Capítulo 2

CAPÍTULO

Kaleu engoliu em seco com a reação da menina. Vando observava a cena com evidente desconforto, enquanto Miliane continuava a puxar seu braço num pedido silencioso e desesperado.

- O que está fazendo? - Ele perguntou, tentando soltar-se, mas a menina balançava a cabeça insistentemente, negando algo que ele não compreendia.

- Ela não pode falar, senhor - Vando avisou, mantendo a cabeça baixa.

- Quem é essa menina? - Kaleu finalmente conseguiu se livrar das mãos dela. - Não vou matar seu pai - acrescentou, deduzindo que era isso que ela queria evitar.

- Ela é minha filha - Vando respondeu rapidamente. - Acabou fugindo de casa. Eu estava desesperado, procurando por ela.

Kaleu analisou a menina, que agora o encarava imóvel, os olhos marejados, mas firmes.

- Por que ela está tão machucada?

- Senhor... como pode ver, ela é uma menina transtornada. Passamos anos cuidando dela em casa, em segredo, para não causar problemas. Queremos protegê-la - explicou Vando, com um tom de voz que tentava soar preocupado, mas saía apenas ensaiado.

Kaleu direcionou seu olhar desconfiado para a menina, depois para o homem. Algo não se encaixava, mas naquele momento, com a cabeça ainda cheia de fantasmas e a culpa corroendo suas entranhas, ele não tinha energia para investigar.

- Vá! - Empurrou Miliane suavemente para frente. - Não é meu problema.

Miliane foi pega pelo braço com força e arrastada para fora do limite da propriedade de Kaleu. Debateu-se, mas de sua garganta saíam apenas sons abafados, inaudíveis, que ninguém parecia ouvir. Kaleu observou por um momento, mas Vando tratou de disfarçar, acariciando o topo da cabeça da menina enquanto a puxava.

- Calma, filha... Por que você está sempre se machucando e correndo por aí? Assim, o papai fica tão preocupado - Vando dizia, a voz doce contrastando com a força com que apertava o braço magro de Miliane.

Kaleu sentiu o olhar da menina fixo nele até o último momento. Desviou o rosto.

- Que se dane - murmurou, virando-se e abrindo a porta da construção de madeira. - Não é da minha conta.

A imagem daquele olhar, porém, ficou gravada em sua mente. Ele sabia que havia algo errado, mas escolheu ignorar. Naquele momento, carregava peso demais nas costas para se importar com mais alguém.

Após a partida da menina, Kaleu tentou retomar sua rotina de isolamento. As movimentações na região eram raras, e ele agradecia por isso. Mas havia sempre alguém que insistia em aparecer sem avisar.

- Soube que se mudou para esta casa velha no meio do nada! - Uma voz anunciou, acompanhada do ronco de uma moto que estacionava a poucos metros.

Kaleu franziu o cenho. Cassius aproximou-se com seu passo silencioso, quase felino.

- O que faz aqui? - Kaleu perguntou, o mau humor evidente em cada sílaba.

- Ué? Por que não estaria aqui depois de tudo que aconteceu? - Cassius revidou, analisando-o dos pés à cabeça.

- Não estou feliz em ver sua cara. Vá embora.

- Pensei que ficaria grato, pelo menos. Está com o corpo inteiro, mesmo tendo perdido metade da cara nos estilhaços.

- Cassius... - Kaleu cerrou os punhos, a mandíbula tensa. - Antes estar morto, não acha?

- Você tem uma dívida comigo. Eu te salvei, e vai pagar vivendo. Quando eu me tornar Don, será meu braço direito, não importa o que digam.

- Você acha que isso vai acontecer? - Kaleu riu sem humor. - Do jeito que está indo, vai morrer antes de chegar ao tão sonhado trono da cidade.

- Veremos. - Cassius deu de ombros. - Vim dar meus pêsames. Não pude comparecer ao enterro da sua esposa e do seu filho. Não consigo imaginar sua dor. Então sofra. Sofra até seus olhos parecerem queimar e sua cabeça explodir. Depois, levante-se.

Kaleu desviou o olhar, o silêncio pesando entre os dois.

- O que veio fazer aqui de verdade?

- Negócios. Estava na redondeza resolvendo problemas com dívidas. Acompanhando os homens do meu pai numa cobrança. - Cassius acendeu um cigarro, exalando a fumaça lentamente. - O devedor colocou a própria filha como garantia. Treze anos. O contrato venceu, e agora o período de entrega é em até dois anos.

