Capítulo 2

Se alguém me dissesse, há um ano, que eu estaria cruzando o mundo para morar na Rússia, eu riria. Mas aqui estou eu, no meio do inverno russo, com a mala na mão, tremendo não só de frio, mas de expectativa.

Meu padrasto, que mais parece um personagem saído de um filme de máfia — e, na verdade é, só que da vida real —, decidiu que seria uma boa ideia eu passar uma temporada na Rússia, na casa do filho dele, Maxim Rurik. Um nome que carrega peso. Pesado como chumbo.

A verdade? Eu não ligo se ele me quer ou não. Estou aqui pela cultura, pela arte, pela arquitetura, pelos museus, pelo estudo e pela neve, que nunca tinha visto antes e, principalmente, pela experiência de vida. O filho dele pode ser o próprio anticristo, isso não me afeta.

O táxi me deixa na frente de uma mansão gigantesca, cercada por muros altos, câmeras e portões eletrônicos. Sim, é tudo tão intimidador quanto eu imaginei. Engulo em seco, ajeito meu cachecol e caminho até o interfone.

Mal aperto o botão e um carro preto, com vidros escuros e acelerando feito um demônio, surge do nada.

— Que porra é essa? — grito, pulando para o lado, quase sendo atropelada.

O carro freia tão forte que a neve voa para todos os lados. E eu, que já estava puta da vida, bato a mão na porta do carro. Não satisfeita, chuto.

— Tá maluco? Quer me matar, porra? — berro, sem nem pensar que estou na Rússia, na frente de uma mansão de mafioso, e que provavelmente quem está dentro do carro poderia muito bem me fazer desaparecer sem deixar vestígios.

A porta se abre, e de lá sai... bom, ele.

Maxim Rurik.

Se fosse em outras circunstâncias, talvez eu até diria que é um homem absurdamente bonito. Alto, muito alto, olhos azuis de cortar a alma, cabelo preto, mandíbula forte. Impecável. Vestido em um terno escuro, com aquele ar de quem manda no mundo e pode decidir quem vive e quem morre.

Mas, no momento, tudo que vejo é um babaca que quase me atropelou.

Ele sai do carro como se eu nem existisse, ajeitando o paletó e solta, frio:

— Idiota, fica no meio da rua por quê? Quer morrer? — pergunta em russo, mas entendo muito bem.

Cruzo os braços.

— Se está cego, não dirige, seu animal! — rebato, também em russo, mas com meu sotaque horroroso.

Ele arqueia uma sobrancelha, me olha de cima a baixo como se eu fosse um inseto inconveniente.

— Você só pode ser a brasileira. — Fala como se estivesse amaldiçoando a própria vida. — Ótimo. Mais uma dor de cabeça.

Ele faz um sinal para o motorista e entra no carro.

— Acelera. Passa por cima se ela não sair. — diz, seco.

Eu? Eu rio, mas é aquele riso de quem tá no limite entre a sanidade e o barraco.

— Ah, é? Pois tenta!

O carro vem pra frente. Pulo e caio no chão frio. Levanto irritada, puxo meu canivete do bolso da jaqueta — aquele que meu pai me deu antes da viagem e disse: “Se algum russo louco tentar te sequestrar, você se defende.”

Sem pensar duas vezes, risco a lateral do carro dele. Uma, duas, três vezes. Faço questão de desenhar uma bela linha da porta da frente até a traseira.

O silêncio que se segue é surreal. Os dois homens que estavam do lado de fora, provavelmente seguranças, sacam as armas tão rápido que nem vejo.

Apontam pra mim, e eu, no auge do meu sangue fervendo, abro os braços e grito:

— MAS VOCÊS TÃO LOUCOS? PUXA ESSA PORRA DE GATILHO ENTÃO! QUERO VER! — em português, totalmente surtada.

Maxim não diz nada. Ele me observa. Apenas observa. Seus olhos azuis, que antes pareciam gelo, agora parecem fogo. Ele aperta a mandíbula, sai do carro de novo, dá um passo na minha direção, e por um segundo, penso que ele vai me esganar.

Mas não. Ele levanta uma mão, ordenando que os homens abaixem as armas.

— Vocês tão ouvindo isso? — pergunta, olhando pros caras. — Essa garota é mais brasileira do que a própria bandeira do Brasil. Uma selvagem. — Cospe as palavras, como se eu fosse uma criatura exótica e... irritante.

Eu cruzo os braços, o canivete ainda na mão, e encaro.

— Se acha que vai me intimidar, tá muito enganado, viu, velho bonito.

Ele revira os olhos.

