O som de risadas vinha da sala de estar, um som leve e despreocupado que fez o estômago de Clara se contrair. Ela se levantou da cama, seu corpo doendo pela droga que Cássio lhe dera. A dor de cabeça era uma pulsação surda e persistente.
Ela caminhou instavelmente até o topo da grande escadaria e olhou para baixo.
Kenia Cline estava jogada no sofá de couro branco deles como se fosse a dona, bebendo uma mimosa. Cássio estava sentado no pufe em frente a ela, sorrindo.
"Preciso de um carro novo, Cassinho", Kenia choramingou, fazendo bico com seus lábios cirurgicamente aumentados. "Aquela Ferrari vermelha está... manchada agora. Todo aquele drama com a polícia. É ruim para a minha marca."
Cássio estendeu a mão e colocou uma mecha de cabelo platinado atrás da orelha dela. O gesto foi tão casual, tão íntimo, que foi como um soco no estômago de Clara. "O que você quiser, Ken", ele disse, sua voz suave. "Vamos às compras esta tarde."
"E aquele velho estúpido que era o motorista", Kenia continuou, acenando com a mão com desdém. "A cara dele era tão patética. Não podemos simplesmente mandá-lo para outro país ou algo assim? Não quero vê-lo nunca mais."
A respiração de Clara ficou presa no peito. Velho estúpido. Ela estava falando de seu pai. Um homem que construiu sua vida com integridade e bondade, reduzido a um inconveniente por essa garota vazia e cruel.
Kenia olhou para cima então e viu Clara parada na escada. Um sorriso malicioso se espalhou por seu rosto. "Olha só quem acordou. Bom dia, esposinha."
Algo dentro de Clara se partiu. A dor, a traição, a fúria - tudo explodiu em um único grito silencioso. Ela desceu as escadas voando, seu único pensamento era apagar aquele olhar presunçoso do rosto de Kenia.
Ela se lançou sobre a garota no sofá, suas mãos alcançando sua garganta.
"Clara!", Cássio gritou, pulando de pé.
Ele a agarrou por trás, seus braços fortes envolvendo sua cintura, prendendo seus braços ao lado do corpo. Ele era como uma jaula de aço, imóvel.
"Me solta!", Clara gritou, lutando contra ele. "Ela é uma assassina! Ela matou meu pai!"
Kenia se arrastou para a outra ponta do sofá, seus olhos arregalados de falso medo. "Cássio, ela está louca! Eu não fiz nada!"
"Você estava bêbada! Você bloqueou a ambulância! Você estava rindo!", Clara gritou, sua voz rouca.
"Me solta, Cássio! Me solta!"
"Kenia, peça desculpas a ela", disse Cássio, sua voz tensa de aborrecimento, seu aperto em Clara implacável.
"O quê? Por quê?", Kenia choramingou.
"Apenas faça."
Kenia revirou os olhos. "Tá bom. Desculpa pelo seu pai ter morrido ou sei lá o quê."
As palavras foram tão insensíveis, tão completamente desprovidas de remorso, que Clara parou de lutar. Um silêncio frio e pesado caiu sobre ela.
"Viu? Ela pediu desculpas", disse Cássio, como se isso resolvesse tudo. "Agora vamos todos nos acalmar."
Ele estava tratando isso como uma briga de crianças, não uma confissão de homicídio culposo.
"Não foi o suficiente", ele suspirou, vendo o olhar morto nos olhos de Clara. Ele se virou para Kenia. "Ken, se você pedir desculpas de verdade, eu te compro aquela bolsa Birkin nova que você queria. A Himalayan."
Os olhos de Kenia se iluminaram. "Ok, ok! Me desculpe! Sinto muito, muito mesmo que minha noite divertida tenha sido tão inconveniente para sua família. Pronto. Feliz?" Ela olhou para Cássio, esperando seu prêmio.
Clara sentiu o último pingo de calor em seu coração se transformar em gelo. A vida de seu pai. Pesada contra uma bolsa de grife. E a bolsa venceu.
"Viu, Clara?", disse Cássio, sua voz um murmúrio suave em seu ouvido. "Acabou. Podemos seguir em frente."
Clara começou a rir. Era um som oco, quebrado. "Seguir em frente? Você quer que eu siga em frente disso?" Ela se virou em seu aperto para encará-lo, seus olhos em chamas. "Essa coisa", ela cuspiu, apontando um dedo trêmulo para Kenia, "matou meu pai. E você está subornando ela com uma bolsa."
"Não seja dramática", Cássio retrucou, sua paciência finalmente esgotada. "E não se atreva a falar da Kenia desse jeito."
Clara o encarou, o homem a quem ela havia prometido amar pelo resto da vida. "Ele era meu pai, Cássio. Meu pai. E você está protegendo a assassina dele."
A mandíbula de Cássio se contraiu. Ele se inclinou, sua voz uma ameaça baixa e sinistra. "Seu pai se foi, Clara. Nada o trará de volta. Se você continuar insistindo nisso, não estará apenas me desrespeitando. Estará desrespeitando a memória dele. Você realmente quer que o nome dele seja arrastado na lama em um espetáculo público bagunçado? Deixe-o descansar em paz."
