar o carro. Eu queria voltar à escola de dança que frequentava antes de casar. Caminhei empolgada até o local. Fui muito bem recebida por todos, afinal de contas, modesta parte, eu era uma das melhores. Um dos meus eternos arrependimentos foi não seguir com a carreira na dança. O som e toda aquelas garotas juntas era difícil de não me emocionar.
— Vamos, Elise, mostre para as novatas todo seu rebolado. Garotas, ela é a melhor, nossa antiga professora costumava dizer que o potencial dela era enorme. Por favor, nos mostre um pouco dos seus passos, tenho certeza que todas que estão aqui vão ficar encantadas e inspiradas. — Olivia disse implorando para mim. Éramos amigas quando dançávamos juntas.
Fiquei envergonhada, ouvir uma professora de dança falar daquela maneira de mim não esperava. Eu deveria recusar o seu pedido? Jamais! Entreguei minha bolsa para Olivia e abri um largo sorriso.
— Me senti desafiada! Vamos lá, meninas, não quero dançar sozinha!
Quando a música começou a tocar meus pés pareciam flutuar na pista de dança. A dança foi me envolvendo como sempre ocorrera, costumava sentir o ritmo em todo meu corpo. Todas começamos a dançar juntas no mesmo ritmo. No instante que a música parou elas me aplaudiram. Todos os elogios que recebi deixaram-me muito sem graça.
— Em qual grupo de dança você ensina? Quero seu telefone, não posso mais perder o seu contato outra vez. Podemos dançar juntas, Elise, sempre que você tiver um tempo livre, pois vi que é casada ainda.
Olivia aparentemente demonstrou muita empolgação com a possibilidade de estar diante de uma professora talentosa tanto quanto ela. A coitada logo descobriria que minha vida era cuidar da minha casa e do meu marido. Ela na época que falei que largaria tudo para me casar, afirmou que para um espírito livre como o meu, não conseguiria manter muito tempo o casamento, entretanto, ela se enganou.
— Também não quero perder o seu contato, mas, você cometeu um pequeno erro, não sou professora de dança, infelizmente não segui a carreira. Cuido da casa e do meu marido, no entanto, frequento algumas festas, porém, muito chatas.
— Festas chatas? Dona de casa? Isso tem que mudar, uma mulher como você não pode continuar vivendo assim. Olhando pra você, vejo um olhar triste, e não é para menos, você tem vivido uma merda, desculpe te dizer isso, mas é o que eu penso.
Como uma mulher que há anos não me via conseguiu me ler? Não sabia que minha infelicidade estava estampada no meu rosto.
— E você continua solteira? Qualquer relacionamento desgasta um pouco, Olivia.
— Não fale em relacionamento, você sempre soube no que acredito, eles não valem a pena.
Confesso que fiquei surpresa com sua resposta, uma mulher linda de olhos verdes e corpo escultural continuava com o mesmo pensamento de antes. Nunca soube o real motivo dela ser tão contra relacionamentos como era.
— Você não quer ter sua própria família? Nunca desejou ter filhos? — questionei.
— Já sou mãe de pets. Não quero filhos ou toda essa baboseira. E você pensa em ter filhos?
Não consegui conter as lágrimas com sua pergunta, então, ela se desesperou supondo que falara algo errado. Esperei ficar mais calma e lhe contei toda minha história e de como havia perdido minha filha. Perdi um pouco a noção do tempo enquanto conversávamos sobre nossas vidas, trocamos telefone e retornei para garagem onde deixara o carro do meu marido e retornei para casa. Eram quase sete da noite e como de costume encontrei a folgada da Marta jogada no meu sofá, ainda por cima com os pés em cima da mesinha de centro. Virei o meu rosto e fingi que não tinha a visto daquele jeito e segui para o quarto onde havia dormido na noite passada.
Eu queria me esconder do meu marido e o quarto era o melhor lugar da casa para isso, portanto, adentrei e tranquei a porta. Comecei tirar minhas roupas e fui em direção ao banheiro. No momento que entrei no banheiro e encontrei um homem sentado no vaso-sanitário, berrei e tampei os olhos com as mãos.