— Bonito? — pergunta, como se isso fosse a pior ofensa do universo.

— Bonito, metido e estúpido. Isso sim. — Rebato. — Agora, faça o favor e saia da frente que preciso entrar. Sou hóspede aqui, querendo você ou não.

Ele se aproxima mais, tão perto que posso sentir seu perfume caro, amadeirado, com notas de couro. Cheiro de perigo.

— Ouça bem, brasileirinha. — Sua voz é baixa, quase um sussurro, mas tão ameaçadora quanto uma arma carregada. — Na minha casa, você não fala comigo. Não olha para mim. Não respira perto de mim. Finja que eu não existo. E eu farei o mesmo. Entendido?

Dou um sorriso debochado.

— Perfeito. Era tudo que eu queria, aliás.

Ele me encara por alguns segundos. Depois, sem mais uma palavra, entra no carro. Mas, antes de fechar a porta, olha de volta e diz, seco:

— E se riscar meu carro de novo, te mandarei de volta para o Brasil, mas em pedaços.

O carro arranca, sumindo pela entrada da mansão. Eu fico ali, no meio da neve, bufando.

— Que homem insuportável, meu Deus. — Digo para mim mesma, guardando o canivete. — Mas bonito ele é, viu. Que raiva.

O portão se abre, e um homem bem mais simpático — imagino que seja algum funcionário — me chama, meio segurando o riso.

— Senhorita Eva? Pode entrar. Bem-vinda à Rússia.

Agradeço, ajeito meu cachecol, puxo minha mala e respiro fundo.

— Vai ser uma longa temporada. — Murmuro.

Mas uma coisa é certa: Maxim Rurik pode ser o próprio capeta vestido de terno, mas ele que me aguarde.

Porque a brasileira aqui não abaixa a cabeça para ninguém.

Capítulo 3

O dia passa, ou melhor, se arrasta. Mas, de algum modo, a imagem dela, os olhos em brasa, a boca atrevida, aquele cheiro doce, invade meus pensamentos em momentos que não deveria.

Que merda.

Por que isso me incomoda? Não sei. Talvez porque não estou acostumado a ser desafiado. Muito menos por uma... uma garota.

Quando chego em casa, quase me esqueço de que ela agora mora aqui.

Quase.

Porque, assim que entro, vejo a mesa de jantar posta. A empregada me avisa que preparou um jantar decente para “receber a senhorita”.

Bufando, solto a gravata, desabotoou os dois primeiros botões da camisa e me sento na ponta da mesa, como sempre. Me sirvo de vodca. Forte. Pura. Preciso.

Então ela entra.

Usa um moletom, aparentemente meu, que mais parece um vestido nela. Os cabelos estão soltos, úmidos, como se tivessem saído do banho, a pele brilhando e, claro, aquele olhar de desprezo.

— Por que está com a minha roupa? Não trouxe as suas? Até isso, vou ter que te fornecer?

— A senhora quem me deu. As roupas da minha mala estavam úmidas, por causa desse tempo gelado, e ela levou para secar e me deu essa. Mas, se quiser, eu tiro.

Ela diz com aqueles olhos castanhos esverdeados, brilhando em desafio.

— Não precisa. Queimo a roupa depois.

— Devia queimar sua língua. Você também vai jantar aqui?

Dou uma risada seca.

— Moro aqui.

— Pois é. Infelizmente, eu também. Por enquanto. — Rebate, sentando na outra ponta da mesa, o mais longe possível de mim.

Se serve de comida, fazendo questão de ignorar minha existência.

Até que suspira, olha para mim e solta:

— Você tem quantos anos, hein?

Franzo o cenho.

— O que isso importa?

— Curiosidade. — Responde, encolhendo os ombros. — Porque, sinceramente, com esse mau-humor todo, você tem vibe de velho ranzinza.

Quase engasgo com a vodca.

— O quê?

Ela sorri, satisfeita.

— Isso mesmo que você ouviu. Velho. Ranzinza.

Bato o copo na mesa, seco.

— Eu não sou velho. — Digo, irritado. — Tenho trinta e nove.

— Ah, claro. Só trinta e nove. — Finge pensar. — Quase quarenta. Isso já entra na categoria “meia-idade rabugenta”.

Arqueio uma sobrancelha.

— Escuta aqui, garota. — Aponto para ela, mas ela levanta a mão, me cortando.

— Não, não, não. Escuta você, velho ranzinza. — Diz, sorrindo. — Não fui eu que pedi para ficar aqui e, honestamente, se você quiser, posso muito bem me virar sozinha. Aliás, prefiro.

Puxo o ar, fecho os olhos, conto até três, depois até cinco, e até dez. Nada adianta.

