Eles chegam em centenas. Para não dizer milhares. São muitos e estão por toda parte, tomando o acampamento. Estou os aguardando no centro, com Elanor ao meu lado esquerdo, Aurora empoleirada em meu ombro direito e minhas de sangue ao redor. Aidan Kenom se recusou a sair de perto também.
- Não estou gostando nada disso - Celeste grunhe, os dentes à mostra.
- Até ontem eles não passavam de uma lenda, e agora...
- Estão pousando no nosso quintal - Misty completa a frase de Lana.
Uma águia gigantesca, acredito que a maior delas, pousa à minha frente - suas garras são do tamanho da minha cabeça, e deve ter pelo menos cinco metros de altura e, nesse momento, está grasnando em minha cara. Queria estar ofendida como a pequena bebê dragão que está cravando as próprias garras em meu ombro, mas estou só... maravilhada. O clã dos pássaros do céu não passava de uma lenda sobre guerreiros que atiram flechas montados em águias gigantes.
Aurora solta um pequeno rosnado e Elanor se coloca em posição de ataque no momento em que um homem muito alto desce da ave. Quando se aproxima, percebo que é muito, muito alto mesmo. Bem maior que a maioria.
Uau.
Ele parece uma montanha de músculos, diferente de Aidan, que é esguio. Esse homem tem uma densidade natural. Sua estrutura é grande. Esse deve ser o Rei.
Cosmo. - Os ventos sussurram em meus ouvidos.
Seus cabelos pretos, um pouco grisalhos, balançam com a brisa. Ele abre um sorriso travesso. Seu dente é levemente entortado para a esquerda, o que poderia ser considerado um pequeno defeito. Algo que a natureza deve ter colocado ali para não criar algo perfeito. Um charme.
- Eles sussurraram para você, não é? - sua voz é grossa e grave, exatamente como o esperado.
Ele escuta os ventos também? Responde a eles? Ele pisca para mim – como se soubesse exatamente em que estou pensando, antes de se voltar para a águia e estender a mão para ajudar uma mulher – sua Rainha, a desmontar.
Não que ela precise, mas aceita o cavalheirismo como a dama que é. A mulher também é alta e musculosa, mas seu corpo é magro e atlético, diferente do dele. Seus cabelos são brancos como a neve, e ela usa uma coroa simples e ornamentada, remetendo a asas de águia.
Quando finalmente encontro seus rostos, dois pares de olhos azuis-prateados me encaram de volta. A semelhança entre os dois é assustadora, mas quando olho ao redor, fora os meus, todos têm cabelos escuros, cinza ou branco, e os característicos olhos.
Paro de encará-los quando os monarcas inclinam levemente a cabeça em uma reverência a mim. Repito a formalidade.
- Majestade – a Rainha cumprimenta, sua voz é melodiosa, canto para meus ouvidos. - É um prazer para nós estarmos em sua presença, sou Lua - ela parece sincera. Abro um sorriso para eles.
- O prazer é meu, não é sempre que bilhetes caem do céu - não consegui evitar soltar essa pra quebrar o gelo. Há uma onda de tensão às minhas costas.
Seu sorriso simpático chega aos olhos, bem como aos do rei.
- Que belas criaturas têm aqui, em? - ele maneou a cabeça em direção aos meus "animaizinhos de estimação".
- Posso dizer o mesmo sobre as suas, senhor.
- Elas são incríveis, sim - ele responde.
- Podemos entrar? - convido, fazendo um gesto em direção à minha tenda.
- Como quiser - Cosmo inclina a cabeça em concordância.
Começo a me virar quando um grasnado chama minha atenção. Me viro a tempo de ver uma águia imperial - muito diferente e menor do que as outras - dando um rasante no acampamento. Em um ágil e rápido movimento, um homem de cabelos brancos se materializa exatamente à minha frente.
- Majestade - ele toma minha mão rapidamente e deposita um beijo ali.
Fico sem fôlego, e pego Aidan olhando de cara feia.
O moço olha para a própria mãe e leva uma mão ao coração.
- Não acredito que começariam sem mim - seu tom de voz me faz abrir um pequeno e discreto sorriso. A rainha revira os olhos.
- Você não tem jeito mesmo, não é moleque?
- Moleque? - ele dá uma risada deliciosa. - Poucos me chamariam de moleque - ele desvia o olhar para mim. - Pela idade sabe? - dá uma piscada.
- E quantos anos você tem? - Misty questiona.
Ele a ignora. Me olhando de cima à baixo e diz:
- Você é mais bonita de perto.
O que isso quer dizer?
