Capítulo 2

Quando os bombeiros me tiraram dos escombros do meu escritório, o céu já estava escuro, tingido de laranja pelo pó e pelos incêndios distantes. O terramoto tinha parado, mas a cidade continuava a tremer com as réplicas.

Um bombeiro deu-me uma garrafa de água. As minhas mãos tremiam tanto que mal conseguia segurá-la. Ele perguntou-me se precisava de uma ambulância.

Eu disse que não.

Eu só queria ver o meu marido, Pedro.

Recusei o transporte médico e apanhei um táxi para a casa dos meus sogros. Era o ponto de encontro combinado para emergências. Durante todo o caminho, imaginei o seu rosto preocupado, os seus braços a envolverem-me.

Paguei ao motorista e arrastei-me pelo portão da frente. A casa estava intacta, as luzes acesas. A porta estava aberta.

Entrei e o som de vozes preocupadas atingiu-me.

"Sofia, querida, bebe um pouco de água com açúcar. Vai ajudar com o choque."

Era a minha sogra, Helena.

"O meu braço dói tanto, Pedro. Achas que está partido?"

Essa era a voz chorosa de Sofia, a irmã adotiva do meu marido.

Eu parei na entrada da sala de estar, coberta de pó da cabeça aos pés, com um corte na testa a sangrar lentamente.

Ninguém me notou.

Pedro estava ajoelhado em frente a Sofia, que estava sentada no sofá. Ele examinava o seu braço com uma delicadeza que eu não via há anos. A minha sogra afagava o cabelo de Sofia, enquanto o meu sogro, Sérgio, pairava por perto com um kit de primeiros socorros.

Sofia tinha um pequeno arranhão no cotovelo. Nada mais.

Finalmente, Helena levantou a cabeça e viu-me. O seu rosto não mostrou alívio, apenas irritação.

"Lia! Onde te meteste? Deixaste-nos a todos loucos de preocupação!"

Pedro virou-se. O seu olhar passou por mim, pelo meu rosto ensanguentado, pelas minhas roupas rasgadas, e depois voltou para Sofia.

"Estás bem? Porque demoraste tanto? Eu fui buscar a Sofia assim que o tremor parou."

A sua voz era fria, acusadora.

Fui buscar a Sofia.

O escritório dela ficava do outro lado da cidade, numa zona que os noticiários diziam ter sofrido danos mínimos. O meu escritório, o nosso apartamento, tudo o que tínhamos, ficava no epicentro.

"Eu... eu estava presa," consegui dizer. "O prédio ruiu."

Sérgio suspirou, impaciente. "Bem, o importante é que estás aqui agora. Vês, Pedro? Eu disse que ela ia aparecer. Não havia necessidade de tanto pânico."

Pânico? Eles não pareciam em pânico. Pareciam incomodados.

Sofia começou a chorar mais alto. "A culpa é minha. Se eu não tivesse ligado ao Pedro, ele teria ido procurar-te primeiro. Lia, por favor, não fiques zangada com ele."

Ninguém olhou para mim. Toda a atenção voltou para ela.

Foi então que senti. Uma dor aguda e terrível no meu ventre. Uma cãibra tão forte que me tirou o fôlego.

Olhei para baixo, para as minhas pernas. Um fio escuro de sangue escorria pela minha calça clara.

O nosso bebé. O nosso bebé de sete meses.

Pedro seguiu o meu olhar. Os seus olhos arregalaram-se, mas não com a preocupação que eu esperava. Foi com um horror distante, como se estivesse a ver uma cena num filme.

"Meu Deus," sussurrei, antes de as minhas pernas cederem e o mundo ficar preto.

Capítulo 3

Acordei com o cheiro a antissético e o som suave de um monitor cardíaco. As paredes eram brancas. Hospital.

Uma enfermeira estava a ajustar o meu soro. Ela sorriu-me com tristeza.

"Como se sente?"

Eu não respondi. Levei a mão à minha barriga. Estava vazia. Plana. O peso que carreguei durante sete meses tinha desaparecido.

As lágrimas começaram a rolar silenciosamente pelo meu rosto. Eu não soluçava. Apenas sentia a humidade quente na minha pele.

O bebé tinha-se ido.

A porta abriu-se e Pedro entrou. Ele parecia cansado. Tinha trocado de roupa.

Ele sentou-se na cadeira ao lado da minha cama, evitando o meu olhar.

"O médico disse que foi por causa do stress e da queda," disse ele, como se estivesse a relatar o tempo. "Não havia nada que ninguém pudesse fazer."

Nada que ninguém pudesse fazer.

Eu continuei a olhar para o teto. O silêncio no quarto era pesado.

"Tu podias," disse eu, a minha voz rouca e vazia. "Tu podias ter feito alguma coisa. Podias ter vindo buscar-me."

Ele suspirou, um som de frustração. "Lia, não vamos começar com isto. Foi um terramoto. Pessoas morreram. Eu fiz uma escolha. A Sofia estava em pânico, sozinha."

"E eu?" perguntei, virando finalmente a cabeça para o encarar. "Eu não estava sozinha? Eu não estava em pânico? Eu estava a carregar o teu filho."

"Eu não sabia que o teu prédio ia ruir!" ele explodiu, levantando-se. "Como podia eu saber? Pensei que estavas segura no escritório! A Sofia ligou-me a chorar, a dizer que as coisas estavam a cair das prateleiras. Eu fui para onde achei que a necessidade era maior!"

A necessidade era maior. Um arranhão no cotovelo.

"Eu quero o divórcio, Pedro."

As palavras saíram antes que eu pudesse pensar nelas. Mas assim que as disse, soube que eram a única verdade que me restava.

Ele olhou para mim, chocado. "O quê? Estás a brincar? Por causa disto? Acabaste de perder um bebé, não estás a pensar com clareza."

"Eu nunca pensei com tanta clareza em toda a minha vida," respondi, a minha voz firme pela primeira vez. "Acabou."

Ele passou as mãos pelo cabelo, furioso. "Tu não podes fazer isto. Não agora. A minha família... a Sofia... ela já se sente culpada o suficiente."

Mais uma vez, a Sofia. Sempre a Sofia.

O nosso filho estava morto, e ele estava preocupado com os sentimentos da irmã adotiva dele.

"Sai," disse eu, virando-lhe as costas. "Sai do meu quarto."

Ele ficou ali por um momento, provavelmente à espera que eu mudasse de ideias. Quando não o fiz, ele saiu, batendo a porta atrás de si.

Eu fechei os olhos. A dor no meu corpo não era nada comparada ao vazio gelado que se instalara no meu peito.

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