— Você vai seguir as regras desta casa. — Digo, firme. — E a regra número um é: não me irrite.

— Pena. Já comecei mal, então. — Ela dá de ombros, colocando uma garfada na boca, como se não tivesse acabado de me tirar completamente do sério.

Me inclino na mesa, observando. E, pela primeira vez, percebo que meu maior problema não é ela ser insuportável.

É que, de algum modo, por mais que eu queira odiá-la... uma parte de mim está completamente fascinada.

Perigoso.

Muito perigoso.

— E outra coisa. — Ela aponta o garfo na minha direção. — Reclamar do meu sotaque russo? Sabe o que é mais feio que um sotaque errado? Mau humor crônico. Fica a dica.

Fecho a mão em punho.

— Você vai se arrepender de cada palavra, brasileira.

— Ai, que medo. — Ela finge tremer. — O velho ranzinza ficou bravo.

Bato a mão na mesa e me levanto. A cadeira arrasta no chão com violência.

Ela me encara. Não recua. Desafiadora. Insolente. Linda pra caramba.

E eu? Eu nunca quis tanto expulsar alguém da minha vida.

Ou talvez, nunca quis tanto alguma coisa que não devia querer.

— Última vez que aviso. Fique fora do meu caminho. — Rosno, antes de virar as costas e subir as escadas.

Mas, antes de entrar no meu escritório, ainda ouço ela gritar da sala:

— Vai lá, velho ranzinza! Toma um chá, que faz bem ao fígado e ao bom humor.

Reviro os olhos, fecho a porta com força e jogo o paletó no sofá.

— Essa garota vai me enlouquecer.

E o pior é que eu já sei disso.

EVA DINIZ

Acordei com o som do vento batendo contra as janelas. A neve continuava caindo lá fora, pintando tudo de branco. Me espreguicei, bocejei e olhei o relógio: quase nove da manhã.

Visto uma calça jeans, uma blusa de lã e jogo um casaco pesado por cima. Quando saio do quarto, já dá para ouvir vozes vindo da sala de jantar. Respiro fundo, ajeito meu cabelo e desço as escadas.

O cheiro de café, pão fresco e panquecas invade minhas narinas. Pelo menos, eles sabem como preparar um café decente.

Ao entrar, vejo Maxim sentado na ponta da mesa, claro, todo de preto, com aquela cara de quem acorda odiando o mundo. Ao redor, três homens, claramente irmãos dele. Conversam e riem. Eles se calam quando me veem.

Maxim ergue os olhos, e a expressão dele fica ainda mais fechada.

— A brasileira acordou. — Diz como se isso fosse uma notícia catastrófica. Reviro os olhos.

— Bom dia para você também, velho ranzinza.

Ele aperta tanto a mandíbula que quase acho que vai quebrar os dentes.

Os três irmãos se entreolham, tentando segurar o riso, e o mais velho deles é o primeiro a se levantar e vir até mim.

— Você deve ser Eva. Sou Viktor, o mais sensato dessa família. — Aperta minha mão com um sorriso simpático.

— Muito prazer, Viktor. — Sorrio de volta.

O segundo se levanta logo em seguida.

— Dmitri. — Diz, oferecendo um sorriso ainda maior. — E se ele é o sensato, sou o mais bonito.

— Olha, vocês estão empatando de bonitos aí, viu. — Brinco, arrancando um riso dos dois e um rosnado de Maxim, que me olha feroz.

Por último, alto, mas com traços mais suaves, um sorriso fácil e olhos azuis vibrantes, que denunciam o DNA da família:

— E eu sou Yuri, o caçula e, segundo minha falecida mãe, o preferido. — Pisca para mim.

— Encantada, Yuri. — Aperto a mão dele, rindo.

— Então, é você a brasileira que nosso querido Maxim tanto falou. — Dmitri diz, se jogando de volta na cadeira.

— Ah, falou muito, né? — cruzo os braços, encarando Maxim com um sorriso debochado.

Ele bufa, sem desviar o olhar do jornal que finge ler.

— Eu disse que ela era um problema ambulante. — Responde, seco.

— O problema está sentado aí nessa ponta, vestido de mau humor. — Rebato, jogando o cabelo para o lado.

Viktor gargalha, Dmitri quase cospe o café, e Yuri... bem, Yuri parece se divertir mais que todos.

— Gosto dela. — Yuri comenta, sorrindo.

Maxim joga o jornal na mesa, olhando para o irmão com cara de poucos amigos.

— Claro que gosta. Criança gosta de qualquer coisa que faça bagunça. — Diz, cruzando os braços.