- Meu Deus, é demais pra mim! - a rainha levanta as duas mãos em sinal de rendição. - Vamos entrar antes que sejamos expulsos ou pior.
O homem cai na risada e me olha com expectativa – esperando que eu entre.
- Vamos lá, então - digo e adentro a tenda.
Tudo foi arrumado para recebê-los. Desde a melhor comida até a decoração. Tudo remetendo ao fogo. Nos acomodamos em volta de uma mesa improvisada, o homem de cabelos brancos se senta ao meu lado, o Rei à minha frente e Kenom... do meu outro lado. Me viro para o rei:
- E então? Você pediu uma audiência, cá estamos.
- Direta ao ponto, gostei disso – o príncipe fala.
Aidan bufa, o que rende um olhar mortal vindo de mim, e um de curiosidade do homem águia.
- Pediu não, exigiu - Lana pontua, ela é sempre tão calma, firme. E seu tom de voz revela desconfiança.
- Sim... peço perdão por isso, Vossa Majestade - o Rei diz. - Tive que usar de qualquer meio para ser recebido.
- E por quê? - pergunto.
- Acredito que... bom. Nós vimos o que o rei dos humanos fez com vocês - ele lança um olhar igualmente desconfiado a Kenom. - Sky, meu filho aqui, estava agora mesmo dando uma olhada na região para ter certeza de que estamos seguros.
Sky, esse nome combina muito com ele. Não digo nada, e o rei continua:
- Acredito que a Senhora não saiba exatamente com o que está lidando.
Isso chama minha atenção.
- Ah é? - sinto a seriedade do assunto pairar no ar. O que ele quer exatamente dizer com isso?
- Sinto muito, Majestade, mas sim - Sky complementa a fala do pai. - Nós assistimos tudo de cima, e acreditamos que há uma chance para todos nós dessa vez, se trabalharmos juntos.
Celeste bufa e dá uma risada sarcástica.
- Quem disse que vamos trabalhar com vocês? Que podemos confiar em vocês?
Até que demorou pra ela se meter... Rei Cosmo a analisa por alguns segundos antes de apontar um dedo para mim.
- Ela.
- Como assim? - Misty questiona.
- Ao que reza a lenda, os pássaros do céu também respondem a Treze.
- De fato - diz a rainha deles. - Se eles assim desejarem.
- E nós desejamos, Majestade - Sky completa, sério pela primeira vez desde que chegou.
- É difícil acreditar, visto que não podem existir duas rainhas - Kenom comenta. Sua voz soa inofensiva, mas sabemos que não é o caso.
A tensão se instala diante das palavras de Aidan Kenom. Sky se recosta na cadeira e lança um olhar de puro desprezo ao Príncipe.
- O príncipe dos humanos se senta à mesa, come e ainda pode falar com a gente?
Celeste, que estava bebendo vinho, quase se engasga em uma risada. Quando consegue engolir, fala para mim, os olhos marejados:
- Certo, talvez eu possa gostar desse.
Tento manter a expressão neutra.
- Você é muito abusado, cara - a voz de Kenom soa áspera. Mais uma vez, tento não expressar nada.
- Abusado - Sky sorri, provocativo. - Isso eu sou. Só não sou a porra de um traidor e filho do maior assassino de todos os tempos.
Kenom mostra os dentes. Se pudesse rosnar, acho que o teria feito.
- Isso é você quem está dizendo.
- Chega - Rei Cosmo comanda.
Olho para ele. Aqui ele não é rei. E ele entende o significado do meu olhar.
- Me desculpe, Senhora, eu não quis me intrometer em seus assuntos. É que meu filho... Bem, às vezes ele fala demais. É o espírito livre que habita nele.
- Um homem selvagem, eu diria - Sky acrescenta, inabalado.
Tento não sorrir, é meio difícil não gostar dele. De todos eles. Mas ele é tão galante, tão... bonito.
- Como eu ia dizendo - Kenom recomeça. - Não podem haver duas rainhas - ele olha diretamente nos meus olhos. - E, para mim, só existe uma.
Um peso cai em meu estômago. Mal posso assimilar o sentimento, pois Sky o contra-ataca novamente:
- Quer que acreditemos que, quando for necessário, vai usurpar o trono dos humanos e, então, abrir mão dele? - sarcasmo escorre de sua voz.
- Pensei que visse tudo do céu, "Sky" - jamais ouvi Kenom usando esse tom de voz.
- Chega dessa babaquice - digo aos dois. - E então? - lanço um olhar inquisidor à monarquia à minha frente.
