Fechei a porta da cobertura sem disfarçar o peso do dia nas costas. Depois de quatro horas em cirurgia, mais um paciente salvo por milímetros e uma discussão inútil com meu pai no corredor, tudo o que eu queria era silêncio.
Mas o silêncio não trouxe descanso. Trouxe lembranças.
O elevador. O cheiro doce de alguém que eu ainda não conhecia, a garota do jaleco branco. O olhar que atravessou o meu por segundos, como se tivesse o poder de me desarmar.
Soltei o ar devagar e caminhei até o banheiro. Ligar o chuveiro foi quase um ato mecânico, tão automático quanto o copo de uísque que mais tarde levaria à varanda.
A água quente escorria pelos ombros, mas não lavava o pensamento repetitivo que me consumia por dentro. A imagem dela voltava como um reflexo, sem esforço. A forma como mordeu o lábio inferior, a tensão no ar quando nossos corpos dividiram o mesmo espaço no elevador.
Minha mão deslizou pelo abdômen até onde o desejo já latejava. Encostei as costas na parede fria, o vapor embaçando o box, enquanto o prazer invadia cada músculo.
Não pedi licença à consciência. Fechei os olhos e deixei acontecer.
O orgasmo foi intenso, rápido demais, mas não trouxe alívio. O corpo cedeu, mas a cabeça ficou inquieta.
Saí do banho enxugando o rosto, os fios molhados grudando na testa. Escolhi uma calça de moletom, a primeira que vi, e deixei o peito nu. Queria sentir o ar da noite contra a pele. Talvez isso ajudasse.
Na varanda, o copo de uísque gelou minha mão enquanto as luzes da cidade pulsavam lá embaixo. O barulho dos carros era um ruído distante, incapaz de me distrair.
O celular vibrou no bolso, atendi no segundo toque.
— Doutor Jones? — A voz da central de transplantes entrou firme no meu ouvido. — O coração chegou. O helicóptero decola em breve. Estamos acertando os detalhes.
A notícia trouxe foco, mas não afastou o torvelinho dentro do peito.
— Assim que o órgão estiver a caminho, me liguem direto — girei o copo entre os dedos, atento —, não esperem. O transplante precisa ser feito assim que possível.
— Entendido, doutor. Pode deixar.
Desliguei e guardei o celular no bolso da calça. Olhei para o lado, quase por instinto.
E lá estava ela, a residente do elevador, na varanda ao lado, vestindo uma camisola curta demais para o vento gelado da noite. Os cabelos castanhos e soltos caiam pelos ombros, e os olhos pareciam hipnotizados pelo céu da cidade.
Ela ergueu a barra do tecido, tentando se proteger do frio. O gesto inocente só deixou mais pele à mostra, e meu corpo respondeu no mesmo instante.
Segurei o copo com mais força, tentando controlar o impulso de chamá-la pelo nome que eu ainda não sabia.
Mas antes que eu dissesse mais alguma coisa, uma voz feminina rompeu o ar.
— Amor? Cadê você? — fechei os olhos por um segundo, já imaginando quem era.
Megan surgiu do outro lado da varanda da cobertura, usando um vestido dourado justo, decotado demais, brilhante demais para aquela hora da noite. A maquiagem pesada, o batom vermelho impecável, tudo em contraste com o momento que ela invadia.
Aproximou-se de mim como se ainda tivesse esse direito, pendurando-se no meu braço com aquele sorriso ensaiado.
— Ah, tá aqui! Vem pra dentro, amor. Tá frio.
O problema não era o frio e sim ela, quando virei o rosto, a garota da camisola já não estava mais lá.
Megan continuava falando, mas minha mente permanecia onde queria estar: naquela varanda ao lado.
Soltei meu braço de forma firme, rompendo o contato sem rodeios.
— Vai embora, Megan.
Ela deu uma risada curta, sem acreditar no que ouvia.
— Oliver, você está tenso demais. Vamos conversar.
Mantive a expressão fria.
— Não tem mais conversa. Vai embora agora — o sorriso desapareceu dos lábios dela, dando lugar ao olhar ferido que usava sempre que perdia o controle.