— Criança? — Arregalo os olhos, indignada. — Olha aqui, velho ranzinza, eu tenho vinte anos, tá? Criança é você, que tá precisando de um curso de boas maneiras.

— Eu. Não. Sou. Velho. — Maxim responde, rangendo os dentes, os olhos azuis faiscando.

Dmitri ri tão alto que bate na mesa.

— Eu te falei que ele ia surtar quando te chamasse assim. — Diz para Yuri, que já está com o rosto vermelho de tanto rir.

Maxim passa a mão no rosto, respira fundo e balança a cabeça.

— É isso. — Diz, como se decretasse alguma sentença. — Isso é tortura.

— Engraçado, eu ia dizer a mesma coisa. — Cruzo as pernas, sorrindo, vitoriosa.

Yuri se ajeita na cadeira, me olhando com curiosidade.

— E aí, Eva. O que você vai fazer hoje? — pergunta, apoiando o queixo na mão.

— Pensei em conhecer alguns museus. — Respondo, sorrindo.

— Sério? Eu te levo. — Yuri se oferece prontamente. — Conheço vários lugares legais aqui em Moscou.

— Boa ideia. — Concorda Dmitri. — Pelo menos com você ela não vai se perder.

Maxim larga a xícara com tanta força no pires que faz um barulho seco.

— Ninguém vai levar ela. — Diz, olhando diretamente para Yuri.

Todos na mesa se calam por dois segundos.

— Como assim, ninguém? — pergunta Yuri, franzindo a testa. — Eu posso.

— Eu levo. — Maxim o interrompe, seco, firme, inegociável.

Arqueio uma sobrancelha, cruzando os braços.

— Ué? Não era para fingir que você não existe? — sorrio, maliciosa. — Tá difícil seguir sua própria regra, hein, velho ranzinza.

O músculo na mandíbula dele pula.

— É... o caminho que vou fazer hoje passa exatamente na região dos museus. — Diz, mentindo descaradamente, enquanto encara Yuri como se fosse um inimigo.

Dmitri leva a mão à boca, segurando uma gargalhada.

— Que coincidência, hein. — Comenta, debochado.

— E você, Maxim. — Viktor entra na brincadeira. — Vai todo dia à mesma região dos museus? Nem sabia que você era fã de arte.

— Cuidem da vida de vocês. — Responde, frio.

Olho para Yuri, rindo.

— Olha, prefiro a companhia do Yuri, menos torturante. — Digo, fazendo uma careta para o Maxim.

Dmitri ri tanto que bate na mesa de novo.

— Isso, garota, continua, que ele explode até o almoço.

Maxim fecha as mãos em punho, claramente no limite da paciência.

— Devia me agradecer, Eva. Estou te fazendo um favor. — Diz, respirando fundo, tentando soar calmo, mas falhando miseravelmente.

— Ah, claro. Um favor que parece mais uma sentença de morte. — Cruzo os braços. — Mas tudo bem, se eu desaparecer, o culpado já está identificado.

Ele se levanta, ajeita o paletó e me lança aquele olhar que pode congelar o inferno.

— Dez minutos. Te espero no carro. — Diz, antes de sair da sala, batendo a porta.

O silêncio que fica é rapidamente quebrado por gargalhadas dos irmãos.

— Meu Deus. — Diz Dmitri, limpando uma lágrima de tanto rir. — Você é a melhor coisa que já aconteceu nessa casa.

— Jura que vocês vivem assim? — pergunto, rindo.

Viktor assente.

— Desde que esse velho ranzinza nasceu. — Diz, piscando para mim.

— Eu ouvi. — Vem a voz de Maxim, gritando lá do corredor.

— E eu falei para ouvir. — Viktor responde, rindo.

Suspiro, pegando minha bolsa.

— Bem, acho que vou para meu passeio com o guia turístico mais mal-humorado da Rússia.

Yuri se levanta, me dando um abraço de lado.

— Boa sorte, Eva. E qualquer coisa, me liga. — Pisca, me passando discretamente um papel com seu número.

— Pode deixar. — Sorrio, guardando.

Enquanto caminho até a porta, penso que essa viagem tem tudo para ser um inferno... ou uma das melhores experiências da minha vida.

E, olhando para o homem parado do lado de fora, encostado no carro, de braços cruzados e cara fechada. Talvez as duas coisas.

Quando me aproximo, Maxim vem até mim, imponente, assustador, me faz recuar um passo. Ele coloca sua mão enorme no meu bolso, retira o cartão com o número de Yuri, amassa e joga longe.

— Não vai precisar ligar para ele.

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IRMÃOS RURIK

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