— Cunhada, sai daqui, agora! Você está pelada na minha frente, caralho! Estou cagando e você entra assim?! Esse não é um quarto de hóspedes? Meu irmão disse que poderia ficar nele. Sai de uma vez porque além de cagado ficarei de pau duro vendo você assim na minha frente!
A sensação que senti foi de que o sangue do meu corpo havia ido embora. José Maria chegara de surpresa e toda aquela situação me fez fazer xixi antes de conseguir sair correndo do banheiro. Mijada e humilhada ainda consegui enrolar o lençol no meu corpo e caminha até o meu quarto.
— Não foi assim que imaginei que reveria meu cunhado, não foi...
Resmunguei bastante fora de mim enquanto caminhava pelo meu quarto. Como eu encararia José Maria? Flagrei ele usando o trono e ele me viu totalmente pelada! Meu marido não poderia saber do que houve ou a confusão seria das grandes. João era ciumento apesar de o nosso casamento estar nas últimas.
A forma como José Maria me olhou durante o jantar, deixou o meu marido desconfiado. Meu cunhado até mesmo engasgou-se com o copo d'água enquanto me olhava. Após o jantar João veio me questionar se ocorrera algo fora do normal. O que eu disse? Neguei, virando para o lado e fingindo dormir. Foi um milagre ele não ter questionado onde passara as últimas horas, talvez fosse porque estava feliz de ter o irmão por perto. Acabei adormecendo de verdade, pois estava cansada. No dia seguinte, acordei com meu marido beijando meu pescoço. Revirei os olhos com seu cinismo.
— Desculpe, Elise, por ser tão explosivo. Você sabe que não gosto de ficar brigado com você!
João não queria ficar brigado comigo pelo simples fato de que precisava do meu corpo. Era isso que eu acreditava, não por outra razão. Tinha muito tempo que eu não ouvia um eu te amo sair de seus lábios. Os nossos beijos eram sem sal e sem paixão.
— Você só quer ser carinhoso quando faz algo errado. Por que você mudou tanto?
Eu queria aquela resposta, merecia aquela resposta, na verdade, eu não casara com aquele homem insensível. João se afastou do meu corpo com a minha pergunta, levantando-se rapidamente da cama.
— Tenho que tomar um banho agora para ir para o trabalho, conversamos outra hora! Não fique muito próxima do meu irmão, entendeu? Você sabe que eu não gosto que outros cheguem perto de você, isso inclui meu irmão José Maria. Ele pode ser uma má influência pra você. Somente aceitei o meu irmão na nossa casa porque ele me pediu muito. Avisei ele para ficar longe de você, apenas falar o básico do básico. Não me olhe assim, estou cuidando de você!
Cuidando de mim? Se aquilo que estávamos vivendo era cuidar, não queria descobrir quando não fosse. Sentei na cama pronta para o que viesse em seguida.
— É o seu irmão, como você pode falar assim? Não sente vergonha desse papel ridículo que está fazendo? João, esse seu ciúme não está colando! Não podemos ter uma conversa como um casal? Sem brigar?
Descontente e aparentemente chateado, meu marido mordeu o lábio inferior, demonstrando nervosismo.
— O que você quer dizer com isso? Pensa em ficar amiguinha do meu irmão caçula? Ele é homem, Elise, não é porque é meu irmão que não pode ir de gracinha pro seu lado! Você é minha mulher, tem que se respeitar como uma senhora casada! Fica longe de José Maria, caso eu saiba que vocês ficam de conversinhas pela casa teremos um sério problema!
— Devo morrer agora ou depois de medo? Seu irmão não vai me engolir por simplesmente conversarmos! Sei bem que você sabe de tudo que acontece nessa casa, devido sua querida Martinha. Você quer manter ela conosco para ser sua informante, sei que é isso! Não entendo porque você tem a síndrome do corno, sendo que nunca ousei te trair durante esses anos.
— Não vou mais perder tempo com essa conversa!