— Eu ainda te amo.
— E eu não amo mais você.
Girei o copo com força. O gelo tilintou de leve, mas minha raiva era maior do que o som do cristal.
— Fica com a mansão, Megan. Já deixei claro. Mas a cobertura não.
Ela cruzou os braços, desafiando.
— Você não vai fazer isso.
— Amanhã mesmo troco as fechaduras.
Virei as costas, encerrando o assunto, e ela permaneceu imóvel por alguns segundos antes de sair, batendo a porta com mais força do que o necessário.
Fiquei sozinho, mas não estava em paz, o meu corpo estava na varanda da cobertura.
Mas minha mente… continuava presa no apartamento vizinho, na garota da camisola curta, na residente desconhecida que, sem esforço algum, já havia mexido com tudo em mim.
***
As horas seguintes passaram como uma névoa.
A madrugada avançava quando o celular vibrou de novo, tirando-me do torpor. Atendi sem pensar, já esperando a notícia.
— Doutor Jones? O helicóptero pousou. O coração está aqui.
A voz do enfermeiro da central de transplantes soou firme, mas eu percebi a tensão por trás do tom profissional. Sabiam que aquele procedimento seria meu. Sempre é.
— Preparem tudo. Estou a caminho.
Vesti a calça social e a camisa preta de botões, sem nem secar o cabelo direito. Passei a mão no rosto, peguei a chave do carro e desci pelo elevador, ainda pensando nela. Na garota da camisola.
Mas quando cheguei no hospital, o foco tomou conta do resto.
Na sala de cirurgia, o tempo sempre desacelera.
O silêncio pesa. Os olhos da equipe me observam como se eu fosse uma entidade à parte. Nenhuma palavra é dita além do necessário.
Vesti o avental estéril, fiz a assepsia e calcei as luvas, enquanto o anestesista monitorava os sinais vitais. O paciente já estava preparado. O coração antigo descansava em falência. O novo pulsava, na máquina de preservação, dentro da caixa ao meu lado.
A mão do instrumentador me entregou o instrumento com precisão. Não precisei olhar para saber quem era. Já conheço os toques, os ritmos, os gestos.
Iniciei a abertura do tórax com calma absoluta, como quem desenha uma linha exata entre a vida e a morte.
As horas correram sem pressa. Cada sutura era feita com concentração total, cada vaso ligado com perfeição.
Durante o processo, a equipe mal respirava.
Só quando conectei o novo coração e vi as primeiras contrações do órgão pulsando sob as minhas mãos, o ar voltou a circular pela sala.
— Retirem a pinça da aorta — ordenei, mantendo o tom firme.
O sangue fluiu, preenchendo as artérias. O coração novo começou a bater no compasso certo.
Ali, naquele momento, é onde eu me sinto vivo, o monitor cardíaco marcou o ritmo. O pulso do paciente se estabilizou, olhei para o visor, respirei fundo e recuei um passo.
— Fechem, por favor.
Agradeci à equipe com um aceno discreto. Não costumo fazer isso sempre, mas naquela madrugada, fiz questão.
— Bom trabalho, pessoal.
Alguns sorriram aliviados. Outros baixaram a cabeça, respeitando o silêncio típico do pós-cirurgia.
Saí da sala com os músculos ainda tensos. Tirei o jaleco, a máscara e as luvas, lavei as mãos com calma. O relógio marcava quase cinco da manhã. A cidade lá fora despertava devagar, mas dentro do hospital, a rotina nunca dorme.
***
Passei pela cafeteria, peguei meu café preto, sem açúcar, como sempre. O líquido quente escorreu pela garganta, ajudando a acalmar o resto do corpo que ainda vibrava com a adrenalina.
Caminhei até minha sala. Queria uns minutos de silêncio antes da próxima reunião. Mas quando abri a porta, encontrei meu irmão sentado na poltrona de frente para minha mesa.
— Até que enfim, hein, doutor? — disse Ryan, erguendo uma sobrancelha, com o sorriso provocativo de sempre.
Ele estava à vontade, de terno e gravata soltos, como quem saiu do plantão da delegacia direto pro hospital. Delegado da central de homicídios, dez anos mais novo que eu, e dono de um senso de humor ácido que não combinava com aquele horário.