A ameaça era inconfundível. Ele não estava falando apenas da opinião pública. Ele estava ameaçando profanar o legado de seu pai, a única coisa que ela tinha dele.
Um medo frio, mais agudo que qualquer dor, a atravessou. Ela olhou em seus olhos e viu que ele falava sério. Ele faria qualquer coisa para proteger seu negócio, para proteger Kenia.
Ela parou de lutar. Seu corpo amoleceu em seus braços.
"Ok", ela sussurrou, a palavra com gosto de cinzas. "Você está certo. Me desculpe."
A expressão de Cássio se suavizou instantaneamente. Ele achou que tinha vencido. Ele a soltou, dando um tapinha em seu ombro como se ela fosse um cachorro desobediente que finalmente aprendeu a lição. "Boa menina. Essa é a minha Clara."
Ele achou que a tinha quebrado. Ele não fazia ideia de que acabara de lhe entregar uma arma.
Clara se virou sem outra palavra e subiu as escadas. Entrou em seu quarto e trancou a porta, o clique do ferrolho soando como o engatilhar de uma arma.
Ela ignorou a pulsação em sua cabeça e a dor em seu coração. Foi até seu closet, ao painel secreto atrás das sapateiras que seu pai insistira em instalar. Dentro havia um pequeno cofre.
Seus dedos, ainda tremendo levemente, digitaram a combinação. O cofre se abriu com um clique. Dentro havia um envelope pardo grosso. Ela o puxou.
Era o acordo pós-nupcial. Ela encarou a assinatura limpa e precisa de seu pai ao lado do rabisco extravagante de Cássio. Ela se lembrou de suas palavras, o sussurro de um fantasma no quarto silencioso.
"Apenas por precaução, querida. Um homem com tanto poder precisa de freios e contrapesos. Isso garante que você sempre terá seu próprio poder, sua própria liberdade."
Uma única lágrima escorreu por sua bochecha e caiu sobre o documento. Com a mão firme, ela pegou uma caneta de sua mesa e assinou seu nome na linha final, ativando a dissolução de seu casamento.
Tudo o que Cássio tinha foi construído durante o casamento deles. De acordo com este documento, ela tinha direito à metade de tudo. Não um acordo. Metade. Bilhões.
Ela abraçou o documento contra o peito. "Eu vou fazê-los pagar, pai", ela sussurrou para o quarto vazio. "Eu prometo."
Então ela voltou ao cofre e pegou um segundo item. Um celular descartável fino. Ela o ligou. A tela se acendeu, mostrando uma única pasta na tela inicial.
Ela a abriu.
Lá, segura e protegida em um servidor de nuvem criptografado que seu pai havia configurado para ela, estava uma cópia perfeita e em alta definição do vídeo que ela havia gravado na noite da morte de seu pai. Era o vídeo que Cássio pensava ter apagado para sempre.
Cássio a ensinara que a lei era para os pequenos. Que dinheiro e poder podiam comprar sua saída de qualquer coisa.
Tudo bem.
Ela usaria o dinheiro dele para comprar sua destruição. Ela usaria seu poder para garantir que Kenia Cline, Cássio Viana e qualquer outra pessoa que tivesse participado disso apodrecesse.
Eles queriam vê-la quebrada? Eles a veriam renascer. E eles se arrependeriam do dia em que decidiram cruzar o caminho de Clara Viana.
Na manhã seguinte, Clara desceu as escadas ao som do cheiro de café e da voz irritante de Kenia. Ela estava sentada à mesa do café da manhã, vestindo um dos roupões de seda de Clara, com os pés apoiados em uma cadeira. Eudora Viana, a mãe esnobe de Cássio, sentava-se em frente a ela, radiante.
"Você parece muito mais em casa aqui do que ela jamais pareceu", disse Eudora, sem nem se dar ao trabalho de baixar a voz quando Clara entrou na sala.
Clara as ignorou e foi para a cozinha pegar um copo d'água. Suas mãos estavam firmes agora. A tempestade de emoções havia passado, deixando para trás uma calma fria e clara. Ela tinha um plano.
Kenia a seguiu, encostando-se no batente da porta. "Sabe, aquele velho era muito chato", disse ela, como se estivesse conversando, lixando as unhas. "Ele simplesmente não morria. Os paramédicos estavam, tipo, implorando para eu sair da frente. Foi tão dramático."
O aperto de Clara em seu copo se intensificou.
"Eu contei tudo para os meus seguidores na minha live privada", continuou Kenia, com um sorriso malicioso no rosto. "Eles acharam hilário. Tive, tipo, um milhão de curtidas." Ela riu. "Ele provavelmente era um fracassado sem família, de qualquer maneira. Quem se importa?"
O copo na mão de Clara se estilhaçou.