Meu marido me deixou falando sozinha. Nossa rotina não seria a mesma com a presença do meu cunhado, de certa forma, julgava que isso poderia ser bom, porque poderia evitar muitas discussões. Saí da cama e resolvi caminhar pela casa, não queria estar no quarto quando o João saísse do banho. Como sempre encontrei Marta próxima ao meu quarto, talvez ela estivesse ouvindo a conversa atrás da porta. Trocamos olhares que mais pareciam ameaças. Minha vontade era de sair arrastando aquela mulher pelos cabelos para fora da minha casa, mas tudo não passava de um desejo, pois não poderia se tornar realidade, porque ela poderia me denunciar e eu acabar me dando muito mal.
Afastei-me de Marta e decidi ir até o jardim. Chegando no Jardim me encontrei com José Maria, ele estava fazendo abdominais. Minha boca secou, confesso que fiquei em pânico, não queria estar a sós com ele, portanto, queria sair depressa de perto dele, no entanto, em um ato impensável, meu cunhado me impediu de ir embora, segurando meu braço. Virei o rosto para encará-lo e senti falta de ar. Ele estava suado e seu abdômen definido brilhava por conta do suor.
— Cunhada, quer me deixar constrangido? Primeiro olha nos meus olhos e agora vai descendo o olhar pelo meu corpo? Quer que eu pegue uma cadeira? Você pode sentar e me observar enquanto faço abdominais se quiser! Está tão vermelhinha igual pimenta. Pensei que tivéssemos superado o momento no banheiro...
Retirei a mão do meu cunhado do meu braço. Tive a leve impressão de que ele estava dando em cima de mim, com aquele sorrisinho de canto de boca e pose de machão.
— Não sabia que era um convencido metido a besta. Tenho mais o que fazer do que ficar observando um franguinho como você! Faça o que quiser no jardim, não estou nem aí! Apenas sai para pegar um ar, pois estou com calor, não há outra razão. O que aconteceu ontem foi uma fatalidade, algo que eu nem lembrava mais, faça o mesmo, esqueça!
— Esquecer? Você pode me pedir o que você quiser, mas esquecer, eu não consigo. Não sabia que o meu irmão tinha uma mulher tão gostosa assim. Você sabe que ele nunca deixou que ficássemos próximos, caso não saiba foi por causa dele que nunca me aproximei muito. Sempre te achei uma gata, porém, te ver daquela maneira como vi, bateu um negócio aqui dentro que você nem imagina, também causou um efeito no meu amigo, se é que você me entende.
Fiquei chocada, descobrindo aquele lado seu sem vergonha. Meu cunhado me olhava com malícia enquanto segurava no saco propositadamente. Onde tinha ficado o respeito? José Maria era um homem vulgar e eu não sabia antes.
— Franguinho, devo admitir que tem coragem, porque falar tudo isso para esposa do seu irmão, não é qualquer um que cometeria essa loucura. Não tem medo que eu conte para o seu irmão tudo que acabou de me falar? Sou uma mulher casada e não uma dessas vadias com quem você anda por aí! Vejo que ainda está coçando o saco, você deve ter uma daquelas doenças do mundo, afinal de contas, você é um piloto da Força Aérea Brasileira, as mulheres costumam se jogar em homens como você, entretanto, não serei uma delas, se toca!
Além de ser objetiva para o meu cunhado entender, apertei com força suas bochechas. Quem disse que ele entendeu? José Maria pegou as minhas mãos e beijou.
— Vamos nos dar muito bem, cunhada. Suas palavras entraram no meu coração! Estou apaixonado! Meu amigo também ficou mega apaixonado pela mulher decidida que aparenta ser. E agora? Você cuidará da gente? O franguinho precisa ser bem temperado antes de ser comido...
— Vai se ferrar! Isso parece uma piada pra você? Não vejo graça em suas insinuações! Sabe o que você faz com esse seu pau que ontem estava do lado de dentro do vaso-sanitário?
— Elise! — meu marido berrou. Senti minha alma sair do corpo na hora.
— Boa sorte, cunhadinha!
O safado do José Maria sussurrou, me dando um tapinha no ombro direito e fugiu. Não era possível que João tivesse ouvido toda nossa conversa. Eu não deveria ter falado nada, só deveria ter saído de perto do irmão do meu marido, contudo, era tarde, estava estampado no rosto do meu marido que algo havia lhe desagradado. Iríamos ter outra discussão? Perguntei-me.