— O que você tá fazendo aqui? — perguntei, apoiando o café na mesa.
— Vim te convidar. Hoje à noite tem a inauguração da boate do Kyle. Tá a fim de sair um pouco da rotina ou vai preferir costurar mais uns peitos?
Sorri de canto, pronto pra responder, mas não precisei.
A porta se abriu antes que eu dissesse qualquer coisa.
Meu pai entrou. Edward Jones. Paletó alinhado, gravata de seda, expressão de quem sempre carrega o mundo nas costas.
— Que surpresa encontrar vocês dois juntos — disse, entrando na sala sem pedir licença. — Achei que só veria esse tipo de reunião em Natal ou no funeral de alguém.
Ryan riu, recostando-se na cadeira.
— Relaxa, pai. Não é uma conspiração familiar. Vim só chamar o Oliver pra sair.
Meu pai cruzou os braços, ignorando o comentário.
— Você devia largar essa vida de delegado e assumir o hospital, Ryan.
O sorriso do meu irmão aumentou.
— Isso é pro Oliver, não pra mim. Eu gosto do meu trabalho.
— Ah, claro. Prender criminosos na madrugada deve ser muito mais divertido do que cuidar do hospital da família, né?
Ryan deu de ombros, debochado.
— Pelo menos me mantém acordado.
Suspirei, apoiando as costas na cadeira. Já sabia onde aquela conversa ia parar.
Meu pai respirou fundo, como sempre faz quando está prestes a dar um sermão.
— Não sei se fico feliz ou triste com os filhos que criei — disse, olhando para nós dois. — O mais velho prefere operar corações ao invés de assumir o legado da família. O do meio virou juiz e também não quer saber do hospital. E você, Ryan, se enfia nessa vida policial perigosa como se fosse hobby.
— Talvez seja porque a gente gosta do que faz — respondi, sem me mexer.
— E quem disse que eu não gosto? — ele rebateu. — Eu gosto de fazer o Memorial crescer, de garantir que continue sendo o melhor hospital do país. Isso também salva vidas, Oliver.
Permaneci em silêncio. Ele sabia exatamente como me provocar.
— Só não quero te ver com as mãos tremendo daqui a uns anos, pensando que perdeu o tempo de assumir o lugar que é seu por direito.
Ryan se levantou da cadeira, esticando o terno.
— Pronto, agora sim virou sermão. Eu vou embora antes que sobre pra mim.
Meu pai olhou pra ele, sério.
— Pelo menos você podia convencer o irmão mais velho.
— Ah, não. Isso aí é briga de vocês. Eu tô fora — respondeu Ryan, piscando pra mim. — A propósito, Oliver… pensa na boate mais tarde. Vai fazer bem.
Ele saiu da sala, deixando o ambiente pesado e um rastro de sarcasmo no ar.
Meu pai permaneceu parado por alguns segundos, me encarando.
— Você não vai operar pra sempre, filho.
— Eu sei.
— Só espero que, quando chegar o dia, não seja tarde demais pra fazer a transição.
Quando ele saiu, a porta fechou devagar.
Fiquei sozinho na sala, o café já quase frio na mesa.
Lá fora, o hospital despertava mais uma vez.
E eu continuava exatamente onde sempre quis estar.
***
A música vibrava nas paredes. Grave, intensa, preenchendo o ambiente com uma energia quase palpável. Luzes de neon cortavam a penumbra da boate recém-inaugurada. No bar, copos tilintavam, corpos se esbarravam na pista, e o cheiro de álcool misturado a perfume caro dominava o ar.
Entrei mais por insistência do Ryan do que por vontade própria. Ainda usava o blazer escuro por cima da camisa social, mesmo com o calor abafado da casa noturna. Atravessei o salão, ignorando os olhares femininos que me acompanhavam.
— Achei que não vinha — disse Ryan, surgindo ao meu lado com um copo de gin tônica na mão. — Perdi uma aposta com o juiz, aliás.
— Que aposta? — perguntei, levando o uísque à boca.
