Capa do Romance Julian, Sempre fui sua.

Julian, Sempre fui sua.

8.6 / 10.0
Julian e Eloíse compartilham um vínculo inquebrável que transcende a distância física. Através de cartas intensas, ele reafirma sua posse e amor absoluto, prometendo retornar para buscar sua amada. Do outro lado, Eloíse vive mergulhada em memórias, declarando que sua existência pertence inteiramente a ele. Mesmo separados, a conexão entre os dois transforma a dor da ausência em uma espera devota, onde cada batida do coração reforça que ela sempre foi dele.

Julian, Sempre fui sua. Capítulo 1

Aquele era um dos meus dias prediletos, considerando a chuva forte e o frio, sempre foi o meu clima favorito. Eu amava sentir o vento soprar forte contra o meu rosto levando meus cabelos a balançarem. Eu gostava da idéia de estremecer de frio. Desde que eu completei meus quinze anos, eu notei em mim mesma o desejo e interesse por coisas que muitos julgavam ruins. Como dias chuvosos e frios, filmes de terror e desenhar paisagens destruídas ao invés de coisas belas.

Mas quando a minha vida mudou completamente, eu estava com dezoito anos. Morava com a minha avó desde sempre, nunca me senti rejeitada ou inferior a ninguém. Algumas pessoas até me julgavam antisocial, por ter apenas dois amigos, Olívia e João. Mas eu não me importava, aqueles dois valiam mais do que toda a escola e vizinhança.

Naquele dia eu acordei com dor de cabeça por ter tido um sonho estranho; minha mãe e meu pai vinham até mim e depositavam dois beijos na minha testa e desapareciam. O que eu mais havia achado estranho, era que eu consegui ver seus rostos, eles eram tão lindos e pareciam felizes. Eu queria muito saber sobre eles e o que havia acontecido, mas a minha avó Florence nunca quis me falar nada. Apenas concordei e não falei mais sobre, o amor dela me preenchia e nunca me fez falta uma mãe e um pai.

Durante toda a tarde do dia anterior, e já de manhã, a única coisa que passava na TV, era sobre um maníaco que fugiu do manicômio. Diziam que ele era um perigo a sociedade e que havia matado sua esposa e seus dois filhos bebês, logo depois assassinou toda a família, mãe, pai e três irmãos, demorou algum tempo para ser pego e quando foi, descobriram que ele já havia estuprado e matado doze meninas entre dezessete e dezoito anos.

A única coisa que não divulgaram foi o nome e nem sua foto. Eles estavam convictos de que antes de fugir, o homem havia destruído tudo sobre ele, fotos e documentos. Eles estavam esperando os médicos que o atendiam para fazer um retrato falado e começarem a espalhar pela cidade. Com certeza ele havia conseguido ajuda, não era possível uma pessoa declarada como doente mental, planejar tudo isso sozinho.

"Bom dia, filha." A minha avó me recebeu sorrindo na cozinha. Ela estava bebendo café e me ofereceu uma xícara cheia em seguida. Sem café eu simplesmente não existia.

"Bom dia vovó." Eu nunca deixei de chama-la de vovó, ela me mimava tanto que as vezes -na maioria- eu me sentia como uma menininha ainda. "Obrigada pelo café." Falei dando um gole. Estava bem docinho, do jeito que eu amava.

"Não esqueça de levar dinheiro para colocar crédito no seu celular." Ela disse enquanto mordia um pedaço de pão.

"Eu já disse vó, não tenho ninguém para ligar. Quando eu preciso eu ligo a cobrar para Liv ou para o João." Resmunguei bebendo mais um gole de café.

"E eu? Sou ninguém então." Eu sorri com o drama dela. A minha avó não era uma velha, ela era uma coroa bem bonitona, com seus cinquenta e cinco anos.

"Claro que não. A senhora é tudo pra mim. Mas a senhora sempre me liga, então não precisa. É sério." Expliquei e ela deu de ombros.

"Você quem sabe Eloíse." Respondeu séria e abriu um jornal que estava encima da cadeira ao lado.

A verdade era que eu gostava que me ligassem. Eu não queria que tivessem um motivo para eu ter que ligar, eu tinha muito medo de incomodar as pessoas. Mesmo meus melhores amigos e minha avó.

"Alguma novidade, sobre o maníaco?" Perguntei curiosa. A cidade para qual ele havia fugido era ao lado da nossa, eu estava com um pouco de medo.

"Ainda as mesmas coisas. Dizem que ele fugiu com as roupas brancas de lá e está todo maltrapilho. Filha, cuidado quando estiver voltando da escola, pega o ônibus rápido e vem pra casa assim que terminar a aula, tá bem?" Disse minha avó com olhar preocupado.

"Tudo bem vovó. Espero que o Lucas conserte logo a minha bicicleta, não aguento mais andar de ônibus." Exclamei. Lucas era um mecânico aqui da vizinhança, minha bicicleta estava com ele a dois dias. Havia furado o pneu e amassado a câmara de ar. "Já deu minha hora. Vou indo."