Ela não sentiu os cacos cravando em sua palma. Ela só viu vermelho. Ela se lançou, agarrando Kenia pelos cabelos loiros descoloridos e batendo sua cabeça contra a parede.
"Meu pai não era um fracassado!", ela rugiu, sua voz um rosnado gutural que ela não reconheceu. "Ele valia mil de você!"
Kenia gritou, um som agudo e penetrante. "Tira ela de cima de mim! Cássio!"
Eudora entrou correndo, seu rosto uma máscara de horror e fúria. "Clara, sua animal! O que você está fazendo?"
Cássio apareceu momentos depois, avaliando a cena: Clara, com sangue escorrendo da mão, segurando uma Kenia aterrorizada contra a parede.
Ele arrancou Clara de Kenia, seu rosto escuro de raiva. "Que diabos há de errado com você?"
"Ela estava zombando da morte do meu pai!", Clara gritou, lutando contra seu aperto.
"Eu não estava!", Kenia soluçou, segurando a cabeça. "Eu só estava dizendo que sentia muito por ele não ter família para lamentá-lo! Eu não sabia que ele era o pai dela!"
Era uma mentira tão patética e transparente. Mas Cássio acreditou. Ou, mais precisamente, ele escolheu acreditar.
"Olha o que você fez", disse Cássio, apontando para uma pequena marca vermelha na testa de Kenia. "Você a machucou. Peça desculpas. Agora."
"Não", disse Clara, sua voz tremendo de raiva. "Eu nunca vou pedir desculpas a ela."
Os olhos de Cássio se estreitaram. Ele olhou para Clara, depois para a soluçante Kenia, e então para o bule de café prateado fumegante no balcão. Uma ideia cruel se formou em sua mente.
"Você está certa", ele disse suavemente, sua voz perigosamente calma. "Um pedido de desculpas não é suficiente."
Ele soltou Clara. Caminhou até o balcão, pegou o bule de café quente e o pressionou nas mãos de Kenia.
Kenia olhou para ele, confusa. "Cássio, o que...?"
"Ela te machucou", disse Cássio, seus olhos fixos em Clara. "É justo que você a machuque de volta. Olho por olho. É uma tradição de família."
A confusão de Kenia se transformou em um sorriso alegre e malicioso. Ela olhou para o bule de café em suas mãos, depois para Clara, que estava parada, congelada de choque.
"Cássio, não", Clara sussurrou, dando um passo para trás.
Mas ele apenas observava, sua expressão fria e inflexível.
Kenia caminhou em direção a Clara, o bule prateado erguido como uma arma. "Isso é por ser uma puritana chata e estúpida", ela rosnou, e jogou o café quente direto no rosto de Clara.
Clara virou a cabeça no último segundo, mas o líquido escaldante espirrou em seu pescoço e ombro. A dor foi lancinante, imediata. Ela gritou, tropeçando para trás.
Ela apertou sua pele queimando, a dor tão intensa que trouxe lágrimas aos seus olhos. Mas ela se recusou a deixá-las cair. Ela encarou Cássio, que não havia movido um músculo. Viu um lampejo de algo em seu olhar - pena? arrependimento? - mas desapareceu tão rápido quanto apareceu, substituído por aquela mesma determinação fria.
"Agora vocês estão quites", ele disse, como se tivesse acabado de mediar uma briga de parquinho. Ele colocou um braço reconfortante em volta de Kenia. "Pronto, pronto. Já passou."
Clara olhou para eles, o casal feliz, de pé sobre sua vítima. A dor em seu ombro não era nada comparada à agonia em seu coração.
"Sabe", disse Kenia animadamente, o incidente já esquecido, "meu aniversário é na semana que vem. Deveríamos dar uma festa enorme. Bem aqui. Para, sabe, lavar toda essa má sorte."
"Claro", disse Cássio imediatamente, acariciando o cabelo dela. "Qualquer coisa por você, Ken. Daremos a maior festa que São Paulo já viu."
"E a Clara tem que estar lá", acrescentou Kenia, lançando um olhar triunfante para Clara. "Não seria uma festa sem a convidada de honra."
"Eu não vou", disse Clara entre dentes.
O rosto de Cássio endureceu. "Sim, você vai", ele disse, sua voz não deixando espaço para discussão. "Você é minha esposa. Nós somos os Viana. Apresentamos uma frente unida. Você estará naquela festa, você vai sorrir, e vai agir como se nada estivesse errado. Você me entendeu?"
Ele estava falando de sua imagem. Sua reputação. Diante de sua dor, seu luto, sua humilhação, tudo o que ele se importava era com as aparências.
Clara pensou no acordo pós-nupcial em seu cofre. Pensou no vídeo no celular descartável. Pensou em seu pai.
"Sim", ela disse, sua voz um sussurro morto. "Eu entendo."
Ela iria à festa deles. Ela sorriria. E ela os deixaria pensar que haviam vencido. Deixaria que pensassem que a haviam quebrado em mil pedaços.
Eles não faziam ideia de que cada um desses pedaços estava sendo afiado em uma arma.