— De que você ia inventar uma desculpa qualquer e sumir no último minuto. Como sempre.
Dessa vez, quem apareceu foi Thomas, o filho do meio. Terno alinhado, olhar sério demais pra um sábado à noite.
— Confesso que tô surpreso — disse ele — Oliver Jones… numa balada. Isso devia ser notícia no jornal.
— E vocês dois têm o hábito de frequentar esse tipo de lugar agora? — retruquei, lançando um olhar entre eles.
— De vez em quando, sim. A vida não é só processos, nem bisturi — respondeu Thomas.
— E nem criminosos presos às três da manhã — completou Ryan, rindo.
Balancei a cabeça, mas antes que pudesse responder, algo desviou completamente minha atenção.
Do outro lado do salão, perto do bar, uma silhueta me prendeu o olhar.
Vestido preto curto. Cabelos soltos em ondas leves. Um sorriso tímido enquanto conversava com a amiga que dançava ao lado. Ela parecia deslocada ali, como se não pertencesse ao ambiente... e, ao mesmo tempo, como se tudo tivesse sido feito sob medida pra ela.
Não sei como a reconheci tão rápido. Talvez tenha sido o modo como seus olhos brilhavam sob as luzes piscando. Ou a maneira como ela olhava ao redor, atenta, mas tentando parecer indiferente.
Ela não me viu.
Mas meu corpo reagiu antes mesmo de eu perceber. O calor subiu pelas veias. A lembrança dela de camisola curta, no parapeito do prédio, invadiu minha mente como um soco.
— Terra chamando Oliver — disse Ryan, estalando os dedos diante do meu rosto. — O que foi agora?
— Nada — menti, virando o rosto e tomando mais um gole do uísque..
— Tá encarando alguém, é? — Thomas perguntou, com um tom provocador.
— Tô observando. Não é a mesma coisa.
— Cara, relaxa. Hoje não é plantão. Hoje é diversão.
Tentei me concentrar na conversa, mas a verdade é que minha atenção já tinha sido sequestrada. Ela ria de algo que a amiga dizia, e o som, mesmo abafado pela música, parecia doce demais pra ser ignorado.
O pior de tudo? Eu ainda não sabia o nome dela.
E isso só aumentava a vontade de descobrir.
A música vibrava pelo chão, pulsando sob meus pés como se acompanhasse a batida do meu coração. Eu estava de costas para o balcão, os olhos fixos na pista, tentando focar em qualquer coisa que não fosse o homem que havia me tirado do eixo mais cedo naquele dia.
— Emma, vou ali. O Caio chegou — avisou Júlia, já indo ao encontro do namorado, com um sorriso animado nos lábios.
Assenti, fingindo indiferença, mas por dentro me sentia desprotegida. Estar sozinha ali, com os pensamentos mergulhados no que tinha acontecido, era quase um convite para o caos.
Virei de volta para o bar, buscando apoio no balcão de madeira escura. Pedi uma água com gelo, na tentativa frustrada de me refrescar, mas quando levantei os olhos, o mundo pareceu desacelerar.
Oliver estava a poucos metros, ele não dizia nada. Só me olhava. Olhar firme, frio, calculado… e ao mesmo tempo, carregado de algo mais. Algo que esquentava meu estômago e deixava minha respiração curta.
Seu copo vazio, girava entre os dedos, como se ele estivesse decidindo o próximo movimento de um jogo. A distância entre nós parecia encurtar a cada passo lento que ele dava em minha direção, como se medisse o impacto de cada centímetro conquistado.
Meu corpo enrijeceu. Ele não podia estar vindo até mim, mas estava.
E quando parou ao meu lado, era impossível ignorar sua presença.
O perfume amadeirado se misturava com o cheiro do uísque em sua pele quente. Ele se apoiou no balcão com o antebraço, inclinando o corpo levemente na minha direção.
— Você não deveria estar aqui — disse, finalmente, com a voz rouca e baixa, como se cada palavra tivesse sido cuidadosamente controlada antes de sair.
Não era um tom de reprovação. Era um aviso.
Virei devagar para encará-lo. A pouca luz do ambiente, destaca os traços marcados do seu rosto, os cabelos perfeitamente penteados para trás, agora um pouco bagunçados pela noite. A mandíbula estava contraída.
