Capítulo 2

O cheiro de desinfetante no hospital era forte, quase me sufocava.

Eu estava sentada num banco frio do lado de fora da sala de emergência, olhando para a porta fechada. Lá dentro, os médicos lutavam para salvar a minha filha, Mia, que tinha apenas cinco anos.

O meu telefone vibrou. Era o meu marido, Pedro.

A sua voz soou irritada e impaciente do outro lado da linha.

"O que foi agora, Sofia? Estou numa reunião importante com o Sr. Oliveira. Não te disse para não me ligares a não ser que fosse uma emergência?"

Uma risada amarga escapou dos meus lábios.

"Pedro, a Mia está na emergência. Ela caiu da escada."

Houve um silêncio momentâneo, depois a voz da minha sogra, Helena, soou ao fundo, alta e clara.

"É a Sofia? Diz-lhe para não exagerar. Crianças caem a toda a hora. O Lucas também caiu ontem e só arranhou o joelho. Ela está a tentar estragar a reunião do Pedro de propósito?"

A voz do meu sogro, Jorge, juntou-se à dela.

"Exatamente. Este negócio com o Sr. Oliveira é crucial para o futuro da nossa empresa. A Sofia precisa de aprender a lidar com coisas pequenas sozinha. Não pode depender do Pedro para tudo."

A reunião deles. O negócio deles. O futuro da empresa deles.

E a minha filha? A neta deles? A vida dela era apenas uma "coisa pequena".

"Pedro," eu disse, a minha voz a tremer ligeiramente, "a médica disse que é grave. Ela pode precisar de uma cirurgia."

"Cirurgia? Que disparate!" a voz de Pedro explodiu, cheia de raiva. "Estás a tentar chantagear-me para eu sair daqui? A Helena tem razão, estás a fazer uma tempestade num copo de água. O Lucas está aqui connosco, perfeitamente bem. Ele é a prioridade agora, temos de causar uma boa impressão ao Sr. Oliveira."

Lucas. O filho da irmã do Pedro. O neto que eles realmente valorizavam.

"Então," eu disse, a minha voz agora estranhamente calma, "a vida da tua filha não vale nada comparada a um contrato de negócios?"

"Não sejas dramática, Sofia. Para de me incomodar. Resolve isso tu. E não me ligues mais."

Ele desligou.

O som da chamada a terminar ecoou no corredor silencioso do hospital.

Olhei para o meu telefone, para a tela escura. Senti um vazio profundo a instalar-se no meu peito.

Este era o homem com quem me casei. O pai da minha filha.

Ele não se importava. Nenhum deles se importava.

Para eles, a minha filha e eu éramos descartáveis.

A porta da emergência abriu-se e a médica saiu, com uma expressão séria no rosto.

"Senhora Alves? A sua filha precisa de uma cirurgia de emergência. Houve uma hemorragia interna. Precisamos da sua autorização."

As minhas mãos tremiam enquanto assinava os papéis.

Naquele momento, enquanto entregava o destino da minha filha aos médicos, tomei uma decisão.

Este casamento tinha acabado.

Capítulo 3

A cirurgia da Mia durou três longas horas.

Eu esperei do lado de fora, o meu corpo dormente de medo e exaustão. Cada minuto parecia uma eternidade.

Finalmente, a luz da sala de cirurgia apagou-se. A médica saiu, o seu rosto cansado mas com um leve sorriso.

"A cirurgia foi um sucesso. Conseguimos controlar a hemorragia. A Mia está estável agora, mas vai precisar de ficar na UTI para observação."

Um suspiro de alívio escapou dos meus lábios, tão forte que me deixou tonta. As minhas pernas cederam e tive de me apoiar na parede.

"Obrigada, doutora. Muito obrigada."

Acompanhei a maca enquanto levavam a Mia para a Unidade de Terapia Intensiva. O seu pequeno rosto estava pálido, com tubos ligados a ela. Ver a minha menina assim partiu-me o coração em mil pedaços.

Sentei-me ao lado da sua cama, segurando a sua mãozinha, prometendo a mim mesma que nunca mais a deixaria passar por algo assim sozinha.

O meu telefone tocou. Era um número desconhecido. Hesitei, mas atendi.

"Sofia? É o Tiago, o segurança do prédio."

A sua voz estava hesitante.

"Eu... eu vi o que aconteceu hoje. Eu sei que não é da minha conta, mas a câmera do corredor gravou tudo."

Fiquei em silêncio, sem saber o que dizer.

"O seu sobrinho, o Lucas, ele empurrou a Mia da escada. Não foi um acidente."

O mundo pareceu parar. O ar ficou preso nos meus pulmões.

"O quê?" consegui sussurrar.

"Eu vi a gravação, Senhora Alves. Ele empurrou-a deliberadamente. Depois, a sua sogra chegou, viu a Mia no chão e levou o Lucas embora, sem sequer olhar para a sua filha. Eu chamei a ambulância."

O telefone escorregou da minha mão e caiu no chão.

O som ecoou no quarto silencioso da UTI.

Não foi um acidente.

O meu sobrinho de sete anos empurrou a minha filha de cinco da escada.

E a minha sogra, a avó dela, viu-a ferida no chão e não fez nada. Pior, ela protegeu o culpado.

Uma raiva fria e cortante percorreu as minhas veias, substituindo o medo e a tristeza.

Eles não apenas negligenciaram a Mia. Eles foram cúmplices no que aconteceu com ela.

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