Kaleu permaneceu imóvel, mas algo dentro dele se contraiu.

- Pensei que fosse contra esse tipo de coisa.

- Sou. Você sabe disso. Sempre odiei ver mulheres tratadas como mercadoria. - Cassius franziu o cenho. - Por isso mesmo, peguei a responsabilidade de escolher alguém para entregá-la. Já seria impossível ele conseguir dez milhões em dois anos. A máfia deixou a casa deles por causa da menina... e dessa tara maldita por menores.

- Me deixe fora desses assuntos. - Kaleu cortou, a voz fria. - Quero que todos se fodam.

- Não tem como escapar, você sabe. Uma vez dentro, só sai morto. - Cassius jogou o cigarro no chão e o esmagou com a bota. - Os homens que tentaram te matar vão voltar para terminar o serviço. Estamos investigando, mas enquanto não houver um Don definitivo, cada líder age por conta própria. Os ataques vão continuar.

- Boa sorte com seu sonho de ser Don. - Kaleu sorriu com malícia, virando-se para entrar em casa.

- Desgraçado! - Cassius gritou, indignado. - Pensei que pudesse contar com você por gratidão! Não fique surpreso se eu mesmo te ferrar, cara de retalho!

Kaleu fechou a porta com força, isolando-se novamente em seu silêncio.

Fazia exatamente um mês que ele havia perdido sua família. Menos de dois anos de casamento, um filho recém-nascido... tudo destruído por uma execução que saiu errado. Kaleu trabalhava na limpeza da cidade, eliminando organizações não autorizadas, recrutando ou. executando. Em uma dessas missões, algo deu errado, e sobraram pessoas para a retaliação. Sua esposa e seu filho pagaram o preço.

A culpa o consumia todas as noites, quando fechava os olhos e via os rostos deles.

Por isso se isolara naquele lugar. Por isso todos na região o temiam - O homem de rosto mutilado que carregava uma aura de perigo iminente, que certa vez saíra da floresta com um corpo morto nas costas e o jogara na estrada como aviso.

Os boatos correram como fogo: não se aproximem da casa na floresta.

E agora, contrariando todos os boatos, havia uma menina que desejava voltar. Uma menina que, mesmo após ser arrastada para longe, mantinha nos olhos a chama de quem não desistiria.

Vando arrastou Miliane escada acima, ignorando seus tropeços e quedas. Quando chegaram ao topo, ele a empurrou para dentro do quarto e trancou a porta com ferrolhos múltiplos.

- Onde ela estava? - Tônia, sua esposa, perguntou ansiosa lá embaixo.

- Espere. Vou descer em alguns minutos.

Tônia esperou no andar inferior enquanto os sons abafados de choro chegavam até ela. Não sentia pena. Ao seu lado, no sofá, Karmélia - sua filha legítima, de cabelos castanhos e olhos vazios - também parecia indiferente. Mas se alguém observasse com atenção, veria Karmélia engolir em seco, tremer levemente, apertar as pálpebras com força.

Mantinha-se indiferente por fora.

Por dentro, sabia que seu destino não era muito diferente do de Miliane.

No quarto, Miliane encolheu-se no canto, os joelhos abraçados contra o peito. Apoiou a cabeça na parede fria e fechou os olhos. Não chorou. Já chorara tudo o que podia nos últimos cinco anos.

Em vez disso, concentrou-se na imagem gravada em sua mente: o homem de rosto mutilado, a navalha cravada na madeira, a forma como Vando tremia diante dele.

Ele tinha medo daquele homem.

E se o homem da floresta tinha o poder de fazer Vando tremer, então talvez... talvez ele também tivesse o poder de libertá-la.

Miliane abriu os olhos e, pela primeira vez em cinco anos, algo além da sobrevivência acendeu em seu peito.

Esperança.

Capítulo 3

CAPÍTULO

- Onde você esteve? - Tônia perguntou, aflita, assim que Vando colocou os pés dentro de casa. - Aqueles homens estiveram aqui!

Ela batia o pé com força, os braços cruzados sobre o peito.

- Eles viram nossa filha? - Vando perguntou, temeroso.

- Claro que não! O plano é justamente que não a vejam, mas... eles vão ficar vigiando nossa casa! E Tônia precisa ir para a escola! - O desespero vibrava em sua voz.

- Eu vou levá-la todos os dias. - Vando passou a mão nos cabelos, pensativo. - Essa menina ainda não pode sair. É muito nova para a idade que eles sabem que minha filha tem.