"Vai com Deus e cuidado!" Dei um beijo nela e me despedi.

Com minha mochila nas costas e roupa de colégio, segui para o ponto de ônibus próximo a minha casa. A chuva havia se acalmando um pouco, mas ainda estava muito frio, por sorte daquela vez eu não esqueci o casaco. Olhei para o meu celular e estava sem sinal. Ótimo. Também olhei a hora e já fazia dez minutos que eu estava no ponto e o ônibus que eu sempre pegava estava atrasado.

"Droga, eu não posso me atrasar. Tenho prova na primeira aula!" Exclamei baixinho irritada.

Com tanta demora eu decidi ir andando, a escola ficava há vinte minutos de casa e se eu tivesse ido andando desde o início, eu já estaria quase chegando.

A passos largos e com medo da rua que estava bem deserta, consegui chegar cinco minutos atrasada. Pedi licença e professor me deixou entrar, com cara feia mas ele não era um professor carrasco, e sabia da importância daquela prova para mim. Olhei em volta e não vi Olívia nem João. Não acreditava que eles tinham faltado e não me avisado.

Fiz minha prova com tranquilidade, eu achava que tinha ido bem. As aulas passaram como lesmas. De dentro da escola podíamos ouvir a chuva forte que caía lá fora. Quando enfim bateu o sinal para irmos embora.

Abri meu pequeno guarda-chuva, abracei minha mochila com um braço para não molhar, pois a chuva estava muito forte. E corri para o ponto de ônibus. Eu só esperava que desta vez não demorasse, eu não via a hora de chegar em casa e me enfiar debaixo das cobertas. O vento estava quase me levando junto com meu guarda-chuva, eu batia o queixo sem parar e meus lábios estavam congelados com o frio que fazia.

Olhei ao redor e todos os alunos já haviam ido para suas casas, só restou eu ali naquele ponto de ônibus sozinha, por mais uma vez, esperando a merda do ônibus. A chuva forte fazia muitas poças de água e lama no chão.

Distraída com meus pensamentos, já deveria estar fazendo mais de dez minutos que eu estava ali, congelando e lutando contra o vento que queria me carregar para longe. Um carro em alta velocidade passou na minha frente e esvaziou uma grande poça de água suja em mim.

Eu fiquei tão furiosa no momento. Juntando com o susto que eu tomei e o frio que eu estava sentindo, tendo que lutar para o vento não quebrar meu guarda-chuva, eu dei um grito de raiva. Sem pensar, fiz uma coisa que minha avó sempre me disse que era errado e que eu nunca deveria fazer.

"Filho da puta! Você é cego?" Eu estava com tanta raiva. Agora eu estava toda suja e toda molhada. Furiosa joguei fora de uma vez o guarda-chuva e comecei a andar em direção a minha casa.

E o idiota nem havia parado, pelo menos para se desculpar e dizer que foi sem querer. Mas não tinha como, porque não foi, a rua era bem grande para aquela pessoa passar justamente por cima da poça em minha frente.

"Espero que o seu carro dê problema!" Esbravejei.

Meu rosto estava pegando fogo de raiva. Se antes eu estava com frio e meus lábios congelando, agora eles estavam queimando. Eu sempre fui uma pessoa sensível que chorava atoa, e naquele momento eu comecei a chorar de raiva. Pisando duro e a passos largos comecei a ir pra casa a pé.

Caminhando sem parar, ao longe avistei o mesmo carro que me sujou, parado no acostamento. Era a hora, eu ia até lá e iria tirar satisfações com aquele ou aquela mal educada e insensível. Fui andando em direção ao carro. Quando cheguei perto eu bati com força no vidro grosso e completamente escuro, chegou a doer meu pulso.

Quando o vidro foi se abaixando aos poucos, toda a minha marra e vontade de xingar e brigar, caiu por terra. Havia um homem lá dentro, olhos azuis perfeitos, cabelos pretos como a escuridão da noite e barba por fazer. Ele parecia ter o dobro da minha idade e tinha uma cicatriz perto da sombrancelha. Imediatamente quando eu coloquei meus olhos sobre ele, eu senti uma coisa inexplicável, eu não sabia dizer com palavras, eu nunca havia sentido antes.

Meu rosto ficou mais quente do que já estava, meu coração acelerou, meu corpo se arrepiou e eu me senti tonta. Foi como se uma onda de calor e um choque estranho, percorresse toda a minha corrente sanguínea. O homem era lindo demais, eu não consegui dizer uma só palavra. Minha boca abriu várias vezes e nada saiu. Vários pensamentos estranhos começaram automaticamente a passar pela minha cabeça. Aquele homem tocando e beijando o meu corpo.

Mas que merda estava acontecendo comigo? Eu nunca havia visto aquele homem na minha vida.

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