— E você deveria? — respondi, tentando manter a voz firme, apesar do nó na garganta.
Seus olhos baixaram por um segundo, percorrendo meu rosto, pescoço, a curva dos ombros à mostra. Quando voltaram aos meus, estavam mais escuros.
— Eu vim arrastado — murmurou, com um meio sorriso enviesado. — Você?
— Júlia — respondi. — Meu par de más decisões.
Ele riu, e aquilo me pegou desprevenida. O som era grave e abafado, quase como se ele mesmo estivesse surpreso por ter deixado escapar. Ficamos em silêncio por alguns segundos, mas o silêncio entre nós não era vazio. Era carregado.
Ele se endireitou, terminando o que restava no copo e deixando-o sobre o balcão. Os olhos ainda em mim.
— Eu deveria saber seu nome — disse, mais para si mesmo do que pra mim. — Mas ainda não tive tempo de olhar a lista dos novos residentes.
Minha respiração prendeu no peito. Ele sabia. Claro que sabia. Mas não completamente. E isso deixava tudo ainda mais instável.
— Talvez seja melhor assim — respondi, numa tentativa desesperada de colocar um limite que eu mesma não sabia se queria.
Ele se aproximou mais um passo. Seu ombro quase roçava o meu agora.
— Não tenho certeza se concordo.
Ficamos ali. Olhares presos e corações acelerados.
A balada ao redor sumiu. As vozes, a música, as luzes — tudo virou ruído de fundo.
Até que alguém chamou o nome dele de longe. Um dos irmãos, talvez um amigo. E num piscar de olhos, ele se afastou, mas não sem antes lançar um último olhar, como um aviso silencioso de que aquilo não tinha acabado.
Júlia reapareceu no meio da multidão, com os cabelos bagunçados e um sorriso bobo no rosto. Estava colada ao namorado, que a mantinha pela cintura como se o resto da balada não existisse.
— Emma, vou dormir na casa do Caio — ela se aproximou no meio da música, os olhos brilhando. Caio já estava ali, segurando-a pela cintura com um sorriso de quem sabia exatamente como a noite deles terminaria. — Quer que a gente te leve?
— Não precisa — respondi, ajeitando o cabelo atrás da orelha. — Vou ficar mais um pouco e peço um carro pelo aplicativo.
— Tem certeza? — Júlia franziu a testa, desconfiada.
— Absoluta. Vocês dois aproveitem — assenti, sorrindo.
— Qualquer coisa, é só mandar mensagem que a gente volta pra te buscar — Caio soltou um riso baixo.
— Prometo que me viro.
— Então me liga quando chegar. Sério, Emma. — Júlia ainda me olhou com aquele ar protetor de sempre.
— Tá bem.
Pedi um drink e deixei meus dedos tamborilando no mármore, enquanto esperava. O barulho dos copos, o cheiro de álcool misturado ao perfume adocicado que vinha de algum lugar próximo, o som abafado da música… tudo era cenário.
Porque eu já sentia o seu olhar, levantei a cabeça e lá estava ele.
Na parte de cima, na área VIP, encostado na sacada como se fosse dono do lugar. Um copo de uísque descansava na mão, os dedos firmes segurando o vidro. Oliver Jones. Os olhos fixos em mim, tão intensos que a sensação era física. Pesavam sobre mim, queimavam como se quisessem atravessar minha pele.
Ele não sorria. Não mexia um músculo. Só me observava, cada segundo calculado.
O barman colocou meu drink na frente e, sem pensar duas vezes, virei tudo de uma vez. O álcool queimou minha garganta, mas não apagou o calor que ele já tinha acendido dentro de mim. Apoiei o copo vazio no balcão, peguei minha bolsa e segui para a saída.
O ar frio da madrugada bateu no meu rosto como um choque, mas antes que pudesse abrir o aplicativo para pedir um carro, aquela voz grave e próxima demais cortou o silêncio.
— Vai embora sozinha? — virei devagar. Ele estava ali. Mais perto do que eu esperava.
— Estou bem. Ia pedir um carro.