- O que vamos fazer, então?

- Mantê-la presa até o momento adequado.

Ele seguiu para a cozinha, Tônia atrás como uma sombra. Abriu uma gaveta e retirou vários frascos de comprimidos, colocando-os sobre a mesa. Cruzou os braços.

- O que pensa em fazer? - Tônia inclinou a cabeça, curiosa.

- Ela já sabe que estamos dando remédios para que não ande nem fale. - Vando tamborilou os dedos sobre os frascos. - Vou suspender os medicamentos por agora. Precisamos que ela melhore para começar a se adaptar à substituição. Não podemos deixar que levem nossa filha, então... Miliane vai ter que estar pelo menos aceitável até o dia da entrega.

- Mas ela pode fugir se não tomar os remédios.

- Já resolvi isso. - Um sorriso frio curvou seus lábios. - Não vai fugir de novo. Mudei-a para o porão. Ninguém pode saber da existência dela, ou estaremos com problemas. Mas se descobrirem... tenho documentos que comprovam que é nossa filha. Invento uma desculpa para tê-la escondido. Vai dar certo.

No porão, Miliane descobriu o significado de um novo tipo de prisão.

Vando prendera seus pés com correntes grossas, trancadas por um cadeado enferrujado, mas resistente. Os elos de ferro estavam tão apertados que ela mal conseguia mover os tornozelos sem que a pele raspasse no metal. A corrente tinha comprimento suficiente para permitir que chegasse ao balde improvisado como vaso sanitário, mas cada passo era uma agonia.

A cabeça girava. As lágrimas escapavam silenciosas.

Dias se passaram - ela perdeu a conta de quantos. Sentia os pés sendo lentamente dilacerados pelo ferro. O desespero a consumia como fogo lento, mas não a paralisava. Encontrou um grampo esquecido num canto e passou a tentar abrir o cadeado. Tentativa após tentativa. Seus dedos minúsculos doíam, sangravam, mas ela continuava.

Todos os dias, as mesmas três refeições. Nada além. Privada de tudo: medicamentos, roupas que servissem, dignidade. Apenas vestidos antigos, estranhamente longos, como se tivessem pertencido a outra pessoa em outra época.

Numa manhã em que os raios de sol conseguiam penetrar a pequena janela do porão, Miliane sentiu uma energia diferente. Pegou seu grampo - já desgastado de tantas tentativas - E inseriu na fechadura do cadeado com a precisão de quem aprendeu na dor.

Seus olhos se arregalaram.

O cadeado cedeu.

Ela pensou que era um milagre. Não hesitou um segundo sequer. Libertou os pés daquela dor familiar e colocou-se de pé. Andou de um lado para o outro, tentando aliviar o incômodo e se familiarizar novamente com a caminhada sem correntes. Os pés estavam machucados, a vermelhidão dos ferimentos abertos era visível, mas ela não sentia nada além de um único pensamento:

Fugir.

Sabia que, depois do café da manhã, ninguém desceria ao porão. Esperou o momento certo, deslizou pela pequena janela rente ao chão - dessa vez não precisou pular nenhum andar - E correu.

Seus pés a levaram para o mesmo lugar. Para o mesmo homem.

Kaleu estava sentado num tronco em frente à sua casa, um espelho quebrado apoiado no colo. Retirava os curativos do rosto com cuidado, revelando um corte profundo que atravessava um dos lados, passando sobre o olho. A visão daquele lado era apenas um borrão cinzento agora, mas o ferimento finalmente começava a cicatrizar - Cassius trouxera medicamentos dias atrás.

Miliane observou de longe, escondida atrás de uma árvore. Via cada detalhe: a extensão da cicatriz, a expressão de dor ao higienizar o ferimento, a forma como seus dedos tremiam levemente ao passar a pomada.

Sem querer, pisou num graveto.

O estalo seco ecoou no silêncio da mata.

Kaleu ergueu o olho bom e fixou-o na direção do som. Miliane recuou, assustada, mas ele desviou o olhar e continuou o que estava fazendo, como se não tivesse visto nada.

Ela ficou imóvel por longos minutos, o coração batendo descompassado. Depois, decidiu voltar ao porão. Ainda não tinha forças para fugir sozinha, nem coragem para pedir ajuda a ele. Mas, pela primeira vez em muito tempo, acreditava em algo com todas as suas forças: que aquele homem poderia, de alguma forma, salvá-la.

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