- Nós sabemos disso - Rei Cosmo diz. - Viemos aqui cientes de que só você deve governar. Como meu filho disse, dessa vez, juntos - ele enfatiza. - Talvez tenhamos uma chance. Já perdemos muitos – seu olhar se torna distante. - Tentando fazer algo em favor do reino.
- E estamos dispostos a abrir mão do título, nos curvando a você - a Rainha completa.
- Não sei vocês - Lana comenta. - Mas não consigo acreditar. Desculpa, mas depois de tudo o que passamos... Por que abririam mão de suas vidas de seu reinado e ainda lutariam por nós? Vocês não estavam bem lá em cima? Sabe-se os deuses onde?
- O que podemos fazer para que acreditem em nós? - Cosmo questiona.
- Que tal contar a verdade? Toda ela. - Celeste diz. - Por que desapareceram?
- Nós éramos caçados. Escravizados... Bom, os humanos são os mesmos desde sempre.
- Como assim? - Misty pergunta. - Vocês não vivem em uma ilha no céu?
- Não, nós passamos a viver em uma ilha no céu. Mas ela nos enfraquece. O ar é rarefeito. Quase não há o que comer para nos manter fortes e em nossa força total. Nossos ossos são maiores, nossos corpos, mais densos - isso explica muita coisa sobre sua aparência. - Há muito tempo, nós vivíamos aqui, entre Noor e Zéfiro. Éramos um povo próspero que estava nas graças das duas das mais poderosas florestas. Os deuses nos agraciaram com alguns filhos de olhos dourados... - o rei desvia o olhar, que se torna cheio de amor para seu filho. - Nossas águias. Apenas alguns de nós têm esse "dom", e era exatamente esses que eram caçados e escravizados, obrigados ao juramento de sangue. Na verdade, basta uma gota do sangue do homem águia para que ele se torne escravo da vontade humana...
Ele para de falar, pois o ar fica suspenso na sala. Cosmo acabou de revelar o que é, possivelmente, o maior segredo de seu povo. Ele sabe o que fez e fala diretamente para mim:
- Eu sei que esses são seus jurados de sangue. Sei que tem a lealdade de todos, exceto a do príncipe.
- Seu segredo não sairá desta sala - prometo a ele. - Continue sua história.
Ele assente e continua:
- Basicamente, foi por isso que nossos ancestrais pegaram as águias que sobraram e vagaram sem rumo, buscando uma vida digna ao nosso povo. Matamos aqueles que foram escravizados, e acredite, foi um favor que fizemos a eles. A águia é um animal selvagem, não nasceu para tal destino.
- E então - uma voz suave como o vento corta seu raciocínio. - Os de olhos azuis são montadores e os de olhos dourados, Encantadores? - Gen questiona.
- Isso mesmo, minha querida - a rainha responde.
Ela dá um leve aceno de cabeça. Ainda me encanto com sua delicadeza. Acredito que qualquer pessoa sente essa fragilidade da moça.
- Então... é isso - Celeste diz. - Acredito na história de vocês. Os humanos são desprezíveis, e vocês, mesmo sendo um povo forte, ficaram vulneráveis perto deles.
- Sim, eles são muito numerosos - Sky responde com certo tédio.
Fecho meus olhos por alguns segundos para me concentrar e acessar memórias antigas. Vejo flashes de montadores de águia vivendo entre as bruxas, e sei que sua história é verdadeira.
- E é por isso que vamos abrir mão de títulos, nosso povo todo está aqui, desceram para ver você. Nossa esperança. Estamos vendo uma oportunidade única de voltar a ser o que somos. O Clã dos Pássaros do Céu finalmente tem a chance de prosperar. De não viver com medo. Uma Rainha para todos é o que queremos - a Rainha fala, seus olhos marejados. - Já foi assim antes, nós éramos apenas mais um clã, que respondia a Treze.
Ela leva as mãos à cabeça e tira sua coroa, pousando-a na mesa. Acredito em suas palavras. Posso ver a verdade, o anseio e a esperança ali. Seu gesto foi incrível. Mas ainda não posso confiar. Falta algo, uma garantia.
- Certo. Eu os aceito aqui, luto por vocês, farei do seu povo o meu, e darei a minha vida para protegê-los, assim como faria com qualquer um presente nesse acampamento - pronuncio as palavras.
- Mas Senhora... - Celeste começa.
Não se intrometa enquanto eu falo - berro em sua mente. Ela se encolhe.
- Mas...
- Sempre tem um mas - Sky contesta. O macho me encara com expectativa. Abro um sorriso felino para ele.
- Quero que faça o juramento de sangue para mim.