— Não precisa. A gente mora no mesmo lugar. Posso te levar — ele se aproximou um passo, a sombra do seu corpo misturando-se com a minha.
— Ah… é verdade. Nos encontramos no outro dia — dei de ombros, tentando disfarçar a tensão.
— Cobertura 1801. Eu sou o 1802.
As palavras ficaram suspensas no ar, pesadas. Eu deveria dizer não. Era o certo. Mas alguma parte de mim queria saber até onde isso ia dar.
O manobrista se aproximou, entregando a ele a chave de um carro preto esportivo que parecia custar o suficiente para comprar um apartamento. Oliver abriu a porta do passageiro e apenas me esperou.
E eu… entrei.
O couro frio do banco contrastava com o calor que subia pela minha pele. Ele fechou a porta com firmeza, deu a volta e se acomodou no banco do motorista. O perfume amadeirado invadiu o pequeno espaço, e minha respiração ficou mais pesada.
Enquanto ele ligava o carro, a luz suave do painel desenhava seu rosto, realçando a linha da mandíbula e o olhar concentrado. Não falamos nada nos primeiros minutos. O silêncio não era confortável e era carregado, quase sufocante.
A cada farol, eu sentia minha própria pulsação mais forte. Foi quando, ao manobrar para sair de uma rua estreita, o braço dele se moveu e a mão encostou na minha perna.
Não foi proposital. Mas poderia ter sido.
O toque breve disparou uma corrente elétrica pelo meu corpo, e a sensação se espalhou rápido demais. O carro pareceu encolher, o ar ficou mais quente.
Ele percebeu. Não comentou nada. Apenas manteve a mão no câmbio, perto demais da minha pele, como se quisesse me lembrar de que estava ali.
E eu… não consegui me mexer.
Cada segundo ao lado dele me fazia sentir como se estivesse à beira de algo proibido. Algo que eu sabia que poderia me destruir, e mesmo assim, eu não queria que acabasse.
O carro deslizou pelas ruas quase vazias, e o silêncio entre nós era mais intenso do que qualquer conversa. Cada vez que seu braço se movia para trocar de marcha, o calor da sua mão perto da minha perna me deixava em alerta, como se minha pele estivesse em chamas.
Quando estacionamos na garagem do prédio, ele saiu primeiro e abriu minha porta. O gesto foi simples, mas carregado de algo que me fez engolir em seco. Caminhamos lado a lado até o elevador.
O espaço pequeno nos cercou como uma armadilha silenciosa. O ar parecia mais quente e pesado. Eu me encostei na parede, tentando manter distância, mas era impossível não sentir o perfume amadeirado que vinha dele.
Oliver apertou o botão do 18º andar e manteve as mãos nos bolsos. Seus olhos, mesmo quando não me encarava diretamente, pareciam me estudar. Meu coração acelerava.
De repente, as luzes piscaram. O elevador deu um tranco seco e parou. Um pequeno grito escapou da minha garganta antes que eu pudesse me controlar, e meus pés se moveram instintivamente para ele.
— Calma… — sua voz grave soou perto do meu ouvido, baixa e rouca.
Senti suas mãos firmes tocarem meus braços, como se quisessem ancorar meu corpo ao dele. Mas então… ele fez algo que me roubou o fôlego.
Com delicadeza, mas com uma autoridade silenciosa, segurou meu rosto entre as mãos. Seus dedos quentes roçaram minha pele, e o polegar deslizou levemente pelo meu maxilar. Eu respirei fundo, quase sem ar.
A tensão era esmagadora. O mundo inteiro parecia ter desaparecido, restando apenas nós dois e aquele instante prestes a se romper.
Ele inclinou o rosto, e por um segundo eu jurei que ele ia me beijar. Meu corpo inteiro respondeu antes mesmo de acontecer, o meu coração disparado, o estômago em um redemoinho, o calor se espalhando pela pele.
Mas então… o elevador voltou a funcionar com um solavanco. As luzes se estabilizaram, e ele soltou meu rosto com um movimento lento, quase relutante.
Eu não consegui olhar para ele. Meu corpo tremia, não pelo susto, mas pelo que quase aconteceu.
As portas se abriram no 18º andar. Ele saiu primeiro, o silêncio denso entre nós dizendo mais do que qualquer palavra. Caminhamos pelo corredor até às nossas portas.
— Boa noite, vizinha — a voz dele soou baixa, quase um sussurro carregado de algo que não se apagaria tão cedo.
— Boa noite… — respondi, ainda sem recuperar o fôlego.
E quando fechei a porta atrás de mim, percebi que não havia como voltar atrás.
***
Assim que a porta do meu apartamento se fechou, encostei as costas nela e fiquei parada, como se precisasse de alguns segundos para processar o que tinha acabado de acontecer. Ainda sentia o calor das mãos dele segurando meu rosto, o peso do seu olhar, a quase certeza de que ele ia me beijar… até o elevador voltar a funcionar.
Meu corpo inteiro estava em alerta. A respiração curta. O coração batendo rápido demais.
Fui direto para o banheiro. Liguei o chuveiro e deixei a água quente escorrer pela pele, tentando acalmar algo que não tinha nada a ver com medo. Era desejo. Cru, urgente, proibido.
Fechei os olhos e a lembrança da sua voz grave, do calor do seu corpo tão próximo, me fez morder o lábio. Tentei afastar a imagem, mas ela voltou com mais força. Só saí do chuveiro quando percebi que estava começando a tremer e não era de frio.
Escolhi um pijama curto, quase impróprio para ser visto por qualquer vizinho. Um tecido fino, leve, que cobria apenas o necessário. Não era proposital… ou talvez fosse, mas eu não queria admitir nem para mim mesma.
Peguei uma taça de vinho e fui até o parapeito da varanda. A noite estava fria, mas o céu limpo deixava as estrelas mais nítidas. Apoiei os cotovelos na mureta, fechando os olhos por um instante, respirando o ar gelado.
Foi então que ouvi passos, virei o rosto e lá estava ele.
Oliver, com o cabelo molhado penteado para trás, vestindo apenas uma calça de moletom cinza. Sem camisa. O peito largo e definido, iluminado pela luz suave que vinha de dentro do apartamento dele. Um copo de uísque na mão.
— Parece que não sou o único com dificuldade pra dormir — disse, a voz grave cortando o silêncio.
— Talvez — respondi, tentando manter o tom leve, mas a tensão era palpável.
Ele deu um passo mais perto da mureta que separava nossas varandas. Os olhos passearam por mim de um jeito que fez minha pele inteira se arrepiar.
— Esse pijama… — A pausa dele foi calculada, o olhar demorando mais do que deveria nas minhas pernas. — Vai acabar matando algum vizinho do coração.
— Ainda bem que não tem tantos por aqui — sorri de canto.
Ele se aproximou mais, até que a distância entre nós parecia ridícula. Então, com um movimento calmo, colocou o copo sobre a mureta e apoiou as mãos nela. Num impulso, saltou para o meu lado.
Meu corpo reagiu imediatamente. O ar pareceu sumir. Ele ficou perto o suficiente para que eu sentisse o calor que emanava da sua pele.
— Você sabe que isso é errado… — murmurei, mas minha voz saiu mais como um suspiro do que como uma advertência.
— Eu sei — respondeu, a voz grave quase roçando meus lábios. — Mas eu não consigo parar.
E antes que eu pudesse pensar em qualquer resposta, a mão dele deslizou para a minha nuca, puxando-me para mais perto. Seu corpo encostou no meu, firme, seguro… e então ele me beijou.
Não foi um beijo calmo. Foi faminto, urgente, como se ele tivesse segurado esse momento desde o segundo em que me viu pela primeira vez. Minhas mãos subiram para o seu peito quente, sentindo cada músculo se contrair sob meus dedos.
O mundo sumiu. Só existia o sabor dele, o toque firme, o cheiro intoxicante que me envolvia inteira.
Quando ele finalmente se afastou, meus lábios ainda ardiam e minhas pernas pareciam incapazes de me sustentar.
— Boa noite, vizinha — sussurrou, como se soubesse que tinha acabado de atravessar uma linha da qual nenhum